Saiu da casa sorrindo, tinha conseguido desempenhar seu papel melhor que ninguém, e refez todo o caminho de volta. A chuva ainda castigava Londres, ela apertou o passo. De repente sentiu uma solidão profunda, um vazio e dor, maldita dor! E as lembranças vieram: seus pais ali no chão e o homem com uma capa negra do outro lado sala, de pé, imóvel. Apenas seus olhos pretos a fitavam demonstrando vida. Rosie fechou os olhos, "Dumbledore!", pensou. As lágrimas correram misturando-se a chuva que caía ensopando-lhe as vestes úmidas.
Virou mais duas esquinas, e um braço forte a retirou da rua para a escuridão de um beco, e uma mão alva tapava-lhe a boca. Respirando rapidamente, tentou alcançar a varinha nas vestes e se perguntava: "Como fui andar tão desligada? Por Merlin, não a acho!" Quando olhou novamente, a varinha já estava na mão do estranho. Sentiu um zumbido no ouvido e eles aparataram.
Rosie odiava aquela sensação, fechou os olhos, controlou sua respiração. Não adiantaria tentar nada enquanto aquilo não acabasse. Por fim sentiu os pés tocarem o chão e abriu os olhos. O seu atacante a mantinha de costas, segurando-a ainda para sufocar qualquer grito ou pedido de socorro. O quarto a sua volta era pequeno, havia apenas uma cama e uma mesa com cadeiras num canto. A luz era fraca, e aproveitando uma distração do homem as suas costas, Rosana habilmente desferiu nele uma rasteira que o levou ao chão. Recuperando sua varinha com facilidade, voltou-se ao rosto a sua frente; seus cabelos castanhos caíam sobre ele, afastou-os.
Rosie sorriu e saiu de cima do corpo caído.
― Severus - ela continuou sorrindo.
― Rosie - ele disse friamente enquanto se levantava do chão.
― Desculpe-me a recepção, mas você pediu - falou cínica.
― Seus reflexos continuam bons - seu tom era tão cínico quanto o dela. - Sabia que era eu?
― Não. Se soubesse usaria uma Cruciatus - riu debochada.
― Noto que estou em alta conta - ele a encarou e se mediram. – O que fazia com Lucius naquele casebre?
Rosie não respondeu, andou até a cama, passou as mãos pelos lençóis. Retirou a capa e jogou-a em cima da mesa. Sentou-se calmamente na beirada da cama, vestia roupas trouxas: uma calça jeans e uma blusa branca. Jogou seus cabelos para trás com as mãos, cruzou as pernas e o encarou com sorriso de desdém.
― Diga-me você, Severus.
― Deixe de joguinhos - ele disse ríspido.
― Bom, se quer assim - ela deitou-se na cama. - Eu realmente não sei, mas te respondo amanhã.
― Amanhã? - ele a fitava incrédulo e ao mesmo tempo com interesse.
Ela se apoiou nos cotovelos.
― É, amanhã. Causa algum espanto? - falou com cautela. - Achei que fosse o braço direito do Lorde, soubesse de tudo... me enganei, não?
― Senhorita Baker, sabe tão bem quanto eu que nem tudo o Lorde conta para seus... amigos - disse seco. - É desnecessário esse diálogo infrutífero, não acha?
― Se você diz - Rosie suspirou. - Então, diga-me, como soube que eu viria?
― Não desconfia? - crispou os lábios num sorriso caustico.
― Meu pai... ah! Francamente - ela meneou a cabeça. - Ele me pede para vir e manda você ao meu encalço?
― Quer, por favor, se controlar e controlar suas palavras, RRRRosie - Snape rosnou.
― Olhe aqui, Snape - disse isso e se levantou -, não me diga o que eu devo ou não fazer!
― Aquele chapéu colocou você na casa errada! Sonserina! E pior, tive que aturá-la - disse ele completando -, tinha que ser da Grifinória como ele, como Potter e os outros. Uma convencida, intrometida.
― Acha isso mesmo dele? - ela arqueou as sobrancelhas. - Devia dizer-lhe, e com essas palavras. Seria memorável!
― Garanto que você já o desapontou mais do que eu, não? - falou mordaz. - Sabe perfeitamente que não acho isso dele, foi apenas força de expressão.
Aquelas palavras acertaram Rosana como um raio, mas ela manteve o controle. O olhou com interesse, andou pelo quarto e parou novamente a sua frente. Os olhos negros dele vasculhavam sua alma. Resolveu não esconder seus sentimentos. Severus era o único que sabia de sua existência, quem ela era realmente; pelo menos no que dizia respeito à Ordem e ao resto do mundo bruxo.
― Queria poder ter convivido mais com ele. Aceitei a verdade, mas mesmo assim, ele não me deixa... - seu tom era amargo. - Amava meus pais ou quem eu pensei que fossem. Sinto a falta deles - Rosie abaixou seus olhos. - E essa droga de dom... essa merda! - as lágrimas escorreram mudas.
Snape ficou atordoado, não esperava que uma mulher com seus trinta e poucos anos fosse sucumbir às lágrimas daquele jeito. O pai não teria feito isso. Bufou, mas teria compreendido, admitiu para si mesmo. No fundo ele ainda via a menina de óculos, quieta, que sempre se sentava no fundo da sala. Rosie se escondia de todos, tão parecida com ele... sofrida, estranha. Via coisas, ouvia vozes, entrava em seus pensamentos com maior facilidade que qualquer Legilimens, sem falar no seu poder de controlar os amigos pela mente.
Dumbledore havia dito que ela possuía um dom incomum, seu poder era muito grande e precisava de disciplina para poder controlá-lo. Rosie fora sua amiga desde seus 11 anos. Quando voltou para seu terceiro ano em Hogwarts, Rosana era uma mulher, tinha apenas 13 anos, mas seu corpo havia adquirido formas que o surpreenderam.
Uma linda moça de cabelos castanhos, olhos da mesma cor, pele clara. Os óculos se foram e essa mudança não passou despercebida à Lucius, que começou a cortejá-la. Rosie já não se escondia tanto, sabia controlar uma parte de sua magia. Malfoy e Rosana iniciaram o namoro e ele, Severus, foi esquecido. O amigo depositado no armário. Então Malfoy se formou, Rosie e ele demoraram mais dois anos para concluírem os estudos e depois... aquilo tudo aconteceu.
Ela o fitou, sabia no que ele estava pensando.
― Está lembrando, não é? - ela o encarou. - Daquela maldita noite!
― Estou.
― Por que permitiu aquilo? - seus olhos castanhos marejaram.
― Eu não tinha escolha, eram ordens! - falou frio.
― Voldemort pediu que me amasse também?
Normalmente ele teria reclamado por ela usar aquele tipo de referência ao Lorde, mas Snape estava pálido. Tinha recebido um soco no estômago. Não queria remexer naqueles sentimentos, doíam muito. Mas o passado sempre volta e da pior maneira possível. Rosie estava li, ele sabia que esperava por uma resposta, mas não podia dá-la, não agora! Talvez nunca!
― Vamos, Snape, diga! - gritou.
― É melhor ir embora, senhorita Baker - falou com desprezo. - Não encontrará mais respostas aqui.
Rosie não lhe deu ouvidos, num simples gesto tocou seus lábios. Ele sentiu uma onda de calor, ia retribuir, mas encontrou só o perfume dela no ar e a porta aberta.
Estou parada na ponte
Estou esperando no escuro
Eu pensei que você estaria aqui agora
Não há nada além da chuva
Sem pegadas no chão
Estou ouvindo, mas não há som
Há alguém tentando me encontrar?
Alguém virá me levar para casa?
Está uma maldita noite fria
Tentando entender essa vida
Você não me levará pela mão?
Me leve para algum lugar novo
Não sei quem você é
Mas eu estou, estou com você
Eu estou com você
Estou olhando um lugar
Estou procurando um rosto
Há alguém aqui
Que eu conheça?
Porque nada está dando certo
E tudo está uma bagunça
E ninguém gosta de ficar sozinho
Há alguém tentando me encontrar?
Alguém virá me levar para casa?
Está uma maldita noite fria
Tentando entender essa vida
Você não me levará pela mão?
Me leve a algum lugar novo
Você não sabe quem você é?
Mas eu estou, estou com você
Eu estou com você, yeah
Oh, por que tudo está tão confuso?
Talvez eu esteja fora de mim
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeahh
Está uma maldita noite fria
Tentando entender essa vida
Você não me levará pela mão?
Me leve a algum lugar novo
Você não sabe quem você é?
Mas eu estou, estou com você
Eu estou com você.
I'm with you – Avril Lavigne
