Capítulo 2
Um confronto na floresta: Puchiki mostra sua força!
por Edu/Hiei, 17/01/05
A jornada de Puchiki e Kawaiimaru continuava e, depois de passarem uma semana caminhando praticamente o dia inteiro, fazendo paradas apenas para se alimentar e dormir, a dupla finalmente resolveu tirar alguns dias de folga no vilarejo Garcia, onde se hospedaram na pousada mais cara e confortável.
Naquela manhã, por volta das dez horas, Puchiki estava especialmente radiante. Havia chegado ao vilarejo no dia anterior e, depois de uma boa noite de sono, já estava empolgada como de costume. Ela entrou correndo no quarto que dividia com seu tio adotivo, luxuoso para os padrões do vilarejo, mas ainda assim simples. O piso era de madeira e não havia muita coisa além de duas camas de solteiro, um grande armário de pinho e cortinas de seda branquíssimas, mais do que as nuvens no céu azul do lado de fora da janela.
Apesar de toda a animação da garota, seu acompanhante de viagem estava mais interessado em descansar. Kawaiimaru continuava deitado, estendido de bruços na macia cama da pousada, parcialmente coberto por uma manta branca.
- Tio Kawaiimaru! - ela disse, tentando acordá-lo - Levanta, vamos!
- O que é? - ele respondeu com uma voz penosa e sonolenta, o rosto ainda enfiado no travesseiro.
- Quando fui dar uma volta mais cedo, ouvi os moradores falando sobre um lugar pertinho daqui que tem uma linda vista do oceano! O que acha de ir lá dar uma olhada?
- Divirta-se... - ele retrucou, mais dormindo do que acordado - Até depois então... - puxou as cobertas por cima do corpo inteiro.
- Nyuu... Mas... Eu pensei em ir com o senhor, tio Kawaiimaru... - Puchiki fez cara de choro, mas logo voltou ao normal ao ver que sua estratégia de persuasão tinha falhado.
Minutos depois, Puchiki estava caminhando sozinha pelo vilarejo, visivelmente emburrada, pisando forte enquanto discutia consigo mesma.
- Hmpf! Preguiçoso! Tudo que ele faz é ficar dizendo "Vamos para o noroeste, vamos para o noroeste", mas, quando é pra dar um passeio, ele não está nem aí!
Contudo, depois de quinze minutos por uma trilha em uma floresta próxima, o mau humor de Puchiki desapareceu completamente. Ela chegara a um desfiladeiro citado pelos moradores, onde havia uma linda vista para um infinito mar azul ao leste, e uma vastidão enorme de florestas a noroeste.
- O noroeste... - Puchiki olhou naquela direção e então sua expressão mudou para algo mais sério, quase triste - Nas cartas que recebia quando era pequena, você me dizia que estava viajando naquela direção, mano. Falava que lá vivia um youkai muito poderoso que ia poder aumentar o seu poder e te deixar ainda mais forte... - ela deu uma inspirada profunda e então expirou lentamente - Será que ele ainda se esconde lá? E será que vamos te encontrar se continuarmos seguindo nessa direção?
- Tá falando com quem, bicho? - perguntou um rapaz que surgira do nada ao lado de Puchiki. Ele tinha uma voz que alterava entre grossa e esganiçada.
- Aaaah! Nossa, você quase me mata de susto!
- Uhuhuhu! Desculpa, broto! - o homem respondeu ligeiramente corado, balançando as mãos em sinal de arrependimento - Não tinha intenção de te assustar. Você é que estava tão distraída falando sozinha que não percebeu que eu estava vindo, só isso!
Apesar de aquele homem ter saído sorrateiramente de dentro da floresta, e de ter uma aparência esquisita, Puchiki o considerou inofensivo. Ele era alto e magro, com nariz e queixo pontudos, barba por fazer e um olhar inocente. Vestia uma camisa laranja, calças apertadas boca-de-sino azuis e tinha um cabelo black-power castanho, como as enormes costeletas em sua face.
- Sabe, broto, você me lembra a Evilady, sabia? Ela também fica falando sozinha, quando está pensativa, e quase sempre vem pra cá também, tá sacando? - ele continuou - Disse que gosta de olhar para o oceano quando precisa pensar, uma parada assim.
- Ahm... Certo... - Puchiki respondeu, sem saber direito o que falar. Imaginava quem seria aquele estranho sujeito, que aparecera do nada, e o que fazia escondido no meio da floresta, espionando-a. - Escuta... Por que você estava escondido? - ela disse, já se afastando do penhasco e sentando em um tronco caído, perto do início da trilha.
- Huh? - o sujeito estava tão entretido com a vista que se assustou com a pergunta - Ah, a Evilady disse para eu ficar ali, enquanto ela ia buscar aquelas canetas explosivas dela, tá sacando? - ele fez um beicinho e botou um dedo na boca enquanto olhava para o alto - Pensando bem, acho que não era para eu deixar você me ver, broto...
Um breve silêncio se seguiu, enquanto Puchiki e aquele rapaz se entreolhavam, sem saber ao certo o que dizer, quando então um grito extremamente alto os despertou. A voz era de uma mulher, vinha de dentro da mata e com certeza não parecia nada feliz.
- Thefool, seu... IDIOTA! - disse uma garota de cabelos vermelhos e maquiagem preta como suas vestes, que vinha surgindo da mata enquanto afastava as plantas com os braços – POR QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ CONVERSANDO COM ESSA GAROTA?!
- Uhhh! Desculpa, Evilady! - disse o rapaz correndo para perto dela - É que eu comecei a ver o quanto vocês duas eram parecidas e, quando dei por mim, já estava conversando com ela, saca?
- IDIOTA! Estragou nosso disfarce! - ela bradou.
- Ih, calma aí, broto! Relax, saca só a vista! - ele apontou para o mar - Essa vista não te dá mó paz? Aí, não te deixa, tipo assim, viajando, broto?
Ele ficou bem ao lado da garota e apontou o dedo para o horizonte na esperança de que Evilady olhasse naquela direção, mas tudo que ela fez foi derrubar o infeliz com um soco com o inverso da mão esquerda.
- Você é um desmiolado, mesmo! - falou irritada - Agora escuta aqui, garota, nós não gostamos de você, ouviu? - falou apontando o dedo para Puchiki.
- Nyuu? Mas o que eu fiz? - ela respondeu sem jeito, quase rindo – Olha, se está com ciúmes por causa desse garoto, eu acabei de conhecer ele e...
- NÃO É NADA DISSO! QUEM DISSE QUE EU TENHO CIÚMES DESSA TRALHA?!
- Uhhh! Magoei! - Thefool retrucou com uma vozinha de choro, enquanto se agarrava à perna esquerda de Evilady.
- Me solta, seu desengonçado! Toma jeito, anda! - a garota balançou a perna, tentando se livrar do "passageiro".
- Nyuu... Eu acho que vou indo então... - Puchiki começou a caminhar na direção da trilha, mas Evilady se livrou de Thefool e, com um movimento exagerado, pulou na frente da garota.
- VOCÊ NÃO VAI A LUGAR NENHUM! – gritou, colocando as mãos na cintura - Nós não gostamos de estranhos invadindo nossa vila, não é mesmo, Thefool? Anda, ensina uma lição pra essa garotinha! - apontou para Puchiki.
Mas nada aconteceu, e a garota de cabelos escarlate se virou para ver o que seu amigo estava fazendo. Ele havia retirado um gatinho branco de dentro de sua vasta cabeleira e estava afagando-o, enquanto cantarolava.
- IDIOTA! - Evilady apertava com força sua mão direita, enquanto as veias em sua testa pareciam que iam explodir - ANDA LOGO, SUA LESMA! ATACA ELA!
- Ahhh... Eu tenho mesmo?! - Thefool respondeu, ficando de pé.
- Claro que sim! Eu tô mandando! Vai logo!
- Olha, acho que não é uma boa idéia... - Puchiki interrompeu sorrindo. - Vocês têm certeza de que não preferem resolver isso conversando?
- Nada de conversa! Não gostamos de estrangeiros no nosso vilarejo e você é uma estrangeira, então vamos expulsá-la à força! Thefool, pega logo ela!
- Tá bom, tá bom, já estou indo, sem stress, broto! - ele puxou um disco de vinil, afiado como uma lâmina, de dentro de seu penteado e afastou o pequeno gatinho para o lado com o pé - Ai-chan, fique quietinho aí no canto, enquanto eu vou lutar, sacou?
Em seguida, o rapaz pôs-se a atacar com sua arma. Puchiki estava bastante tranqüila e com facilidade desviou da investida e dominou o atacante, fazendo-o soltar o disco e cair de costas no chão.
- Mas que droga! - Evilady bradou ao ver seu comparsa caído - Como dizem, se quer uma coisa bem feita, faça você mesmo!
Ela então sacou uma caneta hidrocor preta de suas vestes e retirou a tampa com a boca, cuspindo-a para longe.
- Agora você vai ver só! Hahahahaha! - Evilady arremessou a caneta no ponto em que Puchiki estava, criando uma grande explosão - Ohohohoho! Eu peguei ela! Eu peguei ela mesmo!
- Desculpa, mas não foi dessa vez. - disse Puchiki, sentada no alto do galho de uma árvore.
- Mas quando foi que você chegou aí, sua pestinha?! - Evilady puxou outra caneta hidrocor de suas vestes - Agora você vai ver só! Dessa vez eu te pego!
- Eu vou te ajudar! - disse Thefool, levantando-se do chão e sacando mais dois discos de vinil de seu cabelo.
- Bom, se é assim... - Puchiki puxou vários shurikens de um bolso escondido dentro da faixa em suas costas - Tobu Shuriken no Odori!1
Rodopiando graciosamente, ela lançou os shurikens de diversos ângulos, atingindo impiedosamente a dupla abaixo. Evilady teve sua caneta destruída e uma série de pequenos ferimentos pelo corpo, enquanto Thefool foi atingido nos dois braços, o que o fez soltar suas armas. Entretanto, por incrível que pareça, embora três shurikens tivessem atingido seu cabelo, nenhum fio foi derrubado, e os projéteis simplesmente perderam-se lá dentro.
- Ih! Tipo, assim, esse troço tá doendu, Evilady! - Thefool chorava ao ver os shurikens em seus braços - Não me deixa morrer sozinhuuuuuu! - saiu correndo, fazendo beicinho para beijar a garota de cabelos vermelhos.
- Relaxa, você não vai morrer! - Evilady deu um passinho para desviar para o lado e deixou o pé, fazendo o rapaz cair de cara no chão - Duvido que essa garota tenha shurikens envenenados, ela não parece ser esse tipo de pessoa. - desviou um olhar para o sangue que escorria de um corte em sua bochecha esquerda - Ela poderia muito bem ter pego nós dois, mas só você foi atingido diretamente. Todos os shurikens jogados contra mim pegaram de raspão... - voltou a olhar nervosa para a garota no topo da árvore - Essa maldita está brincando com a gente...
- E então, já é suficiente? - Puchiki falou depois de descer.
- É claro que não! Vai precisar de muito mais do que isso pra nos derrubar! - Evilady bradou, furiosa – VAMOS NESSA, THEFOOL!
A dupla veio novamente ao ataque, dessa vez sem arma nenhuma, apenas correndo desesperadamente. Puchiki novamente colocou as mãos em seu bolso, e retirou de lá várias pequenas bombas esféricas.
- Mas vocês dois são mesmo teimosos... - disse Puchiki, friccionando dois anéis de metal que trazia nos dedos, criando faíscas que acenderam o pavio daquelas pequenas bombas - Bakukage no Tobi!2
Evilady e Thefool não puderam fazer muito além de colocar os braços na frente do rosto para se protegerem das seis pequenas bombas jogadas em sua direção. Quando os projéteis explodiram no chão perto dos dois, a dupla foi lançada para a floresta, caindo inconsciente próxima a uma árvore.
Puchiki deu um suspiro de alívio e então se abaixou para juntar seus shurikens do chão antes de partir. Quando já estava saindo pela trilha, a garota de cabelos vermelhos, ainda caída e cheia de ferimentos, levantou o braço, apontando o dedo na direção de Puchiki.
- I... Isso não acabou, garota! Nós ainda vamos te pegar, você vai ver! Ninguém zomba de mim dessa maneira! - bradou.
Puchiki reagiu à ameaça dando um sorriso, o que deixou Evilady ainda mais nervosa.
- Por que é que está sorrindo, sua garota idiota?!
- É quê... - a ninja começou a responder, sem conseguir disfarçar a alegria em seu rosto - Se tem tanta energia pra fazer ameaças, então você deve estar bem. Fico contente que não tenha se machucado muito, porque você parece uma boa pessoa que só quer defender seu vilarejo.
- Grr! Não tenha piedade de mim! - Evilady se irritou ainda mais - Eu não admito que você tenha piedade de mim! Eu ainda vou te fazer pagar, sua convencida!
Puchiki não deu atenção às novas ameaças e apenas seguiu tranqüilamente pela trilha, deixando para trás a dupla de atrapalhados inimigos.
Enquanto isso, distante dali, em uma caverna escura e sombria, onde gritos de agonia e risadas eram ouvidos, uma garota que chegara há poucos dias socava com força uma enorme pedra. Ela tinha cabelos negros muito curtos, olhos verdes e uma expressão nervosa. Vestia-se muito casualmente, com uma jaqueta de couro marrom e uma calça jeans surrada.
- QUE DROGA! - ela disse, batendo com tanta força no enorme rochedo que ele rachou - Esse maldito miserável está rindo de nós! - deu outro soco - Mesmo tão próximo da morte, ele fica debochando da gente. Eu não suporto isso!
- Ele está rindo porque sabe que não vai morrer, Shenmue... - disse o gigante Midnight chegando - Ele está sentindo muita dor e agonia, mas sabe que o fim daquele corpo está próximo e isso pra ele é só um alívio.
- É, mas pra um de nós isso quer dizer a morte! - a garota deu outro soco na pedra, terminando por parti-la em dois pedaços - E quem garante que não vou ser eu? Que droga! Não quero desaparecer pra dar lugar pra que um verme daqueles ocupe o meu corpo!
- Oxi! Que gritaria toda é essa aqui, cabra? - Lampião saiu de dentro da caverna, comendo um pedaço de rapadura.
- Shenmue está nervosa porque ele começou a rir. - Midnight respondeu - Sabe, ele está rindo porque percebeu que o sofrimento vai logo acabar.
- É, vai acabar com a morte de um de nós! - Shenmue bradou - Não quero que seja eu! Que droga! Eu viajei por três anos ao redor do mundo, mas não consegui descobrir nenhuma maneira de curar aquele corpo! Agora chego aqui só pra ver que vocês, idiotas, também não conseguiram nada! Malditos imprestáveis!
- Oxi! Eu nem pesquisei nada. - Lampião interrompeu - Aproveitei a viagem pra mó de espaiá por esse mundio a minha fama de mestre da pexera de lâmina invertida!
- E o que você tem na cabeça pra ficar passeando em vez de pesquisar? - Shenmue apontou furiosa para Lampião - Esqueceu o que vai acontecer se não dermos um jeito nisso?
- Oxi! Eu não preciso me preucupá, cabra! É lógico que meu espírito é muito mais forte que o de voscêis e eu num vô sê o premero. - o cangaceiro respondeu mordiscando calmamente sua rapadura – Vocês, cabras, é que têm que se preocupar com isso mesmo.
- Grr! Seu maldito convencido! - Shenmue tentou avançar contra o cangaceiro, mas as enormes mãos de Midnight a impediram.
- Calma, Shenmue, não adianta nada brigar! Vamos esperar os outros voltarem pra ver se eles descobriram algo. - o índio retrucou - Eu entendo como se sente e queria muito ter a mesma tranqüilidade que o Lampião, mas pelo menos entendo que o melhor a fazer é ficarmos unidos.
- Droga! - ela bradou baixinho depois de ser solta.
- Fufu... - uma voz fraquinha, vinda de dentro da caverna, interrompeu a conversa.
- O que foi isso? - Lampião olhou para os lados, confuso.
- Fufufufufu...
- Vai começar outra vez... - Shenmue ficou vermelha de raiva.
- FUFUFUFUFUFUFU!
1 "Dança dos Shurikens Voadores".
2 "Vôo dos Vaga-lumes Explosivos".
16
