Prólogo: Uma vingança triste

A voz sob o capuz pronunciou a sentença final.

- Que seja feita a vontade do Senhor todo poderoso, e que o demônio abandone o corpo desta herege!

E o fogo morreu logo depois. O povo na praça silenciou-se, satisfeito com o que fizeram. Haviam expulsado o demônio do corpo de uma bela jovem, haviam destruído uma existência maligna. Não havia mais bruxa alguma ali, apenas uma carcaça podre e escurecida entre o carvão. Eles saboreavam com deleite o último ar carregado pela gordura da jovem que jazia agora no paraíso, pois assim pensavam. Salvaram-na, purificaram-na. O demônio se fora.

Então começou a chover, uma chuva fina e inexpressiva. Nada muito diferente do que costumava chover naquela época do ano. Entretanto, aquela chuva não era normal. Ela estava carregada com uma presença soberana, enfurecida e triste. Alguns, mergulhados no temor, exclamaram exaltados: "É a fúria do Senhor! Matamos uma alma inocente!". O homem com capuz não era capaz de discordar, estava atônito.

Não eram santos, não eram misericordiosos, não eram justos. Todos estavam sujos até o último fio de cabelo, assim como suas almas estavam apavoradas. Aquilo só poderia ser um milagre, ou a mais terrível das bruxarias. "Sim, bruxaria", pensou a maioria de imediato. Mas o tempo passou e o clima piorou. Transformou-se de purificador, sarcástico e voraz para algo inexplicável, herege e maldito. A chuva engrossou e ficou ainda mais carregada daquela tristeza, fincando os pés daquelas pessoas no solo como raízes profundas. Por um momento aquela praça morreu.

Em um momento nada estava lá e agora surgira, ao lado da carne pútrida e das brasas que morriam lentamente. Outra bruxa surgira, e chorava com os céus. Sua roupa negra representava a mais alta nobreza, tecidos finos e que lhe cobriam o corpo de maneira escultural. Seu cabelo negro e bem penteado agora escorria tristemente lavado pela chuva. Uma máscara pálida e carregada pelo rosto mais triste que poderia seu retratado em cerâmica pendia de sua mão direita ao longo do corpo. Ela chorava vinho, chorava sangue. Ela chorava para o que fora uma pessoa muito querida.

Com relutante força, seu olhar triste focou a multidão aos seus pés. Ela observou toda a cena. Estava sobre um patamar elevado, algo semelhante a um andaime de madeira resistente. Estava no topo, e ao seu lado o que fora uma enorme fogueira, uma fornalha para os portões do Tártaro. Uma jovem fora queimada até a morte, assistida por toda aquela multidão que julgava está purificando-a, mas na verdade se deliciava com a perversidade da morte e com o desespero de quem ardia nas chamas. O homem santo que purificara a vítima vestia negro e capuz, e mesmo com seu rosto encoberto pelas sombras seu cheiro exalava o maior de todos os pavores diante daquela nova bruxa, diante da dama de negro. "Eu havia previsto isso. Eu as alertei. Mas por que elas não me escutaram?", pensou a dama de negro. Seus pensamentos e observações fluíram na mente das pessoas, assustando aos que ainda acreditavam que aquilo era um milagre.

E ela lembrou do que tinha previsto e arremessou para a multidão um olhar assassino e demoníaco carregado de uma presença tão intensa e soberana que poucos foram os que não vomitaram ou desmaiaram. Seu vestido mergulhado em água estava pesado e colado ao corpo magro e esbelto, mas tremulou ameaçadoramente diante de sua ira.

- Quem maculou o corpo de minha irmã? – sua voz soou soberana, mas transparecia uma tristeza infinita.

Como se obedecessem a uma ordem física invisível, alguns braços se ergueram no ar no meio da multidão. Todos eram homens, dos mais feios aos mais detestáveis. Casados que traíram suas esposas, jovens que assustaram suas mães, ladrões que surgiram das imundas sarjetas das ruas. Mas nenhuma mão causou maior estardalhaço, maior pesar e revolta. Nenhuma mão causou mais intensa fúria àquela dama de negro quanto à mão do homem santo de capuz erguendo-se no ar, vibrante e temerosa. Uma artéria latejou profundamente naquele rosto esculpido pelos deuses, maculando sua beleza.

- Ordeno que venha até mim, falso sacerdote!

E sem contradizer, mas desejando com todas as forças do mundo não chegar perto daquela mulher, ele seguiu a passos lentos e perceptivelmente forçados. "Bruxaria, bruxaria de verdade. Ela é um demônio", pensaram os cidadãos, ainda fincados ao chão e alguns ainda de mãos erguidas. O homem santo parou diante da dama de negro, que o observava seriamente, avaliando as suas opções.

- Fale com sua própria voz, aquele que se diz ser um homem casto do seu Senhor misericordioso. Fale aos seus fiéis, a todos eles que o observam nesta noite triste e maldita. Diga a todos, pois assim ordeno, o que você e essa dezena de homens fizeram a minha irmã!

Lutando com todas as suas forças, gemendo e quase caindo de joelhos, o homem santo puxou o seu capuz, a sua máscara da vergonha. Ali estava um homem velho, calvo e com um vasto bigode grisalho. De seus olhos fundos emergia o maior de todos os medos: a verdade. E sua boca abriu subitamente e sem o seu consentimento, mas a voz que saiu foi sua. Disso ele tinha consciência.

- Eu maculei meu celibato, minha castidade – sua voz era chorosa e desesperada – Cai na tentação da carne há muitos anos, e desde então não venho parado. Alguns dias sou homem, outros sou mulher, mas seja o dia que for sou um pecador. Não há Deus para mim, somente o Inferno. Mas esta jovem foi especial e o pior de todos os casos. Sua carne frágil e macia foi a coisa mais perfeita na qual toquei. Sua voz era perfeita e impossível de ser deste mundo. Foi a ira do Senhor, mandou-me um demônio encarnado na forma desta mulher…

- Não minta para mim, mortal! – bradou a dama de negro e, com um gesto largo de sua mão livre, o dedo médio que carregava o anel sagrado caiu da mão do homem, acompanhado de um urro terrível de dor – Não minta ainda mais para os seus fieis! Fale apenas a verdade e terei piedade de ti.

O homem agora chorava e segurava sua mão destroçada. Toda a multidão assistia a cena com horror e incapazes de fugir das asas daquele demônio. "Ela está colocando essas palavras na boca de nosso padre", insistiam os mais fiéis, mas os acusadores ainda estavam com os braços erguidos.

- Nada enviou esta mulher até nossa cidade – urrou o homem aos prantos – Nem Deus, nem demônio. Ela apenas veio para contar suas histórias para as crianças. Estava espalhando o conhecimento antigo sem o consentimento da Santa Igreja, uma das maiores heresias. Ela ainda dizia-se ser uma deusa, paganismo e profanação do nome santificado. Ela profanou nossa ordem religiosa e ameaçou a integridade da Igreja. Como regente do tribunal da Inquisição nesta cidade deveria acusá-la de bruxaria, mesmo que fosse apenas por falar besteiras. Mas também deveria aprisioná-la em minhas catacumbas e me apoderar de seu corpo, pois assim desejava quando a vi pela primeira vez. Por duas semanas vendi o corpo daquela mulher para as pessoas que estão de braços erguidos e angariei fundos para as minhas despesas. Então a entreguei finalmente à sentença, pois não podia continuar com aquela farsa. Maculei-a pela última vez e a joguei, aqui e esta noite, na fogueira. E em tudo que lhe aconteceu ela não respondeu, fraquejou ou lutou. Ela deixou-se morrer e ser estuprada! – e calou-se muito ofegante, agarrando com todas as forças a mão que vertia em sangue.

Um silêncio mortal caiu sobre a praça. As pessoas que estavam ali ficaram ainda mais desesperadas. Participaram e acobertaram uma barbaridade, profanaram a sabedoria do Senhor e ele mandara aquela dama de negro até ali para fazê-los pagar, sentir na carne o seu ódio por tamanha ousadia e maldade. Os braços finalmente baixaram, mas todos os olhos ainda mantinham-se ou no homem santo ou na dama de negro. "Ela é a morte, carregada por sua tristeza".

- Quantas vezes? – soou fracamente a voz da dama de negro, encarando malignamente o homem de joelhos.

- Co-como?

- Perguntei quantas vezes? – manteve o mesmo tom de antes.

- Por favor, senhora… Por favor… – implorava o homem.

- Responda mortal! – proclamou em fúria.

- Seis vezes, seis vezes – gaguejou em resposta, escondendo-se entre os braços ensangüentados.

Uma presença atroz e triste elevou-se no ar, seguida por um grito de horror. A mão direita do homem, a do anel, voou solta no ar. O sangue esguichou sobre as pessoas mais próximas, e o chão foi manchado por vômito e urina. O ambiente passou a feder a punição e vingança. O homem santo segurava o que restou do braço, chorando terrivelmente, mergulhado em sua vergonha, pavor e desespero. "Deus! Tenha piedade", implorou.

- Seu "Deus" não existe diante de mim, mortal – sentenciou a dama de negro – Nada pode fazer para impedir a fúria divina.

E ela ergueu o homem apenas com sua vontade, enforcando-o pendurado no vazio. As pessoas agora berravam a plenos pulmões, incapazes finalmente de conter o pavor. Lutavam para correr, fugir, mas suas pernas continuavam presas. A loucura açoitou os que haviam erguido as mãos e alguns sacaram lâminas e passaram a arrancar suas pernas, acreditando que elas estariam presas fisicamente ao solo, ou que a dor os libertaria. Logo a praça virou um mar de sangue. Tudo por causa de apenas uma mulher, uma única bruxa.

O homem balançou no ar, suas pernas chutando o vazio. A dama de negro se aproximou decidida e puxou um punhal de prata afiadíssimo. O homem engoliu suas próprias secreções e o sangue que jorrava de seu braço mutilado amenizou um pouco diante de tanto medo. Cheiro de fezes elevou-se no ar.

O tempo todo se utilizando do punhal, a mulher arrancou despreocupadamente a batina do padre e o deixou complemente nu diante da multidão que se mutilava desesperadamente. Pousou o punhal sobre o demônio do homem, a chave para o Inferno e como uma guilhotina mutilou ainda mais o pecador. Ele gritou uma última vez de dor, a boca escancarada, e a dama enfiou-lhe a faca goela adentro, trespassando o cérebro. O corpo caiu de qualquer maneira no chão frio e ensangüentado abaixo do andaime. Ela virou-se para a multidão e pôs sua máscara triste no rosto, segurando-a com a mesma mão que a carregara até o momento. Assistiu por alguns segundos o resplendor final da imunda cidade e desapareceu assim como surgiu, levando o que restara do corpo carbonizado de sua irmã.

Sentindo a pressão espiritual baixar, as pessoas finalmente puderam fugir dali. Correndo atônitas em todas as direções, pisotearam umas as outras, provocando ainda mais vítimas diante de sua própria loucura. Nenhuns dos que ergueram as mãos sobreviveu além daquela noite, e seu sangue fluiu e foi dissolvido pelas lágrimas que caiam do céu e castigavam o solo profano daquela praça.

Chovia, e nada mais restava.