PRÓLOGO
A manhã rompia nas planícies orientais. A estrada fora do vilarejo de Hamner estava deserta, mas um observador atento poderia ter percebido um movimento no fosso norte – o mais profundo dos dois, cheio de mato e capim selvagem. Enquanto o céu cinzento tornava-se lentamente rosa e dourado, uma figura poderia ser vista se arrastando pela vegetação rasteira.
Era um menino. Tinha sete anos de idade, mas parecia muito mais novo. Ele tinha o olhar de um animal assustado e emaciado, seu cabelo emaranhado e felpudo caindo numa cortina suja pelos seus ombros e sobre seus negros e intensos olhos. Ele estava descalço, e vestia-se apenas com os restos esfarrapados de uma blusa de homem. Os botões já tinham há muito tempo sido trocados por comida, e a veste estava presa a seu corpinho esquálido por um pedaço arranjado de cordel de açougueiro. Ele era tão magro que suas mãos pareciam galhinhos finos como pernas de aranha, apertando a barriga inchada de faminto.
Ele estava tremendo, porque era início de primavera e ele estava muito cansado, mas sabia que tinha de continuar andando até que o sol aparecesse, ou então iria congelar. Ele não tinha destino, mas podia ver a cidade no horizonte, e era onde sua atenção estava fixada. Cidades queriam dizer cachorros, que eram maus, e pessoas, que eram piores, mas também significavam chaminés quentes contra as quais ele poderia aconchegar-se, e montes de dejetos e pilhas de cinzas que ele podia revirar atrás de comida, e essas eram coisas boas.
Ele havia sobrevivido ao inverno vivendo em becos de uma cidade grande algum lugar atrás de si. Quando o tempo quente chegou, e as pessoas começaram a se aventurar fora de suas casas mais vezes, ele teve de se mudar. Se as pessoas o vissem uma vez, elas o ignorariam – poderiam até lhe dar alguns sens ou um pedaço de pão. Mas se elas o vissem mais vezes, começariam a pensar que tinham que fazer algo a seu respeito.
Era quando elas iam tentar entregá-lo ao cabo da cidade, e o menino sabia o que isso queria dizer. Ele havia fugido do orfanato público uma vez, e ele nunca, nunca mais voltaria.
O sol estava surgindo sobre a pradaria ondulante às suas costas, mas o garoto estava concentrado na cidade à frente. Estava tão cansado e tão desgraçadamente faminto. Se conseguisse chegar àquela primeira fileira de casas, talvez conseguisse achar um lugar protegido para dormir. E então depois, quando não estivesse tão exausto, ele poderia tentar encontrar comida.
A primeira casa era azul, com bonitas empenas¹ brancas e uma pequena cerca de madeira. O quintal estava vazio, com uma horta bem cuidada e um canteiro de malvas-rosa. O menino passou por ela: não havia lugar algum para se esconder. No quintal seguinte, um homem gordo em um roupão de banho estava sentado lendo jornal e tomando uma caneca de chá quente. A boca do menino salivou dolorosamente com a visão, mas ele correu rapidamente para passar daquela casa e da próxima antes que o homem o notasse. Estava tão cansado...
Um rosnado baixo e hostil que se tornou rapidamente uma série de latidos furiosos assustou tanto o garoto que ele quase caiu de joelhos. Um grande cão negro puxava sua corrente, ladrando para o intruso. O menino disparou a correr, indo o mais rápido que suas pernas macilentas conseguiam até que seus pulmões parecessem que iam explodir. Ele tropeçou, e jogou suas mãos à frente para evitar que cair de cabeça na grama. Tentou pôr-se em pé apressadamente, mas não conseguiu. Então engatinhou para longe da última casa da fileira, e longe do cachorro que o assustara.
Ele sentou-se e abraçou um joelho esquelético. Ele havia chegado sobre uma pedra, e arrancado cascas de ferida e uma boa porção de pele. Ele mordeu o lábio e tentou não chorar. Às vezes era muito difícil ficar sozinho.
Uma vez o menino tivera uma casa, e boa comida para comer e roupas boas para vestir. Ele tivera uma mãe e um pai, e uma bebezinha que dormia num berço e ria quando ele enchia as bochechas e soprava. Então uma noite tudo desapareceu. Ele se lembrava de acordar no meio da noite, sem conseguir respirar. Ele não se recordava de como ele tinha conseguido abrir sua janela, ou como fugira por ela sem se machucar na queda, mas ele se lembrava da senhora que vivia no primeiro andar abraçá-lo com força enquanto ele assistia a grandes línguas de fogo devorarem a casa, deixando apenas fundações fumegantes, e roupas soprando num varal.
Com um esforço gigantesco a criança pôs-se de pé, limpando o sangue de seu joelho arranhado. Ele olhou em volta, desamparado, pensando não pela primeira vez em aonde ir e no que fazer. Então seus olhos recaíram em outra casa. Era na mesma alameda das outras, mas a uma boa distância. Quase parecia uma entidade inteiramente separada do resto da cidade. Era uma casa alta e branca, com a tinta um pouco gasta e a grama um pouco mal cuidada. Uma cerca abarcava três lados do quintal: a quarta estava marcada por uma densa sebe de hortênsias. Havia uma grande árvore de um lado do quintal, e um varal esticado de uma estaca à parede perto da porta dos fundos. Roupas estavam penduradas nele, sussurrando um pouco ao vento.
Por um momento, o menino se sentiu mais sozinho do que nunca. Então o bom senso o dominou. A sebe seria um bom lugar para dormir: ele estaria protegido do vento, e escondido de olhos hostis. Ele poderia dormir ali, e talvez tivesse algo para comer no lixo. Ele começou a andar com a esperança renovada. Se ele ao menos pudesse dormir um pouco, sabia que se sentiria muito, muito melhor.
Logo chegou à sebe. De quatro, se arrastou para seu hospitaleiro abrigo. As finas hastes arranhavam seus braços e pernas, mas ele conseguiu rastejar até um espaço vazio na terra macia. Ele se enrolou como uma bola, abraçando suas pernas contra o peito. Descansou sua cabeça desarrumada contra seu ombro e logo adormeceu, suas tragédias e preocupações esquecidas por algum tempo.
¹ É a parte triangular de uma parede entre as águas de um telhado" (tradução: Wikipédia) Como em: en./wiki/Image:HouseoftheSevenGables(frontangle)-Salem,Massachusetts.JPG (N.T.)
