Capítulo01 –Hel¹

Havia quem chamasse aquele lugar de inferno. O sol escaldante, os homens negros de almas vendidas, a terra seca.

Havia quem chamasse de paraíso. A floresta densa brilhando em verde em contraste com o mar em uma terra sem dono.

Malfoy chamava de oportunidade, e dispensava aprender qualquer um dos milhares de idiomas locais e seus nomes impossíveis para não perder tempo.

Ele viera àquele fim de mundo com um objetivo: conseguir o que queria e dar o fora dali.

- Potter, se eu tiver que dar mais um passo, vou cuidar pessoalmente para que você seja enforcado por traição à pátria quando voltarmos à Inglaterra.

O riso fraco, banal, de quem já está ouvindo aquele tipo de coisa há dias demais. Draco apressou o passo, ficando ao lado do capitão que abria a trilha na mata a golpes de espada, e viu que ele ainda sorria. Se permitiu um riso leve também: estavam chegando. Era só seguir o brilho do verde dos olhos igual ao da floresta para divisar o cume da enorme montanha não muito distante e um pequeno fio de fumaça doméstica logo à frente.

Inferno, paraíso ou o que fosse, eles haviam navegado por meses, dobrado o Cabo e atravessado a pé a pequena faixa de mata do litoral à montanha para estar ali: na África.

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Tudo era hostil.

O sol forte demais para a pele branca e os olhos claros, o ar seco que passa pela garganta rasgando, o calor grudento que impregna as roupas e chega a arrepiar, a folhagem dura que corta e priva a visão do que está a um passo de distância, o cheiro de pó e suor animal, os olhos ferozes, cor de terra, cor de céu. Os sons arrastados, ocos, fortes, ditos com visível desconfiança, não importa o idioma.

- Quanto mais isso vai demorar?

Os olhos cinzas se ergueram para observar o homem parado ao seu lado, visivelmente inquieto.

- Sente-se e aprenda, Longbottom. Essa é a arte da negociação, algo que visivelmente não está entre os seus dons. – Draco disse, baixo, voltando a observar Potter e Granger mais à frente. Ele devia estar com eles. Ele precisava estar com eles. Mas a situação já estava tensa demais só com um militar e uma geóloga, e ele não entendia uma palavra do que diziam. A tensão estava nos gestos.

Não era como se estivesse esperando um banquete de recepção, mas ele estava sujo, cansado e ansioso, queria somente que aquilo se resolvesse logo para que pudesse achar um local para montar acampamento, dentro ou fora da aldeia, e começar a pensar no próximo passo.

Se ele estava ansiando pelo desenrolar daquilo tudo, não era nada se comparada à inquietação do capitão. Potter. Harry. O oficial da marinha enviado pela coroa inglesa como responsável por aquela empreitada. Empreitada financiada pela família Malfoy. O que colocava os dois em uma situação delicada naquele momento.

O uniforme inevitavelmente desalinhado, a mão rústica pousada sobre o cabo da espada à cintura, o cenho franzido sob os cabelos negros bagunçados, os olhos firmes examinando o negro alto com quem Granger conversava, o pequeno sorriso duro e sério ao homem ruivo que se juntara ao grupo.

E um sorriso recebido de volta.

- Não vai demorar muito. – Draco avisou e ouviu o suspiro pesado de Longbottom antes que o biólogo sentasse sobre a própria bagagem, cruzando os braços contra o peito.

Logo o grupo se dissipou e Potter e Granger se juntaram a eles.

- Acho que não vamos ter problemas. – Hermione esclareceu rapidamente, fazendo com que todos soltassem a respiração, aliviados – Bem, não enquanto mantivermos o que foi combinado, eu acho, não acredito que alguém iria investir contra nós gratuitamente neste momento.

- Hum. E o que foi combinado? – Draco perguntou, muito pouco seguro com a situação.

- Eu disse que estamos estudando a região. O grupo é pequeno, - ela sorriu para Draco – foi realmente prudente ter deixado a maior parte da tripulação no navio, eles nos atacariam imediatamente se alguém como o Moody pusesse os pés aqui. E minha presença e a de Neville, como pesquisadores e não militares, deram segurança para eles. Temos liberdade para acampar e transitar do litoral até o rio, a área de domínio dessa tribo. Ninguém nos garante segurança se atravessarmos o rio ou cruzarmos as montanhas ao norte.

Enquanto Granger falava, Potter pegou um galho e começou a riscar algo como um mapa precário no chão. Ele parecia calmo, estranhamente paciente deixando que Granger desse as explicações. Estavam bem colocados, pelo visto.

- Segundo o que o Sr Weasley disse, – Granger continuou, encarando de forma significativa um por um dos oito ingleses componentes da expedição – deve ser o suficiente.

O suficiente para o que vieram fazer ali. E não era somente pegar mudas de plantas locais, como pensava Longbottom.

- Sr Weasley? – Finningan perguntou, confuso – Isso é nome de nativo?

- Eles são holandeses. Ainda não sei há quanto tempo estão aqui, mas parece não ser o único assentamento de colonos. Este é pequeno, deve haver umas vinte pessoas, no máximo, e parecem pertencer todos a uma única família. Eles e dois dos nativos, o líder Kingsley e um rapaz chamado Zabini, falam inglês fluentemente e podem nos ajudar a montar um plano de... atividades.

- Precisamos descobrir quantos são ao todo, nativos e colonos, qual é a tribo amiga mais próxima e que tipo de comunicação há entre eles. – Harry começou a dizer, olhando para Crabbe e Goyle, dois dos poucos oficiais que os acompanhavam - Enquanto isso, preciso melhorar esse mapa e saber exatamente onde estamos e quais as vias mais rápidas de se chegar e sair daqui. – ele circulou com o galho a figura da montanha que havia desenhado no chão, e olhou significativamente para os dois homens que trouxera de seu regimento: Finningan e Thomas, que assentiram com firmeza – Ótimo. Vamos montar acampamento e começar a trabalhar.

O grupo se dispersou, pegando a bagagem deixada no chão e se dirigindo a uma parte da clareira ocupada pela pequena vila em que havia espaço suficiente para erguerem as barracas. Mal haviam começado, porém, quando um homem se aproximou, os observando de longe.

- Posso ajudar? – o capitão deixou suas atividades, se aproximando do ruivo, mais alto que ele. Os olhos azuis o examinaram por longos segundos antes que ele estendesse a mão.

- Ronald Weasley. – ele se apresentou, apertando a mão de Harry – Meu pai, você o conheceu antes, – Harry concordou com um aceno de cabeça – ele me enviou para convidar a dama que está com vocês, Srta Granger, para ficar hospedada em nossa casa. - ele pareceu corar quando Hermione se aproximou ao ouvir seu nome, e acrescentou em um tom baixo – Mais confortável.

- É muito gentil, senhor Weasley. – ela lhe sorriu, olhando as moradias precárias erguidas mais além.

- Chama isso de casa? – Malfoy perguntou, enojado, ganhando um olhar feroz em azul.

- Você pode ficar com sua lona. – acrescentou com visível satisfação olhando a barraca ainda não erguida do loiro – Espere pela primeira chuva. Tem chovido toda tarde.

- Desculpe a grosseria do senhor Malfoy. – Harry assumiu a conversa, fazendo um sinal para Draco, que deu as costas ao grupo, irritado – Então você é filho do Sr Weasley. Se me permite, eu gostaria de conhecer sua família, sabe, para... me familiarizar com as pessoas daqui.

- Claro. – ele lhe sorriu, e os três saíram caminhando lado a lado.

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Harry afastou parte da lona da barraca para poder entrar e parou examinando o interior da tenda. Havia dois montes de grama seca cobertos por lençóis brancos, e ele supôs que um lhe serviria de cama por um bom tempo, sua bagagem e a do loiro estavam empilhadas em um outro canto, e havia também algo parecido com uma mesa baixa – uma tábua sobre tocos de madeira – próximo à entrada. Draco fizera um bom trabalho. Ele estava de pé, reforçando as amarras internas da estrutura que segurava a lona.

- Resolveu aparecer, capitão? – e estava irritado.

Harry se aproximou, passando as mãos sobre seus ombros e depositando um beijo rápido no pescoço branco.

- Sentiu minha falta? – perguntou com ironia.

- Suas coisas sentiram. E elas concluíram sozinhas que eu deveria arrumá-las junto com as minhas.

- E coincidentemente ficamos na mesma tenda.

- Bem, a doutora se juntou aos selvagens, Finningan e Thomas preferiram ficar juntos, assim como Crabbe e Goyle e Neville e suas plantas esquisitas. Como tínhamos duas barracas sobrando, achei que não se importaria de dividirmos o mesmo espaço para que a outra se converta em algo como um depósito ou escritório ou ambos.

Harry o forçou a se virar e beijou os lábios do loiro de leve, cortando o monólogo.

- Obrigado.

Draco se desvencilhou, se jogando em uma das camas.

- Se cansou de confraternizar com o inimigo? Ou ele só oferece cama para donzelas?

- Você sabe que eu não confio no trabalho de Crabbe e Goyle. Fui colher informações.

- E aí?

- E aí que o tal Ronald é realmente interessante. – Harry se abaixou quando o cantil de água se projetou em sua direção – Como pessoa. O suficiente para conversar.

- E falaram sobre o que?

- A família dele. Há 15 brancos hoje na aldeia, vindos da Dinamarca e da Holanda, protestantes. Saíram em busca de maior liberdade e se fixaram na terra, fizeram vida aqui, não vão sair fácil.

- Isso te preocupa? Vai ser inevitável.

- Eu sei. – Harry parou em silêncio por algum tempo, antes de continuar - Arthur e Molly, os pais do Ron, lideram a aldeia. O filho mais velho, Bill, é casado com uma dinamarquesa, Fleur, que está grávida, os pais dela moram aqui também, mas vieram de outro lugar. Charles e os gêmeos, Fred e George, não estão aqui no momento, parecem que foram negociar algo, e eu acho que não voltam antes de terminarmos com tudo. Fora eles têm ainda Percy, e os caçulas Ron e Ginny. Além dos Weasleys, há um casal de dinamarqueses com um bebê.

- Pelo visto não vamos ter problemas aqui. Com tão poucas mulheres, eles não vão ter dificuldade em entender dois homens juntos.

Harry suspirou, se deitando também.

- Eu não contaria com isso.

- E os selvagens? – Draco perguntou, tentando mudar de assunto ao ver a tristeza do moreno.

- São poucos também. Eu consegui contar 23, sendo 8 mulheres e duas crianças, mas eles falam menos e observam mais. E nos avisaram para evitarmos sair à noite, a clareira vai estar iluminada, mas há animais por perto.

- Eu vi alguns com os selvagens hoje. Foi o suficiente para mim.

Harry concordou com a cabeça e ficou em silêncio. Draco se incomodou com aquilo, indo se sentar ao lado do outro.

- O que houve?

- Eu não gosto desse lugar.

- Oh. Um calor infernal, condições de vida precárias, cheiro de merda no ar o tempo todo, gente hostil que mal sabe falar nossa língua. Não vejo porque você não gosta daqui, é um lugar maravilhoso.

- Não, não é isso. É só que... – os olhos verdes buscaram os de Draco e sua voz se abaixou – Eu estou com um mau pressentimento.

- Ok, eu vou por isso na conta do excesso de sol.

- Não... é... só...

Draco o beijou rapidamente, o calando.

- É por pouco tempo, Harry. Nós já chegamos, a parte difícil, que era achar o lugar, já passou. Agora é encontrar os diamantes, avisar seu comandante e sair da linha de tiro o mais rápido possível. Você vai ver. Eu vou voltar para a Inglaterra como um homem muito rico.

- Você é rico, Draco.

- Muito mais rico. E você, famoso, respeitado, com uma patente realmente alta, como o capitão que conduziu nossa nação a uma nova fonte de riqueza. E aí ninguém mais vai poder dizer nada, Harry. – ele apoiou o queixo no ombro do moreno, falando mais baixo – Eu vou morar com você e vou te amar até você desmaiar, e foda-se a corte dos nobres ou o parlamento ou a marinha. Nós vamos ser felizes.

- Foda-se o seu pai? – Harry perguntou, rindo.

- Meu pai vai estar lapidando as pedras gigantes que eu vou jogar na mesa dele, ele nem vai nos notar.

Harry o puxou para um beijo e o impediu de se afastar, deitando na cama e o trazendo junto, fazendo-o se acomodar sobre seu corpo sem romper o contato entre as bocas. Draco aprofundou o beijo, acomodando uma de suas pernas entre as do moreno e correndo a mão sob o uniforme do outro, sentindo-o suspirar em meio ao beijo.

- Draco... – Harry rompeu o contato, hesitante.

- Harry... – o loiro gemeu, começando a beijar o pescoço do outro, tentando desabotoar a camisa. Mas o moreno deslizou de sob seu corpo, se encolhendo, e Draco parou, procurando normalizar a respiração – Ok.

Ele se sentou, arrumando o cabelo, para em seguida se levantar e ir deitar na outra cama.

- Eu não quero fazer isso com você em um beco escuro ou no porão de um navio ou no chão poeirento de uma terra estranha, Draco. Eu não sou um rato para ficar me escondendo ou fazer isso e ser visto como lixo depois.

- Não, você é capitão da marinha inglesa e eu sou filho de um nobre, então vamos dormir, porque eu quero acordar cedo e voltar para casa o mais rápido possível. – Draco falou com certa irritação, mas sorriu para o moreno antes de se acomodar.

Harry sorriu e adormeceu olhando o loiro dormir.

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Uma vez no lugar onde queriam chegar, era só uma questão de cada um tomar sua posição naquele sistema que eles haviam criado silenciosamente.

Neville fora o primeiro a se sentir à vontade no novo ambiente: na manhã seguinte conversara com o chefe da tribo, que designou Zabini para acompanhar o biólogo pela mata, onde pretendia colher amostras nativas. Hermione também circulava livremente entre os negros e os Weasleys, acompanhada de Harry. Segundo ele, estavam colhendo informações para chegar à montanha. Seamus e Dean cuidavam da exploração de solo e Draco não duvidava de que em alguns dias teriam uma trilha para o cume.

Mas ele tinha seu próprio jeito de trabalhar.

Harry podia não confiar em Crabbe e Goyle alegando que ambos eram ambiciosos e lerdos demais ao mesmo tempo, uma combinação perigosa em soldados, especialmente com o fato de que eles não eram do seu regimento e, logo, não sabia até que ponto seriam realmente fiéis. Mas o loiro sabia que isso somente facilitava seu trabalho.

Ele queria diamantes. Os diamantes provavelmente estariam na montanha. Então ele precisava entrar na montanha. Para isso precisava de um mapa. Potter preferia fazer isso detalhadamente, conversando com quem conhecia a região. Ele preferia fazer isso de forma prática: enviando Crabbe e Goyle na frente para abrir as trilhas, e, com isso, montar seu próprio mapa.

- O que você está fazendo?

Draco borrou o traçado firme que tentava manter na folha fina de papel retratando a montanha segundo os dados que já tinha conseguido acumular. Os olhos duros captaram a estranha figura a sua frente. Era ruiva, um tanto quanto suja, ou queimada de sol, ou sardenta demais mesmo, mas definitivamente usava saias, e era a primeira criatura do tipo que via naquele lugar.

- Te interessa? – perguntou em voz baixa, voltando ao seu trabalho.

- Sou Ginny Weasley. – ela se aproximou, para desgosto do outro.

- Eu supus. – ele manteve o silêncio, analisando como concertar o borrão em seu mapa, quando o olhar da garota começou a incomodá-lo, o obrigando a encarar de volta, questionador. As sobrancelhas erguidas em um desafio familiar lhe disseram o que ela esperava – Draco Malfoy. – respondeu com tédio.

- Harry falou de você. – ela respondeu sorrindo de uma forma diferente. E isso, somado ao uso quase íntimo do termo "Harry", fez, finalmente, Draco parar o que fazia e voltar sua atenção completamente para a garota.

- Falou? – perguntou com o tom de desafio agora expresso na voz e nos braços cruzados sobre o peito.

- Sim. O explorador. – havia desprezo na última palavra – Espero realmente que seja só um título. Não há nada para ser explorado aqui.

- Talvez você simplesmente não tenha descoberto ainda. – ele se virou de costas para a garota, voltando ao mapa, dando a conversa por encerrada.

Mas Ginny ainda estava ali, parada ao seu lado, e ao receber o olhar reprovador do loiro como uma dispensa, ela simplesmente apontou para o mapa.

- Não mexa com a montanha.

- Por quê? Alguém já a comprou, por um acaso?

O som de desprezo emitido pela garota antes que ela lhe desse as costas e o deixasse fez Draco rir. Tudo o que ele precisava era de mais hostilidade naquele lugar.

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¹ Hel: inferno em africâner, segundo o Google.

NA: É, pinhão, eu avisei. Sim, ta DG lá em cima, e DG virá, mas é fic minha, né, vc realmente esperava algo diferente? :rolleyes:

Enfim, o que estão achando? XD

Próximo capítulo – ainda não escrito – daqui a 15 dias, pessoas.

Beijos!