Emily não conseguiu pregar os olhos naquela noite. Todas aquelas memórias continuavam bem vivas em sua mente e quando ela conseguiu tirar um cochilo por alguns meros segundos, tudo o que conseguiu ver foi um par de olhos castanhos que brilhavam com a luz dos postes, em frente a portaria. Definitivamente, ela não conseguiria não pensar em Spencer.

Os primeiros raios de sol já avisavam que o dia chegara e que, junto com mais um monte de afazeres, uma bela dor de cabeça e olheiras divinamente a irritavam. Levantou-se e foi ao banheiro. Olhava-se no espelho meio desconfiada, talvez. Ela não sabia bem o que sentia, então resolveu que um banho bem gelado a acordaria de toda aquela fantasia maluca.

A água corria por seu rosto, seus ombros, seios e pelo resto do corpo. Por um breve momento em que fechou os olhos, todas aquelas gostas, sem exceção dos locais, ela desejava que fosse a menina que conhecera no dia anterior. Deus, o que estou pensando?! Julgou-se pelos pensamentos impróprios que teve ali.

Após vestir-se, tomar café e tudo o mais que precisava, a futura médica sentou-se em seu sofá minúsculo em frente a sua TV, também ridiculamente pequena. Tudo aquilo ali era irritante. Mesmo ela tendo tomado banho, sentia-se calorenta. Não fazia ideia do porque estava tão desconfortável. Ela já morava ali há quase cinco meses. Talvez levasse mais tempo para se acostumar a um ovo.

Ela queria sair, mas não sabia para onde e nem com quem. Só queria ter que se livrar, por alguns instantes, daquele lugar apertado. Olhou para seu telefone e pensou em ligar para Spencer. Afinal, ela era uma das poucas pessoas conhecidas de Emily em Nova Iorque. Mas lembrou-se do "incidente" que acontecera na noite anterior. Ainda estava muito "fresco" para chegar assim, de supetão, pedindo para sair com ela de novo. Ficou com medo de dar a impressão errada para a amiga, então desistiu. Emily não queria que a menina achasse que ela estava planejando aquilo desde o primeiro instante que a viu. Além de loucura, aquilo era muito constrangedor. A ex-nadadora nunca nem pensou em... Não, mentira. Ela pensou, sim. Ser gentil e acolhedora era uma virtude rotineira da moça, mas não de uma forma tão... específica. Com certeza, ela tinha visto algo em Spencer logo que sentiu seus ombros se chocando no meio de uma avenida hipermovimentada. E depois de muito pensar e analisar suas possibilidades, decidiu que ficaria de molho em seu ovo e assistiria a algumas novelas mexicanas, pois eram os únicos programas que sua antena capenga conseguia captar.

Passou-se sábado, domingo e ela ainda não sabia o que pensar. Era tudo muito confuso. Seu recém-término com Toby, a descoberta de um irmão bastardo e muito mais acontecimentos que a deixavam atordoada, pairavam em seu pensamento, fazendo sua cabeça doer. Definitivamente, a vida de Spencer era mais complicada do que parecia. E, para completar, ainda tinha aquela texana que estava conseguindo mexer ainda mais com sua sanidade. Sim, era muito cedo para dizer alguma coisa. Mas, de certo, ela era diferente. E, de certo, em algo afetaria a vida da futura advogada.

Talvez eu não deva falar com ela... Preciso de mais tempo. E se ela achar que eu... Era tudo o que Spencer conseguia pensar no caminho para a universidade. O primeiro dia de aula nunca parecera tão assustador quanto naquele momento. Era difícil até de respirar toda vez que ela via uma morena de costas. Só conseguia enxergar Emily. Emily, Emily, Emily...

— Emily?! — Assustou-se ao ver a menina parada a sua frente com um olhar duvidante.

— Oi. — Desviou o olhar após alguns segundos de contato visual.

— Er... Eu... — Spencer não sabia o que dizer.

— Eu pensei em te ligar, mas...

— Bom, eu também. E... — Aquela conversa, definitivamente, era muito constrangedora.

— Que horas você sai hoje? — Emily perguntou quase que como um impulso.

— Bem, eu... Eu tenho Júri Simulado no sexto horário. Talvez demore um pouco, então... Creio que lá pelas 14:45h eu deva estar livre.

— Tudo bem, eu espero. Eu realmente precisava conversar com você sobre... — desviou o olhar com a consciência de que seu rosto estava extremamente vermelho. — Bem, você sabe.

— Emily, eu... — ela olhou para os lados. Ninguém por perto. Então, pegou as duas mãos de Emily. — O que aconteceu naquele dia... Eu... Eu não sei o que dizer, só espero que-

— Não, Spencer. — Emily apertou suas mãos, afastando-se meio relutante da menina. — Deixa isso pra mais tarde. Aqui não é lugar nem hora.

— T-tudo bem, então. — sorriu — Até mais tarde.

Ao soltar as mãos de Emily, a futura advogada não hesitou em se inclinar e depositar um beijo ligeiramente próximo à boca da outra. Apenas uma Emily "fora do ar" foi o que restou ali no meio do estacionamento.

— É isso, pessoal. — Sr. Candall andava pela sala enquanto explicava. — Como de costume, no primeiro dia de aula são apenas as apresentações e todo aquele "protocolo" que vocês já conhecem, apesar de serem calouros. — ele fez sinal de aspas com as mãos. — Concluindo, só tenho a lhes dizer que sejam bem-vindos e lhes desejo um bom semestre. E eu espero em toda a ciência — levantou o indicador apontando-o para cima como se, em um ato "herege", dissesse que "toda ciência" estivesse ligada a um canal divino — vê-los semestre que vem em Anatomia 2.

Emily sorriu ao lembrar que realizaria seu sonho secundário. Afinal, não era bem daquela forma que ela queria se ligar à natação, mas, tudo bem. Pelo menos ela seria útil e essencial para outras pessoas.

A manhã passou rápido demais para Emily. Geralmente quando você espera algo ansiosamente, o tempo costuma demorar a dar "tchau", mas hoje foi diferente. Até que ela se divertiu com as piadas sem graça do seu professor de Bioquímica, sentiu-se desafiada por algumas indiretas da sua professora de Metodologia Científica, que dizia que nem metade daquela turma duraria os mínimos doze semestres de curso, olhando diretamente para ela, e, finalmente, adorou conhecer mais gente. Já estava para se sentir um ser insociável.

— Por hoje é só, gente. — disse o Sr. Candall. — Estão liberados.

Emily levantou-se calmamente da cadeira e arrumava suas coisas quando viu que alguém a olhava bem à sua frente.

— Er... Oi.

— Ah, oi. — sorriu. — Meu nome é Aria Montgomery. Tudo bem?

— Tudo, sim. — estendeu a mão para ela. — Eu sou Emily Fields.

— Eu sei. Você é a ex-nadadora, certo?

— Er... É, eu sou. — olhou-a desconfiada. — Como você sabe?

— Bem, meu pai mora no Texas. Foi ele quem fez a sua cirurgia. — Explicou.

— Oh, eu sabia que seu nome não me era estranho.

— Pois é. Ele me falou que você ficou muito abalada.

— É, fiquei. Mas tô superando. — Suspirou.

— Bem, eu... Se você precisar de qualquer coisa, pode falar comigo.

— Aham. Obrigada. — Emily sorriu e Aria saiu. Mas, antes que ela fosse de vez, parou.

— Você tem algo pra fazer agora? — A menina perguntou duvidosa.

— Hum... — A ex-nadadora olhou no relógio, 13:46h. — Na verdade, não.

— Você quer tomar um café? Eu tenho que organizar meu horário. Acha que podemos fazer isso juntas? Seria bem legal. — Aria sorria feito uma criança que acabara de fazer um novo coleguinha. E, na verdade, mal ela sabia que dali sairia uma grande amizade.

— É, seria. — Emily sorriu de volta.

Nos corredores, Emily e Aria andavam lado a lado gargalhando sobre algumas coisas.

— Você não achou estranho colocarem o Sr. Candall no primeiro e no último horário? — Aria perguntou enquanto ria.

— Eu pensei que ninguém mais tinha percebido. — riram mais — Todo mundo ali parecia meio...

— Lerdo? — Aria completou.

— É! — Riam demais.

— E a Sra. Fullham? Aquela mulher, definitivamente, é muito mal-amada.

— De fato. Ela me pareceu meio esquisita. Ela me olhava como se eu não merecesse estar ali. E do jeito que ela falava sobre nem metade da turma suportar a pressão... Senti que ela queria dizer isso pra mim. — Emily citou.

— Essa mulher é louca. — Aria afirmou — Minha mãe estudou com ela no Ensino Médio. Ela me disse que ela era, tipo, a menina mais top do colégio. Ela tinha todos os garotos aos seus pés e todas as meninas queriam ser suas amigas. Mas, que de repente, tudo acabou. E ninguém sabe porque até hoje.

— Credo. — Emily sentiu arrepios.

Elas passavam pela porta de entrada da universidade quando Emily avistou um rapaz alto e de madeixas castanho claro, que parecia meio preocupado e procurando por alguém. Ele parava cada pessoa que passava a sua frente perguntando algo que ela ainda não havia conseguido entender.

— Você já viu aquele cara? — Emily indagou.

— Nunca vi mais gato. — Aria sorriu maliciosamente.

Emily a olhou reprovadora, mas deixou aquele assunto de lado e se pôs a andar de volta. E quando ela achava que passariam livre das perguntas do rapaz, ele veio até elas.

—Com licença, você conhece Spencer Hastings? Sabe que horas ela sai ou onde ela está? — Perguntou rapidamente.

— Er... Quem é você? — Emily perguntou de volta.

— Ah, me desculpe. Eu me chamo Toby Cavanaugh. Sou namorado dela. Você a conhece ou a viu por aí? — Mostrou uma foto em seu celular onde eles se encontravam abraçados. Juntos. Eles pareciam felizes. Ela parecia feliz.

— É, eu conheço ela. — Emily sentiu uma pontada em seu coração — Ela tá em aula agora e sai daqui a uma hora mais ou menos. — Completou olhando para os lados, como se desse aquela informação com desgosto.

— Ah, obrigado. Muito obrigado. — Agradeceu sorrindo. Ele era realmente lindo. Seus olhos eram hipnotizantes.

— Você pode dizer a ela que eu não vou poder encontrar com ela? Eu vou ter um compromisso importante.

— Tudo bem, eu digo. Como devo lhe chamar?

— Você não precisa. Apenas diga.