Gina ficou feliz em não encontrar ninguém na casa pela manha. De certo, Harry e Rony já tinham saído para trabalhar. Ela estranhou o fato de Hermione não estar na casa, mas não procurou se importar muito. Era melhor assim, poderia pensar em paz.

Eles moravam juntos. Rony, Hermione, Harry e ela. Era esquisito às vezes. Mas era divertido também. Logo que a guerra acabou, Harry se desfez da casa no Lago Grimmauld, numero 12. Trazia muitas lembranças pra ele. Em seguida, comprou aquela casa. Mas não queria ficar sozinho, então os chamou para morar com ele. Claro que a Sra. Weasley protestou. Mas todos eram adultos agora e ela foi vencida.

No começo, ficar longe da casa da mãe era problemático. Ainda mais com Rony pegando em seu pé por tudo. Mas Hermione fazia as coisas ficaram mais fáceis. Ela e seu irmão estavam juntos, finalmente, então o gênio dele estava mais controlado.

Harry quase nunca ficava em casa. Estava sempre fazendo algo importante, seja pela Ordem da Fênix, seja pelo Ministério. Ele tinha recusado um trabalho de auror, mas ainda assim, tinha se tornado uma peça importante para o novo Ministro da Magia.

Rony e Hermione trabalhavam no Departamento de Execução de Leis mágicas. E Gina, seguiu carreira no Departamento de Mistérios. O trabalho era muito. Raramente se encontravam entre as paredes do Ministério. Mas toda noite estavam juntos. Era agradável. Mesmo Harry e Gina não tendo se acertado definitivamente. Ao fim da guerra, eles não eram mais os mesmos. E não encontraram algo que os unisse mais. Também não eram melhores amigos. Mas conviviam muito bem juntos.

Estava cansada aquele dia. Tinha dormido pouco e esse pouco tinha sido mal aproveitado. Enrolou o quanto pode durante o café da manha. Passeou pela sala, arrumando qualquer coisa que visse. Molhou as plantas, lavou a louça. Qualquer coisa que a distraísse naquele momento.

Depois subiu rapidamente as escadas em direção ao quarto. Teria que usar a entrada de visitantes para ir ao Ministério, já que Draco tinha ficado com a sua varinha. Estava pensando em que roupa deveria usar, para não ser notada entre os trouxas quando parou em frente a porta de seu quarto.

Abriu a porta. Malfoy. Ele estava sentado com um sorrisinho no canto da boca, lendo o Profeta Diário. Olhou-a por cima do jornal.

"Dia!" – a voz cínica combinava perfeitamente com o sorriso debochado que ele tinha estampado na cara.

Oh Merlin, como ela o detestava.

"O que está fazendo aqui, Malfoy?" – ela sussurrou, fechando a porta atrás de si.

"Ora, Weasley, você invadiu minha casa ontem. Não vejo por que não posso fazer o mesmo. Hey, é verdade o que dizem aqui no jornal? Potter ficou lelé?"

Agora ele ria tão alto que ela se assustou com o fato dele não se importar com a possibilidade dos outros ouvirem-no. Claro que ele não deveria saber que ela estava sozinha em casa.

"Rita Skeeter, Malfoy? Não acredito que você ainda dê ouvidos ao que essa mulherzinha escreve."

"Nunca se sabe, não é mesmo? Potter passou por tantas coisas horríveis.." – o tom debochado dele a irritou profundamente e ela não estava muito disposta a aturar a ironia dele sobre Harry.

"Isso não é da sua conta, Malfoy. O que você faz aqui?"

Ele levantou-se visivelmente irritado. Quem ela pensava que era?

"Mudei de idéia. Você vai me entregar o pergaminho agora."

Ela começou a rir. Como ele podia estar falando aquilo daquele jeito calmo, quando a cabeça dele estava por um fio?

"Por Merlin, você enlouqueceu? Você acha mesmo que eu vou te dar aquilo? Você tem alguma noção da situação em que você se encontra agora?"

"Acho que você não entendeu, Weasley. Eu não estou brincando. Me dê aquela droga de pergaminho antes que eu me irrite de vez com você. Eu sei que ele está na sua sala. Eu sei que está com você. Não me importa o que você tenha que fazer, me traga ele agora."

"Não, acho que VOCÊ é quem entendeu errado. Eu NÃO vou entregar o pergaminho a você. E você não está em posição para me forçar a fazer diferente."

Ele a encarou sério. Ela encarou de volta. Olhou atentamente o rosto pálido que a encarava. Sabia que ele estava pensando em alguma coisa para responder. Seus olhos fixaram nos olhos cinzas dele. Ela percebeu uma mancha arroxeada perto do olho direito. Esperou algum sinal de que ele iria falar. Mas na ausência deste, continuou.

"Malfoy, você ainda acredita quem tem algum poder? Olhe pra você, escondido aqui. Sua família esta acabada. Seu Mestre morto. Nem mesmo Snape esta aqui pra te proteger. Você acha mesmo que ainda consegue sair por ai intimidando as pessoas?"

Ele deu uma risada de desdém. Aproximou-se dela e falou, calmamente.

"Não, Weasley. Não me interessa sair por ai intimidando as pessoas. A única pessoa que eu quero intimidar é você. Não se iluda. Eu vou ter aquele pergaminho e você vai me entregar."

"Eu não me sinto intimidada por você, Malfoy." – ela soltou em tom afiado.

"Weasley, Weasley. Você não aprendeu muitas coisas, não é? Eu sempre consigo o que eu quero. De um jeito ou de outro." – os olhos dele brilharam com algo que ela não soube descrever. Raiva. Ódio, talvez. "Falando nisso" – ele continuou- "como anda seu irmão? Soube que ele está trabalhando para ser auror. Quem sabe ele até se torne importante. Alguma missão perigosa ultimamente?"

"Cale a boca, Malfoy. Posso trazer Rony aqui antes de você ter tempo pra pensar em fugir. Você ficará o resto da vida em Azkaban."

"É mesmo? E por que você não faz isso?"

Ela não soube responder. Ficou olhando atentamente para o rosto dele, não encontrando nenhuma palavra que justificasse o fato de, até aquela hora, não ter entregado Draco para os aurores.

A risada que ele soltou a fez acordar do devaneio.

"Acho melhor você se despedir da sua liberdade, Malfoy. Acredito que se você fizer algum esforço, consiga se livrar do beijo dos dementadores." – Gina tentou parecer ao máximo segura do que estava falando. Mas o olhar prepotente dele para ela, colocou sua segurança no chão.

"Weasley, não sou eu quem vai fazer qualquer esforço aqui."

"Pois bem, então se prepare, Malfoy." – ela disse abrindo a porta. Mas antes que conseguisse sair, ele a azarou.

Draco carregou Gina desacordada para a cama. Esperava que o feitiço silenciador estivesse funcionando ainda. Sabia que o irmão dela não estava em casa. Tinha observado cuidadosamente a casa durante horas. Mas sabia que não teria a mínima chance de combater os dois, se eles aparecessem por lá.

Observou a ruiva adormecida. Precisava colocar o plano dele em prática. Ela deveria pegar o pergaminho para ele e entregá-lo e depois, ele a mataria. Ninguém deveria saber ainda daquele pedaço de papel, tão desimportante a primeira vista.

"Você deveria ter mais cuidado, Weasley. Não foi inteligente sair da minha casa sem ter certeza de que eu não estava mais lá. Não sabe viver sem uma varinha, francamente."

Ele andou pelo quarto durante algum tempo. Ela ainda estava desacordada.

"Enervate" – ele conjurou sobre o corpo dela. Ela abriu os olhos, encarou o rosto dele e se encolheu. Não teria nenhuma chance sem sua varinha.

"Belo quarto Weasley. Quantas pessoas a sua família roubou para você poder dormir aqui?" – ele sorriu cínico.

"Menos do que a sua matou, Malfoy." – ela sorriu diante de cara ofendida dele. "Devolva minha varinha agora, ou eu juro, que vou trazer o Ministro da Magia em pessoa para te pegar."

Ele levantou uma sobrancelha.

"Eu estou tentando ser legal com você, Weasley. Mas você não coopera. Você tem dois dias para pensar. Eu vou te dar um estimulo, apenas para você ver que eu não estou brincando. Uma palavra sobre mim para qualquer pessoa, apenas uma, e você vai se arrepender. Ninguém vai me encontrar, garota. Passei 5 anos sumido. Se alguém fosse me achar já teriam feito. Sua varinha fica comigo. Eu volto a te procurar. E dessa vez, quero meu pergaminho." – ele virou de costas e aparatou.

Ele suspirou, trocou de roupa e seguiu para seu escritório, seria um longo dia. Amaldiçoando Malfoy a cada minuto do dia, ela passou horas numa palestra obrigatória e muito cansativa sobre como aumentar a dinâmica do trabalho em grupo. Queria saber quem tinha sido o sádico que obrigou o Departamento inteiro a comparecer e mais sádico aquele que escolheu o palestrante. No fim do dia, seu cansaço era tão grande, que nem mesmo se lembrou das ameaças que recebera.


Rony sentia-se particularmente cansado aquele dia. Não fizera nada alem do costume: passara parte da manha em Azkaban, falando com alguns aurores. A tarde tinha ficado em uma das intermináveis audiências do Departamento de Execução de Leis Mágicas. Tinha passado no Beco diagonal, para comprar algumas coisas. Nada demais.

Agora caminhava para casa sentindo o corpo pesado, dores fortes na cabeça e os olhos ardendo. Deveria ser o frio ou estava ficando muito gripado.

Entrou na casa. A casa pelo menos estava bem aquecida. Comeu um lanche preparado mais cedo pela sua namorada e passou no quarto de Harry. Ficaram algum tempo conversando, como de costume. Despediu-se dele e foi se deitar, na esperança de que quando Hermione chegasse, ele estivesse melhor.

O sono veio muito rápido. Mal deitara e sentiu os olhos fecharem. Mas não havia passado nem duas horas quando acordou banhado em alguma coisa liquida e pegajosa. Levou a mão ao nariz apenas para constatar que a coisa pegajosa vinha de lá. Correu em direção ao banheiro, mas não conseguiu chegar, pois sua cabeça começou a latejar muito, causando-lhe uma dor tão insuportável que não permitiu que ficasse em pé. Gritou chamando por ajuda e em alguns segundos, tudo ficou escuro.

"Mione, o que aconteceu? Cadê o Rony?" – Gina estava agitada. O cansaço daquele dia chato tinha sido esquecido assim que ela chegou em casa e viu o bilhete de Harry, dizendo que Rony não estava bem.

"Oh, Gina. Ninguém sabe o que ele tem. Está desacordado faz quase uma hora. Agora pouco os medi-bruxos conseguiram estancar a hemorragia que ele teve." – Hermione estava em pé a sua frente, o cenho franzido em preocupação. Harry estava ao seu lado, com a mão pousada sobre o ombro da menina. Os rosto cansado.

Gina não esperou para conversar com o medico. Sentiu o coração acelerar ao ouvir a descrição da amiga. Intuitivamente, sabia que o que quer que Rony tivesse, Malfoy estava por trás.

Pediu à enfermeira que a levasse até ele. Ele estava deitado, dormindo calmamente.

Ela ficou sentada ao lado dele, esperando que acordasse. Harry e Hermione acompanharam o zelo pelo sono de Rony. Por fim, algumas horas depois, ela sentiu a cama dele se mexer.

"Hey" ela disse trêmula "achei que não fosse acordar hoje!"

Ele estava meio surpreso de não reconhecer o local onde se encontrava. Mas ficou mais preocupado em tentar retribuir o sorriso que Gina lhe dirigia.

"E perder todo mundo preocupado comigo?" – oh, ele estava sorrindo – "O que aconteceu?"

"Ainda não sabemos. Você passou mal, teve uma forte dor de cabeça e desmaiou. Harry te trouxa pra cá e eu cheguei faz algumas horas." Gina sorriu fracamente para o irmão deitado a sua frente, procurando algum consolo nos olhos de Hermione e Harry.

"Não deve ser nada demais. Pode ter sido o frio." – ele disse puxando a mão de Hermione para perto dele.

"Claro." Ela não pareceu muito convincente ao dizer isso.

Rony piscou algumas vezes. Queria conversar com eles, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, sua cabeça voltou a latejar, a dor aumentando a cada segundo.

Hermione gritou para que alguém viesse ajudar. Rony foi sedado e o medico achou melhor deixá-lo assim até o dia seguinte.

Gina foi com Harry para a casa deles. Eles tinham ficado muito tempo no hospital, olhando Rony dormir, Mione continuou lá e eles resolveram voltar para descansar um pouco.

A volta para casa trouxe a ela uma sensação esquisita. A casa sem ele era vazia e triste. Ficou arrumando a cozinha com Harry e depois, subiram juntos. Ele a deixou na porta de seu quarto e virou-se para ir ao dele. Gina entrou em seu quarto. Bufou ao encarar a visão a sua frente: Malfoy estava sentado na sua cama, sorrindo explicitamente.

Ele levantou a varinha. Murmurou qualquer coisa. Ela fechou a porta atrás dela. Um feitiço de som. Ele era muito precavido.

"Você. Como você pode ser tão mau?"

"Você não acreditou em mim. Eu disse que ia te dar um estimulo. Agora, quanto tempo mais você vai permitir que ele sofra? Porque eu posso prolongar a dor dele até se tornar fatal."

"O que você fez com ele?"

"Nada demais. Um pequeno feitiço. Magia Negra das boas. Primeiro as dores de cabeça e o nariz sangrando. Então o sangue se torna grosso e o coração fica lento. Por fim, ele para de bater. Um feitiço discreto; mantém os medi-bruxos ocupados e nunca conseguem salvar o paciente a tempo. Em alguns dias, já era. Mas você" – ele abaixou o tom de voz – "você pode salvá-lo. Basta me entregar o pergaminho."

Ela soltou os braços, desanimada. Não tinha outra saída. Não queria ver Rony piorando, muito menos morrendo. Se mais alguma coisa acontecesse a ele, ela mataria Malfoy.

"Não está comigo."

Ele analisou a ruiva por alguns minutos. Ela sabia que ele estava tentando usar a Legilimência com ela. Ela se concentrou no dia chato que teve. Não deixou seus pensamentos escaparem para a sua sala, onde o pergaminho estava guardado, por nem um minuto.

"Dia divertido, pelo que eu vi" – ele disse voltando a sentar na cama.

"Saia daqui Malfoy, eu juro que eu posso te matar agora mesmo. Harry esta aqui e acredite, ele também vai adorar fazer isso."

"Então, vai deixar seu irmão morrer? Pelo que? Curiosidade? Vamos lá, Weasley, é só me dar o que eu quero."

Ela não tinha saída. Deveria entregar a ele. Mas não sem saber o que continha primeiro.

"Ele foi entregue para mim, Malfoy. Então eu quero saber primeiro o que ele contém. Por que tanto interesse num pedaço de papel velho?"

O rosto dele endureceu e ele contraiu a boca. Claro que ele não iria contar para ela, mas, ela o teve nas mãos. E não leu por algum motivo.

"Isso não é problema seu."

"Se eu te der, você vai curar meu irmão?" – Gina tentou manter o controle.

"Vou" – ele respondeu, sem qualquer convicção.

"E como eu posso ter certeza disso?"

"Você não pode. Mas não vejo outra saída para você." – ele sorriu, vitorioso.

"Não posso entrar no Ministério agora, você sabe."

Ele passou a mão pelos cabelos. Olhou um tempo pela janela. Por fim ele falou:

"Certo. Eu venho buscar amanhã, então. E não brinque comigo, Weasley. Eu não ando de bom humor ultimamente."

Ele aparatou, deixando Gina sozinha e assustada. Ela não iria contrariá-lo, temia demais pela vida do irmão. Mas precisava de uma varinha. Harry não iria emprestar a dele sem fazer muitas perguntas, mas Rony não estava usando a dele no momento.