Eu não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer: Peeta viera me dizer adeus, e aquilo doeu mais do que eu achava que doeria. No intimo eu também achava que aquilo era o certo desde o começo, eu achava que estar por perto não ajudaria em nada os seus flashbacks, mas tinha algo que me impedia de manda-lo embora, de afasta-lo de mim. Talvez isso fosse egoísmo, talvez algo mais. Mas agora que ele tomou coragem e se afastou por conta própria aquilo lhe doeu tanto...
Eu não me perdi,
E mesmo assim você me abandonou...
Você quis partir, e agora estou sozinho
Mas vou me acostumar..
com o silêncio em casa, com um prato só na mesa.
Sabia no fundo que iria demorar a me acostumar com a ausência do menino do pão, talvez nunca me acostumasse. A verdade é que quando Peeta estava por perto, mesmo em silencio ou trocando poucas palavras eu me sentia um pouco mais completa, um pouco mais eu mesma. Subi para o meu quarto e me deitei, sem saber o porquê abracei o travesseiro que Peeta costumeiramente usava, ele tinha cheiro de canela e pão, e um pouco de flores, de plantas, do material que ele fabricava as suas tintas. Era um cheiro tão dele... Sem perceber adormeci.
Eu não me perdi,
O Sândalo perfuma o machado que-o feriu
Adeus, adeus, adeus meu grande amor.
E tanto faz. De tudo o que ficou,
Guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita.
"eu abri a porta, e Peeta chorava, e me dizia adeus sem nem mesmo hesitar, sem dar ouvidos aos meus apelos, então eu chamava por ele, mas ele não respondia. Eu corria pra sua casa e não encontrava mais nenhum sinal dele, nem pertences, nem cheiro, como se aquela casa jamais houvesse sido habitada. Subia para o seu quarto e encontrava um retrato dele, quando o pegava o retrato começava a se mexer como se fosse um filme , e nele eu via Peeta sendo atingido por uma lança, lutando pra respirar, chamava desesperadamente por mim, e eu tão próxima dele tentava me aproximar mais algo impedia a Katniss da foto de socorrê-lo. Então apareciam chamas, e o envolvia. O retrato também pegava fogo e se desfazia em cinzas. Eu sentia uma presença atrás de mim, e ao meu virar encontrava um Peeta meio sangrando, meio carbonizado. Ele cuspia sangue enquanto falava.
-a culpa é sua – as suas pupilas se dilataram de um modo anormal, como quando ele tinha os flashbacks, mas em vez de furioso ele falava magoado – você não me salvou Katniss, ao contrario, você ajudou a me queimar com seu fogo, menina em chamas."
Acordei banhada em suor, gritando pelo nome de Peeta, pedindo desculpas. Então vi que era já era noite e que em parte o pesadelo era real, logo ele estaria longe, e não importa quão alto eu o chamasse, ele não responderia mais. Talvez nunca mais. Viver uma vida sem ouvir a voz de Peeta era impossível. Então fiz o que me pareceu certo. Me dirigi a sua casa.
Eu não me perdi,
e mesmo assim ninguém me perdoou...
Pobre coração - quando o teu estava comigo era tão bom.
Não sei por quê acontece assim e é sem querer
O que não era pra ser: Vou fugir dessa dor.
Meu amor
se quiseres voltar - volta não
Porque me quebraste em mil pedaços.
Ao chegar a sua casa encontrei um quadro, a tinta ainda estava fresca, o que mostrava que ele havia pintado há pouco tempo, e mesmo que a tinta não demonstrasse isso eu sabia que era recente. Era eu essa manhã. Eu parecia tão bonita e ao mesmo tempo tão melancólica sob o olhar de Peeta... Me virei e vi que o acordei. Vi que não poderia ficar longe dele, não podia correr esse risco. Nunca mais. Eu estava apaixonada pelo menino do pão. Talvez eu sempre estive.
- eu não sou de implorar, mas fica, Peeta, por favor. Eu já perdi quase todos que eu amo, não posso perder você também. Eu preciso de você.
Ele ficou em silencio e então se levantou em passos firmes e rápidos. Será que ele estava em meio a mais um flashback? Era difícil dizer, era impossível ver seus olhos só com a luz do abajur iluminando o local, mas não importa, eu lutaria contra mais esse flashback para mostrar que ele não precisava se afastar de mim, que ele precisava de mim também.
Então ele me abraçou. Me abraçou tão forte que senti o mundo sumir, só havia nós dois no meio do infinito. Então ele me beijou e eu correspondi. O mesmo fogo, a mesma urgência que havia no nosso beijo no Quell. Eu não queria parar nunca mais. E dessa vez não havia câmeras, nem ninguém pra interromper.
Ele me guiou pra cama e eu deixei. Ele me empurrou o mais gentilmente que é possível quando se empurra alguém e se deitou por cima de mim, voltando a me beijar. Então quando sua mão chegou a barra da minha blusa ele parou e se afastou. Então criei coragem pra falar outra vez.
-eu tive um pesadelo. Posso ficar aqui com você, mesmo que seja a ultima vez?
Ele fez que sim, e então nos deitamos, e pouco tempo depois dormimos.
