Let's go

Let's go

O clube de Anthony Soprano era dividido em três estabelecimentos. Pela entrada da frente, que dava para uma movimentada rua, abria-se o Ristorante Valentina, bastante freqüentado, especialmente nos dias em que havia música ao vivo. A comida tinha o custo um tanto elevado, era ótima, não se poderia negar, mas a cozinha italiana sempre foi muito difundida naqueles arredores, por isso a clientela havia diminuído drasticamente. O lugar era charmoso e bem decorado, preparado para ser visitado por famílias, casais e negociantes. Pela entrada dos fundos, cercada por um muro de tijolos a vista, ficava o clube de jogos e diversão Let's Go, com Go-Go-Girls dançando sobre as mesas, garçonetes em roupas curtíssimas flertando com os clientes. Era visitado, em geral, por homens de negócio. No meio desses dois recintos havia o escritório de Anthony. Um amplo espaço de teto baixo onde havia, ao centro, mesa de bilhar, uma de cartas e outra de roleta, ao canto esquerdo três escrivaninhas, e ao canto direito um grande sofá e mais duas poltronas viradas para uma TV de plasma de 47 polegadas. Ao lado do sofá havia uma porta que levava a uma sala de tamanho médio, era a sala de Anthony.

O clube estava fechado naquela tarde. O gerente organizara para aquele dia uma seleção de vagas. Algumas garotas haviam sido demitidas, outras estavam para se mudar, e ele precisava urgentemente de "carne" nova. Enquanto observava as garotas dançando, fazia pequenas anotações nas fichas delas. A maioria era perfeita para as vagas que tinha, mulheres da vida, preparadas para o que iriam passar nas mãos dos clientes. Apenas uma não se encaixava naquele lugar. Era uma mulher alta, de cabelos brilhantes cor de chocolate, muito bonitos. Por um momento Anthony teve a impressão de que já a havia visto, mas conhecia tantas mulheres que se desligou daquele pensamento logo depois de uma loira com grandes seios passar rebolando em sua frente. O gerente pediu que a mulher de cabelos chocolate subisse ao palco e dançasse, o que ela não fez. Mas ela se precipitou até ele e sorriu, fazendo-o espremer as rugas na testa, tentando também se lembrar de onde a conhecia.

– Desculpe-me, senhor. Na verdade não estou aqui para a vaga de dançarina - falou em tom de riso. - O senhor é gerente do restaurante, não?

– Sou, mas não estamos precisando de nenhum funcionário...

– Bem - ela o interrompeu, parecia impaciente -, eu queria que o senhor me ouvisse cantar. Vi que vários artistas se apresentam lá...

– Sim, mas nossa agenda já está fechada - disse ele olhando para o que fingiu ser a agenda, onde não havia nada escrito. - Como lhe disse - e apontou para o caderno -, não tenho data.

– Oh - exclamou desanimada, mas não demonstrava tal sentimento.

O gerente deu as costas, acreditando que com aquela atitude dispensaria e não veria mais a mulher de cabelos chocolate, contudo, ela o seguiu até o palco, e quando o gerente se deu conta, uma voz magnífica ecoava pelas caixas de som do clube e todos se viraram para o palco. Ao som da música, duas dançarinas espertas, subiram ao palco e começaram a dançar. Até parecia que as três haviam combinado tudo aquilo, mas elas nem ao menos se conheciam.

Oh it's so good, it's so good, it's so good, it's so good. It's so good!

Oh I'm in love, I'm in love, I'm in love, I'm in love. I'm in love!

Oh I feel love, I feel love, I feel love, I feel love. I feel love! ¹

Foram três minutos de queixos caídos. Todos, incluindo o gerente, tinham entrado no ritmo da música.

– Ok, ok, ok! - falou alto o gerente depois de respirar fundo. - Podem parar! Desçam do palco, por favor. - Ele cumprimentou as dançarinas, fez uma breve anotação e olhou para o palco, onde a mulher de cabelos chocolates ainda permanecia. - Senhorita, por favor - ele implorou -, não temos a vaga que deseja. E depois, no restaurante não poderia apresentar-se com esse tipo de música.

– Hum - ela murmurou no microfone. - E que tal essa?

– Não, não, não... - tentou interromper o gerente, mas ela já tinha começado outra.

You're nobody 'til somebody loves you.

You're nobody 'til somebody cares.

You may be king, you may possess the world and it's gold.

But gold won't bring you happiness when you're growing old.

You're nobody 'til somebody loves you.

So find yourself somebody to love.²

Se a música anterior não tinha causado nenhum efeito, esta foi certeira. A caneta e a agenda do gerente tinham ido ao chão, ele estava agora sobre o palco puxando a mulher de cabelos chocolates para os bastidores.

– Sou Vito Della Rosa - cumprimentou, apertando fortemente a mão da mulher.

– Macey Ann Giardino.

– Giardino? - ele sorriu. Uma italiana! Era perfeito! - Pode começar na sexta?

Ela sorriu, ainda apertando a mão dele, conversou sobre as generalidades do emprego: roupas, horário e valores, e por fim, depois de alguma discordância, o gerente cedeu a um salário justo.

Na noite de sexta, cabeças se viraram para o quase esquecido palco onde poucos bons cantores se apresentavam. Fazia tempo que a casa não ouvia uma voz tão harmoniosa interpretando músicas italianas antigas, algumas com mais de trinta anos. A voz era de Macey Ann, a mulher de cabelos cor chocolate.

Cadeiras se arrastaram no escritório.

– Quem é que está cantando? - quis saber o dono do clube.

– Ah, é a cantora que contratei para o final de ano. Depois dessa renovada achei melhor criar algumas noites especiais no restaurante. A gente conversou sobre isso, Tony. Não se lembra?

– Hum - o dono resmungou olhando para as cartas de baralho na mão. - Devo ter me esquecido. Pelo menos ela canta bem.

– E é bem bonita. Vamos sair no lucro.

O grupo formado por seis homens riu e voltou a jogar, mas continuaram apreciando as belas músicas italianas.