Título: Corações Expostos

Autora: Lab Girl
Categoria:
Arquivo-X, M&S, 4ª temporada, angst, romance
Advertências:
Linguagem e situações absolutamente adultas – leitura recomendada a partir de 18 anos.
Classificação: NC-17
Capítulo: 2/?
Status:
Em andamento

Spoiler: Episódio 4x14 – Memento Mori (Lembranças Finais)

Sumário: O que pode aproximar mais duas pessoas do que encarar a própria mortalidade? Mulder e Scully dão início a uma jornada de dores compartilhadas, e na busca por esperança acabam encontrando uma verdade que até então não se atreveram a encarar... a de seus próprios corações.

Nota da Autora: Esta história se passa na quarta temporada da série, logo após os acontecimentos do episódio "Memento Mori" (Lembranças Finais).


Algumas vezes temos que dar a volta completa para encontrar a verdade.

- Sacerdote, "Revelações"


Parte II: Verdade Sem Lado

Nós partilhamos tantas lágrimas,
com a febre de nossos sonhos planejamos uma longa vida inteira
Agora, está tudo espalhado pelo vento...

~ Sarah McLachlan ~


"A única coisa que precisa agora é descansar" Scully recomendou, acabando de examinar o ferimento na testa do irmão.

"Eu disse a mamãe que não era nada de mais. Não precisava ter ido incomodar você por nada" a voz de Bill era calma a tranquilizadora.

"Como por nada? Mamãe se preocupa com você, e eu também" ela sorriu para o irmão ao colocar de volta o curativo na testa dele.

Bill também sorriu.

Mulder assistia à cena do outro lado da sala da família Scully, encostado à parede próxima à janela.

"Então, você é o famoso 'Mulder'!" Bill Scully Jr. dirigiu-se à ele no mesmo instante em que Margaret entrava na sala com uma bandeja trazendo xícaras de café.

Mulder meneou a cabeça afirmativamente para o irmão mais velho da parceira.

"Dana fala muito de você" Bill comentou ao pegar uma das xícaras na bandeja que a mãe depositou sobre a mesa de centro.

Fox lançou um olhar zombeteiro para a parceira, pegando a xícara que a Sra. Scully lhe oferecia com um sorriso.

"Não acredite em nada do que ela disse" brincou.

Scully sorriu para ele, numa tentativa de quebrar o clima tenso que havia se instalado entre eles durante todo o percurso de seu apartamento até a casa de sua família. Ela tomou um gole do próprio café, sentando-se no sofá.

"Não se preocupe, Mulder. Eu não disse nada que possa comprometer a sua reputação."

"Reputação? Eu tenho uma reputação?" o sorriso dele, e o uso da frase que havia dirigido a parceira alguns anos atrás, em um de seus primeiros casos juntos, foi o que bastou para amenizar o clima de nervosismo entre os dois.

E Dana sentiu-se começando a relaxar.

Bill Scully observava a brincadeira verbal entre os dois, percebendo um sorriso nos lábios da mãe, que também estava atenta.

"Dana e você estão juntos há muito tempo, não é?"

A pergunta de Bill pareceu atingir Mulder bem no meio do estômago, e ele se perguntou se teria mesmo ouvido um tom de insinuação por trás das palavras.

Scully sentiu o rosto arder. Não sabia por que, mas a pergunta do irmão pareceu repentinamente ter um duplo sentido que a perturbou mais do que esperava.

Percebendo a impressão errada que seu comentário havia deixado, Bill apressou-se em explicar. "Quero dizer, já faz muito tempo que estão trabalhando juntos, não?"

Mulder sentiu o líquido quente descer como fogo por sua garganta. "Há quase cinco anos" balançou a cabeça, tentando parecer calmo.

"Fox e Dana, além de parceiros, são muito amigos" Margaret comentou suavemente. "Na ocasião em que sua irmã estava em coma no hospital, ele foi o único que não desistiu de Dana quando todos nós já havíamos perdido as esperanças."

Maggie sorriu para Mulder, tentando desfazer o clima que se havia formado. Mas ela pôde perceber o semblante do jovem homem mudar ao mencionar aquele fato. Ela própria podia sentir um aperto no peito simplesmente ao lembrar-se daqueles momentos que jamais poderia esquecer. Mas, dentro de si, Margaret Scully sentia-se imensamente grata a Fox Mulder por ter salvado a vida de sua filha naquela ocasião. Ele não havia se permitido deixá-la ir, mesmo quando todos achavam que era o melhor a se fazer. E Margaret sabia que jamais viveria o suficiente para agradecê-lo.

Mas, repentinamente, Maggie percebeu que o olhar de Fox havia se tornado extremamente preocupado. Ela o seguiu e percebeu que Dana erguia-se do sofá rapidamente em direção à porta da varanda. Antes mesmo que pudesse dizer algo, Mulder foi atrás dela, deixando Maggie e Bill sozinhos na sala.

"Há algo errado com a Dana, mamãe?" Bill depositou a xícara sobre a mesa de centro, encarando a mãe com um olhar preocupado.

"Não, Bill. Não há nada de errado com sua irmã. Por que a pergunta?"

Maggie levou a própria xícara aos lábios, tentando parecer ao mais natural possível. Além de Fox Mulder, apenas ela sabia sobre a doença da filha. Dana não lhe permitira dizer nada aos irmãos. E, muito embora Margaret não achasse totalmente justo esconder-lhes algo tão forte, respeitava a decisão da filha.

"Pois não foi o que me pareceu quando ela saiu correndo da sala."

"Ora, Bill. Você conhece a Dana. Ela deve estar apenas preocupada com algum caso."

"Eu vou vê-la."

Antes que Bill pudesse se levantar, foi impedido pela mão delicada da mãe em seu braço.

"Bill, deixe-a com Fox."

"Mas, mamãe... eu não entendo..."

"Nem precisa. Deixe os dois sozinhos."

Bill não protestou, apenas permaneceu na sala, conforme o pedido da mãe, mesmo contra sua vontade.

Maggie Scully também permaneceu sentada, tomando calmamente seu café. Sentia que aquele momento não era o certo para conversar com a filha. Por mais próximas que fossem, sabia que havia coisas que Dana não se permitia dizer a ela. Também sabia que aquele devia ser um momento apenas entre a filha e o parceiro. De alguma forma, sentia que apenas juntos os dois poderiam sobreviver a todas as sombras que os perseguiam.

Mulder encontrou-a de pé na varanda, envolvida pela escuridão da noite. Ela não havia acendido a iluminação externa da casa, e ele não ousou fazê-lo. Por algum motivo, a escuridão parecia ser mais segura naquele momento.
Aproximou-se lentamente, não querendo assustá-la. Scully se encontrava de costas para ele, e não parecia tê-lo percebido chegar.

"Scully..." sussurrou.

Ela não se moveu.

Mas ele sabia que ela o havia escutado.

O silêncio os envolveu por alguns segundos, sem que nenhum dos dois se atrevesse a quebrá-lo. Mulder sentia-se completamente perdido, até que ela rompeu o desconforto.

"Acho que nunca pensei seriamente a respeito da morte."

A voz de Scully era suave, um contraste com a angústia que ele sabia que ela estava sentindo, e que ele próprio experimentava havia meses, desde o diagnóstico do câncer dela.

"De certa forma, ela parece tão distante" Scully continuou, o olhar perdido na escuridão. "É quase como se pudéssemos viver para sempre. Até que nos deparamos com ela. Inevitavelmente."

Mulder sentiu um nó de angústia se formar na garganta. Ele sabia como Scully estava se sentindo. E sabia porque ele sentia o mesmo.

Dor. Medo. Desespero.

Era insuportável o simples pensamento de que poderia perdê-la. Há dois anos atrás, quando ela desaparecera sem deixar vestígios durante três meses, Mulder pensara ser capaz de enlouquecer. Não sabia dizer quando, mas naquela ocasião, repentinamente, simplesmente havia se tornado consciente do quanto Scully era importante em sua vida. Ela abrira caminho aos poucos em sua alma, ganhara gradativa e completamente sua confiança.

E ele, de repente, se vira ligado a ela como nunca estivera a nenhuma pessoa antes.
E justamente quando imaginava não ser mais capaz de seguir sozinho, ela havia retornado para ele, aparecendo misteriosamente naquela cama de hospital, por um fio... E depois de fazer tudo o que podia, tudo o que estivera a seu alcance para salvá-la – e por força de um milagre não a havia perdido – prometera a si mesmo que nunca mais deixaria algo afastá-la novamente.

Justo quando começava a acreditar que, apesar de todo o caos que era sua vida, ainda teria a certeza e o conforto de ter Scully ao seu lado para sempre...

Ele suspirou pesadamente. A dor parecia cortá-lo por dentro sempre que pensava que poderia perdê-la para aquela maldita doença.

Sabia que a simples menção de Maggie Scully àqueles dias de desespero em que estiveram, pela primeira vez, prestes a perder Dana, embora com a melhor das intenções, havia sido suficiente para fazer com que Scully se deparasse mais uma vez com o que tanto temia.

Com o que ambos temiam.

Ela estava morrendo.

"A vida é tão efêmera" ele a ouviu murmurar, e não fez menção de interrompê-la.

"O tempo nos parece tão eterno... e, afinal, acabamos descobrindo que uma vida não dura tanto quanto gostaríamos que durasse. Que tudo se acaba tão de repente... quase como o tempo de uma batida do coração."

A voz dela era praticamente um sussurro. Ela continuava de costas para ele, mas Mulder podia dizer claramente que o olhar dela se encontrava perdido em algum lugar do céu escuro.

Aproximou-se mais, porém não o suficiente para que invadisse o espaço dela. Parou ao lado de Scully, encostando o quadril contra a grade de madeira que separava a varanda do jardim.

"Eu nunca encarei esta vida como uma verdade única, Scully" Mulder ouviu as palavras saírem de seus lábios quase sem perceber.

Involuntariamente seus olhos se ergueram, percorrendo as estrelas dispersas no céu escuro. E pensou em tudo o que haviam descoberto naqueles anos juntos, e em tudo o que ainda havia para descobrirem. Um suspiro lhe escapou dos lábios.

Os olhos de Scully também se perderam no céu noturno. Ela não se permitia encarar o parceiro naquele momento. E o breve silêncio que os envolveu permitiu que ela ouvisse perfeitamente os sons de suas respirações. Ela ainda não se sentia pronta para encará-lo. Seus dedos correram sobre a madeira da grade onde seu corpo se apoiava, buscando forças dentro de si mesma para não ceder, mais uma vez, à sua fraqueza emocional.

Tinha medo do que poderia acontecer caso os dois se aproximassem novamente. Agora estava ciente de que sua necessidade de conforto guardava uma necessidade oculta de contato físico com Mulder... um desejo que há tanto vinha reprimindo, e agora sabia que era poderoso demais para ignorar.

Talvez fosse apenas sua mistura de sentimentos, aquele turbilhão confuso que a iminência da morte lhe causava. Como se precisasse da presença física de Mulder para se sentir viva, para lhe confirmar que ainda estava ali. E isso a assustava.

De repente, uma risada dolorida escapou da garganta de Scully. "Minha irmã Melissa costumava dizer que a vida é um rito de passagem. E que nós nunca sabemos seu real significado até aprendermos o que é perdê-la. Hoje eu acho que sei o que ela queria dizer."

Mulder sentiu uma pontada no coração. Sem que pudesse evitar, seus olhos dirigiram-se a ela e suas mãos se apertaram contra a grade. "Você ainda está aqui, Scully."

Ela balançou levemente a cabeça, abaixando o olhar para as próprias mãos, apoiadas na madeira. "Não por muito tempo, Mulder."

Ele se aproximou mais dela, antes mesmo que pudesse tomar consciência de seu ato. "Scully... você não sabe o que pode acontecer. Ainda não temos certeza..."

"Eu sei" ela balançou a cabeça novamente, interrompendo-o. "Eu sei. Pode ser uma questão de dias. Ou meses. Ainda não temos certeza de quanto tempo. A única certeza é a de que, mais cedo ou mais tarde, eu não vou estar mais aqui."

Scully sentiu o coração desfazer-se naquele momento ao ouvir as próprias palavras. Doía-lhe profundamente admitir que não havia nada que pudesse fazer para se salvar. Doía-lhe ainda mais pensar que logo não estaria com Mulder. Que não o teria mais ao seu lado. Ergueu os olhos, tentando evitar as lágrimas que se formavam por trás de seus olhos.

Mulder sentiu uma repentina vontade de abraçá-la. De segurá-la em seus braços e dizer que tudo ficaria bem.

Mas não podia.

Não naquele momento.

Ele sabia que nenhum dos dois se encontrava pronto.

E não se atreveria a tocá-la tão cedo. Não depois do ocorrido na sala do apartamento dela e que ainda fazia seu corpo queimar.

"É tão estranho imaginar que dentro de algum tempo nunca mais vou poder fazer coisas tão simples quanto olhar para o céu, como agora" ela murmurou, o olhar e os pensamentos se perdendo na noite. "Não poder ir todas as manhãs para o trabalho. Ver meus sobrinhos se formarem... ou ter filhos..."

"Ainda pode fazer essas coisas, Scully. E ainda vai poder fazer por muito tempo" Mulder sussurrou, tentando reter a esperança.

Seu desejo era poder afastar aqueles pensamentos de Scully. Poder dar a ela a paz e o conforto que ela precisava... e tudo o que a fizesse feliz... um céu eternamente estrelado... encontrá-la no trabalho todas as manhãs lançando-lhe aquele olhar cético a cada teoria nova que lançasse sobre ela... levá-la a formatura dos sobrinhos... Céus! Queria até mesmo poder dar filhos a ela, se era o que a faria feliz!

"Eu não posso encarar esta vida como um termo absoluto, Scully. Há tanto o que aprender, o que descobrir em tão pouco tempo. A vida não pode ser apenas isso."

"Mesmo que esta vida não seja uma verdade eterna e absoluta, Mulder... mesmo que haja algo mais além disso, mesmo que seja apenas uma passagem... é quando nos damos conta de que podemos perdê-la que começamos a valorizar cada pequena coisa, cada segundo... cada respiração."

Ele a percebeu finalmente erguer os olhos em sua direção, um brilho suave nas esferas azuis, iluminadas pela suave luz do luar.

"Como eu disse... não vou desistir de lutar, Mulder. Vou continuar enquanto tiver forças..." ela murmurou, sem deixar de encará-lo um só segundo. "E eu agradeço por você estar comigo... ao meu lado. Quero que saiba que significa muito... saber que tenho alguém em quem confiar. Eu só quero lhe pedir que continue, Mulder. Mesmo quando eu não puder estar mais ao seu lado."

Ele viu o brilho de lágrimas contidas nos olhos azuis. E sentiu vontade de fechar a distância entre eles e correr os dedos pelo rosto branco, tão delicado...

"Scully, tudo o que eu quero é poder ajudar você. Sei que não quer se render, nem parecer fraca. Mas não precisa ser forte o tempo todo" ele se aproximou mais alguns passos, sentindo o coração agitado dentro do peito. "Não quero que fuja de mim. Nem de sua mãe, ou daqueles que se importam com você."

"Eu sei, Mulder" ela murmurou, numa voz levemente trêmula. "Mas não quero se preocupem comigo. Eu estou me sentindo bem agora. De verdade. Ainda tenho forças e quero continuar assim. Ainda não me sinto preparada para contar aos meus irmãos, mas quando o momento chegar, eu o farei."

Ele meneou a cabeça levemente.

"Tudo o que eu preciso agora é do seu apoio. E da sua compreensão."

"E você os tem, Scully. Tanto quanto precisar."

Mulder sorriu de leve, fechando os últimos passos que os separavam.

Então, viu Scully se afastar de repente. E a lembrança do ocorrido na sala do apartamento dela o fez sentir-se inconveniente. Queria apenas confortá-la, e havia acabado se perdendo, rendido por seu desejo, por sua necessidade por ela. E agora temia que aquele deslize tivesse estragado tudo, e ela não se permitisse mais aceitar seu conforto com medo de que o mesmo se repetisse.

"Mulder... o que aconteceu antes..." ela começou, a voz hesitante.

"Eu não devia ter me deixado levar... é melhor esquecermos, Scully..." a voz dele saiu estrangulada; não sabia exatamente o que dizer, nem como agir, mas sabia que precisava consertar o estrago que havia iniciado.

"Eu entendo" ela murmurou baixinho.

"Afinal, somos parceiros... e amigos... eu não quero que nada fique entre nós, Scully... eu... eu sinto muito..."

"Você não tem que se desculpar por nada, Mulder. Está tudo bem" ela balançou a cabeça.

Mulder sentiu um pequeno alívio. Não estragaria as coisas repetindo o gesto, deixando-se dominar pela tensão e pelo desejo. Precisava ignorar o que havia acontecido, e assim restabelecer a confiança que tinham um no outro.

Mas... ignorar? Pedir que sua mente ignorasse o que havia acontecido entre eles naquela noite?

Ele jamais poderia ignorar qualquer coisa quando se tratava de Dana Scully.

Sabia o quanto tudo estava sendo difícil para os dois, mas última coisa que queria no mundo era magoar Scully. E se para evitar isso precisava fingir que havia esquecido um momento de descontrole emocional entre os dois, era o que faria.

"Acho que devemos entrar. Está ficando frio" ela esfregou os braços para enfatizar o que dizia, afastando-se da grade.

Mulder meneou a cabeça em concordância, acompanhando-a em direção à porta. Naquele instante, era mais sensato procurar a segurança do interior da casa, onde não teriam que encarar o turbilhão de emoções que os dominava nos últimos dias. Ao menos, temporariamente.


Continua...