CAPÍTULO 2 – DEMÔNIOS DE NASCENÇA
A noite logo chega à casa Halliwell. O jantar está pronto e todos estão à mesa. Phoebe observa silenciosamente sua impaciente filha. Ela se pergunta o que está acontecendo com a menina. Desde seu aniversário de 15 anos, no mês anterior, ela mudara muito. Estava distante e irritadiça. Defensiva. Fechada. Agora, com sua cara de estresse à mesa do jantar, ela se perguntava se isso teria alguma coisa a ver com suas origens demoníacas. Mas preferia não crer nisso.
Todos se servem e comem em silêncio. Parecia ter sido um dia difícil para cada um deles, já que ninguém queria expressar seus pensamentos. Todos preferiam se calar. As paredes sentiam falta da barulheira, da confusão de vozes que sempre surgia quando todos se sentavam. Era como se o medo tivesse tomado conta da casa. Mas medo de quê, afinal?
Assim que terminam de comer e de ajudar Piper com a louça, as crianças se dirigem aos seus quartos para – supostamente – estudar. Clarissa busca um maço de cigarros do fundo de uma gaveta, acende a ponta de um deles no fofo Grego que queimava sobre a prateleira e se senta à janela para evitar que a fumaça entrasse no quarto. O alívio de sentir seus pulmões cheios de fumaça da primeira tragada era incrível. Ela já necessitava daquilo. Necessitava.
– Você sabe que isso não te faz bem – diz uma voz que parecia ter surgido dentro do quarto vazio. Clarissa se volta para a voz e vê uma mulher baixa, negra, vestida em vermelho observando-a com um sorriso sutil no rosto.
– Diga-me que de onde você vem não há fumaça nenhuma e eu largarei – a menina responde, queimando o resto do cigarro entre os dedos.
A Vidente sorri mais.
– Você já se decidiu? – ela pergunta, fechando a cara.
– Ainda não – Clarissa volta a encarar o céu noturno, buscando por sinais nas estrelas. Ela estava com medo, sem saber o que fazer. Tudo aquilo que ela recentemente descobrira era demais. E ela estava sendo forçada a escolher entre sua natureza e sua família.
– Estamos esperando por você, somente você – a mulher ressalta – Você sabe.
A menina salta da janela de volta para o quarto e bate o vidro. Ela não suportava aquela mulher. Aquela mulher e sua maldita calma. Sua maldita sabedoria do passado e do futuro – do que viveu e do que prevê. Ela a lembrava muito de Phoebe, sua mãe.
– Há quanto tempo você está na Terra, hein? – Ela pergunta, tentando intimidar a mulher – Quantas Fontes já passaram por você? Deve saber que não é nada fácil aceitar ser a Fonte de Todo o Mal.
– Clarissa, não seja ridícula. É difícil aceitar se tornar um demônio, receber seus poderes e a responsabilidade de ser a Fonte. Mas olhe para você. Você já nasceu com isso.
Do mesmo modo como veio, a Vidente vai, deixando Clarissa em pé, tremendo, amedrontada. Pensava no que a mulher dissera, naquilo que ela conhecia bem e até gostava um pouco. Aproveitava, em certos aspectos. Mas não soava bem, principalmente naquela família. Naquela casa onde vivam bruxas, cujo dever era caçar e destruir coisas como ela – demônios.
