A noite caía fresca quando Sakura despertou. Estava deitada, num chão de rocha frio, as mãos e os pés gelados. A garota se levantou, assustada, e precisou de uns poucos segundos para lembrar-se como fora parar ali.
Foi o Itachi, pensou ela, trêmula, o Itachi me seqüestrou. Olhou ao redor em busca de um vulto que representasse o Uchiha, mas uma rápida olhadela foi o bastante para deduzir que estava sozinha na caverna úmida e gelada. Onde teria ido? Por que tinha seqüestrado ela?
Sakura foi andando até onde a luz era mais intensa e parecia ser a saída da caverna. O luar entrava timidamente por ali, num brilho convidativo de noite azulada. Mal havia sido iluminada pela luz da lua,
na beira da caverna, quando uma voz arrastada perguntou:

-Onde pensa que está indo?

Pasma, a Haruno viu Itachi, uns dois metros abaixo, de pé numa saliência da rocha, subindo para entrar na caverna. Tinha o rosto iluminado pela meia-luz da lua, e a garota notou o mau-humor tão característico dele estampado em seu bonito rosto.

-E-eu estava...-ela não sabia mentir muito bem; então simplesmente fez uma carranca e entrou na caverna, pensando quando aquele pesadelo acabaria.

O Uchiha veio logo depois. Era mais alto que ela, e, sentada no solo rochoso da caverna, Sakura pôde ver o desenho da sombra dele, e logo acima, o próprio Itachi, o corpo bonito envolto na capa tradicional da Akatsuki, os cabelos negros esvoaçando num movimento suave, o rosto entediado e mal-humorado olhando-a com leve desprezo. Por alguma razão, a garota sentiu o rosto corar ao mirar aqueles olhos profundos e aquela boca tentadora. Mordeu o lábio, irritada consigo mesma.

-Está com fome?-perguntou ele, num misto de curiosidade e superioridade.-quer alguma coisa?

Sakura mirou-o aborrecida. Não respondeu nada, como se estivesse fazendo um juramento de silêncio.

-Está bem.-falou ele calmamente, distanciando-se dela.-se prefere bancar a mimada, faça como quiser.

A Haruno abriu a boca, pronta para revidar, mas mordeu novamente o lábio e calou-se, engolindo as próprias palavras. Estava fraca e cansada da missão que tivera há pouco; sua desvantagem com relação ao Uchiha era bem grande, por isso, se quisesse sair dali, teria simplesmente fazer o que diabos ele queria que ela fizesse, calada e sem reclamar.

O silêncio era constrangedor. Itachi havia acendido uma pequena fogueira mais ao fundo da caverna, e ali cutucava alguma coisa que estava no fogo. Sakura não pôde deixar de apreciar o cheiro bom de comida que se espalhava pela caverna: parecia peixe assado. Resignada, aceitou a própria fome, jurando a si mesma que não pediria comida àquele homem por nada no mundo.

Mas a atitude de Itachi foi mais do que ela esperava.

-Venha comer-resmungou ele, mal-humorado, virando-se para ela.- vou precisar que você faça uma coisa para mim amanhã. Não quero saber se está com fome ou não, mas preciso de você forte e ativa. Venha logo.

Surpresa e faminta, Sakura dirigiu-se timidamente até o fundo da caverna. Ali o cheiro era mais forte, e o estômago dela emitiu um discreto ruído, que fez Itachi sorrir pelo canto da boca. Sakura corou intensamente, não sabendo se por causa de seu estômago indiscreto ou porque o sorriso do Uchiha era irresistivelmente atraente. Odiando-se novamente por tais pensamentos, a garota sentou-se, aceitando o pedaço de peixe que o rapaz lhe oferecia.

Comeu com uma voracidade quase inumana. Já faziam três horas que ela não comia, e tamanha era sua fome que achava aquela comida a mais deliciosa que existia naquele momento. Itachi ia lhe oferecendo os pedaços mais macios da carne, e, para a agradável surpresa de Sakura,chegava a tirar as espinhas maiores, como se fosse um homem gentil e cuidadoso preocupado com aquela moça. E tudo o que ela fazia era murmurar um "obrigada" quase inaudível.

Itachi observava Sakura comer com uma devoção apaixonada, embora não notasse nem um pouco isso nele mesmo. Cada gesto dela tinha um traço suave de delicadeza; cada parte do corpo daquela menina parecia ter sido delicadamente esculpida por algum anjo celestial; ela era pequena e cheia de curvas graciosas. Ao longe, pareceu ao Uchiha uma menininha feroz. De perto, ele viu que ela era uma mulher como poucas.

Espantada, a garota notou que tinha comido quase o peixe inteiro, exceto pela cabeça. Ela olhou para Itachi com um rosto ao mesmo tempo culpado e desafiador. Ele simplesmente fez um gesto com a cabeça indicando onde ela deveria dormir, e a Haruno pôde ver que um sorriso brincando nos lábios dele que a deixou estranhamente sem graça.

Sakura procurou um lugar confortável no chão gelado para se acomodar enquanto Itachi dava um jeito de apagar a fogueira. Parecia estranho, mas o fato de Itachi tê-la seqüestrado de maneira tão brusca e inesperada não a incomodava muito agora. Pelo menos ele tem alguma gentileza, coisa que faltava um pouco ao Sasuke, ela não pôde deixar de pensar.

O Uchiha jogou para ela sua capa da Akatsuki. Sakura pegou, e sem proferir uma palavra, olhou assustada para ele, numa pergunta muda. Ele franziu a testa.

-Está frio. Não quero você resmungando mal-humorada por causa do frio. Além do mais, com esse frio infernal daqui você não vai conseguir dormir. Preciso de você descansada para amanhã.

-Mas... e o senhor?-perguntou ela. Pareceu estranho chamá-lo de "você".

Itachi abriu um daqueles sorrisos que mexia com Sakura até o fundo de sua alma, desde a primeira vez que tinha o visto.

-Não é comum que prisioneiras se importem tanto com seus algozes. Trate de dormir e pare de se importar sem motivo.

Sakura bufou, irritada, e continuou a procurar a parte mais macia da caverna para descansar, a capa da Akatsuki jogada pelas , por fim, achando uma saliência suave que acomodava perfeitamente suas curvas. Ali, Sakura se deitou, a cabeça dolorida apoiada no chão gelado. Puxou a capa da Akatsuki para cima de si, e ao fazer isso, sentiu o cheiro levemente perfumado de Itachi, e por alguma razão, aquele cheiro fez um calafrio percorrer-lhe da cabeça até aos pés, ao mesmo tempo que todo o seu corpo se arrepiava deum estranho prazer. Ela tratou-se de cobrir-se mais, o coração batendo violentamente contra o peito, com aquela estranha euforia que aquele perfume lhe proporcionara a dominar-lhe.

À entrada da caverna banhada pelo luar, Itachi encontrava-se sentado molemente, montando guarda, deixando que o vento noturno acariciasse seus cabelos negros, ao mesmo tempo que os murmúrios de"obrigada" proferidos por Sakura enchiam sua mente de uma forma quase indecente. Ele agarrou-se mais ao próprio corpo trêmulo de frio, e perguntou-se se teria sido um erro ceder sua capa à garota.

Decidindo-se que a capa era sua e que pouco se importava se ela estava com frio ou não, entrou na caverna, disposto a recuperar sua capa de volta.

Demorou um certo tempo para achar o vulto discreto que era Sakura; mas, por fim, achou-a, e quando a viu, sentiu uma estranha palpitação de carinho e prazer no estômago.

Ali estava ela, adormecida, envolta cuidadosamente na capa dele, o corpo tremendo de frio, os lábios macios entreabertos levemente, os cabelos róseos jogados para trás em desenhos indecifráveis. O corpo dela e suas curvas se destacavam mais com a capa negra, e Itachi admirou o belo desenho que ela fazia, recortada contra o chão da caverna.

Sem poder se conter, o vilão deixou os dedos correrem soltos por entre os fios do cabelo dela, sentindo-os, absorvendo o perfume deles com as mãos, e surpreendendo-se com a maciez e a delicadeza daqueles fios rosados.

Os dedos dele desceram em desenhos até a testa dela, e ao ser tocada por aqueles dedos, um leve sorriso desenhou-se nas feições da Haruno, como se aquele toque lhe fosse prazeroso.

Demorou alguns minutos para Itachi tomar consciência do que diabos estava fazendo. Horrorizado, olhou para a própria mão, como se ela fosse uma criminosa ou uma assassina. Depois, olhou para o vulto adormecido de Sakura, e as curvas sinuosas do corpo dela. Piscou os olhos com força, tentando afastar aquele estranho desejo, e afastou-se da Haruno, temeroso por sucumbir aos encantos dela.

De volta à entrada da caverna, acomodou-se de novo ali. E para sua surpresa, não sentiu frio; a visão daquela garota adormecida parecia aquecê-lo por inteiro como um fogo perpétuo.

A manhã despontou solta e alegre pelos campos do País do Fogo; e o frio transformou-se em calor, e os pássaros louvavam aquele novo dia que nascia.

Sakura despertou lentamente, o cheiro de Itachi envolvendo-a por completo. Aquele perfume provocou-lhe uma estranha excitação; ela despiu a capa, e esticou-se um pouco no chão rochoso, antes de se levantar e olhar ao redor.

Itachi não estava á vista. Deve estar do lado de fora, deduziu a Haruno, aguçando os olhos contra a luz solar que invadia loucamente a caverna.

A garota apanhou a capa do chão, dobrou-a cuidadosamente, e ao fazê-lo, o cheiro do Uchiha mais velho invadiu-a por inteira pelas narinas, e ela sentiu seu estômago se contrair prazerosamente. Quando isso aconteceu, ela não pôde deixar de dar um leve riso, e encaminhou-se para fora da caverna.

Itachi a esperava ali; parecia mal-humorado e com uma noite de sono mal-dormida. Mal desconfiava a garota que ele chegara a velar o sono dela por 10 ou 20 minutos.

-Obrigada-falou ela timidamente, cedendo a capa ao rapaz.

Ele pegou-a e vestiu. No mesmo momento, o cheiro dele misturou-se com o perfume doce e alegre de Sakura, e por alguma razão, aquilo lhe fez sorrir. Um sorriso que fez Sakura esquecer-se de tudo mais o que existia.

-Vamos.-falou ele calmamente, o sorriso ainda perpassando seus lábios como uma sombra insistente.- Temos um belo caminho pela frente.

Itachi pôs-se a andar, seguido pela Haruno. Os pássarios piavam alto, o vento rugia entre as árvores mais altas, os arbustos e as plantas rasteiras emanavam vida; mas tudo o que ela conseguia notar era o homem que caminhava à sua frente, enquanto perguntava-se o que era aquela sensação estranha que dominava-a sempre que o via, sempre que sentia uma parte dele presente nela.