Capítulo Dois

Walking Alone

O quarto foi lentamente iluminado pelo nascer do sol, e Harry olhava fixamente para o teto, se recusando a fechar seus olhos, que ardiam. Quase não dormira na noite anterior, e o pouco sono que conseguira fora inquieto, para dizer o mínimo. Quanto mais se permitia pensar sobre a reação de Ginny para seu convite de que ela morasse com ele, mais enfurecido ele ficava. Harry afastou o cobertor e foi para o outro quarto. Teddy estava acordado, observando as travessuras do cervo, cão e lobo desenhados na parede. Satisfeito de que Teddy seria capaz de se manter entretido por alguns minutos, Harry foi até a cozinha para, pelo menos, dar café da manhã para Teddy. Quanto a si mesmo, Harry não estava com vontade de comer no momento. Notou a gaveta que deixara no meio do sofá quando fora dormir na noite passada. Tirou a varinha do bolso da calça do pijama e a apontou para a gaveta, desejando nada mais que pulverizar a maldita coisa. Ao invés disso, a gaveta flutuou até o quarto de Harry, se colocando em seu lugar quase preguiçosamente.

Rapidamente preparou uma tigela de mingau para Teddy, antes de voltar ao quarto. Quando se inclinou sobre o berço e ergueu a criança em seus braços, Teddy choramingou e lutou para se soltar dos braços de Harry, para que pudesse engatinhar ou andar sozinho até a cozinha. Suspirando, Harry deixou o menino andar, as mãos de Teddy segurando firmemente seu dedo indicador. Foi uma caminhada lenta. Uma vez na cozinha, fora necessária muita luta para apenas convencer Teddy a se sentar no cadeirão. Teddy urrou e resmungou, balançando a cabeça, se prendendo ao braço de Harry.

- Oh, tudo bem. – Harry explodiu, se sentando em uma cadeira e acomodando Teddy em seu colo. Pegou a colher e a encheu com um pouco de mingau, assoprando-o levemente, antes de oferecer a Teddy. Teddy se remexeu no colo de Harry, querendo descer. – Você tem que comer, Teddy. – Harry disse, esfregando o lábio inferior de Teddy com a ponta da colher. A boca de Teddy se abriu e Harry rapidamente colocou a colher para dentro. Quase imediatamente, Teddy cuspiu, derrubando mingau no queixo. Obstinadamente, Harry limpou o rosto de Teddy e ofereceu mais uma colherada. Teddy balançou a cabeça, as mãos afastando a colher. O mingau melou seus dedos e ele os passou pelo cabelo. Com muito mais paciência do que sentia, Harry tirou o mingau do cabelo de Teddy com uma toalha de prato úmida, e obstinadamente colocou mais mingau na colher. Erguendo-a bem alto no ar, Harry disse em um tom cantando: - Olha o aviãozinho! – Teddy virou a cabeça para o lado. – A Firebolt? – Harry tentou. A cabeça de Teddy se virou o outro lado. Harry usou todas as táticas que aprendera com Molly e Andrômeda, mas Teddy teimosamente recusou todas.

Derrotado, Harry afastou a tigela e analisou seu afilhado.

- Você precisa de um banho. – falou.

- Ba! – Teddy repetiu. – Boias!

Harry se ergueu.

- Não, sem bolhas hoje, amigão. – falou sem desculpas. Carregou Teddy até o banheiro e acenou a varinha para o registro da banheira. Enquanto água preenchia a banheira, Harry tirou o pijama e fralda de Teddy, antes de tirar o resto de mingau de seu rosto e cabelo. Quando a banheira estava cheia o bastante, Harry colocou Teddy na água aquecida e lhe deu alguns brinquedos, que mantinha em uma cesta perto da banheira. Teddy riu e brincou alegremente, enquanto Harry se sentava no chão. Analisou Teddy por um momento, e deu de ombros. O que tinha a perder ao confiar no bebê? Não era como se Teddy fosse falar alguma coisa. – Não foi uma má idéia. – começou. – Admito que a hora não foi perfeita.

Teddy virou um pequeno copo de água sobre sua cabeça.

- Você não tem que esfregar na cara, amigão. – Harry resmungou. – Não é o tipo de coisa que posso falar com Ron. Primeiro, é a irmã dele e eu não acho que isso seja o tipo de coisa que ele queria ouvir. Depois, o quanto eu sei sobre Ginny? E ela sobre mim?

Teddy ergueu um patinho de borracha e o bateu na parede da banheira.

- Bem, tem isso também. – Harry admitiu. – Ron sabe sobre Hermione desde o quarto ano, no mínimo. Não que ele tenha admitido isso para si mesmo por mais dois anos. Mas ainda assim... Eles se conheciam. Muito bem. Ron pode ser um idiota com algumas coisas, mas acho que agora ele sabe o bastante sobre Hermione para não trocar tanto os pés pelas mãos. Ou, pelo menos, usar palavras diferentes.

Teddy bufou para seu padrinho.

- Eu podia ter usado palavras diferentes. Dito a ela para deixar algumas coisas aqui. Ela tem razão, não tem? Mesmo sendo capaz de usar magia, eu não acho que iria querer ir e voltar entre Londres e Holyhead. E, sim, eu estou fazendo exatamente o que ela quer fazer e não há nada de errado nisso...

- Dadadadada.

- Exatamente. – Harry resmungou, sentindo sua raiva se renovar. – Ela não tinha motivos para explodir comigo daquele jeito! Nenhum. – conjurou uma toalha de rosto limpa e vigorosamente a encheu de espuma, antes de começar a lavar Teddy.

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Ron escapou da cozinha e se jogou no banco do lado de fora da porta. Não estava tão quente assim dentro de casa, mas ele se sentia preso. A verdade era que ele ainda gostava de ajudar Molly a cozinhar o almoço semanal da família. Era um momento reservado para apenas os dois — uma experiência recentemente descoberta, da qual ele não queria desistir. Hermione ia aparecer para o almoço mais tarde e, àquela noite, eles iam se juntar aos pais dela para o chá. O que ele realmente queria bem agora era passar um tempo com Harry. Apenas os dois. Eles não tiveram muito tempo ultimamente, e com Harry indo morar sozinho, eles pareciam só se ver aos domingos e nos poucos sábados que Harry ajudava na loja.

O portão do jardim rangeu ao ser aberto, batendo com violência na cerca. Harry entrou na propriedade e foi direto para Ron.

- Cuide dele pra mim. – falou, sem se dar ao trabalho de fazer parecer um pedido. Harry colocou Teddy no colo de Ron e entrou na casa.

Ron estudou Teddy por um momento, antes de virar a cabeça para olhar para a casa.

- Caramba. – disse distraidamente. – O que deu nele? – Teddy não tinha uma resposta para Ron. O menino achou seu caminho até a grama e se afastou sobre os joelhos e mãos. – Aw, Teddy, não entre aí! – Ron seguiu a criança, que estava indo na direção da barraca de ferramentas.

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Harry parou na cozinha por tempo o bastante para pergunta a Molly:

- Ginny está lá em cima?

- Bem... Sim... – Molly gesticulou com a colher de madeira na direção da escada.

- Brilhante. – Harry murmurou, marchando escada a cima. Entrou no quarto de Ginny sem bater. Ginny deu um gritinho de surpresa, apertando uma camiseta contra o peito. Quietamente, Harry fechou a porta e avançou até ela. – Eu não sei o que estava se passando com você noite passada, mas eu não merecia aquele tipo de resposta! – sibilou.

- Harry...

A mão de Harry cortou o ar.

- Eu realmente não quero ouvir o que você tem a dizer no momento. – continuou. – Eu ouvi o bastante noite passada. – começou a andar de um lado para o outro no quarto pequeno. – Eu amo você, Ginny. – começou em voz baixa. – Mas isso não te dá o direito de descontar um péssimo dia em mim. Você quer reclamar? Ótimo. Mas não desconte em mim. Não se faz esse tipo de coisa com a pessoa que ama. – ele pausou e correu uma mão pelo cabelo. – Eu acho que tenho sido bastante paciente. – falou para Ginny. – Eu esperei para você pensar e decidir o que quer, e não pedi nada em retorno. Bem, estou pedindo agora! – os murmúrios sibilados fizeram Ginny ficar em um silêncio chocado. Harry não ergueu a voz, mas a fúria estava lá. – A única coisa que eu quero de você é o mesmo respeito que te dei. Você entendeu?

A boca de Ginny abriu e fechou. Assentiu levemente. A cabeça de Harry assentiu uma vez em reconhecimento, então ele virou sobre os calcanhares e foi até a porta. Ele a abriu e, então, tão de repente quanto, a fechou e voltou até Ginny. Colocou o rosto perto do dela, os narizes quase se tocando.

- E só para constar, eu não quero cuidar de você! – rosnou. – Não da maneira que você pensa. E eu não acredito que você pensaria isso de mim nem por um momento. – com isso, ele saiu, deixando Ginny parada com as mãos penduradas ao lado de seu corpo, a camiseta segura frouxamente em seus dedos.

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Ron ergueu os olhos de sua comida e deu uma cotovelada leve nas costelas de Hermione. Quando ela se virou para ele, Ron usou o punhal de seu garfo para gesticular na direção de Harry e Ginny. Eles estavam sentados um do lado do outro, como sempre faziam, mas não estavam conversando — uma ilha de silêncio desconfortável na cozinha barulhenta. Silenciosamente, passavam as travessas um para o outro, mas nenhum deles realmente estava comendo o que tinha no próprio prato. Ginny pigarreou nervosamente e perguntou:

- Pode me passar o sal, por favor? – Harry resmungou algo ininteligível, mas pegou o saleiro e o colocou ao lado do braço dela. Ginny colocou um pouco de sol sobre suas batatas, antes de pegar a manteiga. – Manteiga? – ofereceu a ele com uma expressão levemente esperançosa em seu rosto. Era uma brincadeira bem conhecida na família sobre como ela tinha colocado o cotovelo na manteiga uma manhã quando ele passara o verão com eles pela primeira vez.

- Não, obrigado. – Harry disse com educada formalidade.

As sobrancelhas de Hermione se juntaram e ela olhou para Ron, que deu de ombros.

Charlie se inclinou para mais perto de Ginny.

- Quando você precisava ir para Holyhead?

- Os testes são na terça-feira. – ela murmurou.

- Hmmm. – Charlie pegou seu copo de água. – Quer ir comigo para casa mais tarde?

Ginny empurrou um pedaço de cenoura sobre o molho. Era improvável que Harry fosse voltar a falar com ela logo.

- Sim, seria ótimo.

Molly trouxe a travessa de torta de caramelo para a mesa e começou a cortar os pedaços. Ela passava os pratos ao redor da mesa e Harry ergueu uma mão.

- Não para mim, Molly.

- Tentando manter seu manequim feminino, eh, Harry? – George zombou. Ninguém rir de algo que teria conseguido alguma resposta era um sinal.

- Mas... É seu favorito. – Molly protestou, pressionando o prato nas mãos de Harry. Contrariado, Harry aceitou o prato, mas a mistura do cheiro do cabelo de Ginny e da torta de caramelo fez se estômago virar. Suas duas coisas favoritas no mundo e ele estava sem vontade de estar perto das duas. Para agradar Molly, entretanto, ele conseguiu engolir uma ou duas mordidas, antes de amassar o resto.

Relutantemente, se juntou aos outros nos estábulos para um jogo de Quadribol, sua vassoura frouxa em suas mãos, parado um pouco mais atrás com Hermione.

- Oi! Harry! – Bill chamou. – Você vai jogar?

Harry balançou a cabeça.

- Hoje não. – contemplou a vassoura em sua mão. – Acho que vou para casa daqui a pouco. – adicionou em um tom mais baixo.

- Você está se sentindo bem, Harry? – Hermione perguntou preocupadamente.

- Estou bem. – ele disse curtamente e se virou para colocar a vassoura de volta no armário. – Eu te vejo depois, Hermione. – falou, antes de voltar para o interior da casa para pegar Teddy e ir para casa.

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Harry estava parado em seu banheiro, nu, contemplando sua banheira. Estava cheia de bolhas e água quente. Na verdade, ele se sentia um pouco embaraçado em tomar um banho tão luxuoso. Ainda assim, cuidadosamente colocou um pé na água, seguido pelo outro. Acomodou-se na banheira com um suspiro prolongado, fechando os olhos. Afundou ainda mais na água, até seu queixo estar tocando as bolhas. Não obstante sua explosão com Ginny mais cedo, ele ainda sentira ressentimento sob a aparência indiferente que mantivera n'A Toca. Era mais do que um pouco incomodo. Enquanto o que ele tinha admitido a Ginny no verão passado ser verdade — seu equilíbrio emocional tinha se recuperado bastante desde que Voldemort morrera —, o ressentimento persistente era inquietante. Há meses não se sentia assim.

Ele não tinha certeza do que o enfurecera mais: a maneira com que Ginny tinha pulado em seu pescoço ou a acusação dela que ele não acreditava em sua habilidade de se cuidar sozinha. Isso estava começando a fazer sua cabeça doer.

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- Seus pais se importariam se não fôssemos para o chá hoje? – Ron perguntou a Hermione quando se sentou na grama ao lado dela. Passou o antebraço pela testa e se apoiou em um cotovelo.

Ela fechou o livro em seu colo e gentilmente tirou uma folha de seu cabelo, soltando-a e observando-a cair entre eles.

- Não especialmente. – respondeu com um dar de ombros. – Só vamos ter de parar em um orelhão no vilarejo e ligar para eles avisando que temos outros planos. – adotou uma expressão curiosa. – Então, vai me contar quais são esses planos?

- Temos que falar com Harry.

- Oh, Ron, não acho que seja uma boa idéia. – Hermione murmurou. – Você sabe como Harry é quando fica de mal humor. – adicionou.

- Oh, sai dessa, Hermione. – Ron zombou. – Você é quem sempre quer falar sobre as coisas.

- Pense nisso logicamente, Ron. – ela respondeu pacientemente. – É óbvio que tem algo a ver com Ginny e eu realmente duvido que ele queira falar sobre isso com algum de nós.

- Como você sabe disso, eh?

- Você não acha que ele já teria procurado um de nós? – Hermione disse.

- Talvez ele esteja esperando nós irmos falar com ele. – Ron respondeu esperançosamente.

- Você não vai descansar, enquanto não arrancar dele, não é? – Hermione perguntou resignada.

- Bem, por que ele não falaria com a gente? – Ron retorquiu indignado. – Nós somos seus melhores amigos.

Hermione estudou Ron por um momento, antes de afastar uma mecha ruiva de seus olhos.

- Isso o incomoda, não é? Que ele não vá até você com seus problemas...

Ron olhou para as próprias mãos e não disse nada, mas assentiu algumas vezes.

- Ele sempre veio, antes.

Hermione pegou sua bolsa e colocou seu livro dentro dela.

- Eu ainda acho que não é uma boa idéia. – afirmou. – Mas ele e Ginny estavam um pouco estranhos.

- E nós não vamos poder falar com Ginny por alguns dias, no mínimo. – Ron contou. Direcionou a atenção de Hermione para o caminho do lado de fora do portão. Ginny estava segurando o braço de Charlie, uma mochila pendurada em um ombro, a vassoura firmemente presa em sua mão. A vassoura brilhou sob a luz do sol da tarde e o rosto de Ron se abriu em um sorriso. – Ela colocou todos os tipos de feitiços amortecedores conhecidos pelos bruxos naquela vassoura...

Hermione bufou.

- Eu não sei muito sobre Quadribol, mas até eu sei que se a vassoura dela estragar durante a aparatação, o teste dela seria prejudicado. – se levantou e limpou seu jeans. – Vamos lá, então. – suspirou. – Você não vai sossegar até ir a Londres...

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Ron bateu firmemente na porta de Harry, esperou exatos dez segundos, antes de bater novamente na porta trancada.

- Eu ainda acho que não devíamos estar aqui. – Hermione murmurou.

- Somos os amigos dele, Hermione. – Ron insistiu. – É o que fazemos.

Os olhos de Hermione se fecharam brevemente e ela bateu na porta hesitantemente.

Dentro do apartamento, os olhos de Harry se abriram com os sons de alguém batendo insistentemente. Quando não voltaram a bater imediatamente, voltou a se acomodar na banheira e estava prestes a voltar a cochilar, como estivera fazendo há algum tempo, quando uma série de batidas tímidas quebraram o silêncio.

- Está claro que ele não companhia, Ron. – Hermione disse rapidamente, virando-se para encarar Ron. – E você já viu Harry recusar torta e ir embora antes de um jogo de Quadribol terminar? Ele também não jogou.

- Ainda mais motivos para nós estarmos aqui.

A porta se abriu. Harry estava parado do outro lado, o cabelo encharcado, uma toalha presa em sua cintura e a pele coberta de espuma.

- O quê? – ele rosnou.

- Oh... – Hermione se virou para Ron. – Eu disse que não devíamos ter vindo.

- Você sempre tem que estar certa? – Ron perguntou ressentidamente.

- Se vocês dois vão brigar, eu vou me vestir. Não quero ficar parado aqui usando só uma toalha e ouvindo vocês dois terem a mesma discussão que tem desde que começamos a escola, enquanto molho meu chão. – Harry virou sobre os calcanhares descalços e foi para o quarto. De todas as pessoas que tinham que aparecer, esses dois eram os últimos que ele queria ver no momento. Por mais que eles discordassem um do outro e brigassem, eles normalmente agiam como algo que lembrava uma única unidade; o beneficio de um relacionamento longo e inteiramente confortável.

E depois de sua briga com Ginny, isso era o bastante para fazê-lo querer vomitar.

Harry colocou uma calça de pijama limpa e passou uma camiseta pela cabeça, antes de marchar de volta até a sala de estar.

- Certo. Vocês estão aqui, então é melhor que me dêem logo o sermão que planejaram, para que possam ir para casa e me deixar em paz. – se jogou no sofá, esparramado na ponta. – Vão em frente. – rosnou para seus amigos, que o olhavam surpresos.

- As coisas pareceram um pouco... Tensas... Entre você e Ginny. – Hermione começou.

- E daí? – Harry desafiou. – Está tudo para vocês dois brigarem como se não fosse nada, mas eu não posso ter uma discussão com Ginny?

Hermione brincou com a ponta de uma pequena almofada.

- Normalmente, você não a ignora desse modo. – ela comentou quietamente.

- É apenas uma briga, Hermione. – Harry suspirou cansadamente.

- Sobre o que vocês brigaram? – Ron perguntou curiosamente.

Harry deixou sua cabeça ir para trás.

- Vocês não querem saber.

- Queremos. – Ron respondeu. – Para que eu possa decidir qual feitiço usar.

Harry puxou o ar lentamente.

- Eu pedi para que ela viesse morar comigo...

Ron o olhou com a boca aberta em choque.

- Você conversou com Ginny antes? – Harry balançou a cabeça. – Você ficou maluco? – balbuciou, sentindo um pouco de orgulho por ter descoberto o que Hermione pensava sobre o assunto, antes de tentar convencer George a lhe deixar ficar com o apartamento.

A cabeça de Harry se virou lentamente sobre o sofá, e ele estudou Ron pensativamente.

- Parece que sim. – respondeu suavemente.

- Suponho que Ginny não aceitou? – Hermione perguntou delicadamente.

- Não. – Harry murmurou. – Ela disse que eu estava tentando cuidar dela.

- Está? – Ron retorquiu.

Harry lhe deu um olhar repreensivo, mas adicionou:

- Disse que eu estava lhe negando a oportunidade de ter o que eu tenho.

Ron olhou para as próprias mãos. As coisas não faziam muito sentido. Havia momentos em que Ron achava que Harry estava maluco em relação a Ginny. Harry era bem mais tolerante com os humores dela do que Ron, mas ele atribuía isso ao fato de que Harry queria estar com Ginny, enquanto ele era seu irmão mais velho e era forçado a lidar com ela por que eram irmãos. Mas ele entendia dúvida e incerteza, especialmente quando enquadradas com uma mudança tão grande quanto Harry e Ginny estavam prestes a sofrer.

- Você tem medo de que ela não volte. – afirmou suavemente.

- Não. – Harry zombou. – Eu sei o que quero, e depois de tantos anos vivendo para as outras pessoas, eu acho que mereço viver por mim.

- Você está com medo de que ela saia, viva a vida dela, e descubra que ela não quer estar com você. – Ron lhe disse.

Harry olhou feio para Ron, sentido suas orelhas esquentarem.

- Pare.

- Parar o quê? – Ron perguntou confusamente.

- Eu realmente quero que as pessoas parem de me falar o que eu quero e como eu me sinto, maldição. – Harry rosnou. Saiu do sofá e pegou um filme de uma pilha precária perto de sua televisão e o colocou a sua frente como um escudo. – Agora que vocês falaram o que vieram falar, vocês podem ir embora ou podem assistir isso comigo. – ralhou.

Hermione se inclinou para frente, olhos cerrados, lendo a capa.

- Oh, Deus. – murmurou, empalidecendo um pouco. – Não Senhor Creosote... – falou temerosamente. – Vamos. – pegou a mão de Ron e praticamente o puxou até a porta. – Tchau, Harry. Te vemos depois...

- Eu não entendo. – Ron reclamou. – O que há de tão ruim nesse filme que ele estava mostrando?

Eles desapareceram pelas escadas e Harry se sentou no sofá com um suspiro de alivio. O Significado da Vida, refletiu.

- Exatamente o que eu preciso...

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Ginny seguiu Charlie para dentro de sua cabana e colocou sua mochila ao lado do sofá, antes de colocar sua vassoura em um canto. Charlie girou os olhos e pegou seus pertences com uma mão.

- Você vai dormir no quarto. – informou, caminhando na direção de seu quarto.

- O sofá está bom. – Ginny protestou. – Não posso te tirar sua cama...

Charlie reapareceu na sala de estar e deu um leve chute no sofá.

- Não, você não vai ficar bem no sofá. – sua expressão se suavizou um pouco e brincou com o rabo de cavalo de Ginny. – Um dos meus arrependimentos é não ter dado uma chance ao time da Inglaterra, e serei um idiota se você estragar suas chances por dormir em uma péssima desculpa de sofá. – Ginny piscou em resposta. Para Charlie, isso era quase um discurso. Charlie afastou o cabelo dos olhos dela. – Eu tenho turnos à noite na chocadeira essa semana, então a hora que eu estiver indo trabalhar, você vai estar indo dormir e quando eu voltar, você já estará pronta para ir para o campo.

- Suponho que sim...

- Brilhante. – Charlie lhe deu um tapinha nas costas. – Certo, então. Eu vou tirar um cochilo. O turno começa às onze e eu não estou com vontade de cuidar de recém nascidos com sono. – se inclinou para desfazer o nó de suas botas e indicou a porta. – Dê uma volta. Veja a vila. Golden Talon é o melhor pub. Você pode dar uma volta pela reserva se quiser. Locais em que não pode ir estão marcados e enfeitiçados.

Ginny assentiu, os olhos indo para sua vassoura.

- Obrigada, Charlie.

- Não se preocupe, eh? Apenas mostre do que é capaz nos testes, sim? – Charlie lhe deu um sorriso torto, antes de desaparecer dentro do quarto.

Ginny pegou sua vassoura e saiu da cabana. Colocando a vassoura entre as pernas, deu impulso e saiu voando, dando uma volta sobre o estádio das Harpies, aninhado em um vale. Deu voltas ao redor dos aros e parou, flutuando no meio do campo, olhando para a vila que poderia virar seu lar por quanto tempo ela escolhesse.

A brisa do mar irlandês fez as mechas ruivas esvoaçarem ao redor de seu rosto, mas ela as ignorou.

Se ela admitisse para si mesma — o que não admitia —, Ginny estava aterrorizada. Ela finalmente tinha a chance de ser Ginny Weasley em seus próprios termos, e não a irmã de alguém ou a namorada de alguém. Só esperava não tornar tudo em um completo desastre.

Continua...

N/T: Muito obrigada pelos comentários no primeiro capítulo. Quero manter esse ritmo aqui, ein!

Perguntaram-me quanto à freqüência de atualização: para ser honesta, não sei. Posso atualizar toda semana, como fazia com TFD, ou posso atualizar uma semana sim, uma semana não. Lembrem-se que esta fic ainda está em andamento, e só conta com 10 capítulos até agora, e a autora anda muito ocupada e demora meses para atualizar, então escolham com sabedoria!

Para quem gosta de fics Ron/Hermione, Tree Houses e Daises também já está no ar. Confiram! (:

A Cynthia pediu para que eu traduzisse os títulos dos capítulos: vou colocá-los sempre nas notas, então, ok? A tradução do título do capítulo 1 é algo no sentido de "dia novo em folha", e desse é algo no sentido de 'caminhar sozinho'.

Mais uma vez, obrigada e até a próxima atualização.