Agalma

Por Pearl-chan e FranHyuuga

Capítulo 02

"A aparência da dor"

Os olhos perolados dele eram libidinosos enquanto os dela, de igual tonalidade, eram ternos e medrosos. Hinata culpava-se por observar a beleza do marido naquele momento. Ela amava outro, mas não negava ter se casado com um belo homem, mesmo nestas circunstâncias.

Conforme Neji se aproximava, instintivamente Hinata distanciava-se com pequenos passos para trás na tentativa de afastar-se do olhar voraz que lhe era dirigido. O sorriso malicioso nos lábios bem desenhados do Hyuuga alargou-se ao observar sua esposa temerosa a cada passo dele.

As dúvidas consumiam os sentimentos de Hinata. Ele seria ruim com ela? Seria piedoso? Não sabia. Sentiu as costas baterem contra a cômoda branca; ela não tinha mais como fugir. Dentro de si a certeza de não ter escolha crescia, fazendo-a respirar pesadamente para relaxar e aceitar o que aconteceria daquele momento em diante.

Neji cessou seus passos antes que estivesse a meio metro de sua esposa. Uma das mãos envolveu o queixo e sua expressão era de alguém que avaliava um produto obtido.

- Saia desse canto e fique próxima da cama. – Ele disse em tom baixo e contido, muito embora a Hyuuga entendesse como uma ordem imperiosa.

Com passos vacilantes e lentos, ela se aproximou da cama fitando o chão e torcendo para que ele não fizesse nada em seguida, mesmo que isso fosse impossível.

Neji a observava com o olhar esbanjando malícia. Pensamentos nada ingênuos lhe invadiam a mente ao vê-la naqueles trajes provocantes. Nunca a tinha visto daquela maneira... Somente em seus sonhos. Muitas vezes por se dizer.

Ao chegar aos pés da cama, com a face angelical rubra, Hinata voltou-se lentamente em direção a Neji e outra vez seu olhar pousou sobre o torso talhado e a bermuda que o mesmo usava. Ela desejou sair daquele quarto e fugir para onde não houvessem aqueles olhos depravados sobre ela. Desejou gritar contra o que aconteceria! Mas, com um grande esforço, conteve-se.

Neji não esperou mais. Já havia avaliado o bastante o que possuiria naquela noite. Com passos pesados aproximou-se da esposa e estendeu o braço até que as pontas dos dedos escorregassem pelas costas femininas. Ao tocar nela pôde perceber um suspiro escapar por entre os lábios rosados que desejava. Não imaginou por nenhum segundo que poderia ser medo e pelo tom que este havia sido feito julgou que provavelmente ela estaria gostando.

Com suavidade Neji pousou as mãos sobre os ombros da prima e vagarosamente os massageou, percebendo que os músculos das costas da mesma estavam contraídos. Relaxando-os um pouco, conduziu os dedos até as alças da camisola que Hinata usava, escorregando-as pelos ombros, até que a mesma abandonasse o corpo feminino.

Ao cair da camisola, Hinata tremia. Estava nua perante o primo, trajando apenas a calcinha de renda preta. Nunca imaginou esta situação com outro homem que não fosse Shino. A lembrança do rosto de traços fortes e masculinos, com os olhos escondidos sob as lentes escuras dos óculos, acertou em cheio o coração machucado da Hyuuga. Ela fechou os olhos e buscou o ar que lhe faltava e assim, automaticamente, sentiu o perfume cítrico amadeirado de Neji muito próximo de si. Um cheiro diferente daquele que amava. Um cheiro pungente e inebriante.

Vislumbrar a prima naqueles trajes minúsculos fez Neji desejá-la ainda mais. Seu sexo demonstrava a necessidade fazê-la sua, latejando e exigindo maior ação. Logo, seus lábios tocaram o pescoço feminino e o Hyuuga inalou todo o perfume que a prima exalava. O cheiro dela era adocicado, leve... Pensou nas inúmeras noites em que imaginou como seria tal proximidade e neste momento só era capaz de reconhecer ser melhor do que qualquer fantasia que pudesse criar.

As preliminares se iniciavam. Os lábios de Neji eram exigentes sobre a pele alva do pescoço da esposa, sugando-o e prendendo-o entre os dentes em leves mordidas. Hinata nada fazia, mantendo-se imóvel como uma estátua sem vida. Apesar disso, Neji não se importava, pois enquanto ela o deixasse fazer o que quisesse seria o suficiente. Tudo nela lhe seria sempre suficiente.

O anseio de mostrar para Hinata que podia satisfazê-la começava a se tornar incontrolável. Ele desejava fazê-la notar ser mais que seu ex-namoradinho. Queria mostrar-se mais homem, o dono dela. Após aquela noite, ele sabia, Hinata jamais o veria apenas com sentimentos fraternais.

As sensações despertadas pelos toques impudicos de Neji sobre sua pele eram debilmente reprimidas. Hinata não era capaz de negar as reações de seu corpo às carícias do primo. O prazer parecia querer invadí-la e isso apenas a deixava com raiva de si mesma. Ela se tornava suja e desmerecia as memórias do amado que se mantinham fixadas em cada parte de sua pele. A mesma pele que pertencia a outro neste momento... Ao seu marido.

Uma lágrima escorreu de seus olhos ao notar que Neji estava realmente cumprindo o prometido, estava fazendo-a sua. Cerrou fortemente os olhos quando os lábios dele lhe cruzaram o pescoço, passando sobre a marca arroxeada que Shino lhe deixara. Imaginou que Neji fizesse de propósito, estimulando-a onde outrora os lábios de outro estavam. Não tardou para que o marido pressionasse sua boca à de Hinata. Ele a beijou com fervor e luxúria, mas ela não correspondeu à intimidade forçada. Aquilo incomodou o Hyuuga que logo afastou seus lábios dos dela e aproximou-os de seu ouvido, sussurrando:

- Corresponda, se não quiser que eu a obrigue.

Em seguida ela obedeceu, abraçando-o mesmo com repulsa, pois temia que algo pior lhe acontecesse caso não correspondesse. Encostou sua cabeça no peito do marido e olhou-o no rosto, sem se fixar nos olhos... Ele tomou providências de logo lhe roubar um beijo, desta vez menos exigente.

A língua aveludada explorava cada canto da boca da esposa, abstraindo seu sabor e reconhecendo o que era de seu domínio. A sensação de tê-la entregue em seus braços era indescritível. Não se tratava de um sentimento afetuoso, mas de algo que beirava o poder que se tem sobre algo valioso e caro. Algo pelo qual se desejou e, por fim, obteve-se. Hinata era um bem conquistado por Neji com certo custo e agora concederia a retribuição de todos os planos minuciosamente elaborados para tê-la.

O beijo continuou sôfrego enquanto as mãos masculinas dançavam pelas costas nuas e curvas sinuosas da fina cintura de Hinata. A pele era tão macia que Neji sentiu vontade de marcá-la toda apenas para afirmar sua posse.

Ele a deitou sobre a cama e não pôde deixar de notar quão bela Hinata ficava com seus cabelos negro-azulados esparramados sobre os lençóis brancos em um contraste que realçava sua perfeição.

Os lábios trilharam o pescoço já levemente rosado pela intensidade dos beijos e seguiram pelo colo até os seios fartos. Neji não hesitou ao lamber um dos seios enquanto a mão acariciava e apalpava o outro. Seus lábios sugavam e desenhavam o bico rijo em movimentos incessantes, deixando Hinata à mercê de um prazer que tentava impedir, mas que se tornava cada vez mais inevitável.

Um gemido involuntário soou pelos lábios de Hinata quando a mão do marido tocou sua feminilidade. A boca ainda tomava o seio enquanto os dedos massageavam a fenda úmida em um gesto depravado. A calcinha foi afastada para o lado deixando o contato livre para que Neji continuasse a excitá-la. Ele sorriu quando a viu fechar os olhos ao sentir ser penetrada por dois dedos que vagarosamente mexiam-se deixando-a ainda mais molhada.

Ao sentir a excitação de Hinata aumentar, Neji afastou-se e com as mãos habilidosas retirou a calcinha que impedia maior contato. Em seguida, a bermuda abandonou o corpo másculo revelando o membro rijo aos olhos assustados de Hinata. Os orbes perolados admiraram o corpo masculino com músculos bem desenhados, mas a mente vagava pelas lembranças de outro corpo que o coração sentia falta.

Neji aproximou-se da prima e beijou sua barriga, lambendo-lhe o umbigo e descendo ao ventre vagarosamente. A respiração quente arrepiou Hinata. O Hyuuga afastou as pernas da esposa e deu leves mordidas em suas coxas torneadas, aproximando-se ainda mais daquele ponto de perdição. Quando os lábios de seu primo tocaram a fenda íntima o prazer inundou-a ainda mais, fazendo-a abandonar a razão e deleitar-se às sensações de seu corpo. A língua de Neji era experiente e invadia-a de um jeito quente ao ritmo das carícias que seus dedos ágeis faziam sobre o clitóris pulsante. Foi neste momento que Hinata sentiu as contrações interiores fazerem seu corpo contorcer-se de prazer... Era seu primeiro orgasmo com o esposo.

O Hyuuga ainda lambeu-lhe novamente a fenda úmida antes de aproximar seu rosto ao de Hinata e vê-la corada após o orgasmo. A respiração ofegante fazia os seios tocarem o peito masculino e o suor sobre a tez alva tornava o cheiro adocicado ainda mais pungente. Era inebriante vê-la entregue e isso apenas aumentou o desejo de possuí-la e torná-la para sempre somente sua.

Em um gesto impensado, Neji ajeitou seu membro sobre a cavidade da esposa e penetrou-a com intensidade, fazendo-a gemer alto pela sensação de ser invadida tão fortemente. Uma dor aguda apossou-se de seu corpo, mas foi ignorada pelo marido que fazia movimentos firmes e exigentes. Aos poucos a dor reduziu e Hinata passou a sentir prazer novamente. Ela nunca havia imaginado como podia sentir-se tão dissociada como sentia-se naquele momento... Seu corpo correspondia aos gestos do esposo, mas sua mente vagava e parecia não estar presente para a defloração de seus sentimentos.

Com a voz rouca de excitação, Neji exclamou o nome da prima quando o gozo chegou. Ela sequer havia notado quanto tempo permaneceu sob os comandos de seu marido. Tampouco as lágrimas que pareciam presas em sua garganta, prontas para serem derramadas quando estivesse só.

Sentiu o peso sobre seu corpo abandoná-la enquanto Neji ajeitava-se ao seu lado e envolvia sua cintura trazendo-a para perto de si. Não havia palavras a serem ditas. Ela desejava que ele não tentasse iniciar um diálogo. Sentiu-se aliviada quando notou Neji adormecer em um sono profundo com o semblante satisfeito e tão logo conseguiu afastou-se dos braços do marido, deixando-se relaxar deitada na extremidade da enorme cama.

A atendente já não aguentava ver o jovem de óculos escuros beber. Era tarde, por volta das três da madrugada e havia pouquíssimas pessoas no bar. Estava acostumada a ver bêbados dos mais diversos tipos, mas aquele lhe parecia muito peculiar. Não sabia dizer se pelo fato dele não cessar um segundo entre um copo e outro ou se pela melancolia que parecia emanar de seu corpo.

Era possível também perceber o rosto dele inchado, mas não tinha certeza se pela bebida ou pelas lágrimas que algumas vezes via deslizarem sobre a face avermelhada. Questionou-se algumas vezes o motivo da bebedeira. Pela gravidade em que o jovem se encontrava, a causa seria possivelmente o amor, ou a falta dele. Sua experiência dizia: sempre que alguém chegava ao local e ficava naquelas condições era a mesma coisa. O maldito e desejado amor.

Ao lado de Shino, outro rapaz moreno estava sentado. No entanto, ao contrário do jovem silencioso, este falava demais e gritava não ter conseguido a mulher de sua vida. Os cabelos no famoso corte de "tigelinha" e as bochechas rubras lhe davam um ar cômico toda vez que ele ameaçava arrotar e soluçar.

- Eu a amo e ela nem me nota! Vou me afogar no copo de vodka. – O moreno trajando um extravagante terno verde gritava no bar e o Aburame apenas o observava, seguindo-o levando o copo de whisky aos lábios. – Ahhrr, eu quero ela de volta. – O cliente escandaloso falou alto levantando o copo como em um brinde impreciso, derramando o líquido transparente sobre a mesa do bar.

- Cala a boca. – Shino balbuciou com o cenho franzido. Em gestos desequilibrados devido ao seu estado deprimente indicava o copo vazio. – Mais bebida, a minha acabou.

A mulher seguiu até a mesa vagarosamente, com a garrafa em mãos, como todas as vezes seguidas daquela noite, mas cessou seus passos apenas para observar melhor aos dois homens. Era vergonhoso, ela pensou. A bebida não poderia ser a única saída de qualquer pessoa. Como dona de um bar, não devia pensar desta forma, mas já tomava as dores de seus clientes para si ao não serví-los de mais álcool.

- Cadê? – O moreno extravagante falava e soluçava, mas antes de poder contestar outra vez, outro homem adentrou no bar. Muito parecido com o cliente alcoolizado, o homem de traços marcantes e roupa verde também tinha seus cabelos negros em corte "tigelinha". As sobrancelhas graúdas estavam franzidas.

- Lee! – Ele gritou como um pai que sofria ao ver o filho em tal situação. – Vamos embora. Já está tarde para mais vodka.

- Só mais um copo. – O rapaz respondia batendo o copo sobre a mesa, indicando para que a mulher o enchesse com mais vodka para beber.

- Não. Vamos embora.

A mulher logo tomou a providência de retirar o copo entre as mãos de Lee e deixar a garrafa por sobre a mesa. Então, ajudou o homem esquisito a levar o provável filho até o carro que estava estacionado em frente ao bar. No percurso era possível ouvir as choramingas de Lee por "mais um copinho".

Diante dos orbes castanhos de Shino restou a garrafa e o copo vazio. Com o pouco de consciência que tinha, segurou a garrafa e despejou o líquido no copo, bebendo-o em um só gole. Podia sentir a bebida já não lhe queimar tanto a garganta quanto no primeiro gole, pois havia se acostumado. A angústia que apertava o peito, esmagando seu coração, no entanto em nada reduziu. Pensar no que Neji estaria fazendo com sua amada deixava-o impotente e entristecido. Era repulsivo sequer imaginar as mãos sujas sobre o corpo puro de sua amada. Nova lágrima rolou em seu rosto, caindo solitária sobre a madeira da mesa.

A mulher despedia-se de Lee e o homem esquisito que viera buscá-lo. Guardou o dinheiro da conta paga e caminhou para o interior do bar novamente, pensando haver somente um cliente para livrar-se. Mas, este parecia mais complexo, pois bebera mais tempo que o outro e com maior frequência uma vez que apenas bebia sem falar quase nada. Ao avistá-lo percebeu que no mesmo instante ele parecia passar mal. Não tardou para que sua cabeça caísse sobre a mesa. Shino estava inconsciente.

A atendente caminhou com passos lentos até ele, como se a situação fosse a mais comum do mundo. De fato, para ela, era. Já estava acostumada com bêbados de coração dilacerado chorando em seu bar todas as noites. Palpou-lhe os bolsos e de um deles tirou um celular. Procurou o número de alguém para o qual houvesse mais ligações e avistou o nome "Kiba". Ela telefonou para este sujeito e solicitou que viesse resgatar o amigo bêbado. Esta era "mais uma noite daquelas".

Em menos de meia hora, adentrava no bar um jovem bonito, com aparência selvagem e olhar bravo para o Aburame.

- Oe? Shino? – Falava enquanto dava tapas nas costas de Shino, esperando que ele recuperasse a consciência.

Shino, aos poucos, conseguiu abrir um dos olhos, vendo Kiba através da lente. O que ele fazia ali numa hora daquelas? Não sabia, mas era bom contar com alguém que confiava.

- Kiba. O que faz aqui? – Shino questionou com a voz arrastada e um breve fio de saliva escorrendo-lhe pelo canto dos lábios. Ele pegou o guardanapo à sua frente e limpou-se meio zonzo, sentindo tudo girar em sua volta.

- Vim te buscar, estúpido. – A voz de Kiba soou como se contasse algo óbvio enquanto com gestos tentava pedir à mulher que lhe ajudasse a levantar Shino para que jogasse o braço do amigo sobre seu pescoço.

- Eu nunca pensei que fosse ficar nessa situação. – Shino balbuciava enquanto era carregado por Kiba até o automóvel. O amigo deixou-o sentado sobre o banco do passageiro com a porta aberta e as pernas para fora. Retornou ao bar onde pagou a conta e comprou uma garrafa d'água.

- Pensei que nunca o veria beber um dia. – Kiba falava enquanto abria a garrafa e empurrava levemente o pescoço do amigo para baixo.

- Seu imbecil. – A voz pastosa de Shino xingou-o, mas não havia a mínima noção do que falava. Irritado com o estado deplorável do outro, Kiba derramou a água gelada sobre os cabelos de Shino, desde a nuca, até que escorresse pelo queixo e nariz.

O Aburame sentia a água gelar seu rosto, fazendo com que despertasse um pouco do transe que se encontrava. Ainda bêbado, balançava a cabeça, tentando fazê-la parar de girar.

- Acho que agora você acordou. – Kiba exclamou empurrando o corpo de Shino para o interior do veículo, no qual acomodou-se com a cabeça apoiada no banco.

O caminho era longo até que chegassem na casa de Shino.

Hinata não sabia que horas eram. As cortinas cerradas daquele quarto não permitiam ver se o sol nascera. Mas, isso pouco importava com tanto a se pensar.

Em suas mãos delicadas, envolveu com força o lençol que cobria sua nudez. Desejava despertar de tudo o que vivia e constatar ter sido um pesadelo... Poder olhar para a pessoa ao seu lado, dormindo em um sono tranquilo, e ver Shino. O nome invadiu-lhe as lembranças como uma faca que rasgava seu peito e o deixava aberto, sem proteção. Ela desejou poder gritar! Poder simplesmente chorar as lágrimas que sentia ser cada vez mais difícil conter.

Hinata sabia que as lágrimas contidas apenas representavam o sofrimento que parecia querer transbordar de seu interior. Ela precisava permitir ao seu coração sangrar a dor da perda... A dor da saudade de Shino.

Os olhos fixavam-se no teto branco e não ousavam pousar sobre a figura de Neji que dormia ao seu lado. Ela temia acordá-lo... Temia que ao olhá-lo ele simplesmente abrisse seus olhos e a encarasse com desejo novamente, desnudando-a mais do que o fizera.

Os minutos pareciam arrastar-se e seu coração, apertado em seu peito, rasgava-se como se alguém o ferisse lentamente. Neji mexeu-se sobre a cama, a respiração ainda pesada pelo sono profundo. Seu braço pousou sobre a cintura de Hinata e ele instintivamente a puxou para próximo de si, aquecendo-a.

Ela sentiu sua respiração pausar com a aproximação repentina e desejou que o contato se rompesse. O choro parecia quase incontrolável e Hinata começava a se questionar até quando suportaria conter as lágrimas.

Decidiu abandonar aquela cama. Abandonar o calor do corpo de seu marido e entregar-se à frieza de seu coração. Com cuidado, afastou o braço exigente de sua cintura e silenciosamente saiu do quarto após vestir um simples roupão. Agradeceu mentalmente o sono pesado de Neji enquanto seus passos leves alcançavam a sala iluminada pelo luar que irradiava da enorme janela de vidro. Deixou o corpo afundar-se em uma das poltronas daquele ambiente e pousou o rosto entre as mãos sentindo as primeiras lágrimas libertarem-se dos olhos.

Tentou imaginar momentos bons que vivera para reduzir a dor e esquecer-se do esposo adormecido no quarto. Mas as lembranças pareciam traí-la ao conduzi-la à única pessoa que realmente era dona de seus sentimentos. E sempre seria.

Aburame Shino...

[Flash back]

- Por que está chorando? – O garoto questionou observando-a seriamente.

- Me-meu... pai... br-brigou comigo. – Ela respondeu fitando o chão. A voz trêmula demonstrando seu receio em contar o acontecido.

- Por que ele faria isso? – Novamente o menino perguntou, sentando-se ao lado da pequena Hyuuga.

- Porque... – Ela começou. – E-Eu sou... uma fracassada.

As lágrimas que caíram dos olhos perolados da garota foram prontamente secadas pelas mãos de seu novo amigo.

- Você não é uma fracassada, Hinata. – Ele falou com a face séria. – Você é a pessoa mais especial que conheci.

- Sé-Sério, Shino? – Questionou a menina com um sorriso miúdo enfeitando-lhe os lábios.

- Eu nunca minto.

- Vo-Você... não faria isso! – A jovem sussurrou.

- Quando duas pessoas se gostam, Hina, elas ficam juntas. Essa é a regra.

- M-Mas, meu pai jamais permitiria! – Contrapôs enquanto os braços de Shino envolviam sua cintura.

- Do que você tem medo?

- De ser proibida de ver você. – Ela balbuciou constrangida.

- Isso não me impediria.

- Eu nunca imaginei ser tão feliz! – Ela exclamou sorrindo enquanto as mãos masculinas a seguravam com firmeza.

- Solte-se mais. – Shino respondeu.

- A-Acho que não é uma... b-boa idéia. – A bela jovem gaguejou incerta. Estava curvada com as costas suspensas pelas mãos de Shino enquanto ele a ensinava a dançar.

- Não confia em mim? – Ele questionou em timbre suave.

Hinata sorriu deixando seu corpo totalmente entregue a Shino. O pescoço à mostra foi tomado de assalto por beijos delicados do namorado arrepiando a pele feminina.

Com um breve impulso, ele a colocou em pé novamente e a fitou com ternura quando a voz melodiosa lhe respondeu:

- Eu sempre confiarei, Shino.

- Você tem certeza, Hina? – A voz era cautelosa, mas o timbre rouco pela excitação estava notável.

Sobre a cama de Shino, os corpos estavam perigosamente próximos. As respirações descompassadas após os beijos voluptuosos se contrastavam e castanhos cintilavam contra perolados.

Era uma tarde de inverno e o vento gélido causava sons uivantes na janela do quarto. O silêncio da Hyuuga foi interpretado como uma negativa e Shino distanciou-se do corpo feminino deixando-o arrepiar-se pela ausência do calor que ele concedia.

- N-Não... – Ela sussurrou corando furiosamente. Os orbes castanhos fixaram-se sobre a face angelical. Shino manteve-se parado, assistindo Hinata aproximar-se dele novamente e envolver seu pescoço em um gesto trêmulo.

- Hina... – Seus lábios foram capturados pela Hyuuga em um selinho demorado. Shino sabia o quão difícil era para ela tomar a iniciativa. Ela estava definitivamente decidida. Os lábios afastaram-se e os olhos novamente se encararam.

- Eu tenho... – Ela suspirou e, então, sorriu. – Total certeza. - E as carícias reiniciaram terminando somente na manhã seguinte.

[Fim do Flash back]

As lembranças a machucavam interiormente. Era como se não fosse capaz de respirar. Tudo em sua vida tornara-se repentinamente tão fora de seu controle... Tão vazio quanto se sentia agora.

[Flash back]

- As estrelas desta noite estão lindas. – Ela comentou enquanto passeavam de mãos dadas.

Ele não emitiu resposta. Não havia necessidade de expressar em palavras quando sabia que no silêncio ela entenderia.

- Oh, não... – Hinata sussurrou com os olhos surpresos. Shino seguiu a direção dos rebentos perolados e assistiu Neji aproximar-se altivo.

- Hinata, vamos para casa. – O Hyuuga ordenou sem ao menos olhar para Shino. Hinata engoliu em seco diante da iniciativa rude de Neji. Ela conhecia Shino suficientemente bem para saber que ele não aceitaria ser desafiado.

- Ela não está sozinha, Hyuuga. – O jovem interpelou irritado.

- Com você, Aburame? – Neji sorriu sarcástico. – É como se estivesse.

Shino envolveu a mão de Hinata mais fortemente e a puxou protegendo-a com seu corpo.

- Veremos. – Provocou Shino em tom calmo.

- N-Não... – Hinata pronunciou-se receosa. – Eu vou com você, Nii-san.

Ele acabara de levá-la para casa. A tarde havia sido ótima na presença de Shino. A cada dia seus sentimentos tornavam-se mais intensos. Antes de adentrar em sua casa, inspirou o ar na tentativa de acalmar-se. Não pretendia deixar claro ao pai com quem estava. Não que ele realmente se importasse... Mas se tratando de Shino certamente ela seria punida. Hinata entrou cuidadosamente. Não havia ninguém à vista e ela sentiu-se acalmar ao pensar estar sozinha.

- Estava com ele? – A voz de Neji soou indiferente. A face do Hyuuga estava sombria quando Hinata o encarou assustada pela repentina aparição do primo.

- Vo-Você... me assustou. – Ela murmurou ignorando a pergunta.

Neji aproximou-se com olhos enigmáticos e tocou a face delicada da prima.

- Você sabe que será minha. – Ele falou convicto deixando Hinata constrangida.

[Fim do Flash back]

As lágrimas molhavam a face de mármore enquanto as lembranças invadiam a mente cansada.

Sentia-se triste em pensar que perdera a pessoa que amava pela odiosa obediência à família Hyuuga. Sentia-se suja em pensar que abandonara a razão de sua existência por algo tão inútil quanto um casamento de conveniências.

Neji sempre estivera certo de que um dia Hinata lhe pertenceria. E esta certeza fazia o estômago da jovem recém-casada afundar-se no corpo. Somente uma mente tão sádica quanto de Neji poderia gerar a paciência necessária para aguardar o momento de alcançar seu objetivo... Ele planejara tudo isso.

[Flash back]

- Quero que se afaste de Hinata.- Neji pronunciou em timbre ameaçador. Os orbes perolados fixos sobre os óculos escuros de Shino. A jovem assistia a discussão.

- Somente quando ela quiser. – Shino respondeu no mesmo tom. A postura altiva apenas demonstrava a segurança em cada palavra.

- Isso não demorará. – Respondeu o Hyuuga com um sorriso torpe. Ele acreditava que o dia no qual Hinata seria sua estava cada vez mais próximo.

- Você me surpreende com sua insensatez. – A voz calma de Shino expressava uma ironia ácida. Neji encarou os orbes assustados da prima com intensidade antes de afastar-se em silêncio.

[Fim do Flash back]

Como ela pôde ignorar todos os sinais de Neji? Como pôde agir tão estupidamente deixando-se enganar que poderia viver com Shino por toda a sua vida? Estava tão claro que o primo não a deixaria viver com outra pessoa que não fosse ele... Em nenhum momento Neji demonstrou medo de não a ter para si. Sempre certo de suas intenções. Cauteloso em seus passos.

Ela não poderia deixar quaisquer indícios de que ainda amava Shino se desejasse protegê-lo. Neji não aceitaria não a ter inteiramente. Ele queria devorar-lhe a alma... Ser dono de seus sentimentos. Tudo isso havia ficado claro enquanto faziam amor. Um amor possessivo... Perigoso.

Hinata levantou-se um pouco trêmula com a nova constatação. Ela não poderia deixar Neji apropriar-se do sentimento mais nobre que carregava em si... Seu amor pertencia somente a Shino. Não deixaria que ele lhe tomasse seu coração. Ele lhe tirou tudo. Seus sonhos, sua alegria, sua liberdade, se corpo... Neji transformou as cores em algo nublado e turvo.

E Hinata precisava aceitar isso. Ela viveria com isso... Por ele. Por Shino ela se manteria viva por dentro, guardando a sete chaves o amor que sentia para mantê-lo intocado por outro que não fosse ele. A jovem permitiu-se sorrir melancolicamente com a mão sobre o peito... Sim, ela protegeria Shino dentro de si.

Na manhã seguinte, Hyuuga Neji já estava em seu escritório. Apesar do bom-humor matinal, algo extremamente raro, havia muito a ser resolvido. O CEO folheava o principal jornal da cidade e lia as notícias de seu casamento. Em uma coluna, ele era destaque enquanto em outra, muito menor, havia Hinata. Permitiu-se sorrir ao pensar que se casara com a pessoa que mais se afastava das atenções que lhe eram voltadas. O jornal mais famoso da cidade não tinha informações da bela Hyuuga além das basicamente conhecidas.

Desde a sua infância, Neji destacava-se entre os Hyuuga por ser um prodígio, com excelentes resultados na escola, na faculdade de Direito e, também, na carreira pública, seguindo os mesmos passos do tio, que era orgulhoso por ter seu sobrinho lhe substituindo no cargo de importância.

Vencer, para Hyuuga Neji, era conseqüência de sua mente perspicaz, inteligência, frieza e cálculo. Era comum conquistar tudo o que desejava. Como executivo das várias empresas dos Hyuuga tinha inúmeras responsabilidades e uma lua de mel prolongada, apesar de lhe soar interessante, não lhe caía bem...

Esboçou um sorriso malicioso ao lembrar-se da noite anterior. Hinata gemendo próximo ao seu ouvido, totalmente entregue, fora o som que esperava por muito tempo. Saber que a prima era difícil de conquistar mexia com seus ânimos e sua lucidez... Um desafio ao qual o jovem aceitou desde que a viu quando pequena, tão frágil e inocente, transformando-se em uma bela mulher desejável e delicada.

Neji se sentia ansioso para que o dia alcançasse seu término e o liberasse para provar da esposa novamente. Estava achando a ideia de ser casado com a prima simplesmente deleitosa. Mas, como diretor, tinha diversos problemas a resolver. E como marido, outros a evitar. Apesar de reconhecer os sentimentos que Hinata despertava, estava ciente de que o amor, e especialmente fidelidade, da prima não lhe pertenciam ainda. O Aburame poderia ser um problema, e nada agradável, caso tentasse aproximar-se de sua esposa.

A ideia do ex-namoradinho idiota da prima tentar algo soava ruim, mas não tanto quanto saber que ela corresponderia se tivesse oportunidade. E oportunidade era o que ela não teria enquanto estivesse casada consigo. Neji precisava somente de tempo com a esposa para fazê-la notar a enorme distinção entre o que antes possuía e o que possui. E, então, não haveria necessidade de medidas cautelosas como a que tomaria neste momento.

O telefone do escritório soou fazendo com que os pensamentos de maldade e malícia se esvaíssem. Neji o atendeu quase imediatamente:

- Sr. Hyuuga, um casal estranho diz ter horário agendado. – A voz da secretária estava receosa.

- Mande-os entrar. – Ordenou seco.

Então, o casal que aguardava havia chegado. Um de seus contatos indicou um casal de espiões muito habilidosos. Neji ordenaria observar Shino para mantê-lo sob controle e descobrir suas principais fraquezas. O poderoso Hyuuga jamais atacava sem antes saber o ponto fraco do oponente.

O barulho de batidas compassadas sobre a porta de madeira escura do escritório anunciava que o casal chegara.

- Entre. – Solicitou pondo-se em pé.

O casal que adentrou no recinto era extremamente peculiar. O homem era alto com porte atlético e tinha cabelos alaranjados e arrepiados. Trajava uma calça jeans rasgada e camiseta preta sem adornos. Em sua face vários piercings nas laterais do nariz e lábios atraíam atenção involuntária. A mulher era elegante, porém casual. Um vestido cinza apertado na cintura moldava-lhe o corpo esbelto e seus cabelos azulados e curtos eram presos por um coque frouxo.

- Devem ser Konan e Pein. – O CEO pronunciou enquanto sentava-se na cadeira luxuosa atrás da mesa de mogno. – Como trabalham?

- Já estamos a par do que o senhor espera. – O homem começou. – Manteremos o alvo sob nossa observação constante. Em geral, pedimos metade do pagamento antes de iniciar o trabalho e após os resultados o cliente paga o restante somente quando satisfeito com os serviços prestados.

- Hmm... – Neji expressou curioso a respeito. O casal devia ser realmente bom para dispor-se a perder dinheiro. – Aceito as condições. Pagarei o dobro se estiver satisfeito.

A jovem sorriu ao ouvir a afirmativa e questionou com a voz veemente:

- Quem é o sujeito?

- Seu nome é Aburame Shino. – O Hyuuga informou e fitou longamente o homem à sua frente.

- Começaremos prontamente segundo as ordens. – A voz de Pein finalizou o acordo. O casal abandonou a sala com passos calmos sob o olhar analítico do gênio Hyuuga.

Os raios solares atravessavam a janela aberta e caíam sobre os olhos desprotegidos. Franziu o cenho como se o gesto pudesse mandar o sol embora. Ao inferno, de preferência. Não queria acordar. Não havia motivo para deixar sua cama e seguir para o estágio como se nada tivesse acontecido.

Suas têmporas doíam. A ressaca começava a trazer seus efeitos. Levou uma das mãos sobre a própria cabeça e soltou um gemido exasperado. Com a outra mão, procurou sobre o criado-mudo ao lado da cama os óculos escuros. Não tardou para que os tivesse colocado sobre a face. Então, somente então, abriu os olhos. Por detrás das lentes escuras pôde vislumbrar o sol alto no céu. Devia ser bem mais tarde do que previra.

O som estridente da campainha soou ininterruptamente. Parecia que uma faca lhe atravessava o cérebro com a enxaqueca que piorava a cada som daquela porcaria. Conhecia somente uma pessoa impaciente o suficiente para apertar um botão tantas vezes seguidas...

- Kiba... – Cumprimentou ao abrir a porta sem ao menos ver quem era pelo olho mágico. Os orbes escuros do visitante visualizaram a imagem de Shino da cabeça aos pés. Cabelos emaranhados, calça de moletom amassada, o torso nu, os pés descalços e o rosto de quem acaba de acordar. De fato, Aburame Shino estava um caco.

- Nossa, conseguiu ao menos anotar a placa de quem o atropelou? – Kiba questionou sarcástico entrando no apartamento do amigo sem pedir licença. – Aliás... – Continuou enquanto se aproximava e cheirava Shino. – Você também precisa de um banho!

- O que quer? – A pergunta soou rude, embora não fosse essa a intenção de Shino.

Kiba encarou profundamente o amigo surpreendendo-se com a mudança de temperamento. Nunca vira Shino desalinhado, tampouco grosseiro como via neste momento.

- Eu vim resgatar você da fossa. O que mais? – Respondeu com a voz amistosa.

- Não perca tempo, Kiba. – O Aburame afirmou indiferente e abriu a porta da sala novamente em um gesto para que o amigo fosse embora.

Mas, Inuzuka Kiba jamais abandonaria Shino. Especialmente quando via que o amigo sofria. Ele sabia ser muito convincente quando se tratava de algo que tinha total certeza fazer bem.

- Você vai entrar no chuveiro e tirar esse cheiro de álcool. – Kiba falou com a voz baixa e grave. – Vai se vestir e vamos sair. – Concluiu com os lábios franzidos em uma linha reta.

Shino não se surpreendeu com a ousadia de Kiba. Sob os óculos, rolou os olhos sabendo que o amigo não desistiria.

- Certo. – Respondeu vencido.

Trinta minutos depois, entravam em uma cafeteria próxima ao apartamento de Shino. Um café extra-forte provavelmente faria bem após as doses de álcool ingeridas no dia anterior.

- Então... você bebeu para esquecer. – Afirmou Kiba na tentativa de iniciar o diálogo sobre o que tanto incomodava Shino.

Suspirou novamente pela quinquagésima vez naquele dia. Não poderia escapar das investidas de Kiba por muito tempo. - Eu a vi saindo da Igreja. – Falou fitando através do vidro polido da cafeteria as pessoas apressadas nas ruas.

- Eu sempre quis ver a Hina de vestido de noiva. – Kiba falou com um pouco de humor. – Aquele idiota do primo dela podia ter ao menos me convidado!

- Você sabe que ela queria convidá-lo.

Kiba brincou com a colher na xícara de cappucino que segurava enquanto sua voz fluía com melancolia.

- Imagino como tenha sido difícil para ela também.

Os orbes castanhos, sob os óculos, fitaram Kiba. Apesar de reconhecer que Hinata também devia estar infeliz, não era capaz de pensar que foi ela quem optou por casar-se com Neji.

Kiba notou o semblante carrancudo de Shino e resolveu centrar-se no amigo, sem pensar na companheira de infância que agora se via casada.

- E o que pretende fazer daqui para frente?

O Aburame bebeu um longo gole do café extra-forte que pedira e suspirou. Este era um questionamento que se fizera a cada vez que um copo de whisky lhe era dado no dia anterior.

- Esquecer. – Respondeu sem entusiasmo. Os olhos escuros do amigo fitaram o rosto apático de Shino. Era difícil ouvir palavras daqueles lábios que não trouxessem convicção alguma como se ouvia neste momento.

- Nunca pensei que viveria para ver Aburame Shino renunciar algo. – Kiba expressou desgostoso. Sua vontade era de fazer o amigo animar-se com suas palavras, mas o efeito foi maior do que o esperado.

Repentinamente, Shino sentiu como se perdesse tempo ao tentar viver sem Hinata ao seu lado. Ela era e sempre seria a pessoa que o tornaria íntegro. Aquela que lhe faria desejar viver. Poderia ignorar os acontecimentos dos anos que passaram juntos, todas as lembranças poderiam ser evitadas com muito custo, mas algo era imutável: Hyuuga Hinata seria sempre a mulher de sua vida. Amar uma mulher casada não reduzia a intensidade do que sentia. E Shino tinha total certeza de que, embora comprometida, Hinata também devia amá-lo.

- Eu vou vê-la. – A voz decidida soou deixando Kiba surpreso. A afirmativa era perigosa considerando-se que Hinata tornara-se a esposa de um homem influente e sádico.

No entanto, não atender àquele desejo era reprimir a possibilidade de alcançar a felicidade. Só havia uma preocupação capaz de impedir Shino: uma represália da própria Hinata.

- E se ela não quiser? – Kiba questionou incerto.

- Ela terá que me dizer isso pessoalmente.

E o assunto encerrou-se entre os dois amigos que estavam alheios aos olhares observadores de um casal que "coincidentemente" saboreava o aroma do café daquele local.

Chegou em casa quando o dia escurecera. Esperava conseguir chegar mais cedo, mas os problemas que exigiam sua resolução pareciam intermináveis. Ao abrir a porta de entrada da enorme mansão um cheiro delicioso invadiu suas narinas sem permissão. Era incomum algo agradá-lo tanto a ponto de incitar seu paladar.

Abandonou seu blazer sobre o sofá e seguiu para a sala de jantar com passos lentos. Com cautela cessou os passos ao ouvir uma voz melodiosa cantar. Reconheceu-a de imediato, surpreendendo-se por Hinata estar tão animada. Esta sim era uma notícia proveitosa em seu dia.

Distraiu-se tanto com a melodia suave que não notou quando Hinata atravessou a porta da copa e adentrou na sala de jantar trazendo em mãos uma travessa com um guisado de aparência saborosa. Ela colocou-o sobre a mesa e suspirou retirando das mãos as luvas que a protegiam de possíveis queimaduras. Somente então os orbes perolados encontraram a figura esbelta de Neji que a observava atentamente. A Hyuuga afastou-se dois passos pelo susto que levara ao ver Neji imóvel na extremidade da sala.

- Há qua-quanto tempo está aí? – Questionou recuperando-se da surpresa.

- O suficiente. – Neji respondeu indiferente aproximando-se da esposa.

- O su-suficiente p-para quê? – Hinata voltou a questionar lembrando-se da promessa de tentar agradar Neji para proteger seu amor por Shino dentro de si.

- Para ver que parece feliz. – A voz imperiosa soou novamente e Hinata sentiu-se aliviada por ele não desconfiar de suas intenções.

Ela sorriu forçosamente, mas não sentiu que Neji tivesse flagrado seus pensamentos. No entanto, não se atreveu em mentir que estava feliz com receio de que sua voz a condenasse. Então, deu-lhe uma resposta qualquer:

- Preparei o jantar. – Informou pousando os olhos sobre a mesa arrumada e afastando-se disfarçadamente. Seu braço, entretanto, foi envolvido pelos dedos delgados do esposo que a fitou longamente antes de aproximar-se e beijá-la em um selinho demorado. Encararam-se antes de sentarem-se um diante do outro e silenciosamente apreciarem a comida de Hinata.

A Hyuuga pensava no quanto Neji e Shino eram diferentes. O silêncio com o esposo era massacrante, enquanto com Shino uma comunicação.

O jovem CEO vislumbrava a face distraída da esposa sabendo que muito provavelmente ela lembrava dele. Isso não lhe agradava em nada, apesar de reconhecer os esforços de Hinata em tornar o casamento ao menos um pouco suportável para ela. Não pôde deixar de pensar que isso só a tornava ainda mais desejável. Sua preocupação era mantê-la afastada do ex-namorado idiota se quisesse preservar seu casamento. E ele queria. O Hyuuga não a deixaria abandoná-lo. Estava disposto a fazer qualquer coisa para mantê-la ao seu lado...

Mesmo que para isso precisasse matar certos sujeitos inconvenientemente intrometidos.

Continua...

Notas das Autoras:

Flores ou Pedras - Reviews!

Agradecemos por lerem!

Beijos gratos,

J. Pearl-chan e FranHyuuga