A plataforma ¾ da estação King Cross estava cheia. Julie observava a euforia dos alunos e pensou o quão patético aquilo era. Ela se despediu de Henry e entrou no Expresso Hogwarts, enquanto o tio colocava as malas dela em outro vagão.

Julie caminhou pelos corredores a procura de uma cabine vazia. Ela apenas carregava uma mochila vermelha nas costas e segurava uma gaiola com uma coruja marrom. Assim que achou o que procurava, deixou a mochila no chão, colocou a gaiola cuidadosamente no banco e sentou-se do outro lado, olhando a janela. Julie viu Henry na plataforma. Ele deu um sorriso.

Aos poucos, o trem começou a ganhar velocidade. Julie apenas olhava a estação se afastando e em pouco tempo começou a ver as árvores passando. Ela deu um suspiro. Estava entediada.

Era seu quarto ano em Hogwarts e já estava ficando de saco cheio de lembrar que teria aulas com Snape. Não que ela não gostasse dele, mas ELE não gostava dela. Virou os olhos ao lembrar que ele era diretor de sua casa. Merda. Com certeza ele iria pegar no pé dela. Como sempre. Mas, se ele fosse atazana-la, ela daria o troco. De fato, ela tomava cuidado para não ser expulsa. Sem contar que Dumbledore sempre a protegia, por alguma razão. Talvez esse tenha sido um dos motivos de não ter sido expulsa até agora. Fora que ela sabia que Snape não tiraria pontos da própria casa, mas ela já havia perdido as contas de quantas detenções ela teve que fazer. Mas sempre valera a pena. Seus pensamentos do professor desviaram quando ouviu alguém batendo na porta.

- Hiya, Julie. – Um garoto alto de cabelos castanhos e olhos azuis quase cinza, entrou na cabine. – Oi, Elizabeth. – Disse tocando na gaiola. A coruja piscou em resposta. Se é que isso pode ser considerado como uma respota.

- Oi, Edward.

Edward sentou-se em frente a ela e observou suas olheiras.

- Meu, você ta péssima, hein? – Falou rindo.

- "Meu", eu não pedi sua opinião.

- Tanto faz. – Julie levantou a sobrancelha esquerda. – Algum motivo especial para essa cara? – Edward continuava a rir.

- "Tanto faz"? Desde quando você responde assim? – Havia um tom de sarcasmo em sua voz.

- Hm – Ele colocou a mão no queixo como se estivesse pensando em algo importante – acho que estou passando muito tempo com você.

- Tanto faz. – Edward riu ao ouvir a resposta. – Mudando o assunto, como seu pai reagiu ao receber as cartas do Snape?

- Ele me deu um sermão falando que o Snape – Imitando o pai. – "é o melhor professor de Hogwarts e merece respeito. Além do mais, por que você anda com os Gryffindors?", mas ele parou depois que mostrei minhas notas.

- Qualquer pai para de reclamar quando o filho mostra notas boas.

- E o seu tio?

- Bom, quando chegamos em casa, ele me mostrou as cartas...

- Que não eram poucas. – Ele completou.

- Pois é. Depois ele ficou me encarando e começou a rir. Do nada.

- Hein? – Edward olhou confuso. Julie suspirou.

- Fiz a mesma cara que você, na hora. Aí ele parou de rir e perguntou como eu irritei tanto o Snape.

- Alguma razão para isso?

- Henry era Gryffindor. Tirando os Slytherins, todo mundo odeia o Snape.

- E a gente.

- Não, apenas VOCÊ. Tenho que concordar que ele é o melhor professor de Hogwarts.

- O que você fez com a Julie original?! – Edward tirou a varinha de suas vestes e apontou para Julie.

- Tira esse troço da minha cara antes que você arranque meu olho! – Falou tirando a varinha das mãos dele. – Eu nunca falei que não gostava dele. Eu o respeito.

- Sei. – Edward disse irônico enquanto tentava pegar a varinha das mãos dela. – Vamos, me devolve. – Ele falou bravo.

- Da próxima vez, pense duas vezes antes de apontar isso contra mim. Não venha reclamar quando você estiver no hospital Wing cheio de espinhas na cara. Suas fãs ficariam decepcionadas. – Ela devolveu a varinha. – Voltando ao assunto, o Snape pega no meu pé. Se ele encher meu saco, eu encho dele. Simples.

- É. Faz sentido. – Fez uma pausa. – Já sabe quem é o novo professor de Defesa Contra Artes das Trevas?

- Não.

- Não quer saber?

- Hm... Não. Se não for Você – Sabe - Quem tentando voltar, eu fico feliz. Se bem que isso quebra a rotina do dia a dia na escola. – Um sorriso sádico surgiu em sua boca.

- Falando em Potter, eu não vi nem ele e nem o Weasley no trem. Mas a Granger, os gêmeos e a Weasley mais nova estão por aqui.

- Ta. E daí? – Ela não parecia nem um pouco interessada.

- Eu te odeio, sabia?

- Então por que está aqui?

- Porque você é minha melhor amiga?

- É... Parece um bom motivo.

- Esquece. – Edward estava irritado. – De qualquer maneira, você não vai gostar do...

- EDDIE!! – Edward foi interrompido por uma garota loira de olhos verdes, que pulou em seu colo e lhe deu um beijo na bochecha. – Acho que você precisa se barbear! – De fato, ela era mais bonita que Julie.

- "Ui, Eddie." – Julie estava rindo da cena que acabou de acontecer. Edward a fuzilou com o olhar. Ela riu mais ainda.

- Eu me barbeei ontem à noite, Anne.

- Ta rindo do que? – Anne perguntou brava.

- Nada. A não ser do seu comentário fútil sobre a "barba" dele. Fora a ceninha tosca que você fez ao entrar na cabine. Precisa de mais algum motivo? – Julie sorriu sarcasticamente. Edward começou a rir.

- Anne, quer sair do meu colo agora?

- Não. – Disse ela, sorrindo.

- Minhas pernas estão doendo. – Ele estava sério. Anne não gostou nem um pouco, mas fez o que ele pediu. Porém, se sentou ao lado dele e colocou seu braço sobre seu ombro. Edward virou os olhos, mas ela não notou. – Como eu dizia, o novo professor...

- De Defesa Contra Artes das Trevas? Você não sabe, Julie? – Anne falou ironicamente. – Não lê o Witch Weekly?

- Primeiro, se eu soubesse, o "Eddie" não estaria falando sobre isso. Segundo, o Witch Weekly é patético. Apenas pessoas fúteis lêem essa porcaria. – Edward se segurava para não começar a rir de novo. Mas não podia evitar, já que Anne mordia o lábio inferior de raiva.

- Bom, antes de eu ser interrompido pela terceira vez, pela a mesma pessoa – Anne deu um sorriso sem graça. Julie se divertia com a cena. – o novo pofessor de Defesa vai ser o Lockhart.

- Ele é lindoooo!! – Anne falou animada.

- Ele é um inútil! – Edward e Julie disseram ao mesmo tempo. Já tinham perdido as contas de quantas vezes tinham cortado Anne. Parecia que não se tocava que ela não era bem vinda entre eles. Alguns segundo depois, apareceu um grupo de três garotas.

- Oi, Edward! – Disseram em coro. Edward era bem popular com as garotas que não eram de sua casa. Julie fez uma cara de desdenho. Já estava de saco cheio das fãs dele e a cabine estava ficando apertada.

- Oi. – Ele respondeu seco, fazendo as garotas ficarem sem graça.

- Er... Anne, nós estavamos procurando você.

- Ah... Bom, não dá para eu voltar com vocês. Os novos monitores têm que ir pro primeiro vagão agora. – Ela se virou para ele. – Você vem?

- Vai você primeiro, a gente se encontra mais tarde.– Falou com um sorriso amarelo. Ela e as garotas sairam da cabine. Edward suspirou. – Puta garota chata!

- Monitor, é? – Havia um tom de sarcasmo na voz de Julie.

- Não enche. Deve ter sido idéia de Dumbledore, não do Snape.

- Pois é. Mas então, por quê você sai com ela se fica reclamando depois?

- Ela é fútil, mas é inteligente. Preciso de alguém para fazer minhas lições, oras.

- Manipulando alunos de outras casas, é?

- Claro! Ou você acha que eu sairía com uma Gryffindor fútil como ela? Bom, nada contra os Gryffindors, ja que eu e os gêmeos somos amigos.

- É, tem sentido. Acho melhor você ir.

- Verdade. Vejo você mais tarde. – Edward abriu a porta da cabine e uma senhora com o carrinho de doces parou.

- Alguma coisa do carrinho? – Disse ela sorrindo.

- Err... me ve uma caixa de Jaffa Cakes ¹.– Tirou uns sicles do bolsou e entregou. A senhora pegou uma caixinha retangular do carrinho e entregou a ele.

"Jaffa Cakes. – 15 Unidades."

- Vai querer algo, Julie?

- Me ve uma ga'fa² de suco de abóbora, por favor. – Entregou alguns sicles para a mulher e pegou a garrafa. A senhora continuou a empurrar o carrinho.

- Pega um aí. – Edward lhe ofereceu um bolinho pequeno e achatado, com cobertura de chocolate. Julie e agradeceu e deu uma mordida. Laranja. Ofereceu-lhe o suco, porém, ele recusou e foi em direção ao primeiro vagão.

Faltava muito para chegar a Hogwarts. Abriu sua mochila vermelha e retirou um antigo livro de capa marrom escrito "Hamlet" em dourado e começou a ler.

Dumbledore começou o discurso de todos os anos. Apresentou o novo professor de Defesa Contra Artes das Trevas, que deu um aceno ao salão em resposta. Ouviram-se muitos suspiros das garotas quando ele fez isso. Julie virou os olhos em desdenho, assim como Snape. Ele certamente se sentia incomodado com a presença do louro ao seu lado. De repente, Snape olhou para a janela, como se tivesse ouvido algo de la. Mas ninguém percebeu. Resolveu voltar o que estava fazendo. Ficar entediado.

Assim que Dunmbledore parou de falar, o banquete começou. Filch entrou no salão e foi em direção a mesa dos professores. Falou algo no ouvido de Sanpe, e este sai rápido do salão. Sua capa apenas esvoaçava atrás de si. Com certeza, isso era legal. Mas o fato de ser o Snape, isso acabava dando... Medo? É, mais ou menos. Alguns minutos depois, Dumbledore e McGonnagall sairam do salão também. Julie não se importou com a cena, entretanto, muitos alunos começaram a comentar.

Após o banquete, os alunos começaram a retornar para suas Common Rooms. Como Edward era o novo monitor de Slytherin, ele teve que guiar os novos alunos até as masmorras. Julie ia junto, mas Dumbledore a chamou.

- Precisamos conversar, senhorita. – Julie apenas assentiu e acompanhou o diretor até a sala dele. Mas antes, pararam na águia de ouro que dava acesso a sala dele.

- Sherbet ³ de Limão.

A águia abriu caminho, dando espaço a uma escada em espiral. Subiram até a sala. Dumbledore sentou-se na cadeira atrás da mesa dele.

- Sente-se, Julie. – Dumbledore mostrou um sorriso em sua face. Julie se sentia desconfortavel com a situação, mas sentou na cadeira. – Como foram as férias?

- Normal. – Julie estava entediada. Olhava para as estantes de livros, parecia mais interessante. Não tinha saco de ouvir as mesmas conversar de Dumbledore.

- A senhorita parece seu pai falando desse jeito. – Ela encarou Dumbledore. – Tem algo que queira me dizer? – Julie abriu a boca para falar, mas hesitou por alguns segundos.

- Professor...

- Sim?

- Eu visitei a casa em que eu morei. – Dumbledore estava interessado. – Mas, não lembrei algo. A não ser do tapa que meu pai deu em mamãe. – Julie fez uma careta. Mamãe? Mamãe parecia meio infantil. Ah, dane-se. Já era. Dumbledore riu. – Só lembrei isso, mas não consigo lembrar o que aconteceu antes ou depois disso.

- Entendo. – Suspirou. – Algo mais?

- Bom, não parei de ter pesadelos desde que fui la. – Mais precisamente, por sua culpa, ja que você me fez ficar curiosa sobre meu passado, ela pensou. – E é sempre o mesmo sonho. – Não havia motivo em ela esconder, afinal, queria parar com essas drogas de pesadelo. O orgulho dela já estava la em baixo, não custava descer mais um pouco. Contou sobre o homem, o Avada e o grito que deu. Por alguma razão, ela nunca conseguia ver a face do homem. Só reconhecia sua mãe.

- Julie, precisamos vasculhar sua mente.

- Algum motivo, professor? – Como algum aluno conseguia falar assim com Dumbledore? Apesar de bondoso, Dumbledore era muito respeitado, mas Julie não ligava. Era apenas um velho sábio tolo.

- Talvez ele volte. – Ela sabia. Tinha o Dark Lord no meio. Potter "o" enfrentou no ano passado. Estava tentando arranjar um corpo para matar o moleque. – Voldemort – Ela estremeceu. Bom, era humana, sentia medo, oras. – está fraco, mas ainda está vivo. Se ele recuperar seu corpo, ele retornará. Fora que, deve existir alguma razão especial para não ter matado... você... E talvez, a senhorita queira saber o que aconteceu com o seu pai, ja que o corpo dele não foi encontrado. É provavel que ele esteja vivo, ja que era um Death Eater. – Julie parecia chocada. Ela não sabia sobre isso.

- E como o senhor pretende entrar em minha mente?

- Como seu cérebro bloqueou suas memórias antes do acontecimento, essa parte foi para a zona morta 4 . E não serei eu quem irá fazer isso. Professor Snape usará Legilimens em você para vasculhar sua mente.

- Snape? – Ela não parecia feliz com isso. Era sempre o Snape, por alguma razão do destino.

- Professor Snape. – Corrigiu Dumbledore.

- Tanto faz. – Ela murmurou. Dumbledore apenas riu.

- Infelizmente, senhorita, eu não tenho tempo. Então ele aceitou fazer isso. – Bela vingança. Invadir a zona morta de alguém. Que merda. – Ele irá falar com você amanhã. – Abriu uma gaveta na mesa e pegou um frasco com um liquido dentro. – Beba isso antes de dormir.

- Hm?

- Poção Sono Sem Sonho. Acho que a senhorita merece uma boa noite de sono. – Sorriu. – Boa noite. – Julie assentiu e se retirou da sala do diretor.

Ela caminhava pelos corredores. A medida que a Slytherin andava, as tochas se acendiam. De repente, ela parou e começou a encarar o frasco. Olhou para a janela do seu lado direito. Estava aberta. Passou mais alguns segundos analisando o frasco e então o arremessou pela janela. Ouviu um barulho de vidro se quebrando. Um sorriso no canto da boca surgiu.

- Velho tolo.

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¹ Jaffa Cakes – Bolinhos achatados com recheio de laranja com cobertura de chocolate. Muito popular no Reino Unide. Jaffa Laranja

² ga'fa – Mesma coisa que garrafa. Julie tem sotaque Cockney, ou o sotaque das pessoas que moram em East London (a parte leste de Londres). Em ingle, seria "bo'le". Achei interessante em mostrar isso. Quem assistiu Sweeney Todd (sim, o músical com Depp, Rickman, Carter e etc), Toby (o menino que vende o Elixir) canta "How 'bout a bo'le, mister?". Tanto ele, quanto Pirelli (depois que se encontra com Todd pela segunda vez) tem sotaque Cockney. Na peça original, apenas Mrs. Lovett, Toby e a mendiga tem esse sotaque, que na minha opinião, é um dos melhores sotaques britânicos. Em Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), Stan Shunpike tem sotaque Cockney.

³ Sherbet – Pozinho colorido com sabor. A tradução no livro seria sorvete. Mas isso é ingles americano, no britânico, Sherbet é um pozinho colorido, no caso, verde, com sabor, de limão.

4 Zona Morta – Estava lendo o livro A Zona Morta (The Dead Zone) de Stephen King. A zona morta seria a parte do cérebro onde as memórias esquecids ficam. Normalmente isso acontece em um acidente, onde a pessoa bate a cabeça, ou com um trauma psicológico como o de Julie.