Capitulo 2
O dia tinha começado soturno e escuro, como tinha sido rotina nas últimas semanas. Longas e severas semanas de escuridão, céu esbranquiçado coberto de nuvens e frio violento que parecia gelar os ossos. No interior das casas de alta sociedade, os servos acordavam antes mesmo do nascer do dia, de forma a preparar o necessário para tornar o despertar dos mestres o mais suave possível. A inércia que muitos deles apresentavam tinham como origem não apenas a falta de sol para aclarar o dia, mas igualmente uma sucessão de noites mal dormidas devido ao frio intenso que se tinha abatido na cidade.
Apenas nos corredores outrora desertos da mansão Windsor as musas da apatia pareciam não se ter instalado. Os passos rápidos e determinados eram abafados pelo tapete de veludo que percorria os corredores, à medida que a jovem avançava rapidamente. O andar elevado e a figura esbelta expressavam uma segurança sem igual, senhora da sua vontade, os olhos faiscavam de revolta e indignação. Seguida desajeitadamente por duas acompanhantes que a tentavam demover do seu intento, percorreu sem demoras o caminho que a levaria ao quarto do homem que desencadeara aquela situação.
– Mas Lady Shina – a voz da serva estava carregada de angústia, sabendo de antemão que não ia sair nada de bom daquele encontro – My lord pediu para não ser perturbado até acordar!
Shina estagnou, uma onda de raiva intensa apoderando-se do seu corpo - Ally, dear, diga-me exactamente quantas vadias estão naquele quarto agora?
A jovem paralisou, transtornada com a pergunta – C…como? – perguntou, a respiração acelerada pelo medo.
– Estou perguntando, quantas vadias trouxe ele para casa desta vez!
– Mas My lady! Lord Milo chegou muito tarde durante a noite…
Sem dar tempo de reacção, Shina deixou a serva paralisada no meio do corredor enquanto percorria os poucos metros que ainda a separavam do quarto sumptuoso. Num novo pico de fúria e sem que nada pudesse ser feito para a dissuadir, pressionou o puxador com força e atirou a porta de encosto à parede, revelando o espaço mergulhado numa escuridão quase total.
Um silêncio sepulcral enchia o quarto, apenas maculado por uma leve respiração cadenciada que surgia da cama. A jovem fez dois passos calmos, contagiada pela quietude do lugar, e esperou que os seus olhos se habituassem à escuridão. A luz do dia penetrava muito tenuemente através das cortinas, difusa e suave, oferecendo uma luminosidade fraca típica das manhãs cinzentas.
Sobre a cama de dossel conseguia distinguir quatro vultos emaranhados por baixo dos lençóis. Rapidamente distinguiu os longos cabelos loiros cacheados espalhados pela cama e tapando parcialmente o rosto do homem que parecia dormir tranquilamente de barriga para cima. A respiração pesada específica de alguém completamente entregue a um sono profundo, Milo não mostrava a mínima reacção de um despertar iminente. Ao seu lado, numa encruzilhada de pernas e braços indiscretos e igualmente nuas, as três jovens desconhecidas pareciam mais receptivas ao despertar. Visivelmente de sono mais leve, começaram a ronronar e abrir os olhos vagarosos à medida que se espreguiçavam descaradamente. Toda a cena desenrolava-se lentamente, concordante com aquele inicio de manhã umbrosa.
Sentindo a sua paciência presa por um fio, Shina bateu palmas duas vezes para chamar a atenção. Deliciada com a reacção imediata àquele gesto, viu as três mulheres erguerem-se num impulso e mirarem-na com os olhos arregalados.
– Peguem nas vossas coisas e desapareçam daqui! – a jovem falou, o ódio explicito naquela frase petrificando de terror as três mulheres - AGORA!
A reacção foi imediata. Atrapalhadas, procuraram as roupas desajeitadamente pelo quarto e saíram do quarto. Vendo-se finalmente sozinha com a figura adormecida sobre a cama, esperou alguns segundos que lhe pareceram intermináveis, dando margem ao homem de acordar. Percebendo que a espera era em vão, apoiou as mãos com força no colchão macio.
– MILO ALEXANDER ANDREW WINDSOR – o grito estridente percorreu o quarto e corredores próximos, fazendo todos os ocupantes da casa estremecerem - ACORDE IMEDIATAMENTE!
Milo nunca esperava ser acordado daquela forma. A noite anterior não previa minimamente aquele despertar brusco. Ergueu-se na cama num salto, arregalando os olhos azuis instintivamente, os sentidos em alerta de forma espontânea.
– Damn Shina! Mas que forma mais indelicada de acordar pessoas! – a voz arrastada pelo acordar, Milo sentia a adrenalina cair aos poucos e um delicioso tornou apoderar-se do corpo - Não admira que ninguém queira casar consigo!
Mesmo ouvindo as ultimas palavras pronunciadas, a jovem não se demoveu.
– Para sua informação, primo, ainda não estou casada porque EU não quero e pelas razões que a sua cabeça inventa! Pois ao contrário de você, eu não corro as ruas à noite em busca de mulheres para trazer para casa.
– Concordo, seria deveras estranha como situação. No seu caso penso que homens, um de cada vez claro, seria o mais apropriado – a resposta sempre pronta na ponta da língua, Milo levantou-se, deixando o lençol descair do corpo desnudo numa sensação deliciosa. Espreguiçou-se felinamente e esboçou um sorriso de criança ao perceber que a prima desviava o olhar de forma respeitosa pela nudez despudorada.
– Milo… você não aprende – retribuiu emaranhando o lençol branco e atirando-o na direcção do loiro - E não passeie por aí assim, vista alguma coisa pelos deuses!
– Por favor my love! O que é bom é para se ver! Além do mais não tenho nada que já não tenha visto… em pior, claro – Milo piscou o olho e entrou noutro compartimento, continuando a falar despreocupadamente – God! O dia nem começou ainda! Qual é exactamente a razão para me ter acordado a esta hora da manhã e de uma forma tão gentil!
O som da água corrente a encher a banheira chegou ao quarto, o que despertou em Shina um suspiro pesado. Sempre que pudesse, Milo preferia abstrair-se dos cuidados dos servos, realizando as tarefas por si próprio. Se não fosse pelos seus cuidados e se não vivessem na mesma casa, Milo já tinha dispensado muitos servos à eras.
– Primeiro – respondeu alto para que a sua voz transpusesse o barulho da água - o cedo é um conceito relativo. São 11h30 da manhã! E em segundo: esqueceu-se do almoço que tinha planeado com os Gabriel?
– Aioria e Aioros estavam em minha companhia ontem à noite! Posso até prever que cheguem tarde a esse dito almoço também.
A água deixou de correr, dando lugar ao barulho de um corpo a ser submerso na banheira. Satisfeita com aquele som, Shina permitiu-se sentar em cima da cama desfeita, de forma a conseguir entrever o interlocutor dentro do quarto de banho.
– Aioria não me espanta, ele é tão ou mais libertino que você… mas Aioros? Ele que é um poço e sensatez?
– Right? Pois bem… ao que consta, o nosso senhor certinho esta a passar por uma crise afectiva e precisava se distrair.
Minutos se passaram sem que nenhum dos dois dissesse nada. Tanto um como outro tinham consciência das preferências sexuais do mais velho dos dois irmãos, mas precavidos era preferível não comentar. As paredes podiam ter ouvidos, e uma história daquele gabarito se extrapolasse podia trazer muitos problemas a ambos os herdeiros Gabriel.
Shina suspirou finalmente, resoluta a tentar colocar alguma sensatez na cabeça do primo.
– Milo, você não vê que a única coisa que interessa a essas mulheres é seu dinheiro?
Milo sorriu, encostando a cabeça no material frio e fechando os olhos deliciado com a sensação. Adorava aquela junção entre o calor intenso da água e o frio suave da banheira.
– Claro que sei my love! – respondeu despreocupadamente - Por isso mesmo não passam de aventuras de uma noite!
Shina murmurou para si própria, rendida às evidencias. Milo não estava minimamente preocupado em viver a vida com temperança e juízo. Vivia os dias como queria, sem que ninguém tivesse nada com isso, desencadeando alguns escândalos aqui e ali que servia para apimentar os mexericos da alta sociedade. Fechou os olhos cansada, os ombros sempre erguidos começando a descair com o peso da derrota.
– Não faça essa cara Shina! A preocupação não combina com você!
A jovem abriu os olhos seria, encarando o homem que o olhava divertido. Era-lhe realmente impossível fazer algo daquele primo incompetente.
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– My Lord, o almoço está servido.
– Obrigada, desço já.
Voltou seu olhar para a janela. Um extenso lençol de neve cobria a cidade e o tom carregado do céu parecia prever que mais caísse até ao final do dia.
– Mais um dia… - com um murmúrio quase silencioso, a figura de longos cabelos verdes deixou-se embalar na depressão que o mortificava diariamente. Os olhos penosos ametista presos no vazio, permaneceu naquela apatia antes de fazer qualquer gesto para se levantar – mais um dia e este tormento não acaba…
Saiu do quarto em direcção à sala de refeições, deslocando-se vagarosamente. Qualquer pessoa que o visse acharia que aquele homem tinha o peso do mundo nos ombros, o que não deixava de ter sua parte de verdade. Num gesto rotineiro sentou-se à meda e deixou-se ser servido em silêncio.
"Shion, você precisa parar de se culpar. Cinco anos passaram, não pode continuar martirizando-se com isso!" pensou para consigo fechando os olhos com força. Pressentia uma ligeira dor de cabeça começar a aflorar.
A culpa era sua… podia justificar-se o quanto quisesse mas a culpa era sua se o irmão já não estava com ele. Tinha-o traído quando este mais precisava do seu apoio... e após esse caso, nunca mais o tinha voltado a ver.
– Mais um dia.. – murmurou entre dentes, forçando-se a colocar algo no estômago.
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O dia estava extremamente frio. Mal conseguia pegar no lápis sem que a mão tremesse. A neve não parava, o que o impedia de sair para desenhar, confinando-o àquele espaço minúsculo que lhe servia em simultâneo de quarto e atelier. Por várias tentativas esperava fazer algo daquela folha branca, mas nada lhe saia bem. Com a falta de coordenação dos dedos e o tremor que o frio lhe impunha, as coisas não se avizinhavam promissoras.
"Mais um dia sem poder trabalhar!" – murmurou desconsolado.
Seu trabalho de pintor não lhe dava muito dinheiro, mas sempre dera para pagar as despesas do cubículo onde morava com mais duas pessoas. Pequeno e pouco arejado, com condições mínimas de salubridade, mas dava para viver. Repensando no assunto, não tinha tido muita escolha. Podia-se dar por muito satisfeito por encontrar os dois companheiros num pub de esquina naquela noite, pouco tempo depois de ter chegado a Londres.
Como muitos outros antes dele, fora atraído pelas riquezas da maior capital Europeia, convencido de que encontraria o seu lugar na grande metrópole. Mas como quase todos não fora bem isso que acontecera. Aos dezoito anos tinha saído do seu país, convencido de conhecer tudo do mundo, coisa que rapidamente tinha percebido ser falso.
Tinha chegado a Londres cheio de sonhos de conquista, tal como seu amigo italiano; mas apesar do entusiasmo tinham acabado por se aperceber que a vida era muito mais complicada do que aparentava no fim da juventude.
Conseguia vender alguns quadros, o suficiente para pagar sua parte do apartamento onde morava… e sem que se apercebesse, dois anos tinham passado.
– Hey, Shura! – arrancado de suas recordações, o seu consciente reagiu à voz conhecida.
– Sí, qué passa? (n/a: Sim, o que se passa?)
– Caspita! (n/a: Céus!) Faz um tempão que o estou chamando cazzo! – um homem de cabelos azuis tinha entrado sorrateiramente no atelier improvisado, tentando não fazer muito barulho – esse cheiro a tinta está-lhe a fazer mal à cabeça!
– O reconhecido bom humor italiano! – respondeu, dando-se por vencido e jogando o pincel em cima da mesa de apoio - O que aconteceu desta vez?
– Fui despedido. – o italiano respondeu, num tom de voz mais baixo que o costume, sentando-se perto do amigo no chão – Il fili di una putana (n/a: aquele filho da p***) me despediu!
Shura respirou fundo, compadecido com a situação do companheiro - E a razão para tal?
– Me exaltei.
O espanhol sorriu, imaginando algumas hipotéticas 'exaltações' que pudessem ter acontecido para resultar na desgraça do outro - Conhecendo como o conheço, acredito que tenha chamado seu superior de coisas não muito simpáticas.
– Ele mereceu!
– Carlo, ele pode ter merecido, mas tem de aprender a controlar seu sangue quente. Se a cada vez que arranja um novo emprego, uma semana depois está na rua, vai acabar por esgotar todos os jornais da cidade; e olha que não são poucos!
– A culpa não é minha se estes imbecilli não sabem o que é bom jornalismo!
A tarde prometia ser longa para ambos, naquele duelo de culpabilidades, se um barulho seco fora do quarto não tivesse despertado a atenção de ambos. Encararam a porta do quarto curiosos, ouvindo a madeira do chão ranger à passagem do recém-chegado. Viram o vulto aproximar-se da porta, parando antes de entrar. Era alto. Extremamente alto e corpulento ao ponto se parece aterrador, se não fosse o contraste das suas feições serenas e amistosas.
Parecia extremamente cansado, mas os seus lábios abriam-se num sorriso amical.
– Amigo, parece exausto…
– E estou Shura. Dói-me o corpo todo e só me apetece dormir. Mas ainda tenho meio dia de trabalho pela frente. Tenho 1 hora para comer alguma coisa e voltar para a fábrica.
– Sobrou um pouco de carne de ontem. Pode ficar com ela, Aldebaran.
– Obrigado!
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– O seu estado não é preocupante mas aconselho-o a ficar de cama nos próximos dias.
Os cabelos loiros espalhados no travesseiro e os olhos azuis claros faziam a personagem deitada na cama parecer um anjo. Um longo suspiro saiu dos lábios carnudos, antes da voz suave ser ouvida - Sim…eu sabia que não deveria ter saído com este frio.
O médico atento, observava-o com uma expressão de reprovação pelas atitudes inconsequentes, mas ao mesmo tempo paternalista – Se sabe que tem tendência para estas crises de indisposição nesta altura do ano, evite atitudes desse tipo!
– Mas se pensar sempre no que poderá eventualmente acontecer, Dohko, nunca mais sairia à rua com medo de resfriados. Não posso passar o Inverno enclausurado em casa, sob pena de enlouquecer!
– Não digo para ficar fechado em casa. Só para não sair à rua sem tomar as devidas precauções. O seu estado não tem sido grave nos últimos tempos, mas tem que ter em consideração que há sempre essa possibilidade! Dado a fragilidade de seu coração acho que deveria tomar mais cuidado.
O barão ficou pensativo. Aquela coração frágil tinha-o perseguido desde criança. Com o aparecimento das primeiras neves, tinha sempre problemas de saúde, acabando por ficar de cama a maior parte do tempo. Enquanto criança era interdito de saída mal começasse o frio, e lembrava-se de olhar pela janela e de invejar as crianças que brincavam na neve. Porque aquele pequeno prazer não lhe era permitido?
– My lord – atordoado nas suas memórias não tinha percebido a presença do mordomo ao seu lado - trouxe um chá para o Senhor.
– Obrigada Alexis – respondeu levantando-se com algum cuidado - Queira acompanhar Dohko à porta por favor.
– Sim my lord.
– Tome cuidado Afrodite. Conheço-o desde pequeno, e acredite que ninguém mais do que eu quer que você melhore – o olhar terno do médico aquecia-lhe a alma. Podia estar sozinho naquela situação, mas pelo menos tinha alguém com quem contar. Um amigo – Volto pela manhã para saber da evolução. Caso haja pioras, o que duvido, mande-me chamar imediatamente!
Afrodite sorriu com um vestígio de traquinice - Obrigada Dohko. Tentarei ser um bom paciente e, por uma vez, fazer o que manda.
O médico riu e dispensou-se do quarto do barão. Não havia muito mais que pudesse fazer, apenas restava esperar que a crise maior passasse sem deixar sequelas para o mais novo.
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Sentada numa mesa, num pub no bairro de Whitechapel, a jovem ruiva tentava em vão arranjar algum tipo de aquecimento. Para seu desalento a noite tinha sido pouco produtiva, aquele frio terrível mantinha os clientes habituais ao abrigo dos seus lares. Se continuasse assim, não teria dinheiro para pagar o alojamento que dividia com mais duas companheiras, o quanto mais de comida para matar a fome. Todas à sua volta queixavam-se do mesmo. Mesmo as prostitutas de maior renome tinham dificuldades em angariar clientes naquelas alturas do ano.
"Mais um dia complicado..." murmurou pensativa. Apenas havia um lado positivo desses dias: podia dar um pouco de descanso ao seu corpo. Apesar de jovem, detestava a sensação com que ficava todas as manhãs apos uma noite inteira de trabalho. Além de mentalmente exausta, o corpo recusava-se a mais que o indispensável para a sobrevivência. "Como acabei nesta vida …"
– Marin! - a voz grossa chamou de trás do balcão - Cliente para você!
