CAPÍTULO 1

Eram duas e meia da manhã e o telefone estava tocando. Bem perto da cama. Estridente, persistente, exigindo uma resposta. Meio zonza, Rin logo pensou que tinha havido uma catástrofe. Alguma coisa horrível, que não podia esperar uma hora mais civilizada. Afinal, quem ligaria às duas e meia para dar boas notícias?

Por um segundo Rin pensou em deixar aquela maldita coisa tocar, deixar a má notícia esperar até de manhã. Mas não podia. Não era de sua natureza. Ela nunca tinha conseguido fugir à realidade e não ia conseguir isso agora.

Relutante, Rin pegou o telefone e esperou quem estivesse no outro lado da linha dizer alguma coisa. Não demorou.

— Eu sabia que você estava aí — uma voz profunda e aveludada disse sem qualquer cerimônia. Rin sentiu uma súbita ansiedade, embora achasse aquilo uma tolice. Ela era uma mulher adulta, tinha vinte e três anos, e nenhum motivo para temer Sesshomaru Taisho.

Força do hábito. Desde quando era criança, Sesshomaru sempre tinha conseguido irritá-la.

— O que você quer? — Rin perguntou, imaginando logo por que ele tinha ligado e o que perguntaria em seguida. — Você sabe que horas são?

— Sei — ele respondeu. — E se você espera que eu me desculpe por ligar a esta hora, está perdendo tempo.

Que gracinha, Rin pensou. Será que ele sabe como é bom ser acordada de madrugada?

Rin até podia vê-lo. Alto, bonito, perigosamente inteligente. Um homem que provavelmente nunca tinha sentido em toda a vida o menor constrangimento. Na certa nem tinha lhe ocorrido que era uma hora imprópria para telefonar. Rin sentou na cama, respirou fundo.

— Você podia ter esperado até de manhã — disse, tentando parecer cortês enquanto o imaginava caindo de uma escada, ou perdido no meio de um deserto. — Para você pode ser normal estar acordado a esta hora, mas algumas pessoas levam a vida de forma mais ortodoxa.

— Chocolate às nove e cama às nove e meia, Rin?

Rin sentiu o sangue subir à cabeça. Que bom seria ser capaz de produzir uma resposta à altura, mas, como sempre nessas ocasiões, ela não conseguia pensar em nada. Em vez disso, respirou fundo outra vez, contando até dez. Era bobagem começar qualquer discussão com Sesshomaru Taisho porque ele ganhava sempre. Na verdade, era bobagem se irritar com qual quer coisa que ele dissesse.

— Isso faz muito bem — Rin disse tranquilamente. — Exceto quando o telefone me acorda no meio da noite.

— Que emocionante — Sesshomaru comentou com o mesmo sarcasmo na voz. — Mas não liguei para falar sobre como você leva a vida. Onde é que minha irmã está?

— Nem imagino.

— Agora que já contou sua mentirinha, por que não diz a verdade? Onde ela está?

A mentira era mesmo pouco convincente. Ela devia ter pensado numa melhor. Pois sabia, desde que Kagome tinha saído de casa, que seu irmão faria perguntas. Afinal, ela era a melhor amiga de Kagome. Mas mentir não era fácil para Rin. Ela achava que sem intrigas a vida fluía melhor.

— Não posso dizer — respondeu. — Prometi a Kagome.

— Ah, prometeu?

— Ela não é mais criança, Sesshomaru — Rin prosseguiu sem perder tempo, pois não era difícil perceber que a raiva de Sesshomaru aumentava a cada palavra que ouvia. — Tem vinte e dois anos. Pode votar. Pode ir a qualquer lugar. Pode até casar se quiser.

— Então é isso o que ela pretende? — Sesshomaru berrou do outro lado, e Rin afastou o fone do ouvido. — Casar? Com aquele... aquele...

— Calma, Sesshomaru... cuidado com sua pressão arterial — Rin disse, tentando diminuir a tensão. Em vão.

— Sua pressão é que vai subir já já — Sesshomaru rugiu. — Estou indo aí.

Desligou. Rin olhou para o telefone, horrorizada.

Vindo aqui? Ao apartamento dela? Agora? Só de imaginar ele ali, furioso, exigindo respostas, Rin estremeceu. Ouvir sua voz no telefone já tinha sido bem desagradável...

Ela podia vê-lo, no seu Jaguar, voando baixo pelas ruas da cidade. E não perdeu tempo. Rapidamente, lavou o rosto, penteou o cabelo, vestiu uma calça jeans e um blusão. Ver-se subitamente vestida parecia estranho, quando poucos minutos atrás ela estava entre cobertores, dormindo profundamente.

Tudo culpa de Kagome, Rin pensou. Por que ela tinha de envolvê-la nas suas maquinações infelizes?

Mas aquilo não seria suficiente para abalar a amizade entre elas. Rin conhecia Kagome fazia uns quinze anos e já a tinha aceitado como ela era: uma criatura adorável e impulsiva, que navegava pela vida alegremente sem se preocupar com coisa alguma.

Talvez isso explicasse, talvez fosse esse o motivo pelo qual aquela amizade tinha durado tanto tempo. Os opostos se atraem. E Rin sabia que era exatamente o oposto da amiga: calma, equilibrada, prática...

Até fisicamente elas eram diferentes. Kagome era alta, bonita, cabelo negro e os mesmos vívidos olhos dourados do irmão. Tinha passado a vida cativando os homens. Isso, ela sempre dizia a Rin, era o que ela fazia melhor.

Rin, por sua vez, era baixa e magra, sem as curvas de que os homens tanto gostam. O cabelo, castanho, comum, caía sobre os ombros. Fazia tempo que ela tinha desistido de fazê-lo parecer mais interessante. Os olhos, também castanhos, geralmente mostravam serenidade. Era preciso observá-los atentamente para perceber como ela realmente era: perspicaz e bem-humorada.

Rin olhou no espelho, fez uma careta. Nenhum grande atrativo, impossível negar. Era uma daquelas coisas inevitáveis, como o sol nascer toda manhã. Ela aceitava o fato com naturalidade, até com certa gratidão, porque grande beleza geralmente traz grandes problemas. Enquanto ela, na maior parte do tempo, podia viver sua vida sem maiores perturbações. Ela nunca significava uma ameaça para outras mulheres, consequentemente tinha muitas amigas. E os homens apreciavam sua companhia sem segundas intenções. No geral, sua vida era calma e agradável.

Somente Sesshomaru Taisho já a tinha feito lamentar essa falta de atrativos.

Não que ele fosse cruel. Talvez porque sua vida estivesse tão cheia de mulheres bonitas, na sua presença Rin logo se sentia relegada a segundo plano.

No sofá da sala, Rin esperava, melancolicamente, sentada na borda do assento, como um paciente esperando a vez no dentista.

Sesshomaru não ia demorar, ela sabia. Ambos viviam em Londres, embora em lugares bem diferentes. Rin, num modesto apartamento de dois quartos em Clapham. Sesshomaru , numa grande casa ao norte da cidade, numa região onde a profusão de árvores fazia esquecer que não se estava nos subúrbios.

A casa tinha sido herdada quando seus pais morreram, fazia sete anos, e desde então ele morava lá com Kagome, cuidando da irmã, protegendo-a de uma forma que Rin chegava a achar cômica, mas que Kagome achava sufocante.

Rin ouviu o carro, antes de a campainha tocar. Apertou o botão que abria, à porta lá no saguão e destrancou a porta do apartamento.

Esperou no sofá, ouvindo passos escada acima e as rápidas batidas na porta, que se abriu antes que ela acabasse de lhe dizer para entrar.

Sesshomaru trouxe com ele o ar frio do inverno, impregnado no casaco preto. A temperatura na sala pareceu cair alguns graus. Rin olhava para ele tão confusa e intimidada como se nunca o tivesse visto antes.

Sempre que o via, Rin achava ter esquecido como ele era alto e imponente. Sua presença ocupava todo o ambiente, irradiando uma energia vibrante e impaciente, que lembrava um animal enjaulado.

— Quer café? — Rin levantou, enquanto ele tirava o casaco e sentava numa poltrona, como se fosse um convidado.

— Você não tem nada mais forte? — ele perguntou, olhando para ela com aqueles seus olhos dourados. — Uísque? Gim?

Cuidado com ele, Rin pensou. Logo ele vai dizer que está com fome e querer comer alguma coisa.

— Deve ter vinho na geladeira — ela respondeu, num tom de voz que pretendia deixar claro que ele não era bem-vindo naquele apartamento. — Geralmente não tem bebida forte por aqui.

— Compreendo — Sesshomaru correu os olhos pelo corpo de Rin, de uma forma que a levou a pensar que ele fazia aquilo automaticamente sempre que estava com uma mulher, fosse qual fosse sua idade ou aparência. — Não, esqueça o vinho. Quero café, por favor, forte e bem doce — esfregou as mãos nos olhos. — Estou exausto. Levantei às seis da manhã e voltei para casa às duas e meia... para encontrar aquele maldito bilhete da minha irmã.

— Que vida mais estafante a sua... — Rin comentou. Voltou às duas e meia da manhã? Provavelmente estava se divertindo na companhia de uma de suas fãs. Deve estar mesmo bem cansado...

Rastejando, Rin foi até a cozinha, batendo as portas do armário, esperando que todo aquele barulho produzisse nele uma bela dor de cabeça. Finalmente, dez minutos depois, voltou, com duas canecas de café.

— Você sabia de tudo, não é? — Sesshomaru perguntou assim que Rin lhe deu o café.

Rin não respondeu imediatamente. Voltou ao sofá, sentou, dobrou as pernas sob o corpo, bebericou seu café.

— E então? — Sesshomaru correu os dedos pelo cabelo, irritado. — Não fique aí parada, responda. Você sabia das idéias da minha irmã, não sabia?

Rin começava a perder a calma. Como acontecia sempre que ele estava por perto.

— Você está na minha casa — respondeu. — E eu gostaria que você não tentasse me intimidar.

Sesshomaru franziu o cenho.

— Intimidar? Não sei do que você está falando. Você sempre foi mais sensível do que devia, Rin.

— E você perdeu seu tempo vindo aqui — Rin respondeu, tentando manter o controle. — Não vou dizer mais nada além do que já disse.

— Raios, Rin! Por que você está protegendo Kagome? Só quero saber como ela está.

— Ela está muito bem.

— Eu não teria tanta certeza. Onde ela está?

Sesshomaru tinha sentado um pouco mais perto e Rin já sentia os efeitos da sua proximidade. Pensar com clareza estava mais difícil.

O homem era perigoso. Seu olhar era quase hipnótico, capaz de desvendar o mais bem guardado dos segredos. Pouco a pouco, ele sempre envolvia suas vítimas e acabava conseguindo o que queria.

Mas Rin o conhecia fazia tempo. Conhecia todas as suas táticas.

— Se Kagome quisesse que você soubesse, teria dito no bilhete — Rin ponderou com lógica irrefutável.

— Não tente bancar a espertinha. Você sabe que Kagome não faria isso. Por alguma razão, ela me acha superprotetor — Sesshomaru , furioso, desviou o olhar para a caneca de café, como se tivesse achado o responsável por aquela situação irritante.

Rin sorriu. Às vezes, os traços de Sesshomaru faziam Rin lembrar de quando ele era mais jovem. Agora, por exemplo.

— Que bom que você está se divertindo — Sesshomaru percebeu o sorriso de Rin. — Mas talvez não seja tão divertido descobrir que Kagome se meteu em encrenca. Você sabe o que ela vai fazer, aquela cabeça-dura. Ela sempre acha que nada pode lhe acontecer e algum dia vai se meter em encrenca grossa.

Rin sabia que era verdade. Mas achava que tentar manter Kagome trancafiada não ia resolver o problema.

A verdade era que Sesshomaru achava frustrante não poder conter a irmã. Ao contrário dos outros habitantes deste planeta, Kagome não se deixava persuadir. Ouvia tudo, concordava sempre, mas fazia tudo exatamente como queria.

— Você não pode resolver problemas que são dela — Rin disse. — Ela tem de aprender com seus próprios erros.

— Foi isso o que ela lhe disse?

Rin suspirou. Assim não chegariam a parte alguma.

— Mais ou menos — tergiversou. Sesshomaru levantou. Avançou alguns passos.

— E você concorda? — inclinou-se, botou as mãos sobre as costas do sofá, uma da cada lado. Rin estava encurralada. Mal podia respirar.

— Ela tem o direito de cometer seus próprios erros — gaguejou, perturbada por aquela proximidade, desejando que ele fosse para outro lugar da sala. Ou, melhor ainda, para longe daquele apartamento.

— E você acha que isso inclui casar com Houjo, aquele sujeitinho que só está interessado no dinheiro dela? E que eu devia ficar só olhando, sem fazer nada para tentar impedir? — Sesshomaru permanecia ali, imóvel.

Rin sentia seu raciocínio comprometido.

A situação trazia de volta algumas lembranças nada agradáveis, de quando ela era uma adolescente perdidamente apaixonada. Na época, ela sentia essa mesma vertigem sempre que Sesshomaru estava por perto.

Mas isso fazia muito tempo. Ela já tinha se recuperado.

— Talvez ele não seja tão mau como parece — Rin disse, lembrando do último namorado de Kagome. Ela o tinha visto algumas vezes, e a cada vez sua impressão sobre ele piorava. Na verdade, ela entendia a preocupação dele.

Sesshomaru se afastou. Começou a andar pela sala distraidamente, observando os quadros na parede.

— Ele é pior do que parece — disse finalmente. — Como você pôde deixá-la fugir com ele? Você não é amiga dela?

— Não tenho nada a ver com isso — Rin protestou. — Claro que não a encorajei a ir para... a sair de casa. Tentei fazê-la mudar de idéia, mas quando Kagome cisma com alguma coisa ninguém a convence do contrário. Além disso, é a vida dela.

Sesshomaru olhava para Rin como para um animal estranho. E ela sabia por quê. Ele estava habituado a ser obedecido. E achava irritante essa conversa sobre liberdade de escolha, por que ele sabia o que era melhor para sua irmã e não conseguia entender por que Rin não concordava com ele.

E o pior, Rin pensou, era que ele sempre estava certo.

— Você vai me dizer para onde ela foi? — ele perguntou ternamente, sentando a seu lado no sofá.

— Você não desiste mesmo, hein? Parece um cachorro às voltas com um osso — Rin se afastou discretamente, até parar no braço do sofá.

Pela primeira vez desde que tinha entrado naquele apartamento, Sesshomaru sorriu. Um sorriso charmoso, cativante, que Rin já tinha visto outras vezes, quando ele estava na companhia de uma mulher bonita. O que sempre a tinha intrigado era que nenhuma dessas mulheres conseguia ver o homem obstinado e inflexível atrás daquele sorriso, respeitadíssimo nos meios empresariais, o homem que tinha pego a editora do pai numa situação crítica e em poucos meses revertido a situação. Ele deve ser um grande ator para iludir tantas mulheres, Rin pensou. Será que pretendia influenciá-la com o mesmo sorriso? Como fazia com suas amiguinhas?

— Você me conhece, Rin — ele sorriu outra vez.

— Infelizmente.

— Você é minha amiga mais antiga.

Muito lisonjeiro, Rin pensou. Ele deve me achar uma peça de mobília antiga, no mesmo lugar há séculos.

— No seu lugar, eu não estaria tão orgulhoso disso — Rin murmurou, achando que ele talvez não ouvisse. Mas é claro que ele ouviu.

Sesshomaru estreitou o olhar, sem deixar de sorrir.

— O que é que você quer dizer com isso?

— São tantas...

— Não vim aqui ouvir sermões — Sesshomaru fechou a cara. Rin sorriu. Será que Kagome já tinha lhe dito a mesma coisa? Geralmente ela não enfrentava o irmão. Talvez estivesse começando a fazê-lo. Tomara. No mundo devia haver poucas pessoas capazes de dizer a Sesshomaru Taisho o que ele não gostava de ouvir. O dinheiro infunde um respeito doentio nas pessoas, e Sesshomaru era suficientemente rico para inspirar tal espécie de respeito. Além disso, riqueza, inteligência e boa aparência fazem uma combinação, fatal.

— Bem, você tem uma certa fama — Rin murmurou.

— Nunca corri atrás.

— Desculpe, mas não concordo.

— Ah, não? — Sesshomaru se recostou no sofá. — Como você pode saber tanto sobre minha vida amorosa se nunca participou dela?

Rin corou, mas manteve a compostura. Olhava para Sesshomaru calada, perguntando-se como podia já ter estado apaixonada por aquele homem.

— Na verdade — Sesshomaru prosseguiu, indolente —, eu me pergunto se você entende alguma coisa de vida amorosa. Desde que a conheço, tudo o que vi você fazer foi estudar. E manter a cabeça no lugar.

— Não vejo nada errado nisso — Rin respondeu, ainda tranquila, embora considerando a hipótese de atirar o abajur na cabeça dele.

— Deve ser uma vida muito excitante.

— Dispenso seus comentários sobre como levar a vida. Se você acha excitante ficar pulando de cama em cama, faça bom proveito.

Um brilho travesso surgiu nos olhos dourados de Sesshomaru. Ele não estava cansado? Há pouco tinha dito que estava, mas agora não mostrava cansaço algum. Parecia revigorado, disposto a discutir qualquer assunto, inclusive sua vida amorosa, durante horas. Talvez fosse essa sua tática para quebrar o silêncio de Rin sobre o paradeiro de Kagome.

— Que maldade, Rin. E que imaginação fértil. Já dormi com algumas mulheres, é verdade, mas não tenho o hábito de pular de cama em cama. Será que ainda tem café? — Sesshomaru estendeu a caneca a Rin.

— Não, não tem. Estou cansada e é hora de você ir embora. Não vou lhe dizer onde Kagome está. Desista, Sesshomaru.

ele contraiu os lábios.

— Não mesmo. Se você não me disser o que quero saber, vou dar um jeito de Houjo pagar por qualquer bobagem que Kagome fizer.

— E como pretende fazer isso? — Rin perguntou, apreensiva, pois não tinha qualquer dúvida de que Sesshomaru podia e faria exatamente o que ameaçava.

— Ele é ator, não é?

Rin assentiu, sem dizer nada.

— Uma vida bem instável, você não acha?

Rin assentiu outra vez, sentindo-se como um rato que tinha entrado na ratoeira e esperava ela fechar.

— Vou investir no campo das artes e estou procurando uma companhia de teatro para comprar. O negócio envolve muito dinheiro — Sesshomaru parou, observando a expressão de Rin.

— A comunidade artística é muito fechada. Uma palavra sobre alguém se espalha mais rápido que fogo no mato seco — virou a caneca de cabeça para baixo, inspecionando-a.

— Você não vai arruinar a carreira dele — Rin sussurrou, horrorizada. — Você não pode fazer isso.

— Vou fazer tudo o que puder para proteger minha irmã — ele deixou a caneca sobre a mesa de centro.

Pronto. A ratoeira tinha fechado. Ficar calada significava comprometer a carreira de Houjo. Falar significava trair a confiança da melhor amiga.

Houjo podia ser tudo o que Sesshomaru achava. Ela mesma, pelo que já tinha visto, o achava fútil, egoísta e irritantemente convicto de que sua presença fazia o mundo melhor. Mas não podia permitir que Sesshomaru fizesse o que pretendia.

— Tudo bem — Rin finalmente disse. — Eles estão naquele chalé dos seus pais, na Escócia.

— Lá? — Sesshomaru olhou para Rin algum tempo, antes de começar a rir. — Não consigo imaginar um romance florescendo naquelas ruínas. Especialmente com um tempo desses. Houjo não parece um sujeito capaz de sobreviver sem aquecimento central.

— Kagome disse que eles precisavam de privacidade.

— Ela tem toda a privacidade que precisa.

— Muito pouca, com você sob o mesmo teto — Rin disse baixinho. E Sesshomaru fechou a cara.

— Bem, vou ter de ir até lá botar algum juízo na cabeça dela. Para o caso de ela estar pensando em fazer alguma bobagem — ele se levantou e a sala pareceu encolher.

— Como, por exemplo...?

— Como, por exemplo, casar com aquele idiota — Sesshomaru agarrou o casaco e começou a vesti-lo, pensativo.

— Eles não precisariam de uma licença ou coisa parecida? — Rin perguntou, agora mais ansiosa.— Além disso, Kagome não faria uma coisa dessas — prosseguiu sem muita convicção.

— Quem sabe há quanto tempo eles estão planejando isso? — Sesshomaru olhou para Rin, franziu o olhar. E Rin sacudiu a cabeça, respondendo a pergunta não formulada.

— Eu não sabia de nada — disse. — Kagome só me contou ontem.

Sesshomaru apenas olhava, parecia estar maquinando alguma coisa, e isso deixava Rin inquieta. Nada era simples com Sesshomaru Taisho. Rin levantou, foi até a porta, pousou a mão na maçaneta.

Ele tinha conseguido o que queria, Rin pensou. Como sempre. Teria sido mais fácil admitir desde o começo que ele conseguiria e ter dito sem rodeios o que ele queria saber.

Mas ela sempre tinha questionado tudo o que ele dizia. Mesmo quando estava perdidamente apaixonada, quando o se guia com os olhos sempre que o via, Rin nunca tinha se limitado a ouvir o que ele dizia sem discutir.

Sesshomaru se aproximou, parou a seu lado, observando-a com um brilho nos olhos.

— Você tem trabalhado muito? — perguntou.

Rin olhou naqueles olhos dourados, surpresa e confusa com aquela súbita mudança de assunto.

— Bastante — Rin respondeu, cautelosa. — Por quê?

— Só estou sendo gentil — ele deu de ombros. — Afinal, não trocamos gentilezas desde que cheguei aqui.

— Nunca vi você se preocupar com isso.

Sesshomaru pareceu surpreso, mas Rin sabia que ele não ligava a mínima para o que ela pensasse dele. O tempo tinha trazido alguma familiaridade ao relacionamento deles, mas era só isso. Ela era amiga da irmã dele. A menina comum que tinha crescido e se tornado uma mulher comum. Ele nunca tinha olhado duas vezes para ela e nunca o faria. Nem precisava fingir se importar com o que ela pensava dele.

— O que é que você está fazendo agora? Kagome sempre me fala do seu trabalho.

— É mesmo? — Rin perguntou polidamente, achando que ele parecia bem pouco interessado.

— Qual foi seu último projeto? Fotografar um membro da família real para a capa de uma revista?

Rin assentiu, perguntando-se aonde aquela conversa ia levar.

— Deve ser bom trabalhar de free lancer — Sesshomaru murmurou, olhando de soslaio. — As vezes, eu gostaria de poder fazer a mesma coisa.

— E renunciar àquela selva de pedra? Duvido.

Sesshomaru riu.

— Talvez você tenha razão — ele murmurou.— Mas você faz seu próprio horário de trabalho, não é?

— Não exatamente. Sesshomaru ignorou a resposta.

— O que agora é bastante conveniente, porque você vai comigo à Escócia buscar Kagome.