Capítulo II
– Shiryu... – Shunrei murmurou, tocando de leve a cabeça do marido. – Graças a Deus você está vivo. Eu rezei tanto, pedi tanto que você voltasse para nós. Agora eu só tenho que agradecer e cuidar de você até que se recupere. Tenho certeza que não vai demorar e vamos voltar para casa juntos, nós três.
Shunrei saiu da China assim que recebeu a notícia diretamente de Saori: a guerra tinha acabado, Shiryu e os amigos estavam vivos, porém internados em um hospital de Atenas. Felizmente não corriam risco de morte iminente, embora o estado de todos fosse delicado. Ela então arrumou as malas, pegou o filho e viajou para cuidar do marido. Assim que desembarcou em Atenas, tomou um taxi e foi para o hospital. Shoryu não estava de bom humor depois da longa viagem e começou a chorar em alto e bom som. Tinham se alimentado no avião, mas já se passara algum tempo e o bebê chorava de fome e cansaço. Só então ela percebeu que também estava faminta.
– Calma, meu amor – ela disse, balançando suavemente o bebê. – Já vamos comer.
Saori entrou no quarto.
– Senhorita Saori... – Shunrei disse respeitosamente. A deusa tinha uma aparência bem diferente do que ela lembrava. Os cabelos estavam mais curtos e ela parecia um pouco mais velha.
– Olá, Shunrei. Disseram-me que você tinha chegado. Eu sinto muito por tudo isso.
– Tudo bem... – Shunrei respondeu com um olhar resignado e Saori entendeu o que aquele olhar queria dizer: ela sabia como eram essas coisas, estava acostumada, era mulher de cavaleiro.
– Como foi a viagem? Como vocês estão?
– Foi tranquila. Nós estamos bem. Shoryu costuma ser um menino bonzinho, mas depois dessa viagem longa ele está um pouco cansado e com fome.
– Acho melhor vocês irem descansar um pouco, levar a mala para minha casa, tomar um banho. Eu mesma estou precisando parar um pouco. Depois voltamos.
– É melhor, sim – respondeu. Queria muito ficar ao lado de Shiryu, mas tinha consciência de que precisava cuidar de Shoryu, dar a ele alimento e um pouco de descanso. Antes, perguntou a Saori qual o real estado de Shiryu, pois o que ela tinha lhe dito ao telefone era um tanto vago.
– Os médicos disseram que ele está em coma e não sabem quando vai sair – explicou-lhe Saori. – Eles não sabem por que razão ele ainda está assim e me disseram que pode sair a qualquer hora... ou ficar assim pra sempre. O melhor a fazer é esperar e ver como serão os próximos dias.
– Sim... – assentiu Shunrei e pegou a bolsa. Saori ajudou-a carregando o a mala e as duas saíram do quarto.
– Vocês têm um menino muito bonito! – Saori disse, segurando a mãozinha de Shoryu.
– Obrigada. Agora ele está, sim. Mas quando o encontrei estava cheio de feridas e picadas de insetos... Deve ter ficado algum tempo na floresta... Não consigo entender como alguém é capaz de jogar um bebê como se fosse lixo, mas fazem isso a todo instante. É o que fizeram comigo, com Shiryu, e depois com Shoryu...
– Mas Shoryu teve a sorte de você estar no caminho dele e acabou ganhando pais maravilhosos.
– A gente vem tentando ser – respondeu Shunrei, com um sorriso envergonhado.
– Quero que saiba que eu entendo por que Shiryu não queria ir lutar... Eu entenderia inclusive se ele não tivesse voltado atrás. Ele tem uma família. É o único de nós que conseguiu essa proeza e queria defender o que conquistou.
– Vocês também vão ter famílias – Shunrei disse. – Nós só nos adiantamos um pouco.
– Tomara! – respondeu Saori, sentindo-se realmente esperançosa. Shunrei aproveitou a deixa para se informar acerca dos outros cavaleiros de bronze.
– Como estão os outros? – ela perguntou.
– Todos voltaram em coma... – Saori disse e fez uma longa pausa. – Mas Shun e Hyoga já acordaram e estão bem. Devem ter alta em breve. Já Ikki e Seiya estão na mesma situação de Shiryu...
– É só uma questão de tempo – Shunrei disse, confiante. – Tenho certeza.
Saori queria muito acreditar nisso, mas temia que depois de tantas batalhas, tantos golpes, tantas idas e vindas, as mentes e os corpos dos rapazes tivessem chegado ao limite. Ela mesma se sentia estranha depois de voltar ao tempo atual. Não disse nada para não desanimar Shunrei e torcia para estar errada, principalmente no caso de Shiryu.
Shoryu continuou chorando todo o caminho até a casa de Saori, e só se acalmou quando a mãe lhe deu uma mamadeira, adormecendo logo em seguida.
– Ele é muito fácil de lidar – riu Shunrei, ninando o menino. – É só manter essa barriguinha bem cheia.
– Imagino que tenha sido difícil no começo.
– É, foi sim... Tinha as feridas, tinha a minha total falta de experiência, mas a gente vai aprendendo... As noites eram especialmente difíceis... Eu não sabia bem o que fazer, sabe? Não tive nove meses de preparação, foi de um dia para o outro... Mas agora tudo está ficando mais tranquilo.
Shunrei colocou o filho adormecido na cama, rodeado de almofadas para que não caísse, e lhe fez um carinho.
– Agora que ele já comeu – disse ela –, é minha vez. Estou realmente faminta.
– Sabe que eu também? Vamos almoçar juntas, descansar um pouco. Depois podemos voltar ao hospital com as forças renovadas.
Assim as duas fizeram. Sentaram-se à mesa e foram servidas.
– Será que ele pode me ouvir? – Shunrei perguntou, entre uma garfada e outra.
– O Shiryu? Não sei... Talvez.
– Quando falei com ele, senti como se ele estivesse me ouvindo. Também senti que ele quer acordar, mas não consegue.
– Como pode ser isso?
– Eu não sei... – Shunrei respondeu, pensativa. – Apenas senti...
Continua...
