CAPÍTULO 2 - A garota de Denton
Frank dirigiu com calma até o centro de Denton. Era um domingo ensolarado, com céu muito azul e nuvens grandes e fofas acima das cabeças dos habitantes da pequena cidade. Esta, aliás, encontrava-se bastante quieta, pois a maior parte da população estava na igreja ao lado da praça principal. Frank ouviu os sinos badalando, anunciando o meio-dia e o fim da missa, e foi com a pick up até a praça para observar os que saiam da construção sagrada. Discreto, o Doutor esperou que um a um os cidadãos saíssem pela grande porta ornada e deteu-se por um tempo no rosto de cada um deles, concluindo, sem exceção, que eram todos infelizes em suas pequenas vidas limitadas. Velhos, que não puderam aproveitar a sexualidade de sua juventude ao máximo e que achavam que a idade já não lhes permitia tentar; jovens, que olhavam para os mais idosos e viam ali seu futuro deprimente; virgens, que vinculavam sua dignidade a essa insignificante condição; gays enrustidos que, por tal motivo, tentavam provar sua masculinidade com discursos de ódio; e depravados, que sentiam vergonha de terem se entregado à tentação da carne.
Frank não sabia ao certo por onde começar. Não conseguia decidir-se, com relação àquelas pessoas, quem seria mais proveitoso para sua pesquisa, com quem ele poderia tentar interagir para, talvez, compreender melhor aquela mente. Demorou tanto em sua escolha que logo as pessoas começaram a se dispersar, voltando para suas casas. Assim, quando Frank percebeu que já não mais sairia ninguém da igreja, ligou novamente o motor do veículo, suspirando em desapontamento. Talvez tivesse mais sorte na próxima semana, se retornasse novamente no domingo.
Pisava levemente no acelerador para sair da praça, xingando mentalmente a si mesmo, irritado por não ter sido capaz de sequer sair da pick up, quando o Doutor deu uma última espiada no terreno da igreja e viu ali, nos jardins, sentada e solitária, uma mulher em seus quase trinta anos, que com certeza não estivera na missa aquela manhã. Frank parou o carro e observou-a por alguns minutos. O cientista vinha estudando os habitantes da cidade há tantos anos que poderia dizer que conhecia, ao menos de vista, todas as famílias de Denton e seus membros; aquela garota, entretanto, era desconhecida: nunca antes vira aquele rosto e, talvez por isso, ela o chamara tanta atenção de repente. Era uma moça muito comum, para falar a verdade. Os cabelos cacheados, caindo como cascatas até a altura da cintura, eram castanho-escuros, mas brilhavam em leves e quase imperceptíveis tons de vermelho conforme a luz do sol refletia nos fios, e não encontravam um padrão harmonioso como os cachos trabalhados das outras garotas, que com frequência iam ao cabelereiro; a estatura e o corpo eram medianos, porém Frank percebeu que ela possuía mãos grandes e ágeis, bem como um rosto feminino, mas ao mesmo tempo com traços mais marcados, duros e quadrados. Vestia também roupas comuns, mas que não combinavam exatamente com o que as garotas de sua idade costumavam usar. As outras mulheres, pelo que o forasteiro percebera, usavam muito saias, cores como rosa e amarelo, saltos altos ou baixos, e estavam sempre com acessórios, como presilhas no cabelo ou tiaras. Aquela, contudo, não era tão feminina, embora não se vestisse com roupas masculinas; as calças mais largas e azuis, a sapatilha baixa e a camiseta branca de botões e sem manga, bem como a ausência quase total de enfeites, tornavam-na, ao mesmo tempo, masculina e feminina. Nesse momento, o cientista sentiu quase de imediato uma espécie de empatia pela garota, pois ambos tinham uma coisa em comum: para os padrões e expectativas humanos, os dois não se vestiam com aquilo que era designado pela sociedade como pertencente ao seu gênero, usando livremente o que lhes fazia sentir bem e nada mais.
Frank abriu a porta da pick up e desceu do veículo, caminhando lentamente e com as mãos no bolso até o jardim, em direção à moça. Ela parecia estar cavocando a terra com instrumentos de jardinagem, plantando sementes, talvez. Enquanto se aproximava, viu com o canto do olho o padre saindo da igreja e indo até a garota; conversaram brevemente e logo o eclesiástico foi embora, conforme ela levantava-se e batia as mãos sujas de terra em um pano. Quando o Doutor estava perto o bastante para ser notado, ela ergueu o rosto e encarou-lhe profundamente a face. Frank parou no lugar, retribuindo o olhar em silêncio. Nenhum dos dois saberia dizer o porquê, mas, por alguns breves, porém pesados instantes, ambos ficaram a se olhar, sem nada dizer. Era como se uma tensão houvesse surgido entre os 3 metros que os separavam, quase como se o ar naquele espaço tivesse sumido e somente um vácuo ali existia, sugando-os. Frank percebeu que sua respiração cessara, e deu um longo suspiro quando a tensão, de repente, foi quebrada com a primeira palavra que a mulher proferia:
_ Olá. - Frank respirou fundo, conforme tirava as mãos do bolso e não perdia o contato visual. Ela parecia menos tensa que ele, porém um pouco mais tímida, pois segurava um dos cotovelos com a mão do outro braço. - Posso te ajudar?
Frank olhou ao redor, num gesto confuso como se estivesse procurando por alguém atrás dele com quem ela poderia estar falando. Mas ninguém havia ali, exceto ele. O Doutor pigarreou e levantou uma sobrancelha, sorrindo discretamente. Passando a mão pelo cabelo, disse, em uma voz que ele procurou tornar o mais natural possível, sem a afetação e o sotaque característicos seus:
_ Boa tarde. - e pensou rapidamente como puxar assunto - Eu não te vi na missa hoje. - Frank não sabia o que dizer. Percebeu de repente que uma gota de suor escorregava de sua testa, descendo até a lateral do maxilar, porém ele não conseguia ter certeza se era por conta do dia ensolarado ou se era devido ao nervosismo. Olhou rapidamente para o céu, sentindo com mais racionalidade a temperatura, e admitiu para si mesmo que não estava quente o bastante a ponto de fazê-lo suar ali parado, portanto o forasteiro teria de reconhecer: estava nervoso; era a primeira vez, em todos esses anos no planeta Terra, que conversava com um ser humano, e somente agora ele parecia sentir o peso dessa ação. Estivera tão afoito em sair para realizar suas pesquisas que não pensou o que isso poderia trazer de impacto para ele próprio. Estava realizando algo inédito e, como em raríssimos momentos de sua vida, ficou mudo.
A moça abriu a boca para responder, mas interrompeu o movimento no caminho, olhando fixamente para Frank. Ela parecia bastante desconcertada e uma ponta de desconfiança podia ser sentida através do tique que lhe acometia o canto da boca, quando ela tentava forçar um sorriso. O Doutor então logo se ligou sobre o que acontecia: ele era um estranho em uma cidade pequena. Era natural que nesses lugares todos os habitantes se conhecessem, ao menos de vista ou de nome, portanto ser abordada assim por um completo desconhecido era, no mínimo, suspeito. A garota estava intimidada, e não era por menos. Assim, abrindo um sorriso envergonhado, Frank continuou:
_ Desculpe, eu nem ao menos me apresentei. - e estendeu-lhe a mão para um comprimento, como sempre vira os seres humanos fazendo em situações como aquela, conforme diminuía a distância entre os dois. - Sou o Doutor Frank N. Furter. Moro nas redondezas e nunca passei antes por Denton, peço perdão se a assustei.
Soltando um único riso baixo, como se debochasse do que ele dizia, ela respondeu:
_ Não estou assustada. - e, sem hesitação, estendeu a mão para comprimentá-lo firmemente, sem acanhamento. Frank enxergava nisso uma forma dela impor sua presença sem demonstrar que sentia-se, ao menos um pouco, coagida. Uma garota de fibra, ele logo podia notar. O Doutor, contudo, não apertou e sacudiu levemente a mão da moça como era o esperado, mas sim levou-a até os lábios, depositando na pele um singelo beijo.
_ Enchanté. - disse o alienígena.
Mesmo após o gesto, as mãos não se desgrudaram por um breve momento. Enquanto as peles se tocavam, o forasteiro pôde perceber uma quase indetectável mudança no semblante da mulher: a tensão inicial que lhe marcava os traços foi gradualmente se esvaindo. Ela pareceu respirar aliviada, como se o toque transferisse para suas veias uma dose de calmante, de tranquilidade, de confiança. Frank sorriu satisfeito: ele sabia que aquele seria o efeito do gesto. Embora nunca tivesse interagido com seres humanos antes, sabia muito bem um dos motivos pelo qual tal envolvimento fosse proibido durante as pesquisas: devido a uma capacidade de transmissão de energia entre os corpos, Transylvânios tinham um certo poder sobre os terráqueos, como se exercessem uma real influência hipnotizante sobre eles. Assim, eram extremamente persuasivos, o que sem dúvida trazia alterações nas atitudes dos Homens e resultava em análises erradas de comportamento. O Doutor, contudo, sabia que esse toque inicial era necessário para baixar a guarda da garota, do contrário dificilmente conseguiria se aproximar o bastante para manter ao menos uma conversa.
Em dado momento, as mãos se soltaram e a moça sorriu mais calma, a postura menos dura e os ombros relaxados.
_ Bom, sou Clarice Mills. - e suspirou, bastante descontraída - De fato, não estive na missa hoje. Não que eu tenha perdido alguma coisa que valesse a pena. - riu, logo emendando uma pergunta - Você disse que é um doutor? O que faz um doutor por essa cidade? Aqui não temos nada além de gente triste.
Era um nome muito bonito, Clarice, ele pensou. Balançando a cabeça positivamente, Frank concordou com o que ela dissera sobre os habitantes de Denton, emendando nessa afirmação a justificativa de sua aparição na pequena cidade.
_ Meu principal objetivo por aqui é justamente realizar uma pesquisa para tentar mudar isso. Trazer, quem sabe, um pouco de alegria às pessoas amargas que vi saindo da igreja.
_ É uma grande responsabilidade, Doutor. Como pretende fazer isso ? - a essa altura, Clarice já estava visivelmente mais descontraída, abaixando-se para recolher os instrumentos de jardinagem que deixara na grama.
_ Pretendo mostrar um estilo de vida completamente novo. É preciso tirá-los de dentro da caixa onde vivem trancados.
Clarice riu, dessa vez com vontade, e balançou negativamente a cabeça, como se repreendesse a ideia do Doutor.
_ Oras, boa sorte nesta empreitada, então, porque você vai precisar. Digo por experiência própria. Já tentei mudar alguns pensamentos medievais que existem nesse país e o resultado é o que você está vendo: alguns dias de trabalho forçado nesse fim de mundo de cidade para pagar pela desobediência e rebeldia. - conforme falava, levantava-se e ia em direção a uma caixa de madeira recostada à parece da igreja onde se guardavam os instrumentos. Dizendo baixo, então, quase como se murmurasse mais para si mesma que para o desconhecido, a garota fechou o pensamento. - Ao menos jardinagem é muito mais agradável que ir à missa, não tem como a terra e as sementes me odiarem.
_ E por que te odeiam?
Clarice suspirou e ergueu os ombros, torcendo a boca como quem se conforma com alguma situação:
_ Porque sou diferente dessas pessoas, e infelizmente o meu diferente é visto por muitos como sujo e errado.
Por alguns segundos, novamente o silêncio se instalou entre os dois. Frank observava a garota recolher seus pertences para já ir embora, reparando em seus movimentos, seu rosto e sua energia. O Doutor percebeu, em seu breve estudo sobre Clarice, que ela realmente não era como os outros: embora parecesse triste também, tal qual o resto da cidade, Frank não conseguia enxergar nela sinais de negação sobre quem ela era; muito pelo contrário, os sinais de tristeza que ela emitia provinham justamente de sua aceitação de si mesma, pois tal aceitação acabara por afastá-la de todas as outras pessoas que amava e conhecia na sua vida.
Clarice já estava com a bolsa no ombro quando virou-se para Frank e acenou-lhe timidamente com a mão, em um gesto que indicava estar se despedindo. Contudo, Frank não queria que aquele breve encontro terminasse assim, tão rápido, e logo agiu, perguntando:
_ Posso saber o que a torna diferente das outras pessoas de Denton? - e, percebendo que poderia estar sendo muito invasivo, emendou: - Pergunto porque também sou muito diferente de todos aqui e talvez tenhamos muito mais coisas em comum do que possamos imaginar.
Ela lhe sorriu, parando por um minuto longo; minuto este que o forasteiro percebeu estar sendo usado para, dessa vez, ele ser observado. A moça, porém, suspirou e disse:
_ Talvez uma outra hora. - e deu os primeiros passos, afastando-se alguns metros e indo em direção à praça. No meio do caminho, contudo, interrompeu a marcha e virou-se novamente para Frank. - Eu tenho que cumprir esse trabalho de jardinagem por mais algumas semanas. - e sorriu - Estarei por aqui nesse mesmo horário sábado que vem. Quem sabe a gente não se tromba de novo.
Assim, Clarice foi-se de vez, subindo em um carro velho parado ali perto e afastando-se cada vez mais do alienígena pela rua principal. Frank foi deixado para trás, mas com um sorriso bobo no rosto e o coração quente, sem nem ao menos entender o porquê. Ele ainda não sabia, mas o breve encontro se firmaria em sua memória e em sua mente de maneira quase insuportável, e o rosto de Clarice o acompanharia pelo resto de suas noites insones.
