II.
A imagem do sol despontando forte no horizonte era fascinante, mas somente o era para aqueles que não se encontravam presos num quarto barato no segundo andar do Caldeirão Furado, onde Lily Evans acabava de acordar.
A vontade de voltar a dormir era grande, mas a simples memória do que faria aquele dia foi o suficiente para Lily levantar-se e procurar, ainda bastante sonolenta, uma muda de roupa decente.
Seu quarto era organizado e, portanto, não foi difícil encontrar as novas vestes trouxas que sua mãe lhe comprara aquele verão. Após se vestir e se pentear, ela olhou para o relógio escuro que se encontrava acima de uma mesa antiga e verificou, com desgosto, que se não corresse não chegaria no horário certo para seu encontro com Martha Mayfear.
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O Beco Diagonal estava anormalmente cheio naquele dia. As lojas estavam abarrotadas de gente. Especialmente a conhecida loja da Madame Malkin, onde um Remus Lupin impaciente aguardava a conclusão do seu pedido realizado há, pelo menos, trinta minutos.
Do lado de fora, logo a frente da loja de Madame Malkin, Sirius Black e James Potter estavam em sua terceira rodada de cerveja amanteigada. Ambos mostravam-se bastante intrigados com o comportamento de Remus. Peter, por sua vez, parecia não se importar muito com as preocupações infundadas de seus dois amigos, afinal, estava ocupado demais com a mesa próxima de si, que estava cheia de doces de gêneros diversos.
— O Aluado está há mais de uma hora naquela loja — reclamou James, levando a boca seu copo.
— Leve em consideração que o Beco Diagonal está uma loucura hoje. Acho que todos os bruxos resolveram sair de casa — constatou Sirius com um sorriso discreto; para alguém que em poucos dias havia sido expulso de casa e se refugiara na casa de seu melhor amigo, Sirius Black parecia bastante contente — Deveríamos fazer igual ao nosso amigo Rabicho ali; ele parece estar se divertindo bem mais que a gente com aquela montanha de sapos de chocolates, sanduíches, feijões de todos os sabores, bolos de laranja...
— Só espero que ele tenha galeões o suficiente para pagar esse banquete, porque dessa vez o meu dinheiro já tem finalidade.
Sirius soltou uma gargalhada. Peter estava devendo nove galeões desde o ano passado a James, mas esse não se importava muito. Estava sempre disposto a ajudar seus amigos — em especial Peter que aparecia sucessivamente metido em alguma encrenca e, sempre, corria até James em busca de proteção.
Com a intenção de mudar o rumo da conversa, James quebrou o silêncio:
— Aluado disse o porquê de ele precisar de vestes novas?
— Não... ele te disse alguma coisa?
— Também não! Sempre achei que ele estivesse satisfeito com suas vestes de baile — concluiu James com simplicidade, passando as mãos pelos cabelos negros; aquele era um hábito que ele não mais parecia controlar.
— Será que ele sabe de algo que não sabemos? Afinal, ele é monitor... sabe das noticias antes dos demais alunos.
— Dificilmente o Aluado não nos contaria algo de interessante.
— Vai ver ele está querendo um par para a formatura — deduziu Sirius sorrindo de maneira triunfante, como quem acaba de decifrar uma charada.
— Um maroto sempre tem uma companhia... não importa as vestes que esteja usando.
— Companhia é algo muito relativo, Pontas, não seja inocente — disse Sirius com todo o seu ar intelectual e com o seu dedo indicador em riste — Você pode ir ao baile com uma garota e sair com outra; você pode ir ao baile com ninguém e sair com uma garota; você pode ir ao baile com uma garota e sair com DUAS garotas — terminou, levantando dois dedos para dar ênfase a quantidade de garotas.
— Ou você pode simplesmente ir ao baile com DUAS garotas e não sair com nenhuma — lembrou James, sorrindo como quem sabe das coisas.
— Preferia não lembrar do meu quinto ano. Aquelas duas ainda vão rastejar pela minha companhia no próximo baile de inverno — respondeu Almofadinhas inspirando fundo e olhando, com fixação, para um ponto à sua frente, como quem está imerso em lembranças.
— Olha só quem chegou... Já não era sem tempo! — exclamou James, acenando para o amigo que os procurava com os olhos na saída da movimentada loja de vestes da Madame Malkin.
Os três viram, então, Remus Lupin aproximar-se do trio, com um pacote embaixo de seu braço. Seu rosto estava colorido de um leve tom vermelho, e havia gotas de suor pelo seu pescoço. Colocou, sem delicadeza, seu pacote numa das cadeiras e falou apressado e afobado:
— Desculpem a demora. Nunca vi aquela loja tão cheia! E madame Malkin cismou que eu deveria levar um par de sapatos marrom-escuro porque "combinavam com os meus olhos" — inspirou fundo, pensando no quanto aquele argumento era ridículo —, foi uma dificuldade convencê-la de que os meus sapatos estavam em bom estado.
— Bom, agora que você chegou, vamos passar na loja de artigos de quadribol? — perguntou James aos outros, mas a pergunta era retórica, uma vez que já estava de pé e ameaçava com os olhos aquele que atrasasse um pouco mais a ida a sua loja preferida.
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Naquele dia, não havia modo de andar no Beco Diagonal sem esbarrar em alguém. As lojas estavam abarrotadas de pessoas, especialmente alunos que compravam tudo na última hora. Por mais ofendido que alguns comerciantes estivessem, havia também um número considerável de aurores que tentavam não parecer aurores, mas suas posturas preocupadas denunciavam suas profissões. Ninguém sabia ao certo se havia algum risco de o Beco Diagonal ser atacado, alguns afirmavam que seria preciso uma dose de burrice extrema para tal, mas o medo era visível em algumas faces. Isso, no entanto, não diminuía o ritmo das vendas.
Indiferentes aos aurores que vigiavam aquelas ruelas, duas meninas de aparentes dezessete anos caminhavam, olhando vitrines e tentando não se irritar com as pessoas que tropeçavam nelas vez ou outra.
— E como está lá no Caldeirão Furado? — quis saber Martha, quando as duas saíram de uma das lojas, segurando entre os braços um pacote amarelado.
Martha era uma bruxa mestiça da casa da Corvinal. Ela, responsável como era, havia sido nomeada monitora em seu quinto ano, assim como Lily. Desde então, as duas haviam se aproximado e Lily havia se tornado amiga de Martha — isto é, tão amiga quanto era possível ser.
Martha Mayfear era o que muitos garotos de Hogwarts chamariam de perfeição. Com cabelos ondulados de uma cor castanha comum e, porém, fascinante, e olhos expressivos, Martha tinha o poder de encantar qualquer mortal que olhasse tempo o suficiente para ela. Era bonita e inteligente o suficiente para saber como usar sua aparência ao seu favor; no entanto, seu humor pouco agradável e falta de modéstia era o que tornava difícil tolerar aquela corvinal. Se pensasse no comportamento abominável e quase sonserino da amiga, Lily provavelmente estaria se perguntando o porquê de conseguir ser amiga de alguém como Martha.
— Hoje faz quatro dias que estou por lá — Lily disse, dando os ombros e colocando uma mecha de seus cabelos ruivos atrás da orelha — Achei mais cômodo que ficar em casa. O Caldeirão fica mais perto de tudo, assim fica mais fácil para fazer as minhas compras e tudo mais. Sem contar que Petúnia anda especialmente insuportável desde que começou a namorar.
— E os seus pais não se importaram? — Martha estava surpresa; não conhecia os pais de Lily, mas por tudo que ela já havia lhe dito, eles pareciam bem protetores.
— Não foi muito fácil convencê-los — murmurou uma Lily pensativa, relembrando dos argumentos que havia usado para conseguir convencer os pais — mas eles confiam em mim, e além do mais, todo o dia eu mando uma coruja para eles. Já avisei que hoje eu dormiria na sua casa.
— Que bom que você vai para lá hoje, meu avô já estava acreditando que eu não sou capaz de fazer amigos — exclamou a morena, sorrindo um pouco contrariada a figura de seu avô caçoando-a de uma forma quase paterna — Hoje ele vai ter que engolir todos os comentários perversos sobre a minha inabilidade de ser tragável.
Lily concordou com um aceno da cabeça, também sorrindo.
— Engraçado — continuou a Corvinal, mudando de assunto — Com o Beco tão cheio hoje, é estranho não termos encontrado nenhum rosto conhecido.
— Ah, mas eu encontrei — lembrou a outra, se espremendo pra passar por um grupo de jovens que se amontoavam na entrada de uma loja de doces — Logo que saí do Caldeirão, eu vi o Pettigrew andando por essas ruas — falou com um leve quê de desgosto.
— Pettigrew? Peter Pettigrew? — franziu a testa, tentando lembrar de onde conhecia esse nome — Por acaso não é aquele gordinho insignificante que anda com Lupin, Potter e Black? — o último nome foi pronunciado com um quase imperceptível desprezo.
— Ele mesmo. Parece que as férias não lhe fizeram muito bem... Está mais gordo que o normal.
— Espero que isso não queira dizer que os amigos dele estejam por perto — disse Martha com um suspiro longo e dramático; os amigos de Pettigrew, com exceção de Remus Lupin, não eram pessoas que Martha apreciava ou admirava, muito ao contrário.
— Acredito que sim. Todo mundo sabe que aquele grupo do Black não se desgruda.
A menção do nome do grifinório do sétimo ano fez algo estalar na cabeça de Martha e ela, repentinamente, lembrou-se de algo que havia esquecido de mencionar na última carta que mandara para Lily.
— Não sei se você sabe — começou Martha, com cautela, parando de repente, quando um grupo de bruxos de chapéus alaranjados passou em sua frente, não a atropelando por pouco. Lily parara ao seu lado:
— Sei? Sei de que?
— Do Black...
— Sirius Black?
Mesmo com as mãos cheias de sacolas, Martha segurou o braço de Lily com dificuldade e chegando bem perto da amiga falou em um tom baixo para que ninguém exceto Lily ouvisse o que tinha a dizer:
— Sim — quem mais seria? — Ele foi expulso de casa por esses dias. A mãe — uma mulher louca, devo admitir — o expulsou durante uma festa.
— Mas, por quê? – Lily sabia que a relação dos dois não era a melhor, afinal Black fazia questão de não esconder seu desgosto pela mãe. Ela, porém, jamais havia imaginado que a relação fosse chegar a esse extremo. Não era íntima de Sirius Black e nem desejava ser, mas sentiu uma ponta de aflição pelo garoto.
— Não sei detalhes — admitiu, dando os ombros —, tudo que sei é que meus avôs e eu estávamos numa festa na mansão dos Black e, de repente, a Sra. Black gritou e, quando percebi, Sirius estava saindo escoltado pelos seus amigos, com um malão.
— Meu Deus — Lily sussurrou ainda pasma — Mas onde ele vai morar agora?
— Talvez com o Potter ou um daqueles garotos — falou, sem dar muita importância; Black provavelmente estaria bem acomodado em algum canto àquela hora. Não conseguia imaginá-lo passando por dificuldades — De qualquer forma, vamos esquecer isso. Vamos até a loja de animais? Eu quero um de estimação... Estive pensando num gato...
E aquele assunto ficou esquecido, enquanto as duas caminhavam até a loja de Animais Mágicos à procura de um animal ideal para Martha.
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— E o que essa vassoura tem de boa?
— Como assim o que ela tem de boa? Aluado, esse é o mais novo lançamento da Nimbus. É a vassoura mais rápida de todos os séculos; todos os times decentes as têm!
— Que seja. Só espero que essa vassoura dê sorte e nos dê a taça de quadribol.
— Não vejo motivo para preocupação. Nosso time é o melhor, com ou sem vassoura.
— Nosso time é o melhor porque tem o artilheiro mais bonito de toda Hogwarts, aquele a que nenhuma garota resiste — gabou-se Sirius com um típico sorriso galanteador e pouco modesto, quando os quatro amigos abandonaram a loja de artigos de quadribol. James carregava embaixo do seu braço um grande pacote, cheio de cuidados com a nova vassoura. Peter e Remus seguiram os dois para fora da loja, espremendo-se entre as pessoas, rumo à loja de Animais Mágicos, onde Peter precisava comprar uma coruja.
Chegaram na loja intactos apesar de todos os esbarrões e xingamentos. Na porta, no entanto, Sirius percebeu que o grupo não estava da mesma forma de antes:
— Ei, cadê o Remus? — quis saber olhando para os lados e se dando conta que Aluado não mais estava atrás dos três como era de se esperar.
— Ué, ele estava bem aqui! — Peter exclamou, também procurando o amigo com os olhos.
James olhou para trás e viu, bem ao longe, Lupin na vitrine de uma loja. Olhando mais acima, na tentativa de ver o letreiro da loja, James pôde ler: Floreios & Borrões.
— Já era de se esperar — concluiu, balançando a cabeça com um sorrisinho no rosto e indicando o amigo para Peter e Sirius.
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Lupin estava parado do lado de fora da loja analisando alguns livros e imaginando qual deles seria interessante comprar. Todos os lançamentos pareciam atraentes aos olhos do rapaz; escolher um só lhe parecia uma tarefa impossível. A vitrine não fornecia os preços dos livros, sendo assim, Remus resolveu entrar em busca de mais informações.
Ao cruzar a porta de entrada da Floreios & Borrões, Remus olhou a volta à procura de algum atendente que pudesse lhe ajudar. Sentiu-se frustrado ao perceber que a livraria, assim como as demais lojas, estava lotada, logo não havia nenhum atendente disponível.
Decidido a deixar o local, Remus se encaminhou para a saída, mas ao olhar para o lado oposto de onde estava, foi surpreendido por uma conhecida presença feminina.
Ao longe, num canto, Sophie Malfoy estava, ao que parecia, lendo um livro que Remus reconheceu como sendo um dos que estavam na vitrine, Os Maiores Bruxos do Século — Tudo Que Você Sempre Quis Saber. Ela virava a página com rapidez, o que significava que lia rápido e era capaz de se concentrar num ambiente tão barulhento.
Os cabelos dela estavam diferentes — Remus não pôde deixar de perceber — agora, eles beiravam o queixo bem desenhado. Contemplando-a de longe, Remus não conseguia decidir se era apropriado ou não ir lhe cumprimentar; ambos eram monitores e era comum se falarem nos corredores de Hogwarts. Mas não sabia se ela gostaria de ser vista com um grifinório — um maroto, ainda por cima! — ali, naquele instante.
Foi enquanto decidia-se que Malfoy levantou os olhos e fechou o livro em um movimento rápido, encarando Remus com os olhos azuis intensos. Pego de surpreso e, incerto sobre o que seria educado fazer num momento como aquele, levantou o braço com cautela, acenando para a garota, que respondeu da forma mais discreta possível. Sem que pudesse controlar o movimento de suas pernas, Remus sentiu dar alguns passos a frente, fazendo com que a distancia entre os dois diminuísse levemente.
— Consegui finalmente comprar esse livro de Poções — uma voz arrastada soou às costas de Sophie e Remus congelou instantaneamente. Sophie virou-se de imediato para a quem lhe chamou atenção, e Remus, mesmo com todo o fluxo de pessoas que atrapalhava a sua visão, não precisou olhar para a pessoa para saber quem era: Severus Snape. Será que ele havia reparado em Remus olhando para sua amiga?
— O que me pareceu uma sangue ruim, me perguntou se eu sabia fazer a Poção do Amor... me limitei a não responder — continuou Snape, com seu típico tom frio e ligeiro deboche.
— Fez muito bem — respondeu a sonserina com a sua voz indiferente de sempre, tentando manter o controle da situação, ainda observando Remus com o canto dos olhos ao longe — Sangues ruins não merecem uma palavra que saia de nossas bocas.
O fluxo de pessoas finalmente diminuiu e Remus pôde ver Snape e Sophie conversando muito próximos um do outro. Sem perceber, suas bochechas tomaram um ligeiro tom avermelhado e sua veia na testa começou a apontar quando Snape enlaçou o braço da sonserina em seus dedos finos para poderem conversar mais juntos, devido ao barulho intenso na livraria. A cena, no entanto, foi esquecida quando James, Sirius e Peter entraram marchando na livraria.
— Ah, então é aqui que o Sr. Aluado se escondeu — exclamou Sirius, ao avistar Remus e aproximar-se do amigo, escorregando seu braço pelo ombro de Remus — Já estávamos começando a achar que havia morrido enterrado por todos esses livros empoeirados... — dizia, gesticulando com a mão livre, quando com o canto do olho reparou no casal e disse num inegável tom de veneno — Ora, ora, ora, vejam só, vejam se não é o nosso amigo Severus Snape — sua voz era alta o suficiente para chamar não somente a atenção de seus amigos, mas a dos sonserinos também — Ranhoso! A que devo a honra do seu nariz?
— Então é você, Black — exclamou Snape e seu desgosto era quase palpável, quando se aproximou do grupo de grifinórios — Você e seu grupo desprezível. A que devo a honra de sua petulância?
— Sabe, Ranhoso, estava sentindo falta de você nessas férias de verão — comentou Sirius da mesma maneira como quem comenta o tempo; sua mão continuava no ombro de Remus e sua expressão era a mais cínica do mundo — Sinto falta de conviver com você!
— Eu, sinceramente, lamento que as férias sejam tão curtas. Poderiam ser maiores. Eu mereço mais tempo sem ouvir suas incríveis tolices.
— Ora, não minta para mim, Seboso. Sabia que mentir faz o nariz crescer? — perguntou Sirius com ar de deboche, repetindo algo que Remus lhe dissera uma vez — Acho que você mente demais. Depois de todo esse tempo na Escola de Magia juntos, eu sinto como se você fosse da minha família...
— Seria um enorme desgosto ter alguém como você na minha família, Black — interrompeu Snape fitando Sirius com uma raiva intensa que somente incentivava Sirius a continuar suas ofensas. Suspirou, antes de continuar de maneira irônica: — Aliás, acho que a sua mãe pensa a mesma coisa.
— Sempre tão bem humorado não é, Ranhoso? O segredo de tanta graça é esse livro de Poções aí? — perguntou, indicando com dois dedos o livro que Snape carregava embaixo do braço — Anda fazendo poções para ficar cada dia mais engraçado?
— Black, vai se...
Sirius levou a mão à boca, em uma forma debochadamente exagerada e dramática. Se existia alguém que ele sentia tamanho prazer em irritar, além de sua mãe, esse alguém era Ranhoso — o arrogante e completo perdedor monitor da Sonserina.
— Meça suas palavras, Seboso — James interveio cansado de apenas ouvir a discussão de Sirius e Ranhoso — Temos damas aqui no recinto — e apontou para Malfoy que assistia, meio pasma e meio indiferente, ao encontro dos rivais.
— Dispenso qualquer tipo de preocupação que venha da sua parte, Potter — a resposta de Malfoy era curta e fria, como sempre.
James abriu a boca, fazendo menção de responder, mas foi interrompido por um Remus já impaciente e envergonhado devido a todos os olhares na direção do grupo:
— Já chega, vamos embora — foi ríspido e, não sendo aquele um comportamento comum do grifinório, Sirius e James foram obrigados a ouvir as palavras de Remus. Contrariados e não deixando de falar palavras mal educadas e lançar olhares mortais, Peter, James e Sirius abandonaram a Floreio e Borrões, sem não antes ouvirem as últimas palavras de Remus — Nos vemos amanhã no vagão dos monitores. Snape... Malfoy... espero que não se esqueçam da reunião.
— Não esquecerei, Lupin, afinal sou eu o novo monitor-chefe — a arrogância de Snape era absurda e Remus resistiu a urgência de responder de forma grosseira ao sonserino. Sem olhar para nenhum dos dois, saiu da Floreios & Borrões para encontrar os amigos que o esperavam do lado de fora.
A próxima parada era o a Loja de Animais Mágicos e, enquanto rumavam para o local trocando poucas palavras, Sirius resolveu trazer à tona o encontro de minutos antes.
— Não sabia que o Ranhoso estava de caso com a Malfoy — observou com um sorriso debochado em excesso — E isso é de se admirar, afinal, mesmo sendo uma Malfoy, ela não é de se jogar fora.
— Mas eles não pareciam estar juntos — avaliou Peter, lembrando da distância entre os dois na livraria.
— Sonserinos são sempre assim... frios — respondeu Sirius sério, batendo de leve no ombro de Rabicho.
— Quem diria, não é? E nós que não dávamos nada pelo Seboso... — concordou James.
— Eles não estão de "caso" — Remus retrucou de imediato, fazendo o gesto de aspas com os dedos. Seu tom era quase imperceptivelmente agressivo. Sirius, James e Peter se entreolharam. Aquele comportamento de Remus era quase tão incomum quanto a veia em sua testa que, naquele instante, parecia mais ressaltada — Aquele idiota não é capaz de conquistar nem mesmo uma formiga.
— O que deu em você? — perguntou James com cautela, soando preocupado — Você está meio vermelho.
— Nada, não houve nada — Remus se apressou a dizer, suspirando fundo —, eu só não gosto daquele seboso!
— Mas que curioso... nem eu! — Sirius intrometeu-se na conversa e sua face refletia sua animação — Bem vindo ao time, Aluado! — completou dando um tapa nas costas de Remus com força demais, fazendo com que esse projetasse seu corpo levemente para frente.
Para a felicidade de Lupin, o assunto sobre a dupla sonserina morreu e eles continuaram seguindo para a Loja de Animais Mágicos, dessa vez conversando sobre os aurores que pareciam estar em todas as partes. Tom, o dono do Caldeirão Furado, era quem havia lhes fornecido aquela informação e James não podia parar de tagarelar sobre o desperdício de colocar aurores cuidando de ruas que provavelmente não seriam atacadas — ainda mais a luz do dia.
— Eles precisam prevenir quaisquer ataques, não acha? — Lupin perguntou, não concordando com James — Esses ataques a trouxas têm sido muito estranhos e nada indica que nós mesmos não sejamos atacados também. Alguns bruxos já morreram...
— E ainda não conseguimos pegar o desgraçado! Ele é um cretino, mas é inteligente e seria burrice atacar um lugar cheio de bruxos — concluiu James e Remus, apesar de não concordar, calou-se ao perceber que Peter e Sirius já haviam entrado na loja de animais. Os dois grifinórios restantes seguiram os amigos e os viram analisando algumas corujas, enquanto Sirius dizia num tom falsamente sério:
— Só vamos deixar você levar a coruja se ela passar pela nossa aprovação.
Como Peter era indeciso e ainda não havia superado a ocasião em que uma coruja quisera comê-lo por completo, ficou um tempo maior que o necessário para escolher a coruja que levaria. Cansados da espera, os três outros Marotos espalharam-se pela grande loja, cada um observando um animal diferente. Sirius tentou ir à direção dos insetos, mas foi impedido quando sentiu algo roçar em suas pernas:
— Sai, vai procurar alguém do seu tamanho, gato — falou, sacudindo a perna para fazer o gato se afastar, mas foi em vão.
O gato em questão era laranja com pelagem espessa e fofa; apesar das pernas um pouco arqueadas e cara de poucos amigos, parecia ter gostado de Sirius, pois ficou preso a perna do moreno e recusou-se a sair mesmo com as fortes sacudidas e os palavrões. Convencido de que sacudir as pernas não seria a solução para se livrar daquele animal, Sirius então resolveu pegar o gato nos braços e colocou-o em cima de um pufe púrpura não muito longe dali. Não precisou nem dar dois passos para que ele sentisse novamente algo puxar suas calças.
— Você é insistente, hein — disse ao gato, como se ele pudesse entendê-lo, ao abaixar-se para pegá-lo de novo e levá-lo a algum atendente inútil.
— Eu quero esse aqui! Tem cara de Sol — uma garota disse acima de Sirius e, quando esse levantou a cabeça, surpreendeu-se ao dar de cara com a monitora intragável da corvinal. Martha Mayfear não parecia ter notado Sirius, pois se abaixou e pegou o gato, ignorando os miados ranzinzas do felino — Ele não é uma graça, Lily?
— Mayfear, você por aqui? — Sirius perguntou em um tom displicente, fazendo-se notar ao levantar-se do chão e ficar de frente para a morena. Mayfear estava diferente, mais arrogante e bonita do que ele lembrava e foi preciso somente um olhar para que ele constatasse isso.
— Black — murmurou Mayfear com educação; sua voz era neutra e mascarava com perfeição o desprezo refletido nos olhos castanhos. Permaneceram em um silêncio desconfortável por uma fração de segundos, onde Mayfear parecia bastante inclinada em inventar uma mentira para sair dali, quando Sirius disse:
— Sabe, comprar um gato de estimação combina bastante com a sua pessoa, Mayfear — a ironia era tamanha que Sirius não conseguiu travar seu sorriso; o único animal que talvez combinasse com Mayfear seria uma cobra peçonhenta.
— Ah, você acha? — pela forma como perguntara, ela não dava a mínima para o que ele achava.
— Acho.
— Então, por que não compra um sapo? Também combina bastante com a sua personalidade.
Se Sirius estava surpreso ou ofendido com as palavras não disse, pois apenas balançou sua cabeça conformado.
— Black — a voz educada de Lily Evans chamou sua atenção e só então Sirius pôde reparar na ruiva que povoava os sonhos de seu amigo. Ele jamais entenderia aquela admiração que James possuía por Lily, mas aceitava e, portanto, Lílian era a única pessoa que ele não caçoava; os dois, então, haviam desenvolvido um relacionamento de mínimo respeito — Como está?
— Bem, e você, Evans?
— Também — a resposta era automática e Sirius não poderia se importar menos com o bem estar de qualquer uma das duas monitoras que pareciam, sempre, dispostas a lhe dar detenções — Vamos, Martha? Já está tarde.
— Mas já? — antes que Sirius pudesse tentar se controlar, as palavras já saiam de sua boca, cheias de sarcasmo — Mas estávamos no meio de uma conversa tão aconchegante...
Evans e Mayfear se entreolharam e aquela, com um simples "até amanhã", escolheu ignorar as palavras de Sirius. As duas, então, caminharam até o caixa, levando o infame gato alaranjado que, aquela altura, já parecia acomodado nos braços de Mayfear.
Sirius balançou a cabeça distraidamente, antes de voltar para onde Peter e Remus agora conversavam. Rabicho ainda parecia entretido em sua escolha e Aluado, ao perceber o amigo se aproximar, perguntou com um quê de desinteresse:
— Aquela era a Lily?
— Em pessoa.
— Sorte dela que o James não a viu.
— Sorte mesmo. Ultimamente a cada duas palavras que saem da boca dele, três são Evans.
— Você fala como se estivesse surpreso.
— Surpreso? Não depois de todos esses anos com ele correndo atrás da Evans — Sirius emitiu uma gargalhada discreta e forçada — Surpreso ficarei se um dia ele conseguir domar aquele gênio dela, isso sim.
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— Martha? Está acordada?
A voz de Lily era pequena e quase inaudível. Ela estivera à noite inteira rolando de um lado para o outro, pensando sobre o que poderia ser aquele último ano em Hogwarts. Seus olhos verdes procuraram no escuro pela forma de Martha deitada na cama ao lado da sua própria quando um murmúrio foi emitido pela corvinal:
— Não consegue dormir? — pelo tom cansado, Martha também não conseguira pregar os olhos.
— Infelizmente — suspirou Lily, sentando-se entre suas cobertas quentes e envolvendo-se em uma. Levantou-se agasalhada entre a coberta e procurou a cama de Martha, sentando-se perto da figura da amiga: — Em que está pensando?
— Em como esse ano será longo — respondeu com sinceridade, tentando se acostumar à falta de luz e distinguir a forma de Lily entre a escuridão — E você?
— Acredite ou não, eu estava pensando no Black — era difícil dizer quem estava mais surpresa com a admissão, a própria Lily ou Martha — Não é estranho que alguém pudesse estar tão bem depois de ter sido expulso de casa...? Digo, eu sei que a relação com meus pais não é das melhores, mas eles...
Martha remexeu-se incomodada com o assunto. Aquela história de relacionamento com pais era um campo desconhecido por ela, que não mais tinha os pais ou lembrava-se deles. Tudo que sabia era sobre como sua mãe envergonhara seus avós paternos e como seu pai era lindo — e só. Sentou-se, então, para dar mais espaço para Lily e disse:
— Black nunca vai aparentar estar mal, Lily. Ele tem esse poder de disfarçar bem suas emoções. É, afinal, um Black. Mesmo que ele não se orgulhe disso, tem o cinismo dos Black em suas veias.
— Sua família é ligada à família dele, não é? — perguntou uma curiosa Lily Evans. Filha de trouxas, essa teia de amizades e interesses entre as famílias sangue-puras lhe parecia extremamente interessante.
— Infelizmente. Acredite, ter amizade com uma família poderosa como a Black é tudo que uma família antiga pode desejar, ainda mais em tempos difíceis como esses — Martha falava em tom baixo, como se as paredes pudessem ouvir o que dizia e ela não quisesse isso.
— Você está falando sobre o motivo daqueles aurores estarem no Beco Diagonal? — Lílian permanecera desligada do mundo bruxo durante as férias, devido a sua irmã Petúnia que convencera seus pais a não terem uma coruja todas as manhãs deixando um jornal no jardim. Assim, Lily pouco sabia sobre o que estava acontecendo, mas pelos olhares que vira no Beco Diagonal, não era nada bom — O que você sabe sobre isso, Martha?
— Não mais do que o resto do mundo bruxo. Mas uma coisa é certa: os integrantes da família Black sabem mais do que dizem. Não falo de Sirius, pois ele era a ovelha negra, mas o resto... — suspirou pesadamente, tocando a testa de leve e esfregando-a, com preocupação e desgosto. Ficaram em silêncio, com Lily esperando que Martha falasse mais, quando essa se deitou de novo e murmurou, querendo encerrar a conversa: — Bom, é melhor irmos dormir. Já é tarde e amanhã tem reunião de monitores.
Lily concordou com a cabeça e voltou para a própria cama. Conhecia Martha há tempo o suficiente para saber que ela não mais falaria sobre aquilo. No entanto, ainda havia algo que não sabia:
— Eu nunca entendi por que você e Black deixaram de ser amigos.
— Nós nunca fomos amigos, Lily. Éramos apenas crianças que não tinham outras crianças para brincar e precisaram se contentar com o que tinham.
O silêncio era quase absoluto no quarto da jovem Mayfear, quando Lily voltou a dizer em um suspiro:
— Ainda assim, não entendo por que deixaram de se falar.
— Coisa de criança, Lily, nada demais — Martha disse, mas Lily sabia que o desprezo que Martha carregava com ela deveria ter algum motivo mais concreto — De qualquer forma, é melhor ficar assim. Boa noite, Lil.
— Boa noite, Martha...
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Nota da autora: Personagens novos começam a aparecer e não podia faltar um capítulo no Beco Diagonal. Nesse capitulo, queria chamar a atenção para o gato de Mayfear. Espero que tenham gostado dessa segunda parte!
