CAPÍTULO DOIS
O dia da mudança foi sopa no mel. Claro, só pode ser assim se todas as suas posses materiais cabem dentro de três caixas. Tirando a decrépita cama dupla para a qual Sasuke lançou um olhar de profundo desdém, o que não era muito estilo dele. Ela não gostava que ele ficasse julgando os bens que tinha, ou a falta deles, de modo que Sakura reclamou um pouco mais do que teria reclamado se ele não tivesse olhado daquele jeito.
Janice, com quem dividira o apartamento, já havia se mudado, e o espaço estava deprimentemente vazio. Sakura ignorou a sensação igualmente deprimente nas pró prias vísceras. Mudar era sempre uma nova aventura. Outra mudança de endereço e outra aventura dissipada.
Pelo menos uma vez, ela queria sentir que estava mudando de endereço por uma boa razão, que seria algo positivo, motivo de orgulho.
Sasuke, sem sentir o turbilhão emocional de Sakura (o que era típico dos homens), caminhou de um lado para outro, olhando a frágil armação de metal e cutucou o colchão com o dedo.
— Isto aqui é a sua cama?
Era estupidez se aborrecer por causa de um colchão que devia estar na lata de lixo, mas ao ver Sasuke fazendo um inventário mental da vida dela a lembrava do quanto ainda tinha de conquistar.
— Um colchão leve é mais fácil de transportar.
— Ela o jogou sobre um dos ombros para demonstrar.
— Viu?
Ele não arredou pé.
— Isto não vai lá pra casa.
— É a minha cama. Onde vou dormir? Gentilmente, Sasuke desarmou o aperto firme dos de dos dela no colchão.
— Vou comprar um colchão tipo futon para você.
—Detesto estes colchões — ela começou, mas parou e deu um suspiro. Não havia razão para mentir, ela ado rava esse tipo de colchão. — Não quero que você fique comprando móveis para mim. Eu posso comprar. — E podia. A poupança estava surpreendentemente fornida, considerando a falta de móveis e roupas da moda. Sakura tinha prioridades. Em outras palavras, o perfeito apar tamento de um quarto no edifício Hudson Towers.
E era perfeito. Um edifício anterior à guerra na avenida West End, Com um conselho de condôminos que por um lado barrava a entrada de canalhas em ge ral, mas por outro nem era tão rígido assim. Aluguéis razoáveis e taxas de manutenção em média sete por cento mais baixas que o padrão. Haviam reformado as áreas comuns quatro anos antes, ampliando o uso das janelas e iluminação natural. O lugar tinha um portei ro que fazia meio-expediente, Rodney, o que era bem mais sensato do que contratar um porteiro em tempo integral para passar o dia todo com o traseiro na cadei ra e encarecer o valor dos aluguéis.
Ah, um dia...
— Tem certeza de que pode comprar uma cama? — Sasuke perguntou, afastando-a das fantasias de apar tamentos. Ela não havia planejado comprar uma cama nova, mas a velha estava nas últimas, literalmente. Ela fez que sim com a cabeça e ele jogou o colchão no canto.
Então ela pegou um engradado e foi em direção à porta.
— Primeira regra básica: não ficar mais zombando das coisas de Sakura. Respeite os limites e nos daremos bem.
Ele abriu a porta para ela, seguindo educadamente atrás.
— Combinado. Agora vamos para casa.
O edifício de Sasuke era pós-guerra, tinha elevador e ficava no Upper East Side. O exterior era um pouqui nho anos 70 demais para o gosto dela, mas como ele já possuía aquele imóvel fazia dez anos e certamente es tava na casa dos sete dígitos, ela achou que devia dar um desconto. Por causo disto, mais a total economia de aluguel, já que era de graça. Aquela foi outra dis cussão na qual ela perdeu. Todavia, como prêmio de consolação, ele deixaria que ela comprasse o almoço.
Havia um porteiro em horário integral, Herb, que ti nha tantos esteróides no corpo que o rosto exibia uma sombra permanente da barba sempre nascendo. Quan do chegaram ao andar de Sasuke ela reparou na bela vista, sem edifícios-garagem bloqueando a paisagem do East River.
No geral, o apartamento era como ela imaginava. Um legítimo dois-quartos, não um daqueles aparta mentos de um quarto grande transformado em dois. A sala principal tinha todas as coisas básicas e essen ciais: televisão, sofá e mesa de jantar, em sua maior parte coberta por jornais. A cozinha era estilo cozinha de navio e certamente não dava para dois. Todavia, os utensílios estavam mais ao alcance das mãos do que ela estava acostumada.
— Você consegue morar aqui? — ele perguntou, depois que ela examinou quarto por quarto.
Ela caminhou ao redor, pensativa, mantendo uma expressão neutra no rosto, querendo deixá-lo nervoso.
— Sim — respondeu baixinho.
Ele se encostou à parede, bem longe dela, mas não o bastante. Ela estava acostumada a ele no trabalho, mas agora a sensação era outra. Mais íntima. Se não fosse aquela aposta idiota, ela nem mesmo estaria ner vosa.
Houve um silêncio, um silêncio desconfortável. Um silêncio que ela normalmente teria preenchido, a não ser pelo fato de que sabia que ele não iria reparar, já que ela nunca foi de muita conversa fiada. Ele cru zou os braços sobre o peito, sem parecer minimamen te afetado. É claro que estava acostumado ao silêncio. Estava acostumado a morar sozinho. Ele. Sasuke.
Sakura sentiu de novo: um súbito sobressalto no es tômago, como se estivesse voando ladeira abaixo. Ela procurou afastar a sensação. A vida era muito cheia de altos e baixos e esquinas barulhentas, e ela não deixaria frio crônico na barriga arruinar tudo. Aquilo era temporário. Muito em breve ela sairia da cola de Sasuke. Pôs um sorriso atrevido no rosto e olhou para os lados, para qualquer parte que não para ele.
— Está ótimo. Escute, eu preciso estudar — ela dis se, e saiu prontamente do recinto.
Quatro horas depois ela já estava pronta, sentada no colchão futon novinho em folha. Foi pega de sur presa pela centelha de medo que sentiu mais cedo. E não era só medo. Não, era o terrível medo dos homens. As implicações de morar com Sasuke haviam subita mente lhe atingido em lugares onde ela não gostaria de senti-las.
Denny fora o único homem com quem ela morou na vida, e naqueles dias de juventude e inocência ele a convencera de que não precisava se preocupar com o futuro. Faculdade? Nada disso. Se ela simplesmen te se casasse com Denny Ericson, todos os sonhos se tornariam realidade. Então Sakura adiou a universi dade, pegou um emprego de meio-expediente como bartender e começou a passar os dias se bronzeando nas praias ensolaradas da Flórida. Mas então chegou o aniversário de 22 anos. Denny disse a ela que a re lação tinha ficado sem-graça e que ele estava pronto para partir para outra, pois ficar com uma mulher só a vida inteira não fazia o tipo dele. Mandou-a pastar aos 22 anos.
Sonhos podiam se realizar? Pois sim. Pesadelos, isso sim.
Desnecessário dizer que os últimos quatro anos se passaram sem homem nenhum. Nada de compromis sos, nada de sonhar com homens e, sim, houve mo mentos em que ela sentiu impulsos passageiros, mas nada que durasse. Na condição de bartender, é de se esperar cantadas de alguns fregueses. Aprende-se a re primir os desejos ou a satisfazê-los. Sakura sempre foi de reprimi-los.
E, para ser honesta, também tinha desejos por Sasuke, pois, bem, ela não era nenhuma cega, nem idiota, e ele era...
Ah, Deus. Morar com ele ia destruir-lhe a concen tração nos estudos.
Até o quarto dela transbordava a presença dele, e ele nem estava lá. Ela sentiu-se como uma intrusa nes te lugar que era tão obviamente dele.
Havia uma mesa de metal no canto, cheia de fo tos da família Uchiha e papéis empilhados quase até o teto. Perto da janela, um banco de levantamento de peso e no outro canto uma coleção monstruosa de vinis dentro de caixas. A primeira coisa em que ela pensou foi dar uma olhadinha, mas isso seria uma vio lação de todas as regras de privacidade que ela tanto prezava ao dividir apartamento com alguém.
Não, ela ia estudar, então Sakura cobriu o rosto com o livro de contabilidade, bloqueando todas as tenta ções. No final, seu método "fundo de amortização" de depreciação a trouxe de volta à fria e monótona realidade. E então, para trazê-la de volta à realidade de vez, a mãe dela ligou.
— Oi, mãe — ela disse, parando de fingir que esta va estudando para dar uma olhada nas fotos da família Uchiha.
— Como soube que era eu? Estava pensando em sua mãe favorita?
— Identificador de chamadas, mãe. — Sua mãe era uma ferrenha opositora da tecnologia, mas Sakura a perdoava por isto.
— Seu telefone foi desligado.
Soltando um pesado e audível suspiro, Sakura pôs na mesa o porta-retrato com a foto de três garotos more nos em uniformes da Little League.
— Eu me mudei, mãe — ela disse, e gesticulou com os lábios a pergunta "de novo".
— De novo? Argh.
— Mãe, você não entende o mercado imobiliário de Manhattan. Os aluguéis estão sempre mudando, as taxas aumentam, os aluguéis passam a ser controlados por cooperativas do dia para a noite. Você tem que ficar ligada, pronta para lidar com qualquer situação que apareça.
— Isso implica que a pessoa possa lidar com o que quer que apareça.
— Quanto tempo faz que eu moro sozinha?
— Você está em Nova York faz quatro anos, mas nunca morou sozinha. Devia voltar para a Flórida, querida. Sua família está aqui e pode lhe ajudar.
Sakura voltou para o conforto do futon e encostou a cabeça na parte de madeira. Aquele papo era mais batido do que andar para frente.
— Obrigada, mãe, mas não. Amo você, a Flórida é ótima, mas estou bem aqui. Honestamente.
— É que eu fico preocupada. Se algo acontecer, quem vai tomar conta de você? Está comendo direito?
— Carne defumada e pão de centeio no almoço.
— Está dormindo direito?
— Ah, sim — Sakura respondeu, contendo um bo cejo.
— E como vão as aulas? — A mãe jamais aprovara a insistência de Sakura em se formar, o que só signifi cava uma coisa: havia algum motivo oculto para esta conversa, e ela provavelmente não ia gostar nada des te motivo.
Hora de passar da energia negativa para algo posi tivo, como desligar.
—Vão bem. Escute, mãe, eu tenho prova esta sema na e preciso estudar. Nós nos falamos depois. Tchau.
Por não gostar da idéia de ficar mentindo para a mãe, abriu o livro de contabilidade e voltou a ler. Entretanto, a concentração estava voltada para outra parte, fuçando a coleção de discos dele, olhando as fotos. Em suma, sendo aquilo que ela mais detestava, ou seja, uma enxerida. De modo que sakura encheu a bolsa de livros, enfiou umas sandálias de dedo nos pés e foi até a porta.
Dormindo tranqüilamente no sofá da sala, sem uma preocupação na vida, estava a fonte da falta de con centração dela. Devia ser maravilhoso tirar uma so neca à tarde. Os lábios se curvaram em um sorriso enquanto ela o observou dormir. Ele era a única coisa constante na vida dela desde que se mudara para Nova York, mas jamais o vira dormir. O peito dele levantava e abaixava ao respirar, com um ronco confortável, bai xo e constante. Ela tinha de zombar dele depois des sa. Havia uma manta pendurada em um dos braços do sofá, com a qual ela o cobriu.
Instantaneamente os olhos azuis nebulosos se abri ram.
— Algum problema?
Sakura deu um pulo para trás, flagrada com a boca na botija, invadindo o espaço dele.
— Estou indo para o Starbucks.
Sasuke pareceu não perceber a transgressão dela e es fregou a testa com dois dedos.
— Ótimo. Pode me trazer um café?
— Vou estudar e depois vou direto para a aula. Ele sentou-se, jogando a manta para o lado e Sakura deu outro passo para trás. Uau, onze metros quadrados podia não significar nada às vezes.
— Pode estudar aqui. Instale-se na mesa ou na es crivaninha do quarto dos fundos. Posso pôr minhas coisas no chão.
— Estou com dificuldade de concentração. É uma tática de autodisciplina. Quando vou à cafeteria, sei que estou lá para estudar.
— Algumas pessoas vão lá para tomar café. Plebe que não sabe de nada.
Ela quase lhe passou um pito, mas ele levantou a mão.
— Já sei, já sei. Não vou me meter. Espaço pessoal. Desculpe. Isso é novidade para mim. E quanto ao jan tar? Estou pensando em massa ou comida tailandesa.
— Não se preocupe comigo. Vou comer um sanduí che depois da aula. E, para sua informação, volto lá pelas sete, caso você queira sair e, ahn, arrumar com panhia ou algo assim.
Ele contorceu os lábios.
— Claro.
A aula de contabilidade de Sakura era na Universi dade Knightsbridge em Queens, que dava vista para a Baía de Flushing. Quarenta pessoas na turma. Alunos jovens, alunos velhos, uma ampla variedade étnica de todas as classes. Sakura jamais duvidou da própria ca pacidade de se dar bem até de olhos fechados naquela aula, mas...
A prova da semana anterior fora a primeira do menu, e o professor Lewis ficava andando para lá e para cá entre as fileiras, entregando papéis sem um sorriso nem um cenho franzido. Ao chegar perto de Sakura, ele franziu o cenho.
Ela franziu também.
A cara feia dele ficou ainda pior ao ver o gordo e vermelho "D" rabiscado no alto da prova. Aquilo ti nha de ser um engano, porque ser reprovada não esta va nos planos dela.
Ela esperou pacientemente enquanto ouvia a bron ca, certificando-se de que tinha lido direito. Quem sabe não era um "B" mal desenhado? Mas não, não havia engano algum.
Depois que o relógio marcou a hora de saída e os colegas de sala começaram a sair, Sakura foi até a mesa do professor com pernas levemente bambas, procurando lembrar-se de que encarava bêbados agressivos às três da madrugada. Aquilo não seria problema. O professor Lewis já passara bastante da meia-idade, ti nha um rosto magro e avermelhado, que indicava um longo caso de amor com uísque, provavelmente.
— Gostaria de falar com o senhor sobre a prova — disse Sakura, dando abertura para que ele imediata mente corrigisse a nota.
Ele deu uma longa olhada para o relógio, como se estivesse pronto para sair, e então começou a bater com a caneta-borracha na mesa. Sinto muito, colega.
— Não há muito que dizer, srta. Haruno. Você se atra palhou com conceitos elementares. Fiquei horrivel mente decepcionado com seu trabalho. Abaixo da crí tica. Tem certeza de que estudou?
— O resto do pessoal também não se saiu igual mente mal? — ela perguntou, pois passara três dias repassando fórmulas e podia sentir a pressão subindo, talvez de raiva, mas mais provavelmente de mortal ansiedade.
— Na verdade, a média geral foi bem alta. Ou seja, a nota era "D", mesmo. Droga. A pressão aumentou ainda mais.
— Escute, acho que o senhor não entendeu — ela disse, tentando não deixar a voz ficar embargada. — Não posso tirar "C" nesta matéria, muito menos "D". Tem de ser "A" ou "B", porque se eu sair da univer sidade com um coeficiente do aproveitamento baixo, ninguém vai me aceitar. E a esta altura da minha vida eu realmente preciso fazer planos para depois de me formar. Preciso de um futuro. Preciso de uma carreira.
— Já passei por isso.
Ah, aposto que já. Típico bebedor de uísque, sem pre pensando em si.
— Posso resolver isso de alguma forma?
— Estude bastante para a prova final, srta. Haruno. As sim as notas em seu diploma ficarão limpas.
Sakura enfiou a prova no fundo da bolsa de livros.
— Obrigada — ela murmurou trincando os dentes, e saiu.
A faculdade não era para ser tão difícil assim. Ela tinha sido aluna exemplar no segundo grau. Aquela era uma faculdade que não chegava a quatro anos de curso. Todos lhe disseram que seria fácil. Sean disse que ela ia concluir o curso com louvor. Então por que estava tendo problemas?
Sakura pensou em voltar para o apartamento de Sasuke, mas ainda não estava em pleno controle. Apro va estava abrindo um buraco de fogo na bolsa. Ela teria de dar um jeito de convencê-lo que estava tudo às mil maravilhas. Então agiu como sempre fazia quando queria retomar o controle: fez a turnê de apartamentos de Manhattan.
Começou pegando a direção sul, Quinta Avenida abaixo, com o sol poente cintilando nas janelas. O edifício favorito dela era o San Remo, com as duas torres brancas ornamentadas que ficavam de guarda sobre o Central Park. Era pura art deco, com a classe dos anos 30, a grande dama dos edifícios controlados por cooperativa. Velho, com uma história mais antiga que a do Carnegie.
Diziam que o conselho do condomínio era menos ri goroso que o do Dakota, mas eles rejeitaram Madonna como proprietária nos anos 80, de modo que mantinham alguns critérios básicos. Havia porteiro noite e dia, uma superabundância de seis ou sete clássicas plantas por andar e um estonteante arco de pedra calcária que se abria sobre a entrada como uma águia majestosa.
Dois quarteirões ao sul ficava o Dakota, "o" ende reço em Nova York. As pessoas que moravam lá pro curavam um endereço, um destino na vida. Pessoal mente, Sakura achava o edifício supervalorizado, pois parecia mais uma prisão medieval do que um lugar de morar. Não havia personalidade, apenas enfeites exagerados. Quando o sol já havia se posto, ela pas sou pelo edifício Beresford, Central Park West, 740, e pelo Ardsley. Estes eram os edifícios que desafiavam a gravidade no mercado imobiliário.
Aqueles prédios não eram para ela, não tinham o charme simples do edifício Hudson Towers, mas eram símbolos da cidade. Homem nenhum seria capaz de desfazer as raízes que foram estabelecidas tanto tem po atrás. Olhando para as fachadas de pedra que vi ram passar tantos anos, tantas mudanças, Sakura sentiu o calmo retorno.
Ela estava lá. Ela ia conseguir.
Ia sobreviver.
Era hora de ir para casa. Ao entrar no edifício de Sasuke, o celular tocou outra vez. Desta vez era o ir mão, Sasori. Agora Sakura estava começando a ficar desconfiada, de modo que sentou-se em uma cadeira na portaria para atender. Sim, a família podia ser excessivamente protetora às vezes, mas não era de falar demais.
— Por que está me ligando apenas três horas depois de nossa mãe?
— Por nada. Só queria saber como você vai.
— Estou bem. Por que não estaria bem, Sasori? Por que você acha que eu não estaria bem?
— Não posso ligar para minha irmã para saber como estão as coisas?
— Não, porque você não gosta de ficar conversan do. Você não é de se comunicar, a não ser que seja uma emergência.
Tessa ouviu um longo suspiro, o que significava que ela estava chegando perto.
— Não é nada.
— Diga para mim exatamente que nada é este.
— Tudo bem. É Denny.
Denny. O ex-namorado com quem morou. Nada demais.
— A namorada dele está grávida. Eles vão se casar. E agora Denny, o ex-namorado com quem morou, ia virar Papai Denny. Tudo bem que ele não quisesse se amarrar e ter filhos quatro anos atrás. Mas agora? Ah, agora o esperma dele estava voando pelo planeta todo, procriando feliz da vida por vontade própria.
— Que ótimo — Sakura disse, sabendo que ele espe rava que ela dissesse algo; ou que ficasse arrasada.
— Você está levando a notícia numa boa.
— Claro que estou levando numa boa. Faz quatro anos, Sasori. O tempo cura tudo e minhas feridas já cicatrizaram. Estou tocando minha vida. Mamãe lhe contou que me mudei hoje? O lugar é ótimo. Dois quartos. Porteiro. Fica em um ponto ótimo no Upper East Side. Nunca morei aqui, nunca achei que fizesse o tipo Upper East, mas acho que vou gostar. — Ela já estava divagando, mas Sasori não perceberia.
— Então tudo bem. Estávamos preocupados.
— Comigo? Que saco! Parem de se preocupar — ela disse e desligou antes que o rosto se desfizesse em milhões de pedaços.
Pelos últimos quatro anos ela manteve o foco em apenas uma coisa: se sustentar. Não teve tempo para homens nem para relacionamentos, estas coisas não estavam em seus planos. E lá na Flórida, na tranqüila e alegre Flórida, estava Denny, fazendo sexo com zilhares de mulheres, feliz da vida, sustentando a si, e agora também a esposa e o filho.
Que saco.
Ela acenou alegremente para Herb ao entrar no ele vador e sentiu a tentação de sair sozinha para algum lugar, qualquer lugar, para se divertir, para ver o que estava perdendo, mas estava cansada, queria deitar e precisava deitar na cama para nunca mais levantar.
No apartamento, Sasuke estava bebendo cerveja e assistindo ao jogo dos Yankees, que estavam ganhan do. Típico estilo de vida do americano solteiro. Um homem que não tinha de se preocupar com provas de contabilidade nem com relacionamentos fracassados, e que em geral levava a vida na flauta.
— Como foi a aula?
— Ótima — ela respondeu, e correu para o quarto, fechando a porta e se jogando na cama.
Ela não ia chorar, porque chorar era coisa de quem estava perdido, sem casa ou morava sozinho. Quando se mora com alguém, se aprende a sofrer em silêncio, escutando o coração bater com força, sabendo que as lágrimas estão próximas, mas que é preciso contro lá-las e contê-las. Ela pegou o livro de contabilidade, mas as lágrimas começaram a pingar nas páginas, e um livro molhado com certeza não lhe ajudaria em nada a conseguir o diploma.
Ela odiava Denny Ericcson profundamente. Odia va-o por fazê-la pensar que a vida estava resolvida para sempre, só para depois lhe puxar o tapete três anos depois. Ela tirou o cinto da calça jeans e viu a prova permanente da própria idiotice: uma tatuagem no traseiro. O nome D-E-N-N-Y desenhado com lin das letras vermelhas com um cacheado na ponta.
Argh.
Em vez de comemorar o terceiro ano juntos, ela ter minou começando tudo de novo. Era uma época em que a maioria das mulheres tinha a vida toda traçada. Sakura enxugou o rosto. Não ia dar a ele a satisfação das lágrimas. Não faria mais isso. É claro que não iria, de jeito nenhum, encarar o amigo com quem dividia apartamento com as bochechas quentes e vermelhas.
Saiu na surdina, pisando devagar no carpete ma cio do corredor para chegar à segurança do banheiro. Sakura levantou os olhos, se deparou com os olhos de Sasuke e foi direto ao toalete, batendo a porta depois de entrar.
