Capítulo 2 – Como Slytherin e Gryffindor
Poucas palavras Harry conhecia para descrever o efeito que as palavras de Draco fizeram nele ao atravessarem sua mente. Draco estava abertamente admitindo seus grandes temores e Harry tinha certeza de que o "Ele" em questão não podia ser outro senão Voldemort. E além de tudo, talvez de menor importância para o resto das pessoas, mas de importância suma para ele, Draco havia chamado-o pelo nome. Não era a primeira vez, verdade, mas estava tão acostumado a ouvi-lo chama-lo pelo sobrenome, com o habitual desdém na voz, arrastando a pronúncia, que ouvi-lo dizer "Harry" surpreendeu-o mais do que todo o restante de sua sentença.
Como que automaticamente, desajeitadamente, Harry não pensou em outra coisa, nem sequer pensou no que estava fazendo, aliás, apenas correu sua mão na direção da cabeça de Draco, que olhava agora na direção oposta a ele, respirando pesadamente, se recuperando do que parecia ser pesado demais para ele. Harry pousou sua mão sobre a testa de Malfoy e perdeu seus dedos por entre seus cabelos claríssimos, geralmente bem arrumados, mas dessa vez um tanto amassados e mal penteados, como todo o seu ser, que parecia definitivamente afetado por qualquer que fosse sua missão. Harry decidiu não forçar a barra, acreditando que Draco não iria decepciona-lo e, quando estivesse pronto, talvez se lembrasse que podia contar a Harry o que estava acontecendo.
Quando sua mão enfim chegou à cabeça de Malfoy, Harry sentiu-se mais desajeitado e nervoso do que nunca e ponderou se ao seu toque Malfoy explodiria de raiva pela impertinência de Harry de toca-lo, mas Malfoy pareceu se acalmar e lentamente, com Harry a afagar-lhe os cabelos. Sua respiração se normalizou e ele fechou os olhos. Harry recolheu sua mão e cobriu a parte de cima de Malfoy, que havia ficado descoberta quando ele bruscamente se levantou de seu leito. Então, silenciosamente, Harry recolheu sua Capa da Invisibilidade e saiu da enfermaria, fazendo o caminho para a Torre Gryffindor, deixando Malfoy entretido em seus sonhos, quaisquer que fossem.
Como Harry temia, no dia seguinte o episódio estava longe de ter terminado. Após agüentar um feroz discurso da Professor McGonagall e o ódio de seus companheiros Gryffindor por não jogar no dia da grande final de Quidditch, ainda teve de passar o que pareceram meses de tortura no escritório do Professor Snape, nas masmorras, sem noção do mundo exterior, sem saber o destino que havia tido a partida de Quidditch, mesmo sendo capitão do time. Quando foi próximo à uma da manhã, Severus enfim o liberou da detenção e ele decidiu que antes de mais nada, antes de ir encarar fosse qual fosse o destino da partida de Quidditch, ele queria encontrar Draco. Por mais risco que corresse por passar o dia inteiro na companhia desagradável do Professor Snape, Harry havia trazido consigo a Capa da Invisibilidade e o Marauder's Map em suas vestes.
Colocou a Capa logo após sair das masmorras e instintivamente correu para o andar da enfermaria. Lá, para seu azar, não encontrou Malfoy, mas seu leito vazio e desarrumado, como se ele tivesse acabado de sair dali sem ser notado. Deveria ter olhado antes no mapa, pensou Harry, e logo foi o que fez. Mais uma vez, Harry procurou e procurou sem sucesso no mapa, na Sala Comunal de Slytherin e nos dormitórios de lá; nas salas de aula e nos salões principais; nos solos externos de Hogwarts e em todos os lugares possíveis e passagens improváveis que Malfoy poderia estar. Concluiu, então, o único lugar possível: a Sala do Requerimento, aquela no corredor do sétimo andar, cuja porta surgia ao passar três vezes pelo corredor mentalizando o que se queria fazer dela em frente ao quadro dos trolls aprendendo balé.
Harry percebeu que ambos Filch e Mrs. Norris estavam no sétimo andar e mesmo assim decidiu ir para lá. No corredor, iluminando o caminho com o "Lumos", Harry olhava atentamente no mapa para não ser surpreendido por ninguém e ouvia as reclamações dos habitantes dos quadros, incomodados com a luz da varinha. Mais uma vez Harry estava diante daquele quadro esperando que a porta se abrisse, mentalizando coisas do tipo "Preciso encontrar Draco Malfoy", mas como em todas as tentativas anteriores, não obteve sucesso. Então, após uns dez minutos de tentativas frustradas, Filch veio caminhando em sua direção e após dizer "Nox", Harry se encobriu com a Capa da Invisibilidade mais uma vez. Filch parecia pressentir a presença de um estudante, mesmo que não encontrasse rastros de nenhum e Harry tinha sempre a incômoda sensação de que Mrs. Norris era capaz de ver através de sua Capa.
Quando parecia que Filch e Norris já estavam se distanciando, a porta da Sala do Requerimento se abriu e Malfoy saiu insuspeitavelmente, sozinho e parecendo exausto. Ao se afastar da porta um ou dois passos, a porta atrás dele desapareceu na parede, bem na hora em que Peeves surgiu voando rápido pelos corredores e rindo alto. Peeves não pareceu notar Draco na penumbra, mas sua risada ecoou pelos corredores e logo Harry pôde ver no mapa que Filch se aproximava correndo, e Malfoy parecia sem saída. Sem pensar muito, Harry saiu momentaneamente de sua capa, puxou Draco para junto dele e encostou-se na parede em seguida, colocando a capa em cima dos dois. Draco pareceu se assustar e teria gritado alguma coisa se Harry não tivesse privado-o de sua voz com o feitiço "Silencio". Draco logo parou de se debater quando percebeu a lanterna de Filch à frente do próprio zelador, passando direto por eles, rosnando coisas sobre Peeves.
Assim que ele sumiu na curva do corredor, levou um segundo para que Harry soltasse Draco, quando percebeu a situação levemente embaraçosa de estar envolvendo-o pelas costas com seu braço esquerdo por cima da cintura e o direito em seu tórax, o segurando dentro da Capa da Invisibilidade. Draco havia ficado imóvel quando percebeu Filch passando, mas agora dava novamente sinais de vida e quando Harry afrouxou seus braços, ele se afastou para fora da Capa. Harry desfez o feitiço de voz e deixou a Capa escorregar de si. Ali no corredor, iluminados apenas por velas esparsas, os dois se encararam mais uma vez. Levou algum tempo até que algum dos dois quebrasse o silêncio, mas foi Draco quem o fez, com uma ligeira indignação em seu rosto e sua voz:
- O que você pensa que está fazendo, Harry? – Apesar da indignação, Harry pôde notar que Draco estava mais brando do que seu normal, e carregava na voz um tom incomum de exaustão.
- Eu... eu acabei de salvar você de uma detenção com o Filch!
- Me salvar? – Draco parecia estranhar a ingenuidade de Harry, ou duvidar de sua veracidade, mas logo ficou claro – Acho que você esqueceu que sou monitor e, assim sendo, posso andar pelos corredores. – Draco parecia conclusivo e exausto para discutir o ponto.
- À uma e meia da manhã? – as palavras de Harry pareciam surpreender Draco. Não imaginava que já fosse tão tarde, esperava voltar antes que a partida de Quidditch terminasse e passar despercebido. À essa altura com certeza já teriam dado por sua falta.
- Não importa... nada da sua conta. – Draco virou-se ignorando Harry e partiu andando, lentamente, como que com dificuldade. Harry pareceu paralisado por um momento, depois percebeu.
- Ei! Que você não queira admitir, que seja, mas se quer mesmo voltar para sua Sala Comunal, à escadaria e as masmorras ficam para o outro lado... – à essa menção Draco parou de caminhar e ouviu - ... por esse caminho você vai dar de cara com Filch.
Draco então fez meia volta, com cara de poucos amigos e por um momento Harry viu que ele estava vacilando em seus passos e respiração, até que, pouco após passar Harry, Draco involuntariamente sentiu as pernas bambearem e ele caiu, apoiado em seu joelho esquerdo. Antes que Harry pudesse agir e sem sequer se virar, Draco disse que não precisava da ajuda dele, mas ao se levantar novamente, foi apenas para desabar de cara no chão, com suor a lhe escorrer pela testa e olhos cerrados com alguma espécie de dor. Harry não hesitou em ajudar Malfoy. Em ato rápido, antes que Filch pudesse voltar por ali e pisar em Malfoy, que jazia no corredor, Harry se apressou em passar três vezes pelo corredor pensando em um lugar para ocultar Malfoy. Ao fim da terceira passada, a porta surgiu e Harry, com alguma dificuldade, carregou Malfoy para dentro, enquanto ele resmungava alguma coisa, que Harry só distinguia em fragmentos.
- Não... ajuda... você... Gryffindor... eu... Slytherin... odeio... você... pai... Azkaban...
Harry ignorou-o e adentrou na Sala, que agora, convenientemente, possuía uma cama, uma poltrona e um banheiro, além de uma estante com muitos livros variados. Harry depositou Draco na cama e teve uma idéia. Com o Marauder's Map e a Capa, desceu até as cozinhas, abriu a passagem no quadro das frutas e encontrou lá alguns elfos domésticos limpando e lavando, embora a maioria dos elfos estivesse ausente, provavelmente dormindo. Sem perder mais do que o tempo necessário, Harry conseguiu arranjar com alguns deles, uma bandeja contendo diversas refeições momentaneamente preparadas para servi-lo. Não era para ele, todavia, que se destinava aquilo. Harry logo se apressou de volta ao sétimo andar e encontrou Draco de olhos abertos, parecendo ainda mais pálido e febril. Draco pareceu se recusar a aceitar, à princípio, mas por mais orgulhoso que fosse, a verdade é que sua missão, fosse qual fosse, estava levando muito tempo e muito trabalho dele e suas refeições eram esparsas e apressadas.
Depois de algum tempo, se alimentando com certo desespero, Malfoy parecia levemente melhor e olhando para Harry, que estava na poltrona olhando distraidamente para as chamas de uma vela na parede, falou com sua aspereza habitual.
- Não pense que estou agradecido. Não pedi sua ajuda. Não entendo por que você está fazendo isso, Harry. – Malfoy não podia conter a sua crescente curiosidade e acreditava que o plano de Harry era simples: parecer amigo dele para que lhe contasse sua missão, mas Malfoy não ia jogar esse jogo – Desde o começo foi sua a escolha de me virar a cara, por que agora está agindo assim? Se arrependeu, por acaso, de ser um Gryffindor?
- Não... – Harry continuava apreciando a vela, como se as palavras de Malfoy fossem apenas uma brisa. Nem ele mesmo entendia de onde vinha sua serenidade e paciência, mas por um breve segundo, lhe veio à mente à imagem do chapéu Seletor na sala dos diretores e o próprio diretor, Albus Dumbledore, em toda sua estoicidade inabalável – Eu me lembro que uma vez alguém contou que raramente houve uma amizade tão forte quanto a de Salazar Slytherin e Godric Gryffindor... não sei por que tal amizade entre as casas nunca mais foi possível, mas acredito que seja besteira brigar entre si, quando o inimigo maior está lá fora e não se importa com quem vencer a briga... – agora, deixando de encarar a vela e passando a olhar para um incrédulo Malfoy, Harry continuou – Draco, ontem eu disse e repito, eu só quero entender o que você vem fazendo sempre nessa sala, ausente nos jogos de Quidditch, ausente em Hogsmeade e o significado daquela conversa com Snape durante a festa de Slughorn... – Harry notou a surpresa em seu olhar – Sim, eu ouvi vocês conversarem.
Harry brevemente contou o que ouviu na Borgin 'n Burkes; no trem; durante a festa e no banheiro, e rapidamente deixou claro para Draco que não o estava acusando, mas acreditava que o Lorde das Trevas estivesse o usando como ele fazia com todo mundo, ao que era impossível recusar. Harry chegou mesmo a pensar que Draco poderia estar sob efeito da Maldição Imperdoável Imperius, mas algo nele dizia que Draco estava agindo por decisão própria.
- Não há ponto em manter ódio por você, nem em você manter ódio por mim, quando o verdadeiro perigo, o responsável por assassinar meus pais e responsável pela prisão do seu pai está lá fora, solto, sem se importar com nossas mortes ou talvez... talvez desejando exatamente isso... nossas mortes.
Draco parecia hesitar novamente, ponderando as palavras de Harry, colocando em ordem seus pensamentos e por um segundo sua expressão pareceu se tornar um involuntário princípio de lágrimas, mas ele evitou fraquejar mais uma vez e cerrou a cara para impedir o choro. Pareceu levar mais tempo do que realmente levou até que se quebrasse o silêncio apenas interrompido pelas trêmulas inspirações e expirações de Draco, até que ele estivesse pronto para falar sem chorar logo em seguida.
- Não é nada que você possa fazer. Você não pode me ajudar e não tem como me impedir. – Draco parou como se tivesse acabado o que tinha para falar, ao passo que Harry se levantou da poltrona e caminhou até ele. Para Draco era torturante falar sobre aquilo. Já não bastava passar por tudo durante todos os dias, ainda ter que agüentar Harry Potter fazendo inquérito. Draco continuou sentado na cama, olhando para baixo, enquanto Harry se aproximava pela sua direita. Harry então parou ao seu lado e sem ser rude, ao passo que também não foi sutil, segurou o braço esquerdo de Draco e o levantou. Draco não parecia se alterar. De fato, não fosse por ter prendido a respiração, não parecia nem perceber. Harry então tornou a levantar a manga da veste de Draco, dessa vez até o fim. Lá estava, enfim, a Marca Negra. Seus temores haviam se confirmado. – Ele vai me matar... ele vai me matar...
Malfoy parecia falar sozinho, ignorando o fato de que Harry estava diante dele. Harry sentou-se ao pé da cama e ficou olhando enquanto Draco parecia usar a sentença como um mantra, intercalado com sua respiração forçada. Foi a vez de Harry, então, quebrar o silêncio e se entregar aos seus instintos, seguindo meramente sua intuição.
- Draco! – a forma como Harry pronunciou rispidamente o nome, fez Malfoy parar de repetir a mesma frase "ele vai me matar" e olhar para ele, parecendo perceber que ele estava ali, enfim. – Draco... você não deve teme-lo... Voldemort nada pode contra Dumbledore! Em Hogwarts você tem a proteção de Dumbledore e aqui Voldemort e seus servos não têm poder. – Harry acreditava cegamente no que dizia, mesmo se lembrando dos outros meios que o Lorde das Trevas já se usara para driblar a proteção de Hogwarts, usando o Professor Quirrel; o diário de Riddle; a Taça Triwizard... sim, o poder dele alcançava Hogwarts, mas jamais seria capaz de ferir alguém que estivesse sob a proteção de Dumbledore.
Draco então sentiu-se ainda pior. Foi então que em sua cabeça ele percebeu a verdade. Sua missão era terrível e o estava fazendo muito mal, não tinha coragem e a força necessárias para leva-la até o final, o grandioso final, mas não era por isso que as palavras de Harry o fizeram se sentir pior. Sabia que no momento que Harry descobrisse a sua real missão, no caso driblar mais uma vez a proteção de Hogwarts e estender até ali o poder Dele, Harry iria odiá-lo. Em toda sua missão, Harry fora o único que enxergara-o como uma vítima e não como um vilão e por mais que fosse teimoso, ele estava apreciando o que tinha desenvolvido com Harry nos últimos dois dias. Como que lendo seus pensamentos, foi Harry quem deu o próximo passo, como se sentisse o impasse em Draco, aproximou-se dele ainda na cama e o envolveu em seus braços, sem verdadeiramente se importar com o que aconteceria depois.
- Harry...
