Corações apaixonados

Joana Malfoy e Hina


-Estou preocupado com o rumo das coisas, agora que Araloshi saiu da Sociedade. – Wufei comentou quando Heero se deitou a seu lado naquela noite. Haviam chegado da reunião, Chang havia dado algumas ordens a Treize e haviam se recolhido.

-Esqueça o reino. Estamos a duas semanas sem... Nessa viagem achei que seria mais fácil te desligar do reino, mas foi pior ainda... Vem aqui. – Heero mudou sua expressão para algo mais quente, um rostinho pedinte que só mostrava a Wufei. –Tenho saudades. – gemeu se aproximando como um gatuno.

-Ah, Heero. Você sabe o quanto fico tenso com esses problemas. – Wufei sorriu quando a boca de Heero tomou a sua exigindo um beijo.

-Fei, vai! Deixa minha língua passar. – Heero pediu sufocando a voz com os lábios colados nos de Wufei enquanto com as mãos abria o roupão de ceda que seu marido usava. –Fica nu para mim, melhor... – Heero o olhou, seus olhos azuis de um tom turquesa se turvando de desejo. –Dança para mim? – pediu fazendo uma expressão quase alucinada;

-Nem pensar! – Chang Wufei corou. –Não com a cabeça tão cheia de problemas, Heero!

Não houve dança, apenas beijos e carinhos. Onde um Heero urgente estava louco para gozar, gemer e morder e ser mordido, mas Wufei, estava distante e pensativo, fazia tudo parecer uma obrigação e quando ele sentiu Heero gozar pela terceira vez, enquanto ele havia o feito apenas uma, que Heero não achou lá muito convincente, virou para um lado e fechou os olhos.

Yui ficou ali olhando para as costas do marido sem nada dizer. O que estava havendo? O que havia acontecido com todo o fogo que tinham? De certo que seu casamento perigava a rotina, mas ele ainda sentia desejo demais enquanto o de Wufei parecia secar como água no deserto.

-Eu ainda gozaria mais umas vezes. – reclamou se jogando amuado contra o travesseiro, de costas para Wufei.

-Deveríamos pensar na possibilidade de um segundo esposo, Heero. – Wufei puxou o assunto novamente.

-Wufei, esqueça essa bobagem. – Heero pediu delicadamente se deitando ao lado do marido. O olhou carinhosamente. –Estamos bem, nos completamos e não precisamos de uma terceira pessoa. Mudaria tudo entre nós, nossa rotina...

Chang nada falou. Sabia o quanto lhe custava insistir para um segundo marido para Heero, afinal, isso o tiraria da posição de único rei. Isso significaria uma outra pessoa mandando na casa e tentando chamar para si a atenção de Yui e quando chegassem os filhos, ele, Wufei, seria deixado de lado. Mas era a única solução.

-Ainda está pensando nisso. – Heero falou se virando e acariciando o rosto macio do marido. –Se aparecer um pretendente eu o jogo pela janela. – fez uma tórrida tentativa de brincar.

-Você é péssimo com piadas. – Wufei sorriu abraçando seu rei.

-Eu sei disso. – Heero o beijou delicadamente nos lábios, sentindo o gosto da boca que lhe era companheira há quase dez anos. –Esqueça, ah? Somos felizes assim. – pediu carinhoso.

Wufei não lhe respondeu nem que sim e nem que não. Apenas tomou-lhe a boca para mais um beijo, rolando o corpo por sobre o de Heero. –Não sei se suporto mais de uma vez. – ele sorriu.

-Sabe que por mim faço a noite toda. – Yui brincou o abraçando.

Heero estava por cima agora montando sob aquele corpo de pele branca que ele ia beijando aos poucos. Wufei gemeu baixo quando seus mamilos foram beijados, abrira mais as pernas.

-Heero! Arrr... Eu...

-MAJESTADES! – a voz de Treize, o escudeiro de Wufei, irrompeu o silêncio e seus murros atacaram a porta.

Heero olhou para Wufei como sinônimo de não acredito estampado na testa.

-O REINO VIZINHO ESTÁ EM GUERRA! – gritou o serviçal e Wufei quase jogou Heero no chão ao se levantar.

-Eu devia saber que o povo ia se revoltar contra a decisão da Sociedade. – Chang rosnou vestindo as roupas.


A chuva caia fraquinha naquela noite. O reino de Anthara estava silencioso e apreensivo, pois o reino vizinho, expurgado da Sociedade irrompera numa explosão de fúria e indignação. Seu povo estava querendo retirar a todo custo o rei do trono, o culpando por sua conduta nada tradicional.

-Eles vão destroná-lo? – Wufei quis saber assim que abriu a porta. Estava corado e ofegante.

-Pior, Wufei. O povo quer pendurar a cabeça dele em praça pública. – Treize era um homem alto e atlético. A pele clara escondia bem a idade o mantendo conservado e jovial. Seus olhos cor de mel eram fortes e expressivos. –Majestade. Não podemos permitir isso.

-Claro que não vou permitir. Seria o caos. Não podemos deixar... – Wufei franziu a testa. –Será possível que não podemos descansar nem um minuto? Heero? – ele ergueu os olhos. O marido estava absorto sentado na cama, trajava apenas a calça do pijama de seda e trazia no rosto um ar de desapontamento. –Heero! – ele insistiu.

-Ah? Que você disse? – o rei se voltou para o marido e seu assessor.

-Que não vamos deixar Araloshi virar um caos. – Chang exclamou energético. –Treize reúna alguns homens. Uns quinze a vinte. – pediu ao assessor e se voltando a Heero. –Acho que sua presença vai ser um ponto alto quando chegarmos no reino vizinho, eles lhe respeitam bastante... – falou cuidadosamente.

-Chang... Você já decidiu tudo. Já despachou seu assessor, acho que pode ir sozinho. Claro, me esqueci que ele vai está com você. Vocês são imbatíveis juntos. – havia um tom de mágoa na voz de Yui. –Estou indisposto. Não vamos discutir isso está bem? Vá você. – ele pediu cansado se jogando na cama. Para Heero nada era pior que ser interrompido antes de gozar como fora agora.

-Vou selar meu cavalo, então. – Chang falou se retirando. –É, Heero... Não posso lhe culpar por fazer esse tipo de insinuações. Se ao menos eu lhe desse seu herdeiro... – falou magoado saindo pelo corredor.

-Merda. – Heero gemeu se erguendo na cama. Na sua estupidez o maltratara, sabia disso. Mas não teve ânimo para ir atrás e pedir desculpas.

Heero começava a sentir a relação desgastada. Chang era um exímio guerreiro, impecável rei, valioso esposo, mas quanto às necessidades na cama? Há quanto tempo não tinham uma noite daquelas que Heero desmaiava exaurido? Wufei vivia tanto para as guerras e para aquele reino que às vezes era difícil de imaginar que eram esposos.

Frustrado ele acabou se jogando contra os travesseiros, emborcando num sono profundo tempos após ouvir o som das cavalgadas dos soldados de Wufei se afastando.


Uma neblina espessa pairava pelo ar quando Heero sentiu o frio lhe torar as costelas. Foi estranho. Frio e dor; ele acordou exasperado. Estava suado e ofegante. Havia sonhado com uma neblina e depois veio a dor e o frio. O medo; tudo numa enxurrada desagradável que lhe embrulhava o estômago.

-Wufei! – ele chamou. Por alguma razão aquele sonho estava condicionado a seu marido. Um medo lhe subiu pela espinha como gelo e quando levantou foi apenas para descobrir que seus joelhos não suportavam o peso do corpo. O que estava havendo? Estava doente e gélido. –Fei... – de joelhos sentiu o mal-estar crescer em seu estômago até arfar na buscar de ar. -O que houve com ele? – Heero ainda conseguiu falar antes de perder os sentidos.


Quando Heero acordou na manhã seguinte a chuva havia cessado dando lugar a um dia de Sol tímido. Estava deitado em sua cama macia e confortável, não tinha idéia de como se arrastou para a cama depois de tamanho mal-estar, mas se levantou num salto. Lembrava do sonho estranho. Não, não foi um sonho. A dor e frio e angústia e medo. Era tudo real. Ouviu a movimentação estranhamente tensa. Gritos e gemidos quando a porta foi aberta e ele viu Wufei, de uma forma nova. Seu marido estava desacordado, mais pálido do que o normal e uma expressão de dor turvava seu belo rosto.

-Wufei! – foi o que conseguiu gemer olhando trêmulo de seu marido para Treize que o trazia nos braços de uma forma tão protetora quanto podia.

-Já chamei a equipe de curandeiros. – ele foi logo anunciando a Heero. Estava pálido e parecia ter chorado. –Ele não acorda! – o homem falou cuspindo as palavras aconchegando o ferido como se fosse uma jóia à macia cama. –Ele caiu do cavalo...

-O que? Impossível. – Heero interrompeu quase se jogando ao lado da cama para tomar a mão fria de Chang. –Quer me dizer que Shenlong o derrubou? Isso é absurdo. Aquele cavalo é fiel a ele. E Wufei é tão bom na montaria. – Yui não podia acreditar.

-Senhor. Ele caiu do cavalo... Estou lhe dizendo. Houve alguns estouros perto da floresta, supomos que foram rebeldes de Araloshi, não sei ao certo, apenas Shenlong se assustou e o Wufei caiu. E-ele está perdendo sangue demais. – num atropelo falou Treize.

Heero olhou com cuidado para o marido, fragilidade era algo que não combinava com ele, mas estava assim, pálido e frágil agora, o tom mais colorado que havia eram as roupas claras completamente encharcadas de sangue. Mas porque havia tanto sangue nas coxas, porque havia sangrado logo ali?

A balburdia de pés correndo tirou Heero de seu pensando e logo havia uma mulher jovem debruçada sobre Wufei e o um homem mais velho tomando o pulso do jovem de sua mão e o afastando sem muita delicadeza. O senhor era o curandeiro chefe, e a mulher sua assistente Sally Pô.

Que tanta informação o cérebro de Yui não estava processando? Wufei havia se sentido mal durante a viagem de volta, sim ele lembrava, claro, ele reclamara disso na viagem. De certo devia ter se desequilibrado quando Shenlong guinou nas patas com medo do barulho. Não, um cavalo de guerra não guinava por medo de explosões.


Heero estava a quase meia hora do lado de fora do seu próprio quarto esperando alguma informação, depois de ter sido expulso por gritar com o velho curandeiro porquê do marido não parar de sangrar.

Treize estava ali também, pálido demais e calado, mas vez ou outra o assessor dava a Heero um olhar de soslaio, como se o culpasse por alguma coisa.

A porta se abriu e Sally Pô, uma moça jovem de cabelos castanhos, os chamou para dentro do amplo cômodo. Lá se havia espalhado toalhas que agora se tingiam de vermelho vivo, e várias bacias com água numa coloração rósea. Wufei estava acordado, embora parecesse um fantasma de olhar vidrado nas vestes sujas de sangue. Heero não soube dizer porque a imagem de Wufei daquele jeito lhe dava ânsia de chorar, era como se ambos tivessem perdido algo muito importante.

-Conseguimos estancar a hemorragia. – o curandeiro falou. –Por vezes achei que íamos perdê-lo. Mas é forte como um touro.

Nesse ponto aqueles olhos negros buscaram os azuis turquesa de Heero. E havia um misto de sentimentos que assustou o rei. O olhar oco de dor. –Eu... Sinto muito... – falou tão fraquinho quando lágrimas passaram a descer de seus olhos como numa cascata. –Ele se foi. – falou debilmente olhando as vestes cheias de seu sangue.

-O que? – Heero se abaixou perto dele, ainda assustado com a aparência mórfica do marido.

-Perdi... Perdemos... – gemeu... – a voz de Wufei saiu fraquinha.

-O que perdemos? – estava ficando tenso.

-Contivemos a hemorragia a tempo de salvar a vida de Wufei, mas infelizmente ele perdeu o bebê que esperava. – o velho falou.

-Bebê? – Heero não conseguiu entender de imediato. –Como assim? Que bebê?

-Wufei estava grávido, majestade. O bebê estava com pouco mais de um mês. – Sally falou triste. –Foi tudo tão inesperado... Já devia ser uma gravidez de risco. Pois o útero não contraiu. - ela explicou. –Isso danificou o aparelho reprodutor dele, de modo que tornam nulas as chances de um herdeiro. – foi mais certeira para que Yui pudesse de fato entender a gravidade daquela situação.

-Agora vamos removê-lo para a ala de recuperação. Embora tenhamos aqui aparelhos modernos o suficiente é melhor que ele fique lá por uns dias para se recuperar mais rápido. – o velho falou.

Mas e Heero? Ele ainda não estava com os pés no chão. Ele sentiu que Wufei parara de tremer em seus braços e só um minuto depois entendia que o marido havia desmaiado de tanta fraqueza, achou louvável da parte dele se manter acordado para lhe dá a notícia trágica pessoalmente. Mas e agora? Como ia conviver com essa dor? Saber que durante um mês Wufei teve dentro de si uma pequena vida e que essa escorregara por entre suas pernas levando junto tantos sonhos?

-Se eu soubesse. Se ao menos tivesse desconfiado disso. – Heero gemeu amargurado; Culpado. Não devia ter deixado Wufei ir. Não devia tê-lo deixado se tornar um marido guerreiro, não devia ter lhe dado o cavalo quando casaram. E não devia ter feito uma série de absurdos que lhe vinham à cabeça nesse momento. –Nunca mais... Ele nunca mais vai poder engravidar. – Heero sentiu as lágrimas vindo lentamente abraçado ao corpo do marido desacordado.

-Ele precisa ser removido, majestade. – a moça falou meiga. –Ainda podem adotar... Ou o senhor pode pegar uma esposa se quer tanto um herdeiro, mas é preciso lembrar que seu marido vai precisar de todo seu carinho nesse momento. – ela falou complacente daquela dor.

Heero ficou ali sentado olhando Wufei ser posto na maca. O quadro miserável parecia ser pintar de vermelho com tanto sangue e caos pelo quarto. Aquela era a cor da perda de seus sonhos. Para sempre. Nunca mais. Sem herdeiros.

A dor na qual Heero mergulhou era indescritível, a perda do filho que não chegou a conhecer lhe abriu no peito um espaço oco e frio. Levaria tempo para que superassem a tragédia.


Wufei abriu os olhos depois de um pesadelo ruim. Heero estava no lugar de Atheus, o rei de Araloshi, sendo decapitado e sua cabeça exposta em praça pública no centro de seu reino. Havia homens encapuzados circulando o corpo e cantando alguma coisa bizarra. Então o capuz de um deles caiu e Zechs lhe sorria.

-Não! – Chang projetou o corpo para frente. As palavras que Zechs cantava não lhe saiam da cabeça... –Heero Yui não é viril. Sem filhos e sem herdeiros.

-É minha culpa e não vou deixa que Heero seja massacrado por isso... – falou baixo entre as lágrimas grossas. Em seus olhos negros havia um brilho que indicava que não ia deixar acontecer tal coisa.