Desejos & Intrigas pertence a Anne Marie Wiston
CAPÍTULO DOIS
Três dias se passaram e, cada vez que seu celular tocava, ela cruzava os dedos, esperando ouvir a voz grave de James Potter do outro lado da linha. Nem sempre andava com o celular, pois recebia poucas chamadas, mas desde que tinha pregado aquela mensagem e suas esperanças naquele quadro de avisos, carregava-o cuidadosamente, sempre perto dela.
Mas nada da esperada ligação.
Talvez James não tivesse recebido a nova mensagem, Lily pensou. Talvez fosse um sinal de que fora uma má ideia.
Mesmo assim não conseguia esquecê-lo. Talvez ele simplesmente não quisesse ligar para ela na casa de seu pai. Ele não tinha como saber que o número deixado era do celular pessoal dela.
Só precisava fazer uma pequena viagem até a cafeteria para ter certeza de que seu bilhete não tinha caído, ou ficado oculto sob os outros. E, enquanto estivesse lá, poderia acrescentar uma linha, dizendo que o número deixado era de seu celular. Assim ele poderia falar com ela sem preocupação.
Mas, quando parou diante do quadro de avisos do B&P's, o seu bilhete tinha sumido. E em seu lugar havia um cartão de visitas.
Seu coração começou a pular e sua boca ficou seca. Lentamente, mal conseguindo acreditar que poderia vê-lo novamente, pegou o pequeno cartão.
Virando-o, viu que, de fato, era o cartão de visitas de James, exibindo a elegante logo B&P em ouro.
Ali estava a prova. Não tinha sido um sonho, nem uma mensagem para qualquer outra pessoa que ela entendera mal. James queria vê-la de novo, mesmo depois de tê-lo descartado quando ele enviara aquelas lindas flores.
Seus dedos tremeram, fazendo o pequeno cartão tremer, enquanto ela lia o que estava escrito no verso:
"Para o meu fantasma do jardim florido: encontre-me diante da estátua na praça Oglethorpe, na segunda-feira, às três da tarde."
Segunda-feira? Já era segunda! E já era uma e meia. Mas... de qual segunda-feira ele falava? Bem, não importava. Naquela ou na próxima segunda-feira, ela estaria esperando. Ela iria encontrar James.
Releu a mensagem. Praça Oglethorpe. Onde no mundo ficava a praça Oglethorpe? Precisava conseguir um mapa de Savannah imediatamente!
Uma hora depois, não apenas tinha descoberto que a praça ficava a cerca de cinco quadras de Cotton Exchange, onde ficava a cafeteria, mas que o distrito histórico de Savannah era um lugar fascinante. A proximidade da praça permitiu que ela tivesse tempo para pesquisar algumas lojas na área.
Embora ainda fosse setembro, o clima estava quente e todos usavam roupas de verão. Felizmente, ela usava um vestido leve de crepe verde, abotoado na cintura, um par de sandálias italianas, elegantes, combinando com a bolsa.
Poucos turistas andavam vestidos como ela. O estilo americano era muito mais casual do que ela estava acostumada! Imaginou que as pessoas, passando por ela, pensavam que trabalhava num dos muitos negócios do lugar.
Caminhou com prazer pelas belas ruas antigas. Antes da praça Oglethorpe, chegou a outro dos marcos históricos que pontilhavam as ruas do distrito a intervalos regulares. Esta era... praça Reynolds, observou, consultando seu mapa. Era adorável, com carvalhos rodeados de arbustos, sombreando a grama espessa.
E, surpresa, notou que havia outra estátua no meio da pequena praça.
Provavelmente Savannah poderia ganhar uma competição de mais estátuas históricas por metro quadrado. A estátua representava um homem chamado John Wesley e, leu na placa, o Sr. Wesley tinha sido o fundador da Igreja Metodista. Deus, certamente ela tinha muito o que aprender sobre a história de Savannah. Sentiu-se culpada, pois a família de sua própria mãe tinha vivido ali por gerações e ainda assim ela, Lily, não conhecia absolutamente nada sobre sua cidade natal.
Enquanto continuava andando pela praça Reynolds, viu um maravilhoso teatro à esquerda. O Lucas Theater. Pensou se o interior do prédio seria tão deslumbrante quanto o seu exterior. Caminhando pela rua Abercorn, ela podia ver a praça seguinte, duas quadras adiante. Se o seu guia estivesse certo, aquela seria a praça Oglethorpe.
A dança das borboletas em seu estômago aumentou. Temia que ele não estivesse lá, temia que estivesse. Enquanto se aproximava, olhou para o seu relógio. Apenas duas e quarenta e cinco. Quinze minutos para acalmar seus nervos.
A medida que se aproximava da praça, seu olhar encontrou a estátua mencionada na mensagem de James e parou para ler sobre ela. Ah, James Oglethorpe, chegou pelo rio em 1733 e prontamente proclamou a área a 13ª colônia em nome do rei Jorge II. Não era surpresa ele ter o seu próprio parque.
Olhou em volta. Turistas caminhavam pela pequena praça e o tráfego nas ruas próximas era lento. Uma carruagem de estilo antigo, com grandes rodas atrás e um teto que se dobrava descuidadamente, percorria o parque lentamente. Um condutor vestido a caráter, com um chapéu alto, controlava os dois belos cavalos brancos que puxavam a carruagem.
Então ela viu um homem descer da carruagem. Ele falou com o condutor antes de se virar e começar a andar.
O coração dela parou. Nem conseguia respirar. James.
Ela não conseguia se mover. Enquanto ele se aproximava, só podia pensar em sorver a linda visão dele, alto, ombros largos, usando um terno escuro de corte italiano e camisa de algodão branca aberta no colarinho. Ele sorria e o sol do outono fazia seus cabelos escuros brilharem como ébano. Então ele parou diante dela.
— Lily. — A voz era profunda e quente, combinando com a expressão de seu rosto. — Estou muito feliz por ter vindo.
— Eu... — Ela teve que parar para limpar a garganta. — Só recebi seu bilhete hoje.
As sobrancelhas escuras dele se ergueram.
— Eu esperava que você o encontrasse. Eu pretendia vir aqui várias segundas-feiras, se preciso. — Os olhos dele tinham parecido sem cor naquele dia no jardim sob o luar. Agora ela via que eles eram de uma cor de avelã incomum, quase âmbar, à luz do sol. Ele ofereceu o braço.
— Gostaria de uma volta de carruagem?
— Seria adorável! — Tomou o braço dele e deixou-se levar para a carruagem. Por baixo do tecido leve do paletó dele, o braço parecia forte e musculoso. Quando chegaram à carruagem, ela pegou na mão dele para poder subir, mas James preferiu pegá-la pela cintura. Antes de ela poder fazer mais do que prender o ar, ele ergueu-a para a carruagem.
As mãos dela apertaram os bíceps dele para se apoiar. Olhou para ele por baixo dos cílios, sentindo-se ridiculamente tímida.
— Obrigada.
— O prazer é meu. — A voz dele e o sorriso que acompanhou mostravam que era sincero. Depois ele também subiu na pequena carruagem.
Com o teto erguido, a carruagem era uma pequena e íntima caverna. James não era um homem enorme; provavelmente não tinha mais do que um metro e oitenta, mas como ela mal tinha um metro e sessenta, ele parecia muito grande.
— Você gostaria de abaixar o teto? — Ele perguntou.
Ela hesitou. O sol poderia ser gostoso... mas podia ficar quente demais. E depois, lá no fundo, havia o medo de serem descobertos...
— Não, obrigada. Está bom assim.
Ele sorriu, concordando com a cabeça, e ela percebeu que ele esperava que ela não quisesse abaixar o teto. Inclinando-se para a frente, ele falou.
— Certo, condutor.
— Gostaria de explicações turísticas enquanto andamos, senhor?
James olhou para Lily, questionando. Ela balançou a cabeça.
— Acho que prefiro conversar com você, se estiver bem.
Ele sorriu.
— Ótimo. — Virando-se para o condutor, ele disse: — Sem guia, obrigado. Apenas um passeio de prazer. — Quando o homem pegou as rédeas e estimulou os cavalos, a carruagem imprimiu um ritmo estável. James olhou-a novamente. — Gostaria de um lanche? — Ele ergueu uma pequena geladeira portátil que tinha debaixo do banco. — Uvas, queijo, camarão com molho picante. Chá doce e sucos frescos. — Ele sorriu. — Eu teria preferido vinho, mas não sabia se você ia gostar que fôssemos presos.
Ela concordou, fazendo careta.
— Não seria terrível? — Primeiro a carruagem, depois o lanche... — Isto é maravilhoso. Você pensou em tudo.
Ele sorria para ela, mas o sorriso sumiu enquanto ela falava e ele pareceu examinar seu rosto: — Não parei de pensar em você, temendo que você nunca voltasse à B&P's e não visse minha mensagem.
— Eu esperava encontrá-lo, se fosse lá — ela confessou.
— Eu queria telefonar, mas sei como se sente sobre...
— Eu teria gostado — ela interrompeu. — De agora em diante, você pode ligar e deixar um recado naquele telefone. É o meu celular.
Os olhos dele brilharam.
— Está bem.
Puxando uma pequena bandeja especial sobre a geladeira portátil, ele espalhou a comida e conversaram, enquanto beliscavam. Ela soube que ele tinha estudado com professores particulares e se formado em marketing e gerenciamento. Ela contou sobre seus estudos dos clássicos e literatura grega em Oxford.
— Eu me formei no ano passado e ainda não resolvi o que quero fazer com o meu diploma.
— Na noite em que nos conhecemos, você disse que ficaria em Savannah.
— É, pelo menos até terminar a campanha de meu pai.
Houve um momento de constrangimento na conversa e os dois se concentraram na comida. Ela se lembrou de que havia certo desconforto quanto aos assuntos sobre os quais eles podiam conversar.
— Você sempre morou em Savannah?
— Sim. A casa de nossa família foi construída no final do século XIX. Fica a leste da cidade, na verdade, não muito longe da ilha Tybee. — Ele sorriu. — Temos algumas ligações com aquela região.
— Eu também, embora conheça muito pouco de lá. A minha mãe era de uma das famílias mais antigas de Savannah.
— Ela já faleceu? — ele perguntou, gentilmente.
— Já. Nunca a conheci. Ela morreu quando nasci. Era a última de sua família.
— Provavelmente ele já sabia daquilo, como ela sabia que a mãe dele tinha morrido num desastre quando ele era criança. A imprensa dava pouca privacidade à vida dos políticos. Se ela tivesse se preocupado, poderia saber mais sobre ele, mas tinha evitado deliberadamente investigar a vida de James. De alguma forma, iria se sentir bisbilhotando.
— A minha mãe também morreu quando eu era pequeno.
— Eu sinto muito. — Ela sabia muito bem o que era ser órfã de mãe. Crescer com um pai que mal olhava para ela tornara a sua infância solitária. — Você se lembra dela?
— Tenho vagas lembranças, mas é tudo. Meu irmão mais velho se lembra mais dela do que o resto de nós.
— Bom Deus. Quantos vocês são? — Ela tinha lido vários nomes Potter diferentes ligados à campanha nos últimos meses e imaginava como eles estariam relacionados a James. James, em quem ela nunca deixara de pensar.
— Eu tenho três irmãos e uma irmã. E também uma meia-irmã, embora tenhamos nos conhecido apenas no mês passado. Ela não foi criada com o resto do clã.
Os olhos dela se arregalaram.
— Aposto que a casa de vocês era animada.
Uma pequena chama de calor brilhou nos olhos dele.
— Não exatamente. Nós todos fomos para internatos muito pequenos.
— Eu fui para internatos na Suíça — ela falou. — Na verdade, a escola parecia mais um lar do que minha casa.
— Você não vinha para casa com frequência?
— Não. — Ela engoliu em seco, lembrando-se daqueles anos em que esperava em vão o pai convidá-la nas férias. — Em 12 anos, só estive duas vezes em Savannah.
— Nosso pai nunca foi nos ver na escola — James falou, imaginando claramente que o pai dela tinha.
— Oh, o meu também não. Ele era ocupado demais e dizia que seria melhor eu ficar na Europa. Que seria uma viagem longa demais para visitas muito rápidas.
James pareceu sinceramente chocado.
— Você viu seu pai duas vezes em 12 anos?
Ela concordou, sabendo como devia parecer estranho.
— Mas eu adorava a escola. Fiz amizades maravilhosas e geralmente passava as férias com uma delas. Não sentia falta de casa.
— Eu sentia — o jeito amistoso de James ficou um pouco mais sóbrio. — Eu detestava ficar longe da minha família, separado de meus irmãos. Também temos três primos muito chegados, e eu sentia uma falta louca deles e de minha tia e tio. Sempre passamos as férias escolares com eles.
— Que família grande! — Ela não gostou de vê-lo triste e tentou distraí-lo do rumo que a conversa tinha tomado. — Qual é o seu lugar?
Novamente, ele sorriu.
— Bem no meio. Tenho dois irmãos mais velhos, Ian e Reid, um irmão mais novo, Marcus, minha meia-irmã Lea e minha outra irmã, Kimberly, que é o bebê da família. Meu primo Sirius é o mais velho, seu irmão Tobias é da minha idade e Imogene é mais nova. — Uma sombra passou pelo seu rosto.
Ela estava tão ligada a ele que sentiu que seu humor tinha mudado.
— Você está triste.
— Estou — ele admitiu. — Tenho uma outra prima, a mais nova de todas, que desapareceu cinco anos atrás.
— Desapareceu? Ela foi sequestrada? — Soava como um programa de televisão que ela gostava de assistir desde que voltara aos Estados Unidos.
— Se foi, nunca fomos contatados com um pedido de resgate. — James suspirou. — Ela foi a um show de rock com uma amiga. Houve um pequeno tumulto e quando tudo acabou a melhor amiga dela foi encontrada no hospital, mas Victoria, minha prima, estava desaparecida.
— O que a amiga dela disse? Com certeza podia dizer aonde foi a sua prima.
— Ela sofreu ferimentos. Tanya nunca conseguiu lembrar o que aconteceu naquela noite.
— Nunca? Às vezes as coisas voltam quando as pessoas ficam mais velhas.
Ele deu de ombros.
— Não acredito que ela ainda esteja por aqui. Mas se lembrasse alguma coisa útil, entraria em contato... ou talvez não. Ela não era exatamente uma pessoa confiável.
— Mas... as pessoas não desaparecem simplesmente.
— É o que também achamos. — James parecia tremer. — A vida continua e todos queremos acreditar que ainda há esperança e que ela vai aparecer, mas alguns dias são mais difíceis do que outros.
— Imagino que sim — ela replicou, suavemente. Sem pensar, pousou a mão no braço dele, para dar conforto. Imediatamente, ele colocou sua mão sobre a dela e apertou seus dedos.
— Eu já não penso mais nisso a cada minuto. Às vezes, sinto-me culpado, mas outra parte de mim percebe que precisamos continuar a viver, tão normalmente quanto possível.
— Você vê seus irmãos, irmãs e primos com frequência?
Ele sorriu novamente e ela sentiu o alívio que aquela pergunta levava ao seu coração.
— Vejo a maioria deles pelo menos uma vez por semana. E isso sem contar toda essa campanha que fazemos para o pai.
— Eu sempre pensei que seria muito mais divertido ter irmãos e irmãs. Algum deles mora por perto?
— Todos moram. E a maioria dos meus primos também. Acho que contei que meu primo Sirius e eu somos sócios da cadeia B&P, então, trabalhamos juntos diariamente. E depois, tem o amigo do Sirius, Remus, meio que oficialmente adotado pelo clã Potter...
— Que delícia! Como você consegue controlar todos?
Ele riu.
— Quando você cresce assim, acho que faz parte. — Então ele apontou para outra adorável pracinha por onde passavam. — Vê aquela pedra grande, arredondada? Ela marca o túmulo de um chefe índio local. É a praça Wright. Em homenagem a James Wright, o último homem que governou esta colônia do rei Jorge, antes de os Estados Unidos se tornarem independentes.
— Eu gostaria de saber um décimo do que você sabe sobre Savannah.
— Eu poderia lhe oferecer um passeio sob o luar, pelos melhores pontos do distrito histórico, uma noite. — Ele hesitou e ela ficou surpresa com a vulnerabilidade que apareceu nos olhos dele. — Se você achar que pode ser interessante.
A conversa que ela tinha escutado no café, em sua primeira visita, voltou à sua cabeça e ela sentiu uma raiva surpreendente daquelas mulheres vazias que magoavam aquele homem inteligente e interessante.
— Parece fascinante.
— Que tal hoje à noite?
Ela murchou.
— Não posso. Meu pai precisa que eu vá a uma reunião para angariar fundos, num lugar chamado... Crab Shack? — Sorriu. — Ele me disse para vestir escuro. Imagino uma pequena cabine com um sanitário no fundo.
James riu.
— O Crab Shack, em Chimney Creek. É informal, mas não tão ruim.
— Você já jantou lá?
— A comida é excelente, e é muito pitoresco. — Ele pegou a mão dela, ainda pousada em seu braço, e entrelaçou os dedos nos seus. — Então, que tal amanhã à noite?
— Amanhã à noite seria ótimo. Onde você quer que o encontre?
— Eu podia... — Ele começou, mas balançou a cabeça. — Não. Acho que ir buscá-la está fora de questão. — Tamborilou os dedos da mão livre. — Podemos nos encontrar às quinze para as sete da noite no ancoradouro? Há um jantar a bordo, que começa às sete. Tem duas horas de duração e depois podemos andar por um tempo.
— Parece ótimo. Onde é o ancoradouro?
Ele sorriu.
— Preciso me lembrar que esta cidade é nova para você. — Ele apertou os dedos dela. — O que me dará uma desculpa para passar muito tempo mostrando-a a você.
Na noite seguinte, quando se encontraram, James achou que ela estava simplesmente linda. Ele a observava enquanto ela sorria e agradecia ao capitão pelo cruzeiro. O homem era pelo menos duas décadas mais velho do que ela, mas encolhia a barriga e se curvava para Lily com o sorriso mais idiota que já tinha visto.
James pensou que provavelmente ele parecia encantado da mesma maneira quando ela sorria para ele.
Ela estivera linda naquela noite no jardim, com o vestido branco parecendo brilhar ao luar, mas tinha sido uma beleza de sonho, com suaves sombreados. De início ele pensara que ela era um fantasma, mas na verdade ela parecia um anjo.
Mas ontem, em vibrante Technicolor, ela tinha tomado vida: seus olhos não eram de um azul profundo como ele imaginava, e sim de um verde forte, inesquecível. Pele de porcelana, rosas brotando na superfície aveludada de suas bochechas, o nariz levemente arrebitado, fazendo ansiar para depositar um beijo. Na véspera, os cabelos dela estavam soltos, flutuando em volta dos ombros, mas naquela noite, como na primeira vez, ela tinha os cabelos de brilhante cor de acaju presos num coque frouxo. Usava uma saia com motivos náuticos e uma camiseta e parecia... perfeita.
Ele desistiu de tentar encontrar palavras para descrevê-la. Quando virou para ele sorrindo, seu coração deu uma pequena parada. Parecia boa demais para ser verdade. Linda, inteligente, ótimo senso de humor, ela até parecia apreciar sinceramente o pendor dele por assuntos históricos e histórias de fantasmas. E era confiante o bastante para lidar com a pressão de ser uma Potter... Uau! Ele se alertou. "Vá com calma. Você mal conheceu uma mulher que gosta de você como é." Mas, em seu coração, ele sentia não estar indo depressa o suficiente.
— Muito obrigada — ela falou. — Ninguém deve visitar Savannah sem fazer um cruzeiro pelo rio.
— E você nem ficou enjoada — ele disse, sorrindo com o entusiasmo dela.
— Tomei um remédio contra enjoo. A experiência me ensinou bem.
— Aha! Então você tem um defeito!
As sobrancelhas dela se ergueram.
— Muitos. — Começou a rir, inclinando a cabeça para o braço dele. — Mas não vou contá-los a você. Agora, por onde vamos andar?
— Começaremos pela casa do pirata. Por anos, houve rumores de que um túnel levava da adega de rum para o cais e, às vezes, frequentadores de tabernas eram drogados e arrastados por ele para navios que precisavam de muitos marinheiros. Um policial de Savannah que parou para um drinque acordou numa escuna indo para a China. Supostamente ele demorou dois anos para voltar para casa. Algumas pessoas não acreditavam, até que o túnel foi descoberto, durante uma remodelação.
— Pode imaginar ser um daqueles pobres homens recrutados assim? Não é essa construção que, dizem, Robert Louis Stevenson descreveu em A Ilha do Tesouro?
— É! — Ele sabia que soava tão incrédulo quanto se sentia. E sentia as suas últimas dúvidas se dissipando. — Você é a primeira mulher que encontro que conhece, ou mesmo se preocupa, com um detalhe como este.
— Talvez você não tenha conhecido as mulheres certas — ela retrucou, com um sorriso tímido.
— Até agora. — Gentilmente, ele pegou a mão dela e passou o braço pelos seus ombros, abraçando-a de lado. — Assim é melhor.
— É — ela deslizou o braço em volta da cintura dele. — Assim, não é?
Eles andaram por quase uma hora, enquanto ele a regalava com a história de Savannah e também algumas visões de fantasmas. Quando passaram pelo local de nascimento de Juliette Gordon Low, a fundadora das bandeirantes, e um edifício com fama de ser assombrado pelos fantasmas de dois ancestrais de Low, ela perguntou:
— Você já viu um desses fantasmas?
— Não — ele respondeu lentamente. A casa de sua família veio imediatamente à sua cabeça e ele imaginou se ela pensaria que estava louco se contasse. — Nunca vi um fantasma.
Ela hesitou e ele percebeu que devia estar mais sintonizada nele do que ele imaginava, quando perguntou:
— Mas você conhece alguém que viu?
— A casa da minha família é assombrada.
— Por quem? — Para sua surpresa, ela não parecia descrente, e sim interessada.
— Não sabemos. Deixe-me corrigir. Nós achamos que é o espírito de uma governante chamada Srta. Carlisle. Ela foi admitida por um dos meus ancestrais no início de 1890, mas na noite de sua chegada a carruagem dela virou na estrada que dava na casa e ela morreu. Foi enterrada na propriedade, atrás de um carvalho.
— Pobre garota. — Lily parecia triste, como se estivessem falando de alguém conhecido. — De onde ela era? A família dela soube de sua morte?
— Não sei. Nem tenho certeza se alguém sabia muito sobre ela.
Houve um breve silêncio enquanto pensavam sobre o destino de uma jovem.
Finalmente, Lily falou:
— Quem a viu? E por que você acredita que é essa Srta. Carlisle?
— Não havia visões ou rumores de acontecimentos fantasmagóricos em Crofthaven até depois da morte dela. Ela foi vista várias vezes durante o século XX. Cada visão era próxima da árvore onde foi enterrada. Ainda está lá. Um convidado de meus ancestrais descreveu, com riqueza de detalhes, o vestido dela, e um historiador confirmou que a aparência reflete as roupas da virada daquele século.
— Quanto tempo faz desde que ninguém a vê? — Eles tinham parado de andar e ela virou o rosto para ele.
— Essa é a parte estranha. Nos últimos nove meses, ela foi vista três vezes.
— Oh! — Ela esfregou os braços com as mãos. — Fiquei arrepiada. Conte-me a respeito.
— Certo. — Ele levou-a para o banco de pedra em uma praça por onde passavam, fazendo-a sentar, acomodando-se ao seu lado. — Em fevereiro, o noivo de Kimberly a viu na estrada. Ela tentou falar com ele, mas Zack não conseguiu entender o que ela dizia. Como ele conta, ela se aborreceu, exatamente como qualquer mulher com um cara que não a entende, e desapareceu.
Lily sorriu e ele pôde ver o brilho de seus dentes na escuridão que tinha descido sobre a cidade.
— Imagino o que ela queria dizer a ele...
— Não sabemos. Em maio ela foi vista novamente. Dessa vez, por um convidado, o irmão da minha cunhada, e, na verdade, Dennis pensou que ela era outra convidada que entrou no quarto errado. Ele nem percebeu o que tinha visto até o dia seguinte.
— Meu Deus! Ela já tinha sido vista na casa antes?
— Não. Foi um choque para todos nós. Ela apareceu de novo em julho e dessa vez foi o noivo de Lea quem a viu. Ele jura que ela repetia alguma coisa que parecia com "pai".
— Pobrezinha. Espero que logo alguém a ajude a encontrar o que está procurando.
— Eu também. Ela não atrapalha ninguém, mas assusta algumas pessoas. Acho que deve querer algo específico, se comunicar ou encontrar.
— Imagino se existe qualquer significado o fato de recentemente ela ter sido vista por convidados ou pessoas que não têm laços de sangue com os Potter.
James olhou-a.
— Não tinha percebido isso — ele falou, lentamente. — Você está certa. Posso ter que rever antigas histórias para ver se os sujeitos que a viram eram da família.
— Parentes de sangue — ela esclareceu. — Não pessoas casadas com membros da família.
— Parentes de sangue — ele repetiu, tomando a mão dela. — Obrigado. Acho que parece tolice, mas fico perturbado pensando que ela é muito infeliz.
— Não parece tolice alguma. Parece preocupação. E cuidado.
Ela pensaria mesmo aquilo? Carinho passou pelo seu peito e ele se inclinou, pegando as mãos dela.
— Estou tão contente por você ter concordado em sair comigo novamente.
Os cílios dela baixaram.
— Você sabe que eu não devia. Se meu pai descobrir...
— Por que você não me leva para conhecê-lo? Assim, não precisamos sair às escondidas e você não precisa se preocupar. Só faltam dois meses para as eleições. Desde que até lá não tornemos público, certamente ele não se incomodará.
— James, você não entende. — Os dedos dela estavam tensos nos dele. — Meu pai não... ele não entenderia. Se descobrir que estou encontrando você, ele proibirá.
Ele tentou sorrir, ainda que a certeza no tom de voz dela tivesse dado um nó em seu estômago.
— Não pode ser assim tão ruim. Eu poderia...
— Não! Você não pode fazer nada. Ou não o verei de novo. — Ela puxou as mãos das dele, claramente agitada.
James ficou imóvel, olhando para ela, que parecia rígida. Ele não sabia o que dizer. Detestava ter de ser cauteloso e se esconder o tempo todo.
Então, ela se virou e ele pôde ver a trilha de uma lágrima brilhando ao luar, escorrendo pelo rosto dela.
— Eu não quero que você fique chateado comigo — ela sussurrou. — Sei apenas que, até essa eleição terminar e meu pai se acalmar, ele não será capaz de aceitar o fato de eu sair com um Potter.
— Está bem. — Ele levantou e pegou-a pelos braços. Ela sentiu-se pequena e suave contra ele e, quando passou os braços em volta de seu pescoço e se encostou, ele pensou que seu coração podia queimar dentro do peito. — Faremos do seu jeito. Apenas me prometa que não deixará o seu pai impedi-la de me ver.
— Claro que não. — Ela se afastou e olhou para ele. — Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, James.
Ele bebeu nas maravilhosas feições, sentindo a imensa atração de seus olhos grandes, e ficou perdido.
— Como você é na minha. — Então, ele inclinou a cabeça e colou seus lábios aos dela.
Quero agradecer a quem está acompanhando a fic, espero que tenham gostado do capítulo e até o próximo.
