Daniel ENTREI NA CASA, fazia anos que n o ia ali, e n o gostava de lembrar da minha ltima experi ncia, notava-se que ningu m vinha ali h muito tempo, o ch o e os m veis estavam completamente empoeirados, os cantos das paredes tinham enormes e pegajosas teias de aranha.
Caminhei at o fim do corredor e comecei a vasculhar a parede procura da alavanca que sabia que estava ali em algum lugar, e que me revelaria a escadaria que iria me levar a uma sala subterr nea que j conhecia muito bem, at mais do que desejaria conhecer.
Encontrei a alavanca e a puxei, no mesmo instante a parede come ou a se mover para o lado, deixando mostra um grande portal e uma escada que descia at sumir de vista. Passei pelo portal e procurei por um archote, tirei o isqueiro do bolso e o acendi.
Olhei minha frente at onde a luz da tocha estava iluminando, e acredite quando digo que n o era muita coisa, puxei a alavanca do lado de dentro e a parede come ou a se mover novamente, trancafiando-me ali, hesitei um pouco e pensei em pux -la novamente e sair dali. Mas ent o lembrei-me de meu objetivo e resolvi continuar com o plano original e comecei a descer as escadas, a cada passo meu cora o pulsava mais e mais r pido, e uma onda de medo e p nico passava por todos os m sculos do meu corpo.
Faltavam apenas dez degraus e ent o eu estaria mais uma vez cara a cara com a pessoa que viera buscar. Desci os ltimos degraus e vi a cena que tinha me preparado para ver por dois s culos.
Havia cinco pessoas na sala, em p , penduradas pelos pulsos com finas correntes de ouro maci o, que poderiam parecer fracas, mas n o para elas, as finas correntes eram como as mais grossas correntes de a o puro, todas estavam p lidas e com a pele ressecada, olhei cada rosto, todos me eram conhecidos, mas estava procura de um em especial, nem ao menos sabia se conseguiria reconhec -la, fazia tanto tempo que n o via, mas quando olhei para o quarto rosto, l estava ela, era quase irreconhec vel, mas uma coisa n o havia mudado, seus l bios continuavam vermelhos como sangue, do mesmo jeito que me lembrava deles, e seus olhos, a cor deles havia mudado, tinham se tornado vermelhos, um tom muito escuro e sombrio, o sinal m ximo de fome.
Levei a m o ao bolso e tirei uma pequena chave dourada, hesitei novamente, pensando em desistir, mas quando ouvi sua voz, n o consegui:
Por favor, Daniel, n o me deixe aqui, ela estava fraca pelo tempo que havia ficado sem se alimentar, sua voz n o deixava mentir.
Olhei novamente para a chave e em seguida para o cadeado, levei-a at a fechadura e a coloquei, dei uma volta e a corrente soltou-se instantaneamente, terminei de desenrolar as correntes dos pulsos de Hayley, e a segurei, quando ela come ou a cair.
Peguei-a no colo e comecei a andar de volta para a escadaria, quando outra voz conhecida me atingiu:
Vai deixar um de seus mais antigos amigos aqui, Daniel? estremeci, mesmo depois de s culos, a maldade naquela voz ainda me surpreendia. Virei-me para encarar o rosto de Heffrey.
N o tenho a chave do seu cadeado, disse, r pido demais.
N o me fa a de idiota Daniel. Sei que existe uma chave mestra, e que, coincidentemente, a chave que se encontra em seu bolso. Heffrey, por favor, sabe que n o posso lhe tirar daqui, n o quero ser respons vel por mais uma era de sofrimento e terror. A Inglaterra est muito bem sem toda aquela gritaria. E voc , mais do que ningu m, sabe o qu o perigoso quando dois de n s j est livre. Fala como se ainda se alimentasse normalmente, mas sei que voc n o bebe sangue humano desde seu terceiro ano de vida, tamb m sei que Andrews e Hadrian ainda est o l fora, eles n o s o t o idiotas como parecem, n o iriam deixar-se pegar t o facilmente, e ainda existem outro mais de nossa esp cie, imposs vel fazer com que desapare amos completamente, Heffrey fez uma pausa, depois de tanto tempo sem se alimentar era dif cil at mesmo conversar normalmente. Respirou profundamente e continuou. N o sente falta, Daniel? O doce sabor do sangue, descendo por sua garganta, dando-lhe um poder infinito, pense bem, Daniel, poder amos voltar a governar, e ent o ter amos todo o sangue que desej ssemos. Imagens come aram a passar por minha mente, flashs de como era a Inglaterra quando Andrews e seus amigos governavam, guerras, mortes, tristeza, maridos que haviam perdido suas mulheres para servir de alimento e fonte de prazer para a realeza. Eles decidiam quem podia viver e quem devia morrer.
Lembro-me de quando encontrei Andrews e seu pequeno grupo, ainda eram apenas quatro naquela poca, nem mesmo Heffrey havia se juntado a eles. Eram apenas Andrews, Karol, Hadrian e Lugvar. Eu estava quase morto no deserto, tinha sido deixado ali para morrer depois de uma sangrenta batalha contra um grupo de franceses, eram poucos, mas o estragos que conseguiram foi absurdamente grande, mas Andrews me encontrou e achou que seria um grande desperd cio deixar que eu morresse, ainda n o entendo porque; como Karol ainda n o havia se alimentado, ele a deixou fazer o servi o.
Ela cravou seus dentes afiados em meu pesco o, a dor come ou a se apoderar de mim, senti um m nimo de prazer e ent o perdi a consci ncia. Em minha cabe a implorava pela morte a cada minuto que se passava, n o aguentava mais a ard ncia em minhas veias, a cada pulsa o a dor aumentava mais e mais, sem aliviar nem por um mil simo de segundo. Passaram-se v rios dias, ou pelo menos assim eu penso, e ent o eu finalmente despertei. Estava em um quarto luxuoso, em uma grande cama feita de madeira maci a com dossel, meus sentidos estavam mais agu ados, podia ouvir os animais na floresta ao longe, o rio que a cruzava, at mesmo o simples barulho das folhas caindo. E existia mais uma sensa o, a mais forte de todas, simplesmente ocupando toda a minha mente, uma sede incontrol vel, fazendo minha garganta queimar.
Livrei-me do devaneio de meus primeiros minutos como um vampyro e voltei a me concentrar naquele momento, Heffrey ainda me encarava, seus olhos n o piscaram nenhum minuto, dei-lhe as costas e comecei a andar.
Todo este tempo que esteve trancafiado aqui te deixou insano, Heffrey, disse, virando novamente para ele, vamos esperar mais alguns s culos, dois ou tr s mais ou menos, e depois podemos repensar nas possibilidades de lhe soltar, claro, haver uma negocia o. Virei-me para a escada e levei Hayley, ela era incrivelmente leve, quase n o se notava uma diferen a no ritmo do caminhar, quando cheguei ao topo da escadaria, depois de uns cinco minutos, tateei novamente a parede e puxei a alavanca e a mais uma vez o portal se moveu, passei por ele, coloquei Hayley em um dos sof s e fechei-o novamente. Espero que n o seja aberto nunca mais, pensei.

Estava quase indo ver o que acontecia l dentro, disse-me Nichollas quando entrei no carro com Hayley e deitei-a no banco de tr s.
Tive que resolver alguns neg cios, e ent o olhei para ela. Est bem agora? Ela tinha ficado em sil ncio at agora.
Ficarei bem quando me alimentar, ela disse numa voz rouca.
Peguei duas bolsas de sangue na mochila que tinha deixado ali e entreguei a ela. S aquelas duas n o seriam o bastante, mas ela teria que ag entar at chegarmos ao apartamento Sua pele agora tinha um aspecto melhor, mais saud vel, seus olhos voltando cor normal, um azul escuro, t o profundo e infinito quanto o oceano.
Precisamos comprar outras roupas para voc , disse, me lembrando que Hayley ainda estava com roupas de alguns s culos atr s, e nem um pouco conservadas, o que dificultaria dar a desculpa de estar voltando de uma festa fantasia.
Amanh iremos fazer compras, j est muito tarde, quase meia-noite, e acho que n o vai ter ningu m fora dos apartamentos, Nichollas disse.
Com certeza n o encontraremos nada al m de fast-foods abertos, falei e ent o virei-me para Nichollas, o que est esperando para ligar? perguntei.
Nada, ele disse e ent o ligou o carro.

Quando chegamos ao pr dio realmente n o havia ningu m. Entramos na garagem e subimos pelo elevador at o d cimo andar, onde ficava o apartamento de Nichollas. Hayley havia adormecido no carro, ou pelo menos estava com os olhos fechados, descansando, e eu a carregava agora, Nichollas abriu a porta do apartamento e ent o carreguei-a para dentro, direto para o quarto onde eu estava dormindo.
Coloquei Hayley na cama e fui para a sala. Nichollas havia ligado a T.V., ainda estava passando a reprise de um seriado que n o conhecia. Sentei-me ao lado de Nichollas, e fiquei assistindo por algum tempo, ent o olhei para ele, que estava com uma express o s ria no rosto.
O que est passando pela sua cabe a? Perguntei.
Nada muito importante, respondeu ele.
Nichollas, conhe o-te melhor que qualquer outra pessoa, tenho vivido contigo por mais de um s culo, vamos, desembucha logo. J disse que n o nada, Daniel, sabe que n o escondo as coisas de voc . Se realmente n o fosse nada voc n o estaria com cara de preocupado/s rio, disse.
Por que voc est insistindo que eu estou escondendo alguma coisa? ele me perguntou.
Porque, como j disse, te conhe o a mais de um s culo, e aprendi a ler sua express o facial, e neste momento ela est me dizendo que voc est me escondendo alguma coisa, terminei e ele me olhava sem express o alguma agora, mas sabia que era s uma m scara, a preocupa o ainda estava l .
Est bem, ent o, disse ele depois de um tempo calado, o seguinte, sabe que venho tendo algumas vis es. Aquilo n o era uma pergunta, mas respondi mesmo assim:
Sim, lembro de ter me falado sobre isso. Bem, enquanto voc estava dentro da casa, procurando por Hayley... ele pausou, hesitando por um momento.
E... , encorajei.
Tive uma vis o... com ela... Hayley estava em um lugar escuro... Ele n o terminou de falar, pois ela entrou na sala.
Ei, ragazzi, o que est o fazendo a at agora? Deviam tentar descansar um pouco tamb m, ela falou descansar com uma entona o um pouco diferente da normal. J vamos, s queria terminar de assistir um programa e j est acabando, Nichollas respondeu.
Bem, voc s quem sabem, ela disse e depois virou-se para mim, tem suco de laranja? Na geladeira, porta direita, segunda grade, respondi.
Obrigada, ela disse e depois saiu.
Ent o, num repente a porta veio abaixo, um homem alto com uma capa preta que cobria at acima da boca estava parado onde estava a porta, mas agora s se via uma intensa poeira subindo de onde a pesada porta repousava, partida em mil peda os.
Mas o que diabos isso? Disse, ficando em p imediatamente.
O homem abriu um sorriso por debaixo da capa, e come ou a levant -la, descobrindo o rosto, fazendo com que n s tr s d ssemos um passo atr s, Hayley n o estava nem na metade do caminho para a cozinha.
M-mas, isso imposs vel, gaguejou Nichollas.
Ainda acha alguma coisa imposs vel mesmo depois que se transformou em um de n s, Sr. Stein! A ironia em sua voz era evidente, e ele n o fazia esfor o algum para disfar -la.
Andrews continuava o mesmo, o tempo n o havia lhe afetado nem sequer uma hora, apenas os cabelos que haviam crescido e agora lhe batiam nos ombros, mais nada al m disso.
N o convida uma visita para entrar, Daniel? Andrews disse.
Sim, quando estas visitas s o desejadas, respondi, recuperando a voz.
Tsc, tsc, tsc. Nada de bons modos, pelo que vejo os s culos passado ao lado da elite n o lhe ensinaram nada, n o mesmo, Daniel? Andrews falou e depois virou-se para Nichollas, E voc , jovem Sr. Stein, sempre t o desconfiado at mesmo da pr pria sombra, s t o diferente de teu pai, sim, eu o conheci, fomos juntos muitas batalhas, um homem honrado, e assim morreu. Nichollas estava ficando vermelho, de raiva ou vergonha, ou qualquer outro sentimento que ruborize o rosto, n o sabia dizer exatamente.
Andrews virou-se para Hayley e caminhou para mais perto dela, enquanto ela se encolhia, e uma luz vermelha com uma sirene piscava e fazia um grande alarde em minha cabe a, querendo dizer PERIGO! , mas, como sempre fazia, ignorei o aviso, Hayley n o seria capaz de voltar para ele, n o depois de ele a ter aprisionado em um por o escuro e mido por mais de dois s culos. Andrews levou uma m o ao rosto dela, e lhe acariciou a ma do rosto, fazendo-a se encolher mais.
N-n o me toque, seu... maiale schifoso! Disse ela, afastando a m o dele com um tapa, bem forte, por sinal.
Velhos h bitos nunca morrem, n o mesmo? Andrews disse, um sorriso malicioso se abrindo em seu rosto de pedra. E agora, sem mais delongas, vamos ao assunto principal. Precisarei de voc para fazer um pequeno favor. E o que te faz pensar que n s te ajudaremos? Hayley disse.
Simplesmente porque uma coisa tamb m do interesse de Daniel, minha querida, disse ele. Ent o, como eu ia dizer, antes de voc me interromper, olhou para ela com um ar que poderia ser considerado brincalh o, e depois continuou, descobri o projeto de um mago brasileiro que afirma poder inverter essa maldi o, seus olhos brilhavam de raiva, e eu sabia que pelo menos neste momento o sentimento era o mais puro poss vel, e preciso que dois de voc s para ir at l e investiguem isso para mim, e sei que voc , Daniel, principalmente voc , n o conseguir recusar esta proposta, sei que nunca quis isto, e sei tamb m que faria qualquer coisa para ter sua humanidade de volta. O olhar dele tinha uma seriedade implac vel e me encaravam, esperando uma resposta.
Ele se levantou e foi at o bar, como se estivesse em sua pr pria casa, serviu dois copos de whisky e voltou, entregou-me um, bebi, um pouco hesitante, apesar de alguma coisa me dizer para n o fazer aquilo e ent o disse:
Voc tem os argumentos perfeitos, como sempre, mas ainda n o conseguiu me convencer a fazer o que quer. Imaginei que diria isso, ent o, tenho mais uma coisa a oferecer. Ele tirou um frasco de seu bolso esquerdo e mostrou-me. Por isso tomei algumas precau es, disse, sem tirar os olhos de mim, parecia que tinha medo que eu pudesse fugir. Este frasco cont m um veneno que faz efeito ap s 48 horas, ent o este o seu tempo para me dar a resposta que quero, e somente eu tenho o ant doto do veneno, se voc resolver fazer isso, comprei uma casa em Hampstead, ele colocou um papel dobrado em minha m o, creio que saiba onde , me procure, ou ent o, sabes o que vai acontecer. Acho que ainda se lembra do que lhe falei em 1852 Em um minuto ele estava na poltrona a minha frente e no outro j n o estava mais l .