Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre os protagonistas: dois caras. Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
Bom, isso pode ser um pouco chocante para os fãs do cavaleiro de câncer, mas nesse capítulo, tive que fazer aquilo que muitos ficwriters tiveram que fazer: dar um nome menos aterrorizante para o menino Máscara da Morte. Antes de mais nada, devo dizer que escolhi o nome que escolhi por já tê-lo visto em outras fics. O sentimento que bate é de que eu não tenho autoridade alguma para dar um nome a um personagem tão marcante, claro. Mas todo mundo concorda que é necessário, certo? Se não for assim, ou viramos Saramago e escrevemos sem nomear os protagonistas, ou concordamos que o Máscara da Morte teve uma mãe de ideias meio mórbidas.
Procurei não fazer tanto alarde em torno do nome ao longo da fic e espero que sintam o mesmo. Por curiosidade, depois me digam os nomes que vocês pensam para ele, se já tiverem pensado no assunto.
Ah, sim, se ajudar dizer, o itálico neste capítulo se explica pelo fato de ser um flashback.
Enjoy your flight!
Ele olhava para os lados, tentando memorizar todos os cantos daquele que seria seu novo lar a partir de então. Como que entediado,o pequeno soltou um suspiro profundo: nada havia de tão empolgante naquele monte de ruínas antigas, tampouco parecia haver gente que não parecesse pacata ou velha. Logo, sua última observação se provaria incorreta. O garoto de cabelos escuros observou-o longamente, até partir em seguida, junto a um garoto mais velho.
- Por que ele trata as pessoas desse jeito? – Shura, apesar de jovem, não deixou passar a péssima atitude do recém-chegado. Ele o observara empurrar, sem cerimônias, um pobre servo que lhe oferecera ajuda com a bagagem. Mesmo estando distante, Shura percebeu que o garoto não parecia nem remotamente arrependido pela grosseria.
- É meio complicado – o outro garoto refletiu por alguns instantes, antes de acrescentar com um sorriso – Pode ser por vários motivos. Um deles, eu acredito, deve ser o histórico dele no mediterrâneo.
- Como assim, histórico? Lá no país de onde ele veio?
- Isso, da Itália. Perto da sua casa – o jovem chamado Aiolos ergueu as sobrancelhas para Shura, que corou levemente – Eu soube que o treinamento que ele recebeu lá foi bastante... arriscado.
Rapidamente afastando as memórias do seu próprio passado, Shura comentou, um tanto quanto ofendido;
- Todo treinamento é arriscado, Aiolos. Você não pode comparar esse tipo de subjetividade. Você, por exemplo, sofreu com o seu treinamento tanto quanto os outros, nem por isso é ranzinza com as pessoas...
Aiolos deixou escapar uma risada. É certo que já havia lhe contado sua versão da história "como me tornei um cavaleiro", que desde o início impressionara o pequeno Shura. O fato de que Aiolos o fizera em boa parte por conta do irmão caçula apenas o tornava mais nobre aos olhos do espanhol. Shura era um garoto deveras perspicaz para sua idade.
- É, mas mesmo assim, não o julgue pela sua primeira impressão, Shura. Ele é um cavaleiro surpreendente, chegou aqui com mérito. Vocês podem até se tornar amigos, já pensou nisso? Ele pode te contar a história dele um dia...
- Há, isso é impossível – respondeu o outro, demonstrando um pouco da sua teimosia – Eu e ele nos tornarmos amigos, quero dizer. Ele parece ser aquele tipo de sujeito que eu mais desprezo. Na verdade, ele me deixa um pouco nervoso...
- Ha ha ha! Eu também! Mas não vamos falar mais disso. Vamos ver se você ainda tem disposição pra segurar os meus chutes! Vamos treinar!
Evidentemente, Shura percebera que o seu amigo lhe contara menos do que sabia, mas que importava? Ele não fora criado para agüentar comportamentos mesquinhos como o daquele garoto, mas tampouco se portaria de forma semelhante em sua presença. Shura era um garoto cordial e alegre. Assim seria, mesmo com as pessoas que não considerava dignas de tal gentileza.
Correndo para manter o mesmo ritmo que o amigo, Shura sacudiu de leve a cabeça, canalizando os pensamentos para os golpes aprendidos nos últimos combates com Aiolos. Não conseguiu se lembrar de todas as lições do amigo, mas uma vez na arena, ele não tirou os olhos de seu oponente.
Shura gostava das pequenas festas no Santuário. Elas vinham acontecendo com mais frequência nas últimas semanas, quando começaram a chegar mais e mais daqueles estrangeiros que um dia estariam ao seu lado, defendendo a paz, como cavaleiros dourados de Atena. Mestre Shion era uma pessoa extremamente bondosa, por isso, após a cerimônia de apresentação de cada novo cavaleiro, ele mandava preparar uma pequena confraternização no pátio da Última casa. Aiolos lhe disse uma vez que o Mestre também gostava de festas, já que elas alegravam os seus preciosos cavaleiros, e eram uma boa oportunidade para rever os velhos amigos.
Shura chegara em Atenas havia pouco mais de dois meses. Deixara para trás lembranças melancólicas de um orfanato em Madri e partira para os Pirineus com o homem que lhe contaria tudo sobre o cosmo e o poder que sentia dentro de si. E, finalmente, após alguns anos de treinamento árduo, seu mestre autorizou que partisse rumo ao Santuário de Atena. Além de Aiolos, seu irmão caçula Aiolia, Milo e o próprio Saga, no entanto, não havia outros cavaleiros para recepcioná-lo,o que fez da sua primeira festa na Grécia um encontro mais privativo.
Milo era um pouco mais novo que ele, mas parecia ter energia demais, mesmo nos padrões de cavaleiro. Aiolos, com quem logo simpatizou, contou que ele fora nomeado cavaleiro muito novo, e tinha dificuldade em manter o foco, por mais que tentassem. Saga era mais novo que Aiolos, mas tão responsável quanto ele – senão mais! O geminiano constantemente tinha de repreender Aiolos por pequenas bobagens, o que divertia Shura no início, e o exasperava com o tempo. Aiolia era o único que conseguia passar o dia inteiro com Milo sem desistir de viver no meio do caminho. O garoto, ligeiramente menos atentado que o outro, em geral só obedecia ao irmão e ao Mestre Shion, para o azar de Saga e do próprio Shura, como pôde constatar depois de um tempo.
Shura se adaptou muito bem ao quotidiano grego no Santuário e logo sua personalidade tranqüila e habilidades no combate físico foram conquistando a confiança de todos ao seu redor. Já lhe designavam funções de maior responsabilidade, como supervisionar os treinos dos aprendizes de cavaleiro ou mesmo transmitir mensagens do próprio Mestre Shion. Às vezes, Saga e Aiolos até lhe contavam o que fora discutido em reuniões restritas ao alto escalão. Shura se sentia em casa naquele lugar como em nenhum outro, e mais do que nunca, estava orgulhoso de ser um dos doze grandes guardiões de Atena.
Por esse motivo, fazia questão de receber os demais companheiros com gentileza. Ele sabia como era difícil para alguns a adaptação aos costumes, clima e hábitos gregos, principalmente dentro do Santuário. Mu, por exemplo, vivera recluso e estava acostumado à quietude, à meditação. Aiolia e Milo logo lhe provariam que o Santuário estava longe de ser o lugar ideal para uma pessoa como ele. Shura tivera trabalho em fazê-los entender que deveriam dar mais espaço ao novo inquilino. Felizmente, outro estrangeiro, Aldebaran, foi capaz de penetrar os hábitos solitários do outro, sempre confiante e gentil. A chegada de Afrodite, por sua vez, foi cercada de expectativas. Saga deixara escapar que ele era ao mesmo tempo a encarnação da beleza nessa era e também dono de um poder terrível. E foi exatamente essa a impressão do pequeno Shura quando o mencionado cavaleiro chegou.
Em todas essas ocasiões, Shura procurava fazer os recém-chegados se sentirem à vontade, assim como ele se sentia no Santuário. E, para honrar seus princípios, não poderia ser diferente com o impetuoso italiano. Após a cerimônia formal de apresentação naquela noite, Shura decidira enfim trocar algumas palavras com o mencionado cavaleiro. Tinha de admitir, não parecia algo que qualquer um dos presentes faria de bom grado, exceto Shion, Saga e Aiolos – e talvez o pequeno Afrodite. Havia algo de maligno no olhar do italiano que lhe dava calafrios.
Determinado, ainda que um tanto desconfortável com a idéia, correu os olhos pelo pátio, à procura da silhueta do outro. Já estava anoitecendo, mas as estrelas brilhavam intensamente no céu, e Shura logo discerniu a figura de um Aiolos a conversar ao longe com um garoto, que se sentara na escadaria, longe da agitação. Enquanto Shura caminhava até eles, Aiolos finalizara o que pareceu uma conversa breve e dirigiu-se ao pátio novamente, dois cálices de ouzo nas mãos.
- Shura! – o semblante do amigo se abriu em um sorriso – Esse é o espírito! Vai lá e faz esse cavaleiro voltar à festa!
Shura assentiu com um movimento da cabeça e encarou as costas do outro. Teve a leve impressão de que o seu discurso habitual sobre o Santuário e todas as coisas boas que existem nele não ia funcionar com aquele garoto em particular.
- Você não gosta de ouzo diluído? – experimentou Shura, curioso.
Pela primeira vez, os dois se encararam. Shura, bastante constrangido, o observou bufar resignado antes de responder.
- Sei tu – o pequeno então voltou a fitar o horizonte estrelado – Non, eu 'não gosto' de pessoas. 'Ouzo' é bom.
Shura registrou a resposta com surpresa. O garoto com certeza sabia ser rude.
- Quem é você mesmo? – perguntou este, e Shura corou de leve.
- Shura – ele pensou em estender a mão, mas mudou de idéia – Me desculpe, como posso te chamar...?
- Carlo. Da Sicília.
Shura, encorajado, sentou-se ao lado de Carlo, observando-o. Os cabelos curtos muito claros, olhos castanhos estranhamente inexpressivos e o semblante simplesmente entediado. De repente, parte de seu nervosismo desapareceu – talvez fosse o fato de que, agora, aquele garoto lhe parecia mais real, como se por trás daquela máscara sombria houvesse uma outra pessoa.
- Aquele cara é tuo amico?
- O Aiolos? – Carlo assentiu com firmeza – Sim. É uma ótima pessoa. Gosto de estar com ele.
- Eu não gosto dele – comentou o italiano, sem demonstrar qualquer emoção – Acho que é um idiota.
Shura hesitou. Carlo definitivamente não tinha papas na língua, e isso o desconcertava. Contudo, continuava disposto a ser um bom anfitrião.
- Ele é idiota, às vezes. Mas não existe ninguém que seja de todo ruim, sabe? Todo mundo tem uma qualidade. Isso faz valer a pena conhecer a pessoa, não é?
O jovem se deu conta de que era observado novamente. Carlo o fitou, as sobrancelhas levantadas, então voltou a encarar o céu.
- E então, qual é a mia qualidade, Shura. – ele indagou, parecendo divertido.
- Bem... Pelo que pude ver até agora – Shura fez uma pausa para refletir rapidamente – Você é bom em grego. Apesar de falar com sotaque.
Desta vez, Carlo não fez questão de segurar o divertimento e deixou escapar uma gargalhada.
- Grego? Mio Dio, eu odeio grego!
- O quê? Por quê! – Shura se surpreendeu de novo. Pelo visto, ouzo era a única coisa que conseguiria a simpatia de Carlo na Grécia por enquanto.
- Non gosto de falar grego – ele explicou, rindo debochado – Não dá pra se expressar bem nessa língua maldita. É como uma gaiola. Odeio grego, mas ninguém fala outra coisa aqui.
Se alguém perguntasse, Shura diria que Carlo conseguia se expressar muito bem em grego.
- Eu entendo italiano – ele disse, sem pensar – Quer dizer, consigo entender muita coisa em italiano.
Desta vez, Carlo pareceu genuinamente interessado.
- Davvero? Capisce l'italiano?
Por alguns minutos, os dois se distraíram conversando em idiomas diferentes, ainda assim, conseguindo compreender um ao outro. Shura ficou surpreso ao verificar que, de fato, Carlo parecia mais eloqüente e confortável em sua língua materna. Observou que a hostilidade de suas falas era amenizada, apesar de não ser totalmente suprimida. E conforme conversavam, Shura percebia que, por mais cativante que fosse aquele garoto, havia um quê de malícia recorrente em sua voz, que o perturbava um pouco. Na verdade, o perturbaria para sempre.
- Você gosta daqui?
Carlo, que até então se mostrara inesperadamente a vontade em tagarelar com o companheiro, pareceu desconfiado com a pergunta, mas respondeu:
- Non. Eu não queria estar aqui.
Shura levantou as sobrancelhas. Carlo poderia ter recusado o convite de recrutamento, não seria obrigado a se tornar cavaleiro, caso não desejasse. Mirando o novo colega, percebeu que não seria delicado insistir no assunto. No entanto, Carlo acrescentou depois de um tempo, os olhos impassíveis nos olhos escuros de Shura.
- Mas eu non queria ficar naquela ilha. Aquele lugar deveria ser interditado.
O assombro de Shura não poderia ser maior. Em poucos instantes, as luzes atrás dos dois garotos começaram a se apagar. Aioros logo apareceu, surpreendeu-os dizendo que era hora de voltarem para os alojamentos. De repente, Shura pôde perceber, os ombros de Carlo estavam tensos novamente, e não se via mais nenhum resquício de descontração em seu rosto. Como se tivesse passado o tempo todo sozinho, Carlo se levantou e, sem pronunciar qualquer palavra ou gesticular em despedida, pôs-se a descer as escadas.
- Eu fiz alguma coisa? – Shura ouviu o seu amigo perguntar, parecendo confuso com a atitude do outro.
- Acho que não, Aioros – Shura virou-se para encará-lo. Parecia-lhe importante fazer com que Aioros perdoasse o mau comportamento de Carlo naquele momento – Esse é o jeito dele.
Preocupado, o garoto ficou pensando naquela noite sobre como teriam sido os anos de treino daquele italiano. Todos os cavaleiros haviam passado por momentos difíceis em suas vidas, disso ele sabia. Mas considerando o que acabara de descobrir, Shura começava a repensar o que Aiolos lhe dissera sobre o treinamento dele na Itália. "Será que ele não gostava do mestre dele? Ou os exercícios lá eram muito puxados?", Shura se perguntou antes de ser engolfado pelo sono.
E esse foi o máximo de verdade que Shura conseguiu extrair de Carlo a respeito de sua breve infância em todos os anos que se seguiram até a batalha final.
E então? Nem doeu muito, doeu? Por causa do nome, eu quero dizer. Espero que não.
Ouzo é aquela bebidinha grega...
E para os propósitos dessa fic, o Shura sempre foi responsável, certinho e feliz, pelo menos até o dia fatídico. Depois disso, eu imagino um Shura responsável, certinho e melancólico, mas não propriamente deprimido.
