Capítulo 2

O pai não veio jantar e os irmãos ficaram se olhando em silêncio, sem saber muito bem o que pensar. Sabiam sim que o pai estava sofrendo, lá em cima. Sam arrumou a mesa e Dean lavou a louça; depois disso sentaram-se para ver TV, e o pai voltou, sentando-se entre eles.

Sam ficou olhando o pai, criando coragem para perguntar-lhe. Dean, entretanto, mantinha o olhar fixo na TV, como se não se importasse. John sorriu para o filho mais novo, ao sentir-se observado.

_Ok. Eu ainda não tenho nada para falar, certo? Assim que tiver eu falo.

Sam abraçou o pai, tentando demonstrar com o afeto que entendia sua angústia. Era o jeito dele de fazer as coisas, John sabia. Sam era um menino carinhoso. Ele retribuiu o abraço do menor, alcançando também o mais velho com os braços fortes. Dean reclamou um pouco, mas deixou-se ficar. John suspirou, dando-se por vencido.

_A mãe de vocês quer vê-los.

Dean não conseguiu evitar soltar um suspiro de alívio, e Sam soube que o irmão devia estar sofrendo com pensamentos sombrios a respeito do conteúdo da carta.

_Ela vem para o Natal?_perguntou Sam, inocentemente. Um pouco animado, um pouco receoso.

O pai olhou fixamente no rosto do menino, antes de responder.

_Não. Não no nosso Natal. Alguns dias antes.

Os meninos entenderam que o pai estava abrindo uma concessão e tanto, mas não permitiria que a ex-mulher partilhasse com eles do Natal em família. Ela não fazia mais parte daquela família.

_Se vocês quiserem vê-la. Querem?_até mesmo Sam, que era um menino hiper protegido e inexperiente das coisas da vida, percebeu no olhar brilhante do pai a hesitação entre desejar que os filhos rejeitassem a mulher que os fez sofrer tanto e a compaixão de anunciar a uma pessoa que sua prole não queria ao menos vê-la antes do Natal.

Sam olhou para Dean. O adolescente loiro tinha o olhar triste e pensativo, mas assentiu com a cabeça antes de pronunciar as palavras: _EU quero ver mamãe, pai.

Sam concordou aflito, como se não pudesse deixar dúvidas de que também queria. E ele queria. Queria muito. Queria muito que a mãe o amasse. Queria que ela voltasse para casa, se estivesse boa novamente. Talvez estivesse. Talvez houvesse uma chance de serem uma família de novo. Porque de algum modo sentia-se como o pivô que desencadeou toda a tragédia da família.

Os garotos trataram de adular bastante John, pois percebiam que aquela montanha de força e determinação estava abalada e por que não, ciumento como o diabo.

Dean deitou-se cedo, e depois de certificar-se que o irmão apenas queria ficar sozinho com seus pensamentos, Sam pegou o travesseiro e arrastou-se para o quarto do pai. Não era sempre que fazia isto, já que costumava ser chamado de bebezinho pelo mais velho, mas Sam desta vez não se importava. Queria este tempo a sós com o pai, e sabia que esta noite era o momento certo para isto.

Chegou e encontrou o pai fazendo a barba e falando através do viva-voz com uma mulher. Falava com um sorriso nos lábios, fazendo charme, e Sam reconheceu a voz como sendo a de sua ex-professora Nancy. Não pode evitar rir ao ver o pai assim tão...tão bobo.

John olhou o menino chegando como se fosse o dono do pedaço, colocando o travesseiro ao lado do seu.

_Posso dormir aqui, pai?

_Não está meio grande para isto, Sammy?

_Só hoje..._ ele deu o seu melhor sorriso. John não pode evitar sorrir também. Sam não tinha a menor ideia de como e quanto o pai o amava. John costumava disfarçar seus sentimentos hiperprotetores sendo severo, pois não queria transformar nenhum de seus filhos em homens frouxos e de caráter fraco.

"Meu filho está aqui. Quer dormir comigo."

"O Sam?"

O garoto só estreitou os olhos, fingindo estar zangado com o pai por conta da exposição. O que fez John rir.

_Diz oi para a Nancy.

_Oi, Professora Nancy.

"Oi Sam. Pode me chamar de Nancy somente, eu não sou mais sua professora."

_Agora você é a namorada do meu pai?_Sam se fez de inocente. Conhecia o pai e sabia que ele era muito tradicional. Nancy ainda não era namorada, apesar de todo este romance, ou os meninos já teriam sido apresentados a ela. E isto nunca aconteceu na vida deles, com mulher nenhuma.

A mulher do outro lado com certeza ficou embaraçada, e John também.

"Er...Não, Sam. Acho que não estamos neste estágio ainda. Acho que sou só amiga do seu pai."

O pai mandou Sam cair fora do banheiro com um gesto de mão, Sam ainda mandou um tchau para a "amiga" do pai. Nunca tinha visto o pai tão meloso na vida dele. Depois que saiu do banheiro o pai fechou a porta atrás de si, e demorou ainda alguns minutos conversando com Nancy.

Ao sair, Sam estava ao lado da janela, olhando a neve cair. Ele colocou a mão no ombro do filho.

_Pai... Por que ela resolveu voltar depois de tanto tempo?

A resposta demorou um pouco.

_Vão ter que perguntar a ela Sam. Escute, sua mãe passou por problemas muito sérios. De saúde. Mas talvez ela esteja melhor.

Sam sentou-se na beira da cama. Esforçou-se para lembrar-se dela, mas tudo o que conseguia era pensar num borrão loiro que lhe dava arrepios. Medo. Escorregou para debaixo das cobertas._Ela me dava medo.

John parou com a camiseta de dormir na metade do movimento pescoço abaixo, depois terminou de vesti-la. Veio até o filho.

_Sam, você já é grande o suficiente para saber. Sua mãe esteve doente. Ela mudou muito o comportamento depois de ter você. Dizem que acontece com algumas mulheres. Ela, bem, ela tentou machucá-lo quando você era bebê. Mas não conseguiu, certo? Você provavelmente tem esta impressão por que se lembra de mais coisas do que eu imaginava. Eu sinto muito, filho, mas foi como as coisas aconteceram. Então eu tive que proteger vocês dela. Tive que afastá-la de nós. Mas agora o tempo passou, ela diz que está bem, que se tratou, e ela quer ver vocês novamente. Mas se você estiver inseguro, ela não vem, ok? Eu não vou permitir que ela venha, se você não quiser.

_Não! Eu quero! Quero que ela venha. Dean ficou tão feliz!

_Sim, eu percebi._ John jogou-se na cama, o dia fora mais do que cansativo para ele. Sam foi aos poucos se chegando, um dínamo de calor. John sabia que era capaz de acordar suando toda vez que acontecia de Sam vir deitar-se com ele. O filho ainda lembrava-se, então, de quão louca e ameaçadora Mary tinha se tornado? Sabia que não ia conseguir dormir pensando se tinha sido uma boa ideia deixar ela se aproximar novamente de Sam. Deles. Justo agora que as feridas estavam sarando?

_Pai...

_O que Sam?

_Ela pode ficar conosco?

_O que?

_Digo... Ela é nossa mãe, não é? Seria horrível deixá-la ficar num hotel qualquer... Ela poderia ficar no meu antigo quarto... E serão só alguns dias..._Sam virou-se para encarar o pai nos olhos, os seus na maior e mais intensa expressão de "por favor, pai"! que uma criança poderia fazer. Sam se referia ao antigo berçário, cômodo da casa que ele praticamente não usou e que na verdade, tinha se transformado com o passar dos anos em uma espécie de depósito para tudo o que eles não usavam mais. Sam preferia dormir na companhia do irmão no quarto deste, desde sempre.

_Alguns dias? Aqui?_John Winchester soava o mais estupefato que alguém poderia soar, em contrapartida. Que ideia era esta? E quando Sam começava a ter idéias..._Não senhor!

_Pai! Eu nunca convivi com ela...de verdade.

_Foi para o seu bem, Sam._John demonstrou irritação com o que o filho disse, e Sam o abraçou, beijou seu rosto.

_Eu sei pai. Você é meu pai. E eu te amo.

John riu, derretido. Apesar de não receber resposta nenhuma de seu pedido, Sam sabia que o pai ia acabar cedendo.

CONTINUA

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