Pedro já teve outras namoradas e ficantes, mas nenhuma delas chegava aos pés de Nakamura em termo de beleza. Naquela manhã de domingo com o sol perfeito, o casal decidiu aproveitar a praia. Atrás do Man, próximo ao bairro do Comércio, os dois namoravam seja na canga estirada na areia ou na água do mar. Pedro preferia namorar dentro d´água, talvez por causa de sua natureza, ele achava seu elemento até erótico. Ver Nakamura molhada o deixava ainda mais animado, o que levando em conta que vestia uma sunga podia ser perigoso.

A não timidez de Nakamura era comprovada com o biquíni que vestia, daqueles de amarrar do lado, pequeno o suficiente ao ponto de dar para perceber que ela se depilava. Quando a nisei se afastava um pouco de Pedro, homens mais atirados assoviavam durante sua passagem, alguns até eram mais indelicados e usavam termos como: "gostosa" e "delicia". Ela não se importava, gostava de ser venerada.

Pedro sentiu vontade de invocar as águas e fazer com que o mar engolisse a todos, mas no final das contas não fez nada. - Vou acabar perdendo essa mulher. - Disse o adolescente que não se achava bonito o suficiente para ela. Pedro era um garoto magro, de pele escura e cabelo crespo bem baixo. Um tipo comum em seu estado. Nakamura era uma asiática com pele clarinha e quadril largo, era novidade por onde passava.

Apesar dos stresses, Pedro estava curtindo o seu fim de semana, até que uma mão pedregosa saiu da areia. - Que diabos é isso?! - Do nada um exército de homens pedras se ergueram das profundezas da praia. Os outros banhistas fugiram, mas o casal de semi-orixás não conseguiram fazer o mesmo. Estavam cercados.

Os punhos de Nakamura conseguiam destruir aqueles construtos de pedra. Com uma magia nova que aprendera, começou a lançar bolas de fogo e derrotou quase a metade. Pedro Jaquison tentou imitá-la, mas quando socou o rosto de um dos homens de pedra, além de não conseguir derrotá-lo, sentiu uma dor como se seu pulso tivesse partido. O homem de pedra o pegou pela cintura, o levantou acima de sua cabeça e o jogou para longe. Pedro comeu areia ao aterrissar de modo indelicado, mas para sua sorte foi parar perto da água.

- Vamos, poderes de X-men. Não me falhem agora. - Pedro apontou para o mar esperando uma tromba d´água avassaladora que destruiria os inimigos, ao invés disso conseguiu outro efeito. A água foi atraída à sua mão e se tornou sólida, apesar de não ter se congelado. - Um martelo líquido!

Nakamura já tinha acabado com praticamente todos, mas fez questão de deixar que seu namorado derrotasse pelo menos um. Só para ele não se sentir inútil. Uma martelada na cabeça do homem de pedra e ele esfarelou.

- Quando vi vocês dois pensei que eram apenas uma bunduda e um banana. Mas até que vocês têm alguma fibra.

O casal se posicionou um ao lado do outro, prontos para brigarem com essa figura estranha. Um homem de aproximadamente trinta anos que vestia uma camisa colorida que mais parecia saída da parada Gay. - Sou o filho do orixá do ar e da atmosfera. Acho que vocês sabem de quem eu estou falando.

- Meu professor de história, Anselmo. - Disse Pedro. - Ou melhor, Oxaguian.

- Eu sonhei com ele me chamando. Ele está perdido em um mundo perigoso e me disse que precisarei da ajuda de dois nobres guerreiros para resgatá-lo. Desculpe-me o transtorno dos homens pedra, foi só um teste.

Nakamura e Pedro se entreolharam e sorriram, não precisavam falar para se comunicar, os dois ficaram alegres por serem mencionados por um orixá como: "nobres guerreiros".

- Me chamo Rivelino, sou dono de um ferry boat. É com ele que chegaremos ao nosso destino.

- Tudo bem, vamos só pegar nossas roupas. - Disse Pedro. Porém, para o seu desespero, sua mochila e a bolsa de sua namorada tinham desaparecido. Junto delas suas roupas, dinheiro, Rgs. - Caralho, fomos roubados!

- Não temos tempo a perder! - Disse Rivelino. - Temos que partir agora.

- Mas estamos praticamente nus!

Descer a ladeira que levava até o Comércio foi uma experiência bem embaraçosa. Inclusive, para Nakamura, dessa vez até ela se sentiu mal com os olhares que atraia. - Jesus, que mico! - O pior nem foi o caminho, mas a chegada ao píer, onde muitas embarcações aportavam e partiam. Homens e mulheres olhavam para o casal com interesse ou estranhamento. A subida na bendita embarcação de Rivelino foi um alívio.

- Você tem alguma roupa para nos emprestar? - Perguntou Pedro.

- Nós iremos viajar para um pedaço do Orun. Nenhuma entidade de lá, de baixo ou de alto nível, se importará com o que vestem ou, principalmente, deixam de vestir.

- Esse boiola está de sacanagem! - Pensou Pedro.

XXX

Era estranho para ele, senhor do ar e da atmosfera, não conseguir negar a gravidade e voar. Mas cada plano de existência tinha suas regras e habilidades que funcionavam em um lugar as vezes não funcionavam em outro.

- Aqui só voa o que eu deixar. Se eu não permitir nem mesmo um pássaro ganha as alturas. - Oxaguian estava praticamente se arrastando no chão, após o que pareceu uma eternidade de queda, ele chegou à uma caverna com rochas de um tom laranja para o avermelhado. Ao suspender sua vista, o orixá viu uma figura sinistra vestida com uma armadura negra pesada. Seu rosto era encoberto, mas sua voz encorpada amedrontava.

- Quem é você?

- Sou o egungun responsável por esse plano, meu nome é Zabulon. - Simplificando, eguns são fantasmas, egunguns são fantasmas de pessoas muito importantes. O que não significa que tenham que ser necessariamente bons ou ruins. Infelizmente, Oxaguian estava preso em um plano dominado por eguns sem luz.

- O que quer de mim? - Perguntou Oxaguian, que ao tentar levantar se percebeu preso à correntes mágicas.

- Vingança.

- Eu nunca te fiz nada!

- Não minha, mas a de um certo semi-orixá cujo poder equiparasse ao de uma divindade.

- Ferreirinha! - Tudo fazia sentido agora, Zabulon era servo do vilão. Do contrário, porque ele teria a liberdade de construir seu quarto suntuoso naquele plano? "Aqui só voa o que eu deixar", lembrou Oxaguian. O orixá se perguntava o que Ferreirinha deveria ter oferecido em troca de ser deixado em paz em sua casa voadora.

- A canoa! Por que você não derrubou a canoa de uma vez quando estivemos aqui?

Zabulon não queria responder, pois seria uma forma de admitir que haviam influências superiores a sua no reino que considerava seu. Apesar de preso, Oxaguian ainda era um orixá, os espíritos sempre se sentiam compelidos a responder seus questionamentos. - Ia Mi Oxorongá! Não tenho poder sobre nada que elas abençoam.

XXX

Ela era maliciosa, fazia isso para provocá-lo. Apoiada na beirada do ferry boat, sacudindo as ancas, era quase que como se o convidasse. - Vai, garoto! - Uma voz se fez ouvir dentro da cabeça de Pedro. O garoto se aproximou na surdina para não ser percebido, mas Nakamura já sabia da sua aproximação. Só fingia não saber. Ele a abraçou por detrás e a beijou no pescoço, logo abaixo da orelha esquerda. O lábio dele logo encontrou o dela e enquanto a saliva era trocada, Nakamura pôs a mão dentro da sunga de Pedro e tirou de lá o que estava escondido. O biquíni da garota que pouco a cobria, passou a não cobrir nada quando foi tirado do lugar. Era a primeira vez dele, mas não a dela.

Pedro colocou parte de si dentro da nisei durante o prazer. Depois do vaivém o casal ficou suado e ofegante, mas ainda trocavam caricias e sorrisinhos. - É, você não é tão mole afinal. - Disse Nakamura.

- Não se esqueça que você pode até ser o fogo da relação, mas quem apaga o fogo é a água.

Enquanto o casal transava, Rivelino guiava a embarcação. Como filho do senhor do ar, os ventos a sua volta sempre lhe contavam novidades. - Boa garoto. - Disse o semi-orixá, se referindo ao sucesso de Pedro. O homem continuaria em sua rota, sem ter mais preocupações, se não visse uma nuvem negra pairando acima do seu barco. Não era céu nublado, o seu elemento lhe dizia que ela não era natural.

Homens começaram a cair do céu direto no ferry boat. Trajavam uma armadura negra que cobria peitoral, ombros, antebraços e a parte inferior da perna. Seus rostos eram escondidos por uma máscara que só deixava a boca de fora. Diante da invasão, Pedro e Nakamura se assustaram e cessaram o chamego. - Quem são vocês? - Perguntou Pedro.

- São cavaleiros eguns. - Disse Rivelino ao sair da sala de capitão. - Eles vieram atrapalhar nossa missão, meninos, se preparem para a batalha de suas vidas!

Se Pedro achava que aquele homem era gay, deixou de achar assim que o viu lutando. A semelhança com Oxaguian era evidente, ele mais parecia um superman, voando em cima dos adversários, socando-os e jogando-os para fora da embarcação.

Eles eram mais perigosos do que os homens de pedra, nem mesmo os punhos de Nakamura conseguiam detê-los. Ela apelou para a sua magia de fogo, mas os cavaleiros eguns também tinham sua magia própria. Eles lançavam um raio escuro que retirava o máximo da menina. Após uma explosão de chamas três cavaleiros eguns foram eliminados, mas a nisei ficou esgotada.

- Garoto! - Gritou Rivelino, enquanto abatia mais um inimigo de armadura negra. - O seu elemento é a água, estamos cercados por ela! Faça alguma coisa!

Pedro estava começando a erguer uma tromba d´água, mas foi atingido por um feitiço lançado por um cavaleiro egun e foi jogado para fora do barco, caindo no mar. - Engraçado, um peixinho morrer afogado. - Comentou o agressor rindo.

O garoto afundou no mar e foi cada vez mais para o fundo. Porém, para a sua surpresa, ele não se afogava. - Como consigo respirar? - Pedro passou as mãos pelo pescoço e rosto temendo terem nascido guelras ou algo bizarro do tipo. Essa preocupação lhe pareceu supérflua quando um tubarão absurdamente grande parou na sua frente. - Pronto. Acabou. - Pensou Pedro com o coração acelerado ao ponto de quase arrebentar seu peito. Porém, ao invés de abrir a boca para devorá-lo, o peixe abaixou a cabeça como se o saldasse.

Nakamura ao ver que seu namorado foi derrubado tirou forças extras para continuar a lutar. Agora era questão de honra. Com lágrimas no rosto, acreditando que Pedro havia morrido, ela lançava suas chamas nos inimigos. Porém seu poder ficava cada vez mais fraco. Rivelino tinha mais empenho, mas também começava a cansar. Quando a luta se mantinha pendendo para os cavaleiros eguns, Pedro reapareceu majestoso. Praticamente surfando em um tubarão marrom listrado.

Ao vê-lo Nakamura riu e chorou ao mesmo tempo aliviada. - Mas esse garoto não cansa de me surpreender.

Seguindo o comando de Pedro, o tubarão fez o que nenhum outro de sua espécie faria. Pulou no ferry boat e começou a devorar todos os inimigos que encontrava na frente. Após o serviço terminado, Pedro desmontou do bicho e o viu voltar para o mar. - Nunca pensei que eu diria isso. - Comentou Pedro. - Mas ele é um belo tubarão.

- Não é só um "belo tubarão". - Disse Rivelino. - É o Senhor dos Tubarões.

Após um breve período de comemorações pela batalha vencida, o trio foi surpreendido por uma turbulência. Apesar de não fazer o menor sentido, a água do mar que suportava a embarcação acabou. Rivelino era o único que se mantinha calmo, pois havia sido advertido que enfrentaria aquela situação. - Senhoras e senhores iremos entrar no plano chamado Mar de Eguns. Se preparem para a decida. - Como se tivesse passado por uma cachoeira, o ferry boat inclinou o bico para baixo e despencou como uma seta. Pedro e Nakamura só não foram jogados para fora porque Rivelino os pegou pela cintura.

Não houve feridos além da embarcação, que ficou inutilizada. O trio ficou um período desmaiado devido à queda que durou incontáveis minutos. Pedro se levantou com dificuldade, sua cabeça latejava com uma dor que nunca havia sentido. Nakamura não estava muito melhor. Já Rivelino, levando em consideração pelo que passou, estava bem. - Vamos, gente. Temos muito chão pela frente.

Ainda sem levantar, deitado com a barriga para cima, Pedro olhou ao seu redor e se viu em uma caverna com rochas laranjas pendendo para o vermelho. - Como vim parar aqui? - Pensou o filho de Iemanjá, mas com pouco tempo chegou a conclusão de que não valia a pena tentar entender. - Esse Orun não faz o menor sentido.

XXX

Oxaguian sabia que era inútil, mas não conseguia parar de tentar. Preso em uma cela que lembrava uma masmorra medieval, o orixá tentava romper seu cativeiro com seus punhos ou com o controle do seu elemento. Nenhuma magia funcionava e nem o mais potente soco fazia as grades cederem. Não havia escapatória. A não ser que o seu pedido de socorro tenha sido recebido.

Olhando ao seu redor, nas outras celas, Oxaguian viu outros prisioneiros. Alguns deles, ele reconheceu, outros pertenciam a diferentes panteões. O que estava preso a sua frente, inclusive, vestia-se como um faraó egípcio. Não chegava a ser uma divindade, mas era um egungun de luz.

- Com licença. - Disse Oxaguian. - Qual a sua graça?

- Aquenáton.

- Está preso aqui há muito tempo?

- Só uns poucos séculos. Por quê?

O orixá encerrou a conversa se prostrando no canto de sua cela. - Meninos, venham logo.

Apesar da frase não ter sido direcionada para ele, o faraó não pôde deixar de escutá-la. - Está esperando alguém? Salvadores?! - A expressão desanimada do egungun subitamente mudou para algo mais alegre, era o efeito da esperança.

- Subestimei o filho de Olorun e terminei preso aqui. Subestimei o poder de fantasmas desencarnados e pedi a ajuda de três semi-orixás. Talvez seja até melhor que eles não venham me resgatar. Temo condená-los.

Aquenáton elevou o tom de sua voz. - Não percebe?! Está subestimando quem não devia novamente! Não é só porque são meio humanos que eles não possam fazer o impossível. Inclusive talvez seja o lado humano deles que faça-os mais fortes. - Oxaguian sorriu de forma encabulada, não sabendo ainda se o egungun mantinha-se racional ou se era o desespero do longo cativeiro falando por ele.

XXX

- Estou pegando o jeito disso! - Talvez o fato de ter controlado o Senhor dos Tubarões o tenha enchido com uma autoestima digna de quem tem sangue divino. O fato é que Pedro havia se tornado até um pouco chato de tão confiante. Os seus socos estavam mais pesados e agora finalmente ele conseguia derrubar os cavaleiros eguns que cruzavam seu caminho. Nada mal para alguém que no início do dia não conseguia nem derrotar um homem de terra criado com um feitiço simples.

- Foi o contato com o mar que te deixou mais forte. - Disse Rivelino. - A sua descendência é de um orixá de água, quanto mais tempo passa perto do seu elemento mais forte fica. Se muito tempo longe dele mais você enfraquece.

Agora muita coisa fazia sentido na cabeça de Pedro. - Então era por isso que eu estava tendo dificuldade em controlar a água?

- Provável. Quando a gente voltar dessa missão, não tenha medo. Dê um mergulho no mar e nade o mais distante que puder. Não se preocupe, sua mãe não irá deixar que morra afogado e nenhum súdito dela irá machucá-lo. - Pedro entendeu pelo contexto que quando Rivelino se referiu à "súditos dela" ele queria dizer animais marinhos.

- Já que você está mais energizado, está na hora de deixar sua amiga mais forte. - Rivelino pegou um pedaço de pau comprido e produziu fogo usando uma magia que manipulava o oxigênio. Com a tocha em mãos ele se aproximou de Nakamura.

- Espera! O que está fazendo?! - Rivelino jogou a tocha na menina e com outro feitiço alimentou a chama, fazendo com que ela crescesse e a engolisse. A menina gritou, não de dor, mas de medo.

- Nakamura! Você é maluco?!

- Calma, Romeu.

Quando o fogo cessou, Nakamura se sentia mais forte e ficou maravilhada com isso, tanto que de cara não notou um efeito colateral. - Desculpa, devia ter previsto isso. - Após Rivelino terminar de falar, Nakamura olhou para o seu corpo e percebeu que seu traje de banho havia desaparecido, virado cinzas. Irritada, ela protegeu os seios com o braço e sua parte intima com a outra mão.

- Seu tarado!

Rivelino a olhava com naturalidade, parecia acostumado com naturismo. Já Pedro, mesmo já tendo tido relações com ela, a olhou de uma maneira gulosa que a incomodou e a fez ter um desejo de se vingar. A filha de Ogun estalou os dedos e de repente a sunga de Pedro começou a pegar fogo. Com uma precisão milimétrica as chamas não o queimaram, mas estragaram sua roupa.

Agora Nakamura não era a única pessoa pelada na excursão. - A água apaga o fogo tanto quanto o fogo faz a água secar.

XXX

Sentado em seu trono, onde pouco saia, Zabulon ouvia seus servos relatarem sobre uma invasão. Eram três cavaleiros eguns posicionados com o joelho esquerdo no chão e com a cabeça baixa. - Um homem meio afetado na casa dos trinta e um casal de adolescentes pelados. - Disse um deles. Com a maior vergonha do mundo continuou. - Estão nos derrotando as pencas.

- Por que alguém iria para a guerra pelado? - Se indagou o egungun das trevas. - Será alguma tática de batalha que eu desconheço? Talvez funcionasse com inimigos vivos, mas com mortos... - As palavras daquele senhor do mau fizeram com que um dos três cavaleiros de ébano ajoelhados se recordasse de sua vida perdida e de como era bom o contato pele com pele, mesmo que não sexual.

Um quarto cavaleiro negro apareceu na sala do trono. Da forma mais espalhafatosa possível ele foi arremessado até se chocar contra a parede ao lado do trono. Zabulon achou graça da investida. - Se você queria me acertar com meu próprio servo errou.

Os três invasores se aproximaram. O trio de cavaleiros tentou pará-los, mas foram rechaçados com uma facilidade impressionante.

Zabulon levantou-se do seu trono, algo raro, e se aproximou dos três. - Deixa eu adivinhar: são amigos de Oxaguian. Um pederasta e dois pervertidos. Que lindo.

- Quem disse que sou gay? Sou muito homem! - Rivelino ergueu o nariz para demonstrar orgulho e superioridade, acabou mostrando outra coisa. Pedro e Nakamura se entreolharam e, falando baixo demais para que o outro não ouvisse, o garoto disse. - Tá vendo. Eu sabia.

Sem mais trocar palavras, Zabulon enviou um feitiço similar ao utilizado por seus cavaleiros eguns, mas infinitamente mais forte. Rivelino se colocou na frente do casal pelado e criou uma barreira atmosférica que barrou o ataque. - Rápido, garotos. Ataquem! Não conseguirei segurá-lo por muito tempo.

Jogando seu corpo para direita, Nakamura preparou uma bola de fogo e a arremessou contra o inimigo. A magia foi tão poderosa que até mesmo ela ficou impressionada, porém, não surtiu nenhum efeito no egungun. Pela esquerda atacou Pedro. Não havia água por perto, mas ele a retirou da umidade do ar e lançou um jato d´água em Zabulon forte o suficiente para cortar um homem ao meio. Uma lasca da armadura do egungun cedeu. - Desgraçado!

O inimigo interrompeu seu feitiço quando o golpe de Pedro o atingiu. Rivelino então se aproveitou para golpeá-lo com toda mágica que seu corpo semidivino continha. Um soco potente, luminoso. O corpo de Rivelino começou a brilhar e ele logo foi coberto por uma armadura dourada que o casal achou belíssima.

O punho de Rivelino foi adentrando na armadura de Zabulon até fazê-la se despedaçar. Continuando o ataque, o semi-orixá atravessou a criatura maléfica com o seu punho fazendo com que sua essência se espalhasse e se perdesse por um bom tempo.

- Que armadura é essa que está vestindo? - Perguntou Pedro.

- Cavaleiros eguns vestem armaduras de eguns. Cavaleiros orixás vestem armaduras de orixá. - A armadura de Rivelino cobria o corpo inteiro, só deixando livre as partes essenciais para garantir a mobilidade. A sua tonalidade fez com que Pedro se lembrasse de um anime. "Ele é um cavaleiro de ouro!" pensou.

- Agora que não há mais perigo eu continuo daqui. Podem voltar para casa.

- Voltar como? - Perguntou Nakamura.

- Agora que o espírito maléfico que dominava esse mundo não está mais ativo, magias de voo voltaram a funcionar nesse plano. - Rivelino apontou as mãos para o casal e fez com que eles voassem. Os dois deixaram o Orun e foram parar no Aiye. Mais precisamente para a cama de um quarto.

Pedro estava deitado por cima de Nakamura. A mãe do garoto abriu a porta do quarto para pegar algumas roupas do filho para lavar, foi uma grande surpresa vê-lo pelado com um garota.

- Mãe, eu posso explicar. - Disse Pedro.

- É. Sei que pode.

XXX

Praia do Jardim de Alah. Segunda-feira, no dia seguinte ao resgate de Oxaguian. De manhã cedo, antes das aulas, o sol nem havia mostrado sua cara, mãe e filho faziam algo inusitado. - O orixá disse que você deve ter o máximo de contato possível com a água do mar, certo? Então a partir de hoje toda semana você virá aqui dar um mergulho.

- Mas você disse para eu não trazer uma sunga.

- Você não vai precisar de uma. Máximo de contato. Máximo, contato. Entendeu?

- O quê?! Mas mãe!

A mulher puxou a calça do garoto enquanto falava. - Anda, eu te vejo pelado desde que trocava sua fralda e você mijava na minha cara. Está muito cedo para alguém te ver. - Pedro não sabia dizer até que ponto aquilo era uma vingancinha de sua mãe ou um desejo genuíno que ele se tornasse um semi-orixá mais forte e saudável. As peças de roupa iam sendo tiradas e entregadas à sua mãe. Quando a sua cueca veio a baixo, a mulher deu dois tapinhas em seu bumbum que o deixou envergonhado.

- Agora vá dar um mergulho, um bem demorado. Se retornar da água em menos de uma hora eu te faço voltar!

As primeiras ondas geladas a tocar no seu corpo nu o incomodaram, mas ele logo se acostumou e antes que percebesse já estava bem longe da costa. Seus poderes faziam com que conseguisse nadar mesmo sem dar braçadas ou mexer suas pernas. A força de seu pensamento ordenava que a água o propelisse para frente. O mar era mesmo o seu ambiente, nadando ele era mais rápido do que um foguete.

XXX

- Você não tem vergonha de ficar pelada na frente de estranhos, mas tem de ficar na frente do seu próprio pai?

De cabeça baixa, como uma japonesa submissa, algo que não era, Nakamura apenas acenava positivamente com a cabeça, - Sim, papai. - Em um ferro velho situado no bairro de Aquidabã, a nisei removia o seu uniforme colegial e sua roupa de baixo, entregando tudo ao seu patriarca. Estava nua, mas dentro da propriedade de sua família se esperava que nenhum estranho a visse. Isso na teoria, devido ao terreno alto atrás, alguns espectadores babavam pela japonesa com corpo escultural. O voyeurismo só irá acabar quando as chamas começarem a atacar.

Com um frasco de álcool gel em mãos, o homem passava seu conteúdo em sua filha como se fosse protetor solar. Apesar de seu espírito samurai (herdado de encarnações passadas) o deixar turrão, ele amava sua menina e o medo de feri-la naquele ritual quase o fez chorar. - Não vai doer nada, querida. Se lembre, dentro de você corre o sangue do dragão.

Após o álcool ser passado, com um fósforo ele ateou fogo na garota. Ela não sentiu dor, nem mesmo o menor ador. Só fechou os olhos enquanto as chamas a abraçavam e tentava relaxar.