UMA ESTRANHA MISSÃO

Carlos Abraham Duarte

CAPÍTULO 1

A Garota da Yakuza

- Então, você está indo para a Academia Youkai?

A pergunta fora formulada em tom impulsivo – e com forte sotaque de Okinawa - pela garota jovem e bonita que tomara a liberdade de sentar-se no banco do corredor do lado oposto ao que Jorge Miguel estava, mais para o fundo do ônibus escolar. Jorge analisou-a em silêncio. Pela aparência externa, poderia ser uma típica estudante secundarista japonesa, de quinze para dezesseis anos, de tez morena clara, 1,57m ou 1,58m de altura, esguia, mas com curvas femininas bem definidas e aparentando delicadeza. Os cabelos lisos, castanho-escuros, cortados em franjas assimétricas e descendo até um pouco abaixo dos ombros graciosos, emolduravam um rosto em forma de coração marcado pelos imensos olhos castanhos futae, com uma leve dobra mongólica, que, mais que observar friamente, trespassavam Jorge que nem raios laser. O nariz era delicado e a boca pequena, mas os lábios cor-de-rosa apertados davam mostras de um caráter mandão e uma personalidade forte e determinada, teimosa, geniosa. Ela trajava, tal qual ele, o blazer verde-garrafa sobre camisa social branca e gravata vermelha que era o uniforme da Youkai Gakuen, só que, em lugar da calça social bege-escura usada pelo rapaz, trazia uma saia pregueada xadrez em bege e marrom, curtíssima, que deixava à mostra as pernas longuíssimas de top model, com meias azuis escuras até as canelas e os famigerados e indefectíveis sapatos escolares pretos. (Jorge, instintivamente, relanceou uma olhadela para baixo, para seus próprios sapatos pretos e meias brancas.)

- Estou sim – ele respondeu laconicamente, tentando disfarçar a perturbação que o olhar inquisidor dela provocava. Embora fosse brasileiro de nascença e não possuísse uma gota de sangue oriental nas veias, ainda assim Jorge Miguel havia crescido no Japão, absorvido seus hábitos e costumes, de tal modo que se considerava japonês o bastante para sentir-se incomodado com aquele olhar invasivo. Esboçou o seu melhor sorriso, e disse: – Sou aluno novato.

- Eu também. - A garota desconhecida o encarava fixamente nos olhos sem o menor sinal de timidez ou recato, ao contrário das japonesas em geral. – Meu nome é Rika Onaga. Sabe, a minha onee-sama é estudante do 3º ano na Youkai Gakuen. O nome dela é Kaera.

Jorge estreitou os olhos cor de avelã. – Onaga, é? De Okinawa? - Pigarreou duas vezes. – Desculpe perguntar, vocês têm parentesco com...

- Tatsuo Onaga. – A moça fez uma pose orgulhosa. – É nosso pai. Isso mesmo! Eu e a minha irmã mais velha somos filhas do atual oyabun da Okinawa Kyokuryu-kai. Todo mundo morria de medo da gente lá no mundo dos humanos. – Deu uma risadinha marota. - Até que era divertido!

Jorge engoliu em seco e abaixou o olhar. Mas se controlou. Quer dizer que além de ser youkai, demônia, ela também é filha dum chefão da Yakuza? Era só o que faltava. Sim, agora ele entendia a atitude arrogante – pelos padrões nipônicos – daquela garota, pois, no Japão, apenas os mafiosos da Yakuza olham nos olhos das pessoas a título de afrontamento. Ou então ela queria assediá-lo sexualmente. Jorge riu por dentro com a ideia. Evidentemente ele tinha consciência de que as mulheres humanas o achavam bastante atraente fisicamente; um rapaz atlético de dezesseis anos e 1,65m de altura, que ostentava na sua pele morena cor de caramelo e em suas feições uma mistura harmoniosa de diferentes tipos étnicos - sicilianos, sírio-libaneses, gregos, galego-portugueses, guaranis -, o que não era incomum no país onde nascera, o Brasil. Seus olhos castanhos bem claros, enormes e amendoados, destacavam-se no rosto anguloso de nariz reto e lábios bem definidos, ornado por cabelos fartos e ondulados de um ruivo escuro ou castanho-avermelhado, dependendo da incidência de luz.

Mas daí a ser assediado por uma fêmea youkai na forma humana... Com uma imaginação um tanto extravagante, Jorge pôs-se a fantasiar qual seria o verdadeiro aspecto daquela criatura sob o simulacro de humanidade que ela ora lhe exibia. Seria Rika Onaga um rokurokubi, um monstro que possui a habilidade de esticar o pescoço por vários metros, alcançando uma altura incrível? Um tanuki travesso? Um mujina sem rosto? Ou um gakki que se alimenta de carne e sangue humanos?

De qualquer modo, refletiu Jorge, só por ser youkai ela era o inimigo. Não pode, em hipótese alguma, descobrir que sou humano. Seria morte certa para mim.

- Err... Acho que ainda não sei o seu nome – disse Rika, decidida a entabular uma conversa com seu companheiro de viagem e futuro colega de escola. Afinal, ela e Jorge eram os únicos ocupantes do ônibus, à lógica exceção do motorista taciturno e sinistro que fumava um charuto malcheiroso e fumarento.

- Gomenasai – desculpou-se o rapaz. - Meu nome é Jorge Miguel Loureiro – disse, pronunciando com cuidado as sílabas de seu nome tal como os japoneses fazem, trocando os "l" por "r" e acrescentando "u" ao som fraco do "r". (Ninguém tem facilidade em pronunciar nomes que contenham fonemas inexistentes na sua língua pátria.)

- Joruji... Migueru... Roreru? - Ela repetiu. – Não parece um nome japonês.

- Porque não é. Trata-se de um nome brasileiro.

- Brasileiro? Você é gaijin?

- Sou. – Ele acenou afirmativamente com a cabeça. – Nasci no Brasil, numa cidade chamada Rio de Janeiro, mas vim para o Japão quando ainda era criança. O meu pai era futebolista e foi contratado para atuar como centroavante no Kashima Antlers, o mesmo de Zico. Beto Loureiro, o craque! Daí ele veio e trouxe a mulher e os filhos, isto é, minha mãe, eu e a minha irmã mais nova. Nós morávamos em Kashima, na província de Ibaraki. Mas meus pais morreram e minha irmã sumiu de casa para nunca mais voltar. Eu fiquei sob a tutela de um amigo da família, que cuidou de mim até hoje. Este é o resumo da minha vida.

Absteve-se de dizer a Rika que um youkai matara seu pai e sua mãe, e raptara sua irmã Dafne; que o "amigo de família", seu tutor, a quem tratava por oji-san, era um ex-hitokiri ("assassino retalhador"), um justiceiro que odiava youkais e que o treinara para caçar e exterminar tais criaturas; e que estava sendo enviado para a Academia Youkai como um espião dos humanos – ou, mais precisamente, de seu oji-san.

- Oh! Para mim isto é muito, muito interessante – disse Rika, que arregalou os olhos para Jorge. – Li um dia, não sei onde, que no Brasil vivem raças de demônios bem bizarras, uns com a pele negra e uma única perna, outros com os pés virados para trás. Você é algum deles, Jorge-san?

- Ah, tá falando de sacis e curupiras? - Jorge riu, meio sem jeito. – Infelizmente me vejo obrigado a decepcioná-la, Rika-san. Não sou nada disso. Sou só um guará.

- Guará? O que é isso?

- Lobisomem-guará, melhor dizendo. Esta – ele apontou para si mesmo – é a minha aparência normal, humana, mas eu posso me transformar a qualquer hora em um lobo-guará, que é um bicho muito parecido com o lobo norte-americano mas é bem menor, tem pelagem vermelho-dourada, focinho preto afilado, patas longas e pretas e orelhas grandes. Também posso mudar para qualquer forma intermediária entre a humana e a de lobo-guará. E é nas noites de Lua Cheia que o meu poder e a minha velocidade aumentam mais.

- Ookami-otoko? Tipo um youkai-lobo, né?

- É, mais ou menos isso.

Mentalmente, Jorge deu graças ao Deus de seus pais pelo fato de Rika, qualquer que fosse a raça demoníaca à qual pertencia, não ser telepática. Não teria como saber que ele mentia cinicamente. Se bem que seu oji-san lhe ensinara a dissimular seus pensamentos mais íntimos com outros, superficiais, a fim de despistar eventuais youkais telepatas – um satori, por exemplo. O grande senão, porém, é que tal truque não poderia funcionar o tempo todo com todo tipo de youkais telepatas. Um hipnobloco, por outro lado, seria algo demasiado suspeito de se empregar.

Talvez, só a título de piada, devesse ter dito a Rika que era um boto cor-de-rosa da Amazônia, inveterado sedutor de mulheres, e ter esperado para ver qual seria a reação dela. Mas – que pena! – lembrou-se de que, segundo a lenda da região amazônica brasileira que pesquisara na Internet, o homem-boto usa sempre um chapéu para ocultar o grande orifício respiratório no alto da cabeça, feito para o cetáceo respirar em sua original forma animal, e que nem mesmo a metamorfose em humano consegue camuflar – e que Jorge, obviamente, não possuía. Tudo bem, lobisomem-guará serviria perfeitamente.

"Que ironia", ele refletiu, "Tudo o que sei sobre a mitologia do país onde nasci veio da leitura de livros ou da Internet, aqui mesmo, no Japão!"

Deu uma olhadela para o lado da janela e sorriu ao observar que fileiras após fileiras de cerejeiras em floração substituíam paulatinamente as construções nos verdes campos conforme o ônibus avançava estrada afora. Os dois lados da rodovia exibiam vastas fileiras de árvores pertencentes à espécie oyamazakura, as quais estavam tão pejadas de frutos que os galhos pareciam pender sob o peso das cerejas bem redondinhas, rijinhas, maduras e convidativas, de cor vermelho-sangue... do jeito que Jorge gostava! Era uma bela manhã ensolarada de primavera na região de Kanto, com o céu muito azul e nuvens brancas aqui e ali. "Toda essa beleza... E eu tô abrindo mão de tudo isso", suspirou ele mentalmente.

Virou-se para Rika:

- Aliás, Rika-san, que tipo de demônio é você?

Ela riu e falou com expressão maliciosa: - Sou um dragão. Dragão granadino.

Jorge Miguel fitou-a com uma expressão de espanto.

- De verdade? Com cabeça de camelo, chifres de antílope, pescoço de serpente, garras de águia, barba e bigodes? E comanda a chuva, os rios, os lagos e os mares?

- Tá pensando em dragões orientais, né? Nada disso. Sou da espécie ocidental.

- Do tipo que cospe fogo e é feroz e mau? Esse tipo de dragão?

- Não, não, esses são os dragões rubianos, os vermelhos, que herdaram o poder das Chamas Verdadeiras e cuja pedra preciosa é o rubi, representando a força e a coragem. Cada raça draconiana desenvolve uma pedra preciosa com poderes mágicos em suas testas, que é seu centro de poder psiônico. Há outras raças gema, como os ametista, os lápis-lazúli etc. Nós, isto é, eu, minha irmã e meus pais, somos dragões granadinos porque nossa joia de poder, nossa Ch'iu Muh, é a granada, a pedra da sabedoria e da harmonia, e temos lindas escamas azuis cintilantes na forma original. Os dragões granadinos herdaram o poder dos Ventos de Hermod, ou seja, podem criar rajadas de ventos cortantes que servem tanto para o ataque quanto para defesa e são os mais sábios dentre todos os dracomorfos.

Ela parecia orgulhosa de se apresentar como tal, ainda que sua aparência nada tivesse de dragão.

- Olha isto aqui – disse ela, levantando um pouco a manga do blazer, deixando à mostra, no pulso esquerdo, uma tatuagem de dragão vermelho-azulado escuro que morde a própria cauda, Ouroboros. – Funciona como um "limitador", ou melhor, um selo mágico que confina meus poderes e minha verdadeira forma youkai neste corpinho humano. O do papai é um grande dragão tatuado nas costas. Aliás, o papai na sua forma youkai, de bijuu draco, tem as maiores asas que eu já vi. É um Lorde Draconiano Granado tão poderoso que é capaz de provocar tempestades de raios, tufões e usar os ventos como escudos...

Rika parou no meio da frase. Seus escuros olhos oblíquos tornaram-se ainda mais estreitos, e seu rosto bonito assumiu uma expressão zangada.

- Tá achando graça de quê? Não gosta de dragões?

Jorge colocou a mão na boca, num misto de riso e vergonha.

- Não, eu não tenho nada contra os dragões – escusou-se o rapaz. – Me desculpe. Mas é que eu me chamo Jorge Miguel. Não sei você sabe, mas, na religião cristã, e em particular na Igreja Católica Apostólica Romana, que é a principal religião do Brasil, Jorge e Miguel são nomes de dois santos guerreiros, matadores de dragões.

- Ora, não diga?

- Falo sério. Olha, é que na religião cristã o dragão representa o Mal, Satanás, o Diabo e tudo que é ruim, espiritualmente falando. Sem ofensa!

- Tudo bem, tudo bem. Já assisti a filmes americanos do tipo Reign of Fire e Dragonheart pra saber como a minha raça é tratada pelo Ocidente. Quer que eu te diga por que eles nos odeiam tanto? Porque nós, dragões, somos associados sempre às antigas religiões pagãs, pré-cristãs, representamos as forças elementares da terra, do fogo, da água e do ar. Eu sei perfeitamente que os humanos cristãos consideram tudo que é pagão, ligado à natureza, como coisa do diabo, maligna, perigosa. Porque eles mesmos declararam guerra à natureza. Mas, contanto que você não queira me matar, eu não tô nem aí pro seu nome.

- Matar um dragão, eu? Só mesmo estando muito doidão! Afinal, sou só um guará e não sou santo. Como consegue desfazer o selo e liberar a sua verdadeira forma?

- Falando meu próprio nome secreto, na antiga língua dracônica, como comando infuuin: kai. Eu tenho, minha irmã tem e meus pais idem. Ao liberar minha forma youkai, a tatuagem some. Depois, pra me resselar, eu pronuncio o nome mágicko de trás pra frente. Quando eu volto pra forma humana, a tatuagem reaparece.

- Beleza – disse Jorge em tom neutro. Repassou mentalmente o ensino recebido. A maior parte dos dracomorfos no arquipélago japonês era de origem oriental, chamados de tatsu,oriundos dos dragões chineses ou long, com suas sub-raças de celestiais, espirituais, terrestres e subterrâneos; podiam tomar a forma humana ou de qualquer fera que quisessem, mas só tinham três dedos, e não cinco como os Lung, além de centenas de fobias exóticas. Todavia, também havia uma respeitável minoria de dragões ocidentais, semelhantes a lagartos gigantes com asas coriáceas e chifres (ao passo que os tatsu e seus primos chineses tinham corpos que se assemelhavam a serpentes de formas quiméricas e voavam sem asas), possuíam diversas raças de cores diferentes, como os azuis, os verdes, vermelhos, brancos, negros, amarelos, dourados, prateados e bronze; igualmente, possuíam três formas físicas: humana, semi-humana e a forma suprema, a draconiana. Era público e notório em todo o Makai que ambas as espécies, dragões ocidentais e orientais, não se davam bem, chegando a se odiarem, às raias do ódio racial. "Que nem gregos e turcos, ou judeus e árabes, no mundo dos humanos", ponderou o rapaz em pensamento.

Contra sua própria vontade e todos os julgamentos prévios, Jorge admitiu, não sem alguma relutância, estar começando a simpatizar com Rika. A despeito de ter conhecimento de que sua bela aparência humana, seu jeito incisivo, "extrovertido", não passavam de mera transformação, um disfarce para um monstro, um demônio metamorfo, inimigo hereditário da raça dos homens. Ele quase podia visionar, com os olhos da mente, o semblante austero e patriarcal de seu oji-san a recordar-lhe que o caminho de seu dever, como oniwabanshuu, estava na caça e destruição de youkais. A Terra toda pertence aos humanos, e o Japão pertence ao povo japonês. Não há aqui lugar para monstros sobrenaturais, e quaisquer youkais que não compreendem isto devem ser exterminados – youkai bom é youkai morto. Jorge o sabia. Seu oji-san assim lhe ensinara.

Será que ele estava errado?

As elucubrações do jovem humano foram interrompidas pela voz grossa e soturna do motorista do ônibus, um sujeito moreno, de bigodes de pontas finas, que, na opinião de Jorge, passaria facilmente por bandido de filme mexicano, não fossem os olhos refulgentes que pareciam faróis.

- Moçada, vamos entrar num "túnel" para a quarta dimensão do espaço, como dizem os cientistas e escritores humanos. Por fora, parece um túnel comum, mas funciona tal qual uma fenda interdimensional que conecta este plano existencial a diversos outros lugares em outras dimensões, mais sutis ou menos sutis, por mudança de frequência vibratória. Portanto, digam "adeus" ao Ningenkai e "olá" ao Makai!

Jorge encostou a cara ao vidro frio da janela do ônibus, a tempo de ver a abertura negra do túnel que se abria, escancarada qual bocarra de um monstro mitológico, na rocha da montanha à frente. Num instante ele e Rika viram tudo escurecer.

Por um breve, fugaz instante, Jorge sentiu-se sufocar na escuridão absoluta. Simultaneamente, experimentou como que um "solavanco" psicossomático, uma sensação de desconforto tão momentânea quanto indescritível, um impacto sensorial atingindo única e exclusivamente o âmago dos ossos. Era tal como se a própria existência sofresse uma descontinuidade instantânea, parecendo estar fora de sintonia com o resto do Universo. De repente, tudo em seu derredor estabilizou-se. Jorge viu a luz ao fim do túnel.

Ele se perguntou, perturbado, se tais túneis interdimensionais teriam algo a ver com os desaparecimentos misteriosos de pessoas, veículos e até de animais, no mundo todo, e, em contrapartida, as aparições de criaturas extraordinárias, de fora do mundo.

Ao sair do outro lado do túnel, Jorge compreendeu imediatamente que estavam em um plano dimensional diferente do Mundo dos Humanos. O azul celeste intenso, luminoso e primaveril, dera lugar a um céu cinza-esverdeado crepuscular, sulcado por grandes nuvens foscas amarelo-alaranjadas. A certa altura o ônibus parou no que devia ser o ponto final – cujo marco indicativo não passava de um espantalho com cabeça de abóbora. Tudo estava perturbadoramente ermo.

- Crianças, chegamos! – anunciou o sinistro motorista escolar, com sua voz cava.

Jorge e Rika colocaram suas respectivas mochilas nas costas e se encaminharam para a porta de saída do ônibus. Porém, antes de descerem o motorista fez uma última advertência.

- Heh heh heh – fez a ominosa criatura de quepe e uniforme azul-marinho, rodando o charuto grosso e fumarento entre os dedos enluvados de branco. (Pareceu a Jorge que o fétido cilindro de folhas de tabaco jamais diminuía de tamanho ao ser fumado!) – Vocês dois são calouros, por isso é melhor saberem de antemão quais são as regras da escola. Afinal, é onde irão morar pelos próximos três anos, heh heh heh heh!

- Regra nº 2 da Academia Youkai – prosseguiu. – Não exponham suas verdadeiras naturezas, nem sequer para seus colegas de escola.

Jorge e Rika se entreolharam.

- E o que diz a regra nº 1? - indagou o rapaz humano nascido no Brasil.

- Manter sempre a forma humana. Boa sorte!

Ao desembarcar do veículo escolar, o par de estudantes deparou-se com uma paisagem desolada e sem vida. O tronco enorme e nodoso de uma árvore morta alteava-se grotescamente sobre o marco-espantalho com cabeça de abóbora do ponto de parada, e, em seus poucos galhos secos e tortos empoleiravam-se corvídeos de aspecto desagradável, penas negras como piche e olhinhos em brasa, casquinando horrivelmente quais demônios psicopompos ensandecidos à espera das almas dos moribundos para arrebatá-las e levá-las para as ignotas dimensões extrafísicas além da vida da matéria. Uma profusão de ossadas amarelentas, de coisas semi-humanas e semibestiais, jaziam empilhadas ou espalhadas a esmo por entre pedras musgosas e muros derruídos cobertos de venenosa hera.

Um promontório cinzento e melancólico, terreno árido e pedregoso, pontilhado de árvores mortas e retorcidas, elevava-se sobre um estranho mar de águas rubras paradas que parecia uma imensa planície de sangue banhada pela luz crepuscular que se difundia por todo aquele mundo tétrico. A meio caminho do cume de um morro, indistinto e vago na distância, mas bem próximo de uma curiosa formação rochosa assimétrica de feitio atípico (um focinho de tamanduá, ou a tromba enroscada de um elefante) que se projetava do flanco do penhasco marítimo, delineava-se o contorno escuro de um casarão senhorial contra o sombrio céu espectral verdegris ora iluminado pelos relâmpagos de uma súbita e espetacular tempestade de raios, numa paisagem feérica de sonho – ou de pesadelo.

Jorge estremeceu ligeiramente. – Academia Youkai – resmungou. – Então é aqui aonde os demônios de todo o Japão vêm estudar.

- Não, é aqui onde te ensinam a parecerhumano e a coexistir com eles – retrucou Rika.

- Eles?

- É, eles, os humanos.

Os dois começaram a trilhar o longo caminho na direção do escuro e monolítico prédio em estilo gótico, parcialmente iluminado pelo clarão dos relâmpagos, por entre as raízes grotescas e galhos secos e desnudos de carvalhos, olmos e cedros mortos e o lodoso e cinzento solo da charneca deixando a descoberto, às vezes, um osso ou um crânio chifrudo, ou lápides negras e musgosas que se eriçavam sinistramente daquela terra infértil quais unhas podres de um zumbi gigante, ou, ainda, as pedras corroídas de templos afundados de idade imemorial. Havia, por todos os lados, sinais incontestes de abandono e decrepitude, tênues odores de mofo e vegetação pútrida confundiam-se com os vapores miasmáticos que subiam de invisíveis necrópoles, tudo contribuindo para gerar uma psicosfera negativa que ameaçava subjugar o jovem brasileiro, a despeito do treinamento físico, mental e espiritual que recebera desde a mais tenra idade como youkai no taijiya, exterminador de youkais. Este lugar cheira a carma ruim.

Tal como lhe foi ensinado, mentalizou uma elipse de luz violeta a envolvê-lo, em volta desta elipse uma maior, azul-índigo, em volta desta uma maior, azul-claro, em torno desta uma maior, verde, em torno desta uma maior, amarela, ao redor desta uma maior na cor laranja, e, por último, uma elipse maior de todas na cor vermelha. Recitou mentalmente: "Eu sou um poderoso Círculo Mágico de proteção e irradiação da mais pura energia eletrônica, só impregnado do mais puro amor divino e poder construtivo. Dentro deste círculo eu sou inatingível, sou inabalável e sou invulnerável". (Práticas bioenergéticas de autodefesa espiritual não eram alheias a todo bom caçador de demônios.)

- Você odeia os humanos, Rika-san? - perguntou Jorge de supetão.

- Pessoalmente, não tenho nada contra, nem a favor – ela respondeu, dando de ombros. – Já a minha irmã mais velha os odeia. Ela diz que nós, dragões, fomos difamados, perseguidos, caçados e mortos pelos homens, por séculos sem conta, simplesmente por sermos diferentes deles. Assim como tantos outros seres vivos, youkais ou não. Tudo em nome da pretensa "superioridade" do homo sapiens. Eles e nós não podíamos viver juntos.

- Isso foi há tantos séculos... – Jorge não completou a frase. Perplexo, não sabia o que o induzira a falar aquilo.

- Eu também penso assim – ela disse, enquanto caminhavam juntos pela charneca, o ruído de seus passos abafado por um amontoado de vegetação em decomposição. – Sabe, Jorge-san, a verdade é que eu sempre estive sozinha, mesmo tendo crescido no meio dos mortais, como se fosse um deles. Na escola humana todos tinham medo de mim, por ser filha de Tatsuo Onaga, o magnata e chefão mafioso. Eu era "a garota da Yakuza". Era mandona, e fingia gostar. Mas a verdade é que todo o tempo eu queria era ter amigos, mesmo que fossem aqueles primatas vidas-curtas, bobos, tapados... Acredite se quiser!

Jorge comprimiu os lábios. Disse: – Nunca pensei que ouviria isso da boca de... Bom, você sabe...

- Da boca de um ryuu? Um dragão? - completou Rika, irônica. – Não ouvirá de nenhum outro, eu garanto. Somos uma raça orgulhosa ao extremo, a mais antiga e nobre dos Três Mundos, filhos dos Deuses-Dragões Bahamut, Tiamat e Ryu. Até o papai costuma dizer que humanos e todos os youkais são inferiores e devem ser tutelados... por nós. Também, com o poder imenso que sai do youki monstruoso que ele libera quando se transforma... Olha, bem poucas criaturas são imunes à Aura de Medo de um dragão pleno.

- Faço uma ideia – replicou Jorge laconicamente. Era verdade. Dragões, vampiros, sirens, youkos e fênix pertenciam à seleta nata dos demônios classe S, os mais poderosos e temidos de todos, os semideuses do Makai. Os dragões e os vampiros eram os piores. Suas auras etéricas, suas youkis, eram torrentes esmagadoras de energia espiritual estendendo-se por vários quilômetros em seu derredor. Energia sinistra. Um ser humano, ou até um youkai de categoria inferior, cairia de joelhos, trêmulo de espanto e de terror, perante tal aura densa e sufocante, fria e brutálica, de energia youki tão portentosa. Sim, Jorge Miguel o sabia. Fazia parte de seu aprendizado como taijiya, caçador. Seu oji-san cuidara disso.

Um grande bando de animais semelhantes a morcegos (Jorge pensou nas chamadas "raposas voadoras", morcegos diurnos da subordem Megachiroptera que vivem na ilha de Java, na Indonésia) esvoaçou acima das cabeças do garoto humano e da garota draco, voando contra o céu sempre nublado.

- Jorge-san – ela disse baixinho. – Você tem um cheiro muito bom, sabia?

- Cheiro? - ele repetiu, genuinamente surpreso.

- Quando eu estou na forma humana, a maior parte dos meus poderes draconianos fica selada – ela explicou. – No entanto, eu ainda tenho meu sexto sentido adicional, que você pode chamar de intuição dracônica. Com ela posso "sentir" o estado emocional de alguém, perceber se e quando esse alguém mente, se tem algum sentimento de hostilidade. Funciona como um contato empático, mas somente em condições especiais. Fora isso, tenho um olfato privilegiado, sinto o cheiro das pessoas e sei se são boas ou não. Foi por isso, Jorge-san, que eu gostei de você desde que te vi no ônibus. Seu cheiro é muito melhor que o das outras pessoas que conheci no Ningenkai.

- Domo arigato – ele agradeceu. – Deve ser difícil, viver sem poderes...

- Só assim eu pude morar no mundo dos humanos e não criar problemas. Não basta simplesmente mudar de forma. Como dragão, a minha temperatura corporal é mais alta que o normal em humanos, daí que se eu não lacrasse a minha real natureza, com certeza daria a impressão de estar sempre com febre. Se entrasse num hospital, não me deixariam sair.

- É, senti o drama. – Jorge pensou: "Ah, oji-san... Bem que eu queria ser capaz de odiar essa youkai, só por ela ser o que é... E pelos meus pais, e minha imouto Dafne... Mas eu não consigo!"

Bem, suas chances de sobreviver neste autêntico Pandemonium melhorariam se tivesse um amigo. Por que não Rika Onaga? Desde que jamais revelasse a ela a sua raça...

Pela primeira vez em seus dezesseis anos de vida Jorge Miguel sentiu uma estranha curiosidade. Será que um humano e uma youkai poderiam ser REALMENTE amigos?

Afastou da mente o pensamento herético, mais do que rápido. Youkais e humanos, amigos? Loucura!

Tirou do bolso do blazer o seu celular Nokia N97, teclou um número e aguardou. Nada. Fora de área. Suspirou, tornou a guardar o aparelho.

- Temos que dar adeus aos nossos celulares, Internet, GPS... – Ele riu sem jeito.

- É por causa da kekkai – disse Rika.

- Kekkai?

- A barreira energética mística que isola este lugar do mundo dos mortais. Ela cria uma espécie de "dimensão paralela" nesta área, assim os mortais não podem nos ver. Mas não se preocupe, lá na Escola Youkai tem aparelhos de fax, telefone e até Internet que conectam com o Ningenkai, fácil, fácil. Chamam de "tecnomagia".

- Como você sabe tanto, Rika-san?

- Ora, ora, é assim que a minha irmã fala com a gente em Okinawa.

- Rika-san...

- Sim, Jorge-san?

- Eu espero que a gente fique na mesma sala.

- Eu também.