Capítulo II
Seu corpo doía imensamente enquanto tomava conhecimento de estar viva, os olhos se estreitaram diante da claridade de uma vela muito próxima, e no mesmo instante desviaram revelando a visão de onde se encontrava. As paredes de pedra surgiam entre os poucos móveis pesados que compunham no ambiente, e a não ser pela cama onde se encontrava, parecia mais um escritório do que um quarto.
Havia pesadas cortinas verde-escuras sobre as janelas, o que tornava o quarto mais sombrio do que deveria ser, mas Luna ainda tinha a agradável sensação de estar num sonho e um sorriso brincou em seus lábios. Os olhos azuis, mais acostumados agora à luz bruxuleante da vela, puderam ver uma imensa escrivaninha de carvalho com um homem debruçado sobre ela.
Luna tentou se levantar, uma tentativa infrutífera, pois suas pernas pareciam cansadas demais para se mexer. O leve som do farfalhar dos lençóis fez com que a figura escura se virasse para olhá-la, e crispando os lábios, disse:
― Não vai conseguir andar por enquanto - seu tom era calmo e pausado, mas um brilho malicioso em seus olhos o traia. - Talvez isso lhe dê tempo de me contar o que fazia atrás de mim, senhorita Lovegood.
― O que mais poderia ser, professor? - um sorriso novamente iluminou-lhe o rosto. - O senhor sumiu na noite em que matou o diretor, o Ministério inteiro anda a sua procura e...
― E? - Não tinha a menor idéia de onde a menina queria chegar com isso, já que eram evidentes os motivos de alguém o seguí-lo, no entanto, aquela era sem dúvida a única pergunta que cabia ao momento. Então, ele a encorajou a prosseguir.
― Precisa de mais motivos? - Os olhos azuis estavam mais saltados do que o normal e os cabelos caíam como cortinas sobre a pele extremamente clara. Luna parecia satisfeita com sua resposta.
Snape se mexeu desconfortável na cadeira, aquela menina era totalmente sem juízo. Nem sequer se lembrava que havia tomado um chá no qual ele deliberadamente colocara uma pequena quantidade de sonífero, era certo que não sabia o que fazia. Não que temesse a menina, mas queria se assegurar de não haver mais ninguém ao seu encalço.
Ele a olhava atentamente e se perguntava: Como uma menina pôde seguir-me sem que eu percebesse, principalmente, a srta. Lovegood? E bufou enquanto sua mente nublava: Estou cansado, meus sentidos estão começando a sofrer sérios danos depois das noites em vigília. Preciso ficar mais atento ou serei uma presa fácil! Passou as mãos pelos cabelos pretos e fixou novamente o olhar na menina. Ela adormecera novamente, a cabeça pendeu para o lado dando-lhe o ar de uma boneca de pano, igual as que os trouxas colocam sobre a colcha da cama do quarto de suas filhas na intenção de enfeitá-los.
Snape se levantou e andou até ela. Afastou os lençóis para poder deitá-la confortavelmente na cama e ao fazê-lo, o terceiro botão da camisa que ela usava se abriu revelando a peça íntima rendada por sobre as formas arredondadas de pele alva. Snape desviou o olhar e com um movimento hábil de suas mãos fechou rapidamente os três botões. Levantou-lhe gentilmente a cabeça a fim de ajeitar o travesseiro e se pegou analisando melhor as feições dela.
Luna era dificilmente o que se chamaria de uma moça bonita, mas havia certa graça no conjunto que Snape apreciava de perto. A pele muito clara, quase igual a sua, os cabelos de um loiro quase branco, os cílios da mesma cor e uma expressão tão etérea que não a faziam parecer real. Snape deitou-a suavemente no travesseiro, e percebeu a última coisa que deveria: Luna não era mais uma menina. Ele mesmo não a definiria mais assim.
Cobriu-a certificando-se de que ela estava bem acomodada e aquecida, afinal, as masmorras sempre foram imensamente frias; apontou a varinha para a lareira e aumentou o fogo. Levantou-se e se arrastou até a escrivaninha, onde mais uma vez se debruçou sobre pilhas de pergaminhos.
Quando Luna acordou novamente pôde vislumbrar que seu antigo professor continuava da mesma forma que o deixara, mas percebeu surpresa que ele a havia acomodado confortavelmente na cama. Sorriu para si mesma e decidiu não comentar nada sobre isso, assim como não comentara sobre o chá que ele lhe dera e que possivelmente a fizera dormir todo esse tempo. Não iria fazer diferença, ela sempre fora considerada distraída, senhorita Di-Lua.
Devagar, verificou que estava com o controle total de suas pernas e pôs-se de pé. Desta vez sem fazer o mínimo barulho. Com o pé descalço no chão frio, deslizou até a escrivaninha e sorridente se colocou ao lado do professor.
― O que está fazendo? - disse, fazendo seu rosto surgir entre as mechas de cabelos loiros. - Estou curiosa para saber por que se esconde aqui em Hogwarts.
― Senhorita Lovegood, sei que, às vezes, é difícil fazer uma coesão em nossas idéias - disse mordaz ao olhar os olhos azuis intensos a sua frente, e concluiu: -, contudo ouso acreditar que a resposta a essa pergunta é obvia demais até mesmo para uma mente como a sua.
― Isso é um elogio? - perguntou intrigada.
― Sinceramente, não - rebateu incrédulo.
― Entretanto, professor, o que eu me perguntava realmente era por que se esconder quando se é inocente. - Os olhos dela novamente caíram sobre ele inquisidores.
― Não sou inocente, senhorita Lovegood - sua voz era fria e rude. - E já deve ter ouvido Potter relatar o ocorrido diversas vezes - completou. - É claro que na concepção dele.
― Sim, muitas - ela respondeu distraída, olhava a estante repleta de livros ao lado da escrivaninha e os analisava um a um. Tirando e colocando os livros de volta no mesmo lugar, para alívio de Snape. De repente, pareceu ter lembrado que não finalizara seu pensamento e completou: - Esse é o problema! Só vejo a ótica de Harry, não a sua - meneou a cabeça enquanto pegava mais um livro e folheava-o. - Sabe, andei pensando - e acrescentou sem pressa -, com essa minha mente pequena: Por que Dumbledore não poderia ter implorado pela morte?
Snape estava lívido, como se atingido por um raio, e Luna virara para encará-lo, mas ao perceber a palidez do rosto dele, apenas disse:
― Eu não quis parecer rude ao dizer que minha mente era pequena, professor - e embaraçada continuou: - É só que todos pensam isso de mim, não que eu realmente me importe, é claro, mas... - emudeceu ao ver o olhar escuro do professor sobre ela.
― Você acredita mesmo no que disse, senhorita? - perguntou incerto.
― Bom... Eu acredito que alguém é inocente até que se prove o contrário - ela balbuciou, não entendendo aonde Snape queira chegar, parecia óbvio não estar caçando ele.
― Então, sua vinda atrás de mim não faz parte de um plano do Potter? - perguntou estreitando os olhos sobre ela.
― Ah, não! - respondeu sorridente e aliviada. - Harry e os outros nem sabem onde estou. Apenas quis sair para andar, e pensei que uma volta pela Londres trouxa seria interessante. Eu adoro as revistas e os jornais trouxas, às vezes, têm matérias muito interessantes - Luna viu que Snape prestava atenção nela e continuou eufórica: - Outro dia, li sobre uma espécie de macacos na África que...
― Macacos? - Snape arqueou a sobrancelha e resolveu interceder na excelente história de Luna. - Então você estava na loja de revistas onde comprei o jornal?
― Sim - respondeu curta.
― E depois teve a brilhante idéia de me seguir? - disse mordaz.
― Não! - ela protestou.
― Não? - ele arqueou a sobrancelha mais uma vez.
― Eu estava apenas curiosa - disse calma. - Eu não tinha nada planejado... Eu me perguntava sobre sua capa...
― Minha capa? - perguntou intrigado.
― Sim, a preta - respondeu sincera. - Queria saber o que tinha feito com ela! Você sempre a usa.
― E por que se preocupou com isso? - ele a fitou curioso.
― Não sei - ela sentiu-se corar ao concluir a frase -, ela é seu charme.
Snape crispara os lábios, definitivamente Luna Lovegood tinha uma qualidade insuperável, a sinceridade. Era tão sincera que chegava a ser inocente. Olhando-a atentamente percebeu que estava irrequieta, ele a havia constrangido e isso o embaraçou terrivelmente. Procurou algo apropriado que pudesse tirá-los daquela situação.
― Que tal se jantássemos? - sugeriu. - Você deve estar faminta.
― Oh sim - ela balançou afirmativamente a cabeça -, adoraria. O rosto dela se iluminou com outro de seus sorrisos e a tensão de ambos se dissipou.
Após um delicioso jantar, onde praticamente não se falaram, ela viu Snape voltar aos afazeres na escrivaninha. Depois de vistoriar cada centímetro do quarto, voltou-se até onde ele estava.
― O que está fazendo com tanto afinco? - perguntou olhando por cima do ombro dele.
― Não seria apropriado que lhe contasse - rebateu.
― Entendo - disse, desviando os olhos para uma pilha de livros ao canto da mesa. Depois se voltou para fitar as mãos dele, e notou que elas não escreviam com a mesma rapidez que sempre as vira fazer, e num gesto autoritário falou: - Hora de descansar.
― O que disse? - ele a olhou assustado.
― Que deve descansar - concluiu.
― Já lhe ocorreu que sou um fugitivo? - ele a fitou cínico. - Não posso me dar certos luxos.
― Não pense tão mal de si mesmo - retrucou sorridente. - Além do mais, se continuar sem dormir não poderá fugir caso lhe encontrem - e ainda sorrindo, completou: - Você teve sorte que fui eu quem o viu.
Os olhos de Snape caíram sobre ela como facas; Luna não lhe deu atenção, foi até a cama, afastou os lençóis e, apontando para o leito, ordenou:
― Deite-se.
Snape analisou por instantes sua situação, estava precisando descansar, mas atendeu a ordem dela enquanto pensava: - Será que ela ficaria de vigília a noite toda? E como se adivinhasse seus pensamentos, ela disse suavemente:
― Eu fico acordada essa noite, fique tranqüilo. - Seus olhos azuis encontraram os dele enquanto completava: - Afinal, você me fez dormir o dia todo.
Sonolento, ele deixou-se sorrir mentalmente. Luna não só se lembrava do chá como sabia que ele a havia dopado. Talvez ela não tivesse uma mente tão pequena assim... Talvez ele devesse dormir e não pensar em Luna
