Capítulo II
O Pérola rumava para Port Royal com velocidade redobrada, precisavam chegar a tempo para avisar Will. Havia cinco dias que tinham deixado a Baía Naufrágio e o tempo se mantinha favorável à viagem. Elizabeth, entretanto, encontrava-se inquieta e, naquela noite, resolveu procurar Jack. Bateu na porta da cabine do Capitão e foi recebida por ele com um sorriso faceiro nos lábios.
- Elizabeth! – saudou-a.
- Jack – disse baixo, mas ele pareceu não ouvi-la, e ela insistiu: - Jack!
- Rum? – ofereceu um gole da garrafa em suas mãos.
- Não, obrigada – respondeu. – Jack, eu preciso saber de que forma a Srta. Sparrow pode nos ajudar...
- Shhh... – disse grogue, levando o dedo aos lábios e pedindo silêncio. Olhou para os lados desconfiado e sussurrou: – Ela não sabe quem é.
- Ela não é sua irmã? – rebateu Elizabeth arqueando as sobrancelhas.
Jack a fitou curioso e depois sorriu.
- Claro que é... – E gesticulando com as mãos, continuou: - Ela é minha irmã de coração!
- Jack você não está explicando nada – ponderou. - Será que não poderia parar de beber?
- O rum não me afeta, muito pelo contrário, Sra. Turner – soluçou –, me deixa mais consciente do mundo a minha volta.
- Duvido que se lembre do que me disse dois minutos atrás – retrucou seca.
- E importa? – sorriu e se aproximou de Elizabeth. – Eu vou lhe contar um segredo...
- Você poderia me dizer onde Amira se encaixa nessa história toda? – sugeriu.
- Você e essa história chata – resmungou e se afastou trôpego. – Quer mesmo saber o que ela é?
- Não é a chave? – perguntou a amiga.
- Sim, sim – continuou gesticulando com as mãos, enquanto procurava em cada canto da cabine mais rum. – Mas lembre-se, uma chave sempre serve para abrir alguma coisa, savvy?
- E? – incentivou-o.
- Amira nos abrirá os caminhos – abriu os braços, oscilando no meio do aposento. – Como o sol nos guiando no horizonte...
- O rum está afetando seu juízo – Elizabeth sorriu. – Ela é sua irmã, não um mapa de navegação – Fitou-o preocupada, enquanto Jack voltava cambaleando até ela – Entretanto, eu fico feliz por vê-lo demonstrar uma afeição sincera por alguém que não seja você mesmo, Jack Sparrow. Essa é uma coisa que nunca o vi fazer antes, ainda mais, gratuitamente... - Jack estava parado na frente dela, os olhos brilhando, e ergueu o dedo indicador na direção de Elizabeth para respondê-la. Tudo o que conseguiu, no entanto, foi lançar-lhe palavras emboladas:
- Ela é linda, não é? – seus olhos buscaram a lua que enchia o céu por trás das vidraças, e sorriu. – Tão linda quanto irreal... - murmurou grogue, e gesticulando com as mãos, completou: - É uma maldição está cercado de belas mulheres sem poder tocar em nenhuma!
- Jack, ela é sua... – disse Elizabeth
- Minha irmã... – sorriu contrafeito para ela. – Eu sei, eu sei... - fitou-a com atenção, e rebateu maliciosamente: - E você é a sra. Turner... Viu? Ainda reconheço todos – Jack deu a volta na mesa, se aproximando mais dela, levantou mão para tocar-lhe o rosto, mas Elizabeth se esquivou do toque. Ele manteve um sorriso desdenhoso nos lábios, inclinando-se sobre ela e sussurrando-lhe ao ouvido: - É uma pena que não queira relembrar os velhos tempos, eu poderia abrir-lhe uma exceção...
- Já passou da hora de você se deitar, Jack – concluiu deslizando para fora da cadeira e colocando de pé para sair. – Boa noite.
- Boa noite, Elizabeth – fez-lhe uma reverência ainda com um sorriso maroto brincando em seus lábios.
Assim que Elizabeth saiu, Jack se deitou em sua cama e fitou o teto. Os pensamentos voltados para irmã, não para Elizabeth. Na realidade Amira não era sua irmã, eles foram criados juntos durante uma parte da sua infância. Jack ainda lembrava o quanto chovia e ventava naquele dia, e também quanto ciúmes sentira pela atenção dada ao pequeno embrulho que seu pai trouxera nos braços, dentro da manta. Afinal, ele era ainda uma criança, tinha só 7 anos, e seu pai nunca fora muito presente, era um homem do mar. O que ele não contava era que viria a ter com aquele pequeno ser uma ligação tão forte que nem mesmo se houvessem laços sanguíneos entre eles existiria. Havia algo que os uniria além do simples fato de seu pai ter lhe pedido para cuidar dela, explicando-lhe quem de fato Amira era. Naquele momento nada daquilo importava para Jack; na verdade, o que ele vira em Amira era uma excelente amiga para suas brincadeiras de pirata, a medida que ela crescia, e nunca tencionou chamá-la de outra forma que não de irmã. Como era de se esperar, devido a sua pouca idade, ela sempre fôra um inimigo fácil de ser derrotado nas aventuras que inventavam, por mais que ele tentasse lhe ensinar alguns golpes de espada, e que ela os aprendesse corretamente. Faltava-lhe a prática e malícia do irmão, isso Jack espertamente não lhe ensinava. Aos treze anos, entretanto, Jack sentira vontade de experimentar aventuras mais reais, e nessas Amira não poderia acompanhá-lo...
O destino sempre nos apronta armadilhas, e depois de dezesseis anos fora, a vontade e, talvez mais exatamente, a necessidade de retornar para casa se tornou um desejo intenso. Algo o impelia a fazê-lo, apesar de saber que não seria ali que encontraria suas novas aventuras. Para sua surpresa, também não encontrou mais a menina que deixara para trás, a pequena e frágil amiga de aventuras. Seus olhos só conseguiam enxergar a essência de mulher que havia nas formas de sua-quem-sabe-talvez-ex-pretendente-ao-cargo-de-irmã e que, definitivamente, exerceram sobre ele um poder de fascinação imensurável. O fato de Amira não ser sua irmã era, agora, altamente relevante para seu corpo e alma, e o atormentava de uma forma violenta. Daquele dia em diante, ele soube o motivo real do pai ter lhe contado quem ela realmente era de fato, e o que isso significava para ele, Jack, e sua família; e se afastou completamente. Não podia se envolver com ela, para todos os efeitos ela era sua irmã, e sempre o seria... Sua irmãzinha. Amira tinha que permanecer assim, não por sua vontade, pois até dela a verdade era ocultada, mais para manter o perigo longe de si mesma. Jack sabia, compreendia, e mais do que isso, aceitou manter o segredo, o que tornava seu sentimento por ela algo impossível de se realizar, mesmo se um dia a verdade viesse à tona. Havia muitas coisas envolvidas que nem mesmo a verdade mudaria...
Voltar a vê-la agora, ainda mais tentadora e bonita, mexeu com seu coração, fazendo-o desejar nunca ter posto os olhos sobre ela novamente. Ao lado dela seu controle desaparecia por completo, e ele percebeu que apesar dos anos longe, nada havia mudado... Seus olhos escureceram, enquanto lutava para afastar esses pensamentos de sua mente.
As condições da viagem continuavam boas e, se assim se mantivesse, estariam em Tortuga mais cedo do que esperavam e logo se juntariam ao Imperatriz. Jack analisava novamente os círculos sobrepostos da carta de navegação quando Amira entrou, fazendo-o sobressaltar.
- Aconteceu algo? – perguntou levantando a cabeça na direção dela.
- Estamos há uma semana embarcados, Jack – interpelou-o, aproximando-se da mesa onde ele estava debruçado sobre os mapas. – Vai me dizer ou não por que me trouxe para cá? - e num tom afiado completou: - Não sabe mais manejar um timão, Capitão Sparrow?
- Talvez, mas no momento certo a verdade será revelada – sorriu debochado –, e na hora conveniente.
- O momento é agora, Jack – ela o encarou –, ou fala, ou deixo o Pérola.
- Não tem uma terceira opção? – disse malicioso.
Amira ia responder, mas uma batida na porta interrompeu a discussão e com uma ordem de Jack, Gibbs entrou anunciando:
- Capitão, parece uma tempestade. – Fitou Amira de soslaio e completou: – E das boas.
- De certo já passamos por muitas delas, Sr. Gibbs – disse suave, fazendo um sinal com a cabeça para que ele saísse. – Acredito em sua competência em nos tirar de mais uma.
- Claro, capitão, mas precisa... – ele ia continuar, mas um novo movimento rude de Jack com a cabeça o fez assentir e sair.
Jack voltou-se para Amira e disse:
- Onde estávamos mesmo? - sorriu-lhe maroto.
- Você ia me contar qual será minha função nessa viagem – respondeu firme.
- Ah... isso... – ele virou-se de costas para ela retirando a bússola do bolso e abriu-a. Com uma careta, viu o ponteiro apontar para trás de si. Bufou. – Eu preciso que me ajude a encontrar uma certa fonte... – disse calmamente, enquanto voltava-se para fitá-la.
- Uma fonte... – Amira se inclinou sobre a mesa, olhando-o desconfiada. – Vamos, Jack, desembuche... Você é um bom navegador, há mais do que isso envolvido.
- E o que poderia ser? – perguntou ardilosamente dando a volta na mesa e parando em frente à irmã – Diga-me... Suspeita de algo?
- Uma mulher, talvez... – sugeriu Amira com um sorriso de escárnio nos lábios.
- Talvez – completou Jack. Ele se aproximara o suficiente dela para sentir seu hálito quente e, num impulso, tocou a face dela com a mão cheia de anéis – Nenhuma com a sua beleza, eu asseguro.
- Pena que eu tenha sido escolhida para carregar o fardo de ser sua irmã – rebateu firme, desvencilhando do toque.
Ambos ficaram em silêncio, o efeito daquele carinho refletindo sobre suas mentes, perturbando-as. Depois de tantos anos ela ainda o perturbava com facilidade incrível, e isso era inadmissível. Ele a fitou longamente, enquanto a via se postar diante da janela. O Pérola começou a jogar mais para os lados do que deveria e Jack saiu de seus aposentos, indo para convés.
Os marujos se atracavam com as amarras debaixo da forte chuva que caía. Jack passou por eles aos encontrões, dando-lhes mais algumas ordens e subindo para a ponte de comando. Os olhos escuros brilharam, apossou-se do leme e manuseou-o com maestria. Conhecia cada centímetro de seu navio, adorava-o, assim como adorava a vida de pirata. Adorava outras coisas também, mais essas não deviam ser ditas, ou sequer lembradas, riscou-as pensando no rum. Graças ao empenho da tripulação e da habilidade de seu Capitão, o Pérola venceu a tempestade e voltou a flutuar placidamente sobre águas calmas.
Jack voltou para a sua cabine, e notou que Amira a deixara. Com um profundo suspiro, foi até a mesa e pegou a garrafa de rum. Levou-a aos lábios e sentou-se na beira da cama. Não bastou mais do que meia hora para a garrafa cair ao chão e Jack adormecer. Foi a acordado como uma voz feminina chamando-o, praticamente sussurrava seu nome. Vozes femininas o faziam tremer, e ele sorriu. Com dificuldade abriu os olhos, aquela voz não era de Elizabeth, nem de Amira... Era de outra pessoa... Lembrou-se de sua dona, desfez o sorriso e levantou-se rapidamente. Diante de seus olhos estava Calypso.
- Jack – ela sorriu. – Há quanto tempo...
- Sabe que não reparei? – Sorriu. – È, faz muito tempo... O que a traz aqui?
- Ora, Jack – a forma humana da deusa se aproximou dele -, eu achei que estava com saudades...
- Eu? – perguntou cínico. – Tia Dalma, quero dizer, Calypso, não me leve a mal, mas eu ando muito ocupado...
- Eu sei, Jack – ela devolveu-lhe a malícia. – E sei também que você está com uma coisa que me pertence.
- Mesmo? – fez uma careta – E o que seria?
- Não se faça de tolo – rebateu seca. – Ela é minha!
- Eu discordo – ele a fitou e começou a andar pelo aposento procurando por rum. – Acontece que você não a queria e meu pai fez o favor de cuidar dela.
- Não me interessa essa história – disse furiosa. – Eu exijo que a devolva.
- Diga-me, Calypso... – Jack achara outra garrafa e se sentara na cadeira colocando os pés sobre a mesa a sua frente. – Isso é o quê? Rompante amoroso ou algo parecido?
- Não me provoque, Jack – ela o ameaçou.
- Não ousaria – disse malicioso. – Contudo, você não me deixa outra escolha. Eu quero chegar até a "Aqua da Vida" e você não me deixa. – Estreitou seus olhos sobre ela e completou: - Sem Fonte, sem Amira.
- Está barganhando de novo? – Tia Dalma se aproximou da mesa com as mãos na cintura. – Qual a proposta?
- Nenhuma ação contra a minha viagem até a ilha de La Fontaine. – Sorriu, levando o rum aos lábios e tomando outra talagada. – Nenhum ardil antes, nem depois, savvy?
Tia Dalma assentiu com a cabeça meio contrafeita.
- Assim que eu conseguir o que quero, eu a libero – completou, enfatizando com as mãos.
- Feito – concordou.
- A propósito, mate-me a curiosidade – disse Jack, já embriagado novamente – Eu imagino que ela não tenha poderes como os seus, afinal, é filha de um simples mortal com uma deusa... Mas eu sempre me perguntei se ela não deveria ter algum dom especial, assim como Hércules... – deu de ombros.
- Há mais de um motivo para uma deusa não desenvolver seus poderes. – Ela o fitou com olhos brilhantes. – O amor nos prega peças, Jack. Eu amei muito o pai dela, e usei meus poderes para mantê-lo no Holandês, mas quando fui trancafiada em minha forma humana, não mais pude intervir na ação do mar sobre ele. A maldição do Holandês se tornou mais impiedosa do que eu previra. Talvez seja isso o que aconteceu a Amira, a forma humana represe seus poderes. David Jones era imortal quando ela foi gerada... Sabia disso, não é, Jack?
- Acho que me lembro... - disse sem demonstrar muita atenção a explicação dela. – O que não torna menos interessante o fato dela não demonstrar nenhum poderzinho, como jogar umas patas de caranguejo e ver o futuro... – debochou - Você fazia isso bem... – E completou com um sorriso: - Bom, mas eu acho que já temos nosso acordo, e voilá... Nos vemos em La Fontaine.
Ela fez um leve meneio de cabeça e desapareceu na frente de Sparrow. Ele deu um sorriso desdenhoso para o lugar onde ela estivera e pôs-se de pé, cambaleando até a cama. Caiu de encontro ao colchão e a última coisa que balbuciou foi: Amira, amor, poderes...
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N/A: Agradeço de coração a Ety, Lady Morgan e Dora Snape pelas reviews fofas! Agradeço também a Aline, que me deixou uma review super cute no Orkut ( auhauhauh... rimou )! Muitos beijos no coração de cada uma pelo carinho de vocês, espero que continuem gostando da fic! Bjo especial a minha betinha, Batest.
