Capítulo 2

– Me recuso!

– Cala a boca – Jensen atirou um pano no rosto de Jared, o fazendo se calar. – Você aceitou.

– Não aceitei, não! – retrucou o mais novo, jogando o pano na pia. – Você praticamente me arrastou até aqui!

– Cala a boca – repetiu Jensen. – E, aliás, sua besta, você não precisa fazer quase nada, só me ajudar.

– Isso já é uma péssima idéia – disse Jared. – Tô indo.

– Não mesmo, garoto – disse o mais velho, segurando o braço do moreno e o obrigando a se recostar na pia. – E aí, qual é o problema? Não é tão difícil.

– Cara, você é pirado, com certeza – riu o mais novo. Testou a fragilidade da pia e se sentou no mármore, sorrindo levemente para Jensen enquanto balançava as pernas, distraído. – Só por hoje, certo?

– Como se você fosse pegar no batente – resmungou o mais velho, fazendo Jared gargalhar gostosamente.

– Você me arrastou até aqui, bonitão, agora me agüente.

Jensen gargalhou e meneou a cabeça. O loiro se ocupou em limpar algumas ferramentas enquanto conversava com Jared, até um carro chegar, depois de um pouco mais de vinte minutos. O mais novo observou o carro por alguns instantes. Era um Volvo prateado e, provavelmente, bem caro. Quando o motorista desceu, Jared quase teve um ataque cardíaco ao reconhecer a loira. Saltou do balcão da pia e se aproximou, tentando ter certeza de que não estava tendo alucinações.

Katie?!

Oh. Meu. Deus.

Jared se aproximou de Katie Cassidy e a abraçou como se a loira fosse um ursinho de pelúcia, a erguendo alguns centímetros do chão. Jensen meneou a cabeça e se ocupou em limpar as mãos num pedaço de pano, que jogou por cima do ombro assim que o mais novo soltou Katie, a colocando no chão com cuidado.

– Katie, eu não acredito nisso! – sorriu Jared. – Você aqui no Kansas!

– Querem que eu traga chá e alguns bolinhos? – ofereceu Jensen, levando um soco fraco no braço dado por Katie. – Ouch! Assim que cobro mais caro.

– Como se você resistisse ao meu charme, Ackles.

– Tá se achando demais, hein, loira? – o loiro cruzou os braços. – Qual é o problema dessa vez? Esqueceu onde fica a marcha?

– Vá se foder, Ackles.

– Talvez mais tarde, doçura – Jensen deu um sorriso de canto, cheio de más intenções, o que fez Jared revirar os olhos. Ignorou o olhar do moreno e se aproximou do Volvo prateado, abrindo o capô e observando o motor. – Que é que você fez com essa garota agora?

– Só a revisão de sempre, amor – Katie piscou e Jensen revirou os olhos, mas a loira já havia voltado sua atenção para Jared. – Jare-boy, como você cresceu!

– Você parece a minha tia falando – o moreno riu.

– Caiam fora da minha oficina, gralhas, eu preciso trabalhar em paz – resmungou Jensen, os empurrando para dentro da casa.

– Ele é sempre assim? – Jared olhou por cima do ombro e sorriu levemente, logo voltando a fitar Katie.

– A maior parte do tempo – ela sorriu.

– E você, o que anda fazendo por essas bandas? – indagou o moreno.

– Uma visita – disse Katie. – E você?

– Me mudei há algumas semanas – Jared sorriu. – Ah, visita, é claro, alguém importante como você nunca moraria num fim de mundo desses, não é?

– Não tanto fim de mundo quanto a gente morava antes, Jare-boy – Katie sorriu.

– Se não mora aqui...?

– New York, baby – a loira piscou. – Glamour Magazine.

– Mentira – Jared sorriu, levemente espantado. – É sério?

– Isso é óbvio, meu bem, o que você estava esperando de mim, hein, Jare?

Ficaram conversando por um pouco mais de meia hora até que um barulho alto na oficina chamou a atenção dos dois, então foram checar, mas não parecia ter acontecido nada. Apenas Jensen estava com o braço enfiado debaixo da torneira, blasfemando baixinho. Katie se aproximou, com Jared a acompanhando, e observou Jensen, que a ignorou.

– O que houve, Jen? – indagou Jared, vendo o profundo corte no braço do loiro.

– Nada – grunhiu ele, fechando a torneira e tampando o ferimento com uma toalha.

– Jen... – chamou Katie, mas o loiro a ignorou.

– O carro tá pronto.

Jared e Katie se entreolharam quando Jensen entrou na casa, batendo a porta com força desnecessária. O moreno arqueou as sobrancelhas, mas a loira balançou os ombros, indicando claramente que não sabia de nada.

– Não olha pra mim – pediu ela. – Isso acontece regularmente. Se acostume.

– Consolador – ironizou Jared. – Vou ver o que houve. Depois eu ligo.

– Vou ficar na cidade uns dias, então a gente se vê – Katie piscou.

Jared se despediu e foi atrás de Jensen. Encontrou o loiro no quarto, com o braço enfaixado de qualquer jeito e jogado na cama, de olhos fechados. Se aproximou sorrateiramente e se sentou na beira do colchão, sorrindo ao ver o loiro abrir os olhos, espantado, mas bufar ao reconhecer o mais novo.

– Que é que houve? – indagou Jared.

– Nada – disse Jensen. – Só me distraí.

– Eu notei – o moreno apontou para o braço enfaixado do loiro, que revirou os olhos.

– Jare, esquece, certo? – pediu o mais velho. – E, olha, foi mal, eu não deveria ter te trazido pra cá. Vai pra casa.

– Que é isso, cara? – o moreno sorriu levemente. – Tá com fome?

– Tô, mas...

– O que tá a fim de comer? – Jared se levantou, fazendo Jensen franzir o cenho.

– Como?

– Perguntei o que você tá a fim de comer – disse o mais novo, como se explicasse algo para uma criança. – E aí?

– Han... um prato de macarrão? – Jensen arqueou as sobrancelhas, acreditando que aquilo era alguma pegadinha do mais novo, mas Jared apenas sorriu e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Esperou alguns minutos para se levantar e descer, tentando imaginar o que o moreno fazia. Quando chegou à cozinha, não conseguiu refrear a baixa exclamação de surpresa ao ver Jared cozinhando. – Que acha que está fazendo?

– Nosso almoço – disse ele, inocentemente, enquanto sorria para o mais velho. – O que foi? Eu tenho que ser útil em alguma coisa.

– Acho que prefiro passar fome.

– Não cozinho tão mal assim – disse Jared, balançando os ombros, distraído. – Senta aí e cala a boca.

– A casa é minha – Jensen arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, tentando parecer irritado, mas um sorriso encrespou em seus lábios, o denunciando.

– Você me arrastou até aqui, se lembra? – o mais novo sorriu, fitando Jensen por cima do ombro. – Vai ter que me agüentar.

– Ótimo, um gigante que se acha um chef de cozinha – Jensen fechou os olhos automaticamente e mordeu o lábio inferior quando Jared lhe jogou água. Passou a mão pelo rosto, tentando tirar o excesso, e fitou Jared, que estava mais ocupado em sua crise histérica de risos. – Eu vou matar você.

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– Diz.

– Nop.

– Diz logo.

– Você vai calar a boca se eu fizer isso? – Jensen ergueu os olhos para Jared, que sorria marotamente, o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas. – Certo. Você venceu. É o melhor macarrão que eu já comi.

– Eu disse – o mais novo alargou o sorriso, mostrando as covinhas. – Por Deus, você parece um passarinho comendo.

– Ninguém mandou você fazer macarrão com molho – Jensen passou a língua pelos lábios, tentando tirar o excesso de molho com que havia se sujado, sem sucesso, e aceitou o guardanapo que Jared lhe oferecera, limpando o rosto. – Melhorou?

– Está apresentável.

Jensen gargalhou enquanto o mais novo sorria, mostrando as covinhas novamente. Embora tivesse conhecido o loiro a menos de um dia, sentia como se o conhecesse há anos. Suspirou levemente ao se lembrar de San Antonio, pousando o olha na parede.

– Jay? – o mais velho parou de gargalhar com a expressão pensativa do moreno e o observou. Parecia perdido em algum pensamento. Inclinou-se levemente e estralou os dedos perto do rosto de Jared, que se assustou. – Desculpe, mas você tava viajando. Pensando na namorada, Jare-boy?

– Não – o moreno sorriu levemente, constrangido.

– No namorado, então?

– Jensen! – se antes Jared estava constrangido, agora tinha certeza de que havia corado bem mais do que gostaria. – Que idéia absurda!

– Você corou! Por Deus, você corou, Jared!

– Seu maníaco – Jared desviou o olhar.

– Então quer dizer que o namorado não quer mais nada? – provocou Jensen, sorrindo marotamente enquanto cutucava as costelas do mais novo. – O que você fez pra ele não querer mais esse corpitcho?

– Vá à merda – murmurou o moreno, irritado.

– Hun, aposto que ele te pegou com outra, não é? – alfinetou o mais velho, ignorando a visível irritação de Jared. – Ou com outro? Era mais bonito? Ou tinha mais grana? – o mais novo suspirou, visivelmente irritado. – Han, aposto que ele era melhor de cama...

– CHEGA!

Jensen arregalou os olhos levemente quando Jared se levantou repentinamente, fazendo a cadeira quase cair com seu ato repentino. O mais velho engoliu em seco e se levantou, indo atrás do moreno quando ele se virou e saiu da cozinha a passos rápidos. O alcançou no meio da sala e segurou o braço de Jared, o impedindo de continuar andando.

– Ei, cara, desculpa, eu só tava zoando – explicou. – Foi mal, eu não sabia que ia te deixar chateado.

– Tudo bem – murmurou Jared.

– Ei, ei, eu juro, foi mal, eu não sabia – disse Jensen. – Come on, eu prometo que não vou falar mais nada sobre isso.

– Tudo bem, Jen – o mais novo sorriu tristemente e desvencilhou o braço do aperto de Jensen levemente. – Te vejo amanhã, all right?

– Jare... certo, vejo você amanhã.

O moreno sorriu levemente e saiu, fechando a porta sem barulho ao passar. Jensen suspirou e cruzou os braços atrás da cabeça, irritado. Por mais que Jared entendesse suas brincadeiras, sabia que, daquela vez, havia extrapolado os limites, mas não entendia o porquê do moreno ter ficado daquele jeito por causa do que havia falado.

"Jensen, seu idiota", pensou, suspirando. "Certo, hora de trabalhar."

Jensen se ocupou o resto do dia, mesmo não conseguindo se concentrar direito. Por algum maldito motivo, estava preocupado pelas coisas que havia dito a Jared. Maldita mania de "perco o amigo, mas não a piada". Grunhiu algo inteligível quando bateu com o cotovelo na pia de mármore da oficina, fazendo um choque irritante perpassar por seu corpo.

– Merda... – ele passou a mão pelo rosto, limpando o suor que escorria. – Que dia...

– Falando sozinho?

– Vá se foder, Misha! – Jensen grunhiu de espanto ao ver o amigo. – Tua mãe não te ensinou a bater, não, porra?

– Se ensinou, eu não lembro – disse o moreno. – O que foi? Tá de TPM de novo?

– Vá à merda – o loiro grunhiu de irritação enquanto limpava as mãos num pano que havia encontrado. – Só tô estressado, então não enche. – Jensen jogou o pano no ombro e puxou um maço de cigarros do bolso, acendendo um distraidamente.

– Essa merda ainda vai te matar – avisou Misha.

– Que se foda – resmungou o loiro, guardando o maço, depois fitou o amigo. – Tá brisando ou vai dar em cima da Cassidy e quer um conselho?

– Só vim saber do meu amigo idiota.

– Que fofo – ironizou o mais novo. – Morra.

– Eu também amo você – ironizou Misha. – Que houve entre você e o novato?

– Nada – disse Jensen. – Ele é bacana.

– Você tem noção que os caras vão pegar no seu pé por causa dele, não tem? – quis saber o moreno.

– Tenho certeza, mas que se foda – resmungou Jensen, distraído, mais ocupado em tragar o cigarro.

Depois de uma meia hora, Misha foi embora e Jensen agradeceu mentalmente que pudesse voltar a trabalhar em paz. Apesar disso, não teve muito trabalho. Quando acabou de consertar um carro relativamente antigo, se ocupou em começar a dar um jeito na moto de Jared. Aquela coisa lhe daria um bom trabalho. O moreno não parecia ser do tipo que conservava as coisas, muito menos a moto. Logo uma idéia ocorreu-lhe, então sorriu e puxou o celular, discando o número do mais novo.

Alô – Jensen riu com a voz sonolenta do amigo.

– Puta que pariu, Jarhead¹, eu pegando no batente e você dormindo? – gracejou.

Vá se foder, Ackles – resmungou Jared. – E é Jared, sua besta.

– Obrigado pelo elogio, Jarhead – provocou o mais velho, rindo ao ouvir o amigo bufar de irritação. – Agora, que tal a gente ir ao cinema?

Me convidando, J-dog²?

– De onde você tirou essa merda? – Jensen se recostou na pia, brincando com o cinzeiro relativamente cheio. – Bem, não interessa. É que eu vou com o Leo hoje. O molequinho anda me enchendo há dias para ir assistir esse filme que tá passando, e queria saber se você tava a fim de ir para eu não morrer de tédio.

Que gracinha, J-dog – Jared riu. – Viu no que dá ter filhos?

– Obrigada, sei disso há três anos – ironizou Jensen. – E aí? Tá a fim de ir ou não?

Certo – o mais velho sorriu. – Eu passo aí daqui a pouco, okay?

– Okay – Jensen se desencostou da pia. – Até mais, Jarhead.

Até mais, J-dog.

Jensen sorriu enquanto desligava o celular e o colocava no bolso da calça. Por um momento, parou para olhar as próprias roupas. Estava sujo de graxa da cabeça aos pés. Típico. Suspirou enquanto fechava a oficina e logo subiu para o quarto. Tirou as roupas sujas, as deixando num canto, e tomou um banho rápido, mas o suficiente para tirar a graxa de seu corpo. Depois de uns quinze minutos, enquanto prendia o relógio no pulso, ouviu a campainha tocar, e amaldiçoou-se internamente por estar suando frio ao pensar em Jared feito uma pré-adolescente apaixonada.

Antes que Jensen pudesse sair do banheiro, Leo, que Lauren tinha feito o favor de ir buscar na escolinha a pedido do loiro, chegou uns milhões de anos antes dele, abrindo a porta.

– Oi, tio Jared – o menino disse com uma voz fininha.

– Olá, Leo – Jared sorriu bem humorado, pegando o filho de Jensen no colo, bagunçando levemente o cabelo do garoto. – Onde está seu pai?

– Ele ainda tá no banheiro – o loirinho respondeu manhoso. – O que vamos assistir? – e puxou a jaqueta de Jared levemente.

– Eu não sei – o moreno fez uma cara brilhante de ponto de interrogação. – Talvez aquele A Era do Gelo 3, o que você acha?

Os olhos verdes do filho de Jensen brilharam, e o menininho desceu do colo de Jared com rapidez, correndo até a porta do banheiro.

– Pai! Vamos ver A Era do Gelo? – aquela voz fininha parecia ser quase suplicante, o moreno pensou rindo.

Claro, amigão! – Jensen berrou de dentro do cômodo. – Dá uns minutos pro seu velho aqui.

Jensen mexeu os ombros para trás, soltando um breve suspiro ao se olhar no espelho. Parecia meio nervoso, o que era uma novidade para ele, pensou imediatamente passando a loção barata que ganhara de Lauren no Natal. Tinha um cheiro gostoso de eucalipto que o deixava mais calmo. Finalmente, o loiro decidiu sair do banheiro, destrancando lentamente a porta, recebendo um animado Leo em seus braços.

– Pronto para ir? – perguntou, arrumando a gola da pequena camiseta pólo azul clara que o menininho usava.

– Mais do que pronto! – Leo riu, descendo do colo do pai e segurando sua mão.

– Oi, J-dog – Jared sorriu de seu lugar no braço do sofá.

– Oi, Jarhead – Jensen revidou sarcástico, enfiando a carteira no bolso do jeans. – Tenho que dizer que vou pegar o maior combo de pipoca que existir.

– Fato – Leo concordou enquanto era guiado por Jensen até o lado de fora. O loirinho deu uma breve olhada para Jared, vendo que o moreno andava calmamente ao seu lado com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta marrom. – Tio Jared! – o mais novo disse animado, puxando a enorme mão dele.

– Vê se não esmaga a mão do meu filho, certo? – Jensen censurou, sarcástico.

– Falou, papi – o moreno retrucou. – E tenta não matar a gente no meio do caminho.

– Aposto que eu dirijo bem melhor que você cozinha – disse o mais velho.

– Wow, cuidado, tiger – Jared gargalhou. – Ou vamos acabar indo pra um racha.

– Não duvido – Jensen sorriu. – Come on, ou vamos perder o filme.

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– E quando ele... – Jared não conseguiu deixar de gargalhar enquanto Jensen abria a porta e empurrava Leo para dentro. Desde que saíram do cinema, o garoto não parara de falar por dois minutos.

– Certo, agora lá pra cima tomar um banho, vamos – disse Jensen.

– Ah, pai, ainda tá cedo – Leo fez um biquinho tão fofo que Jared teve que tossir para não engasgar com o acesso de risos.

– Banho, depois você brinca mais um pouco com o tio Jared.

– Você me espera, tio Jared? – o loirinho perguntou, fazendo o moreno se refazer de sua crise de risos rapidamente enquanto se sentava no braço do sofá.

– Claro que espero, Leo – prometeu, abraçando as costelas, que doíam levemente.

O garoto sorriu e subiu quase correndo as escadas, enquanto Jensen meneava a cabeça, tirando a jaqueta e a jogando em qualquer canto em cima da mesa. Quando passou por Jared, o empurrou levemente, gargalhando quando o moreno caiu no sofá, quase no chão, o que deixava a cena mais engraçada.

– Jensen, seu idiota filho da mãe – Jared reclamou, tentando se equilibrar para que não caísse ao mesmo tempo em que tentava voltar ao sofá, mas estava realmente difícil. Aquela posição incômoda, embora engraçada, começava a deixar suas costas com dor. – Pára de rir e me ajuda aqui, droga!

– C-certo – Jensen demorou uns bons instantes para recuperar-se de sua crise histérica de risos e ajudar Jared a se sentar no sofá. O moreno fechou a cara enquanto se sentava, de braços cruzados, o que fez o mais velho revirar os olhos e se sentar ao lado dele, lhe cutucando as costelas. – Foi mal, Jarhead.

– Tá bem – Jared bufou, desdenhoso. – Ei, levanta.

– Pra que?

– Levanta – Jensen revirou os olhos e se levantou. – Agora vai até ali – Jared apontou para o patamar, fazendo o mais velho arquear as sobrancelhas. – É só ir lá e voltar, meu.

– Certo... – o loiro fitou Jared como se o mais novo tivesse enlouquecido e foi até o patamar, voltando em seguida e se sentando ao lado do moreno, que cutucou suas costelas.

– Você anda com as pernas arqueadas – comentou ele, sorrindo marotamente enquanto Jensen fechava a cara. – É engraçado.

– Você já se viu andando? – Jensen perguntou. – Parece uma criança, só falta saltitar. Acho que se atrapalha com o tamanho das pernas.

– Sabe o que parece você andando desse jeito? – Jared cutucou ainda mais as costelas do amigo, o obrigando a fitá-lo.

– Fala logo se isso te deixa feliz, criatura – Jensen sentiu um arrepio perpassar por sua espinha quando Jared se aproximou, a mão que antes cutucava suas costelas agora apoiada em sua coxa, ficando com os lábios a centímetros do ouvido do loiro.

Parece que você deu a noite toda.

– Droga, Jared! – Jensen socou o ombro do moreno, o fazendo se afastar, mesmo que ele estivesse mais ocupado em sua crise histérica de risos. – Vá se ferrar, seu maldito bastardo idiota!

– Peguei num ponto fraco, J-dog? – Jared gargalhou, passando o braço pelos ombros de Jensen. – Aposto que tem um namorado por aí...

– Vá se foder – o mais velho levantou bruscamente, fazendo Jared parar de rir, mas Jensen sorriu marotamente por cima do ombro. – Ele era bem mais gostoso que você, pode ter certeza disso.

– Era, é? – o mais novo sorriu.

– Ele não andava todo desengonçado como você – Jensen fez uma imitação cômica de Jared, que gargalhou. – E ele não era tão bobão.

– Bobão?

– Você parece uma criança, Jared – Jensen sorriu. – Às vezes confundo você com o Leo.

– Como? – o moreno voltou a gargalhar.

– É sério – disse o mais velho, se sentando ao lado do amigo novamente. – O jeito que você age, parece uma criança. Principalmente andando.

Come on, Jen, eu não sou assim – Jared sorriu levemente.

– É claro que é – Jensen riu. Antes que Jared pudesse retrucar, Leo apareceu, pulando em seu colo. O menininho já estava com seu pijama azul.

– Do que estão falando? – perguntou curioso, aninhando-se no colo do moreno.

– De como o Jared é mais criança que você – Jensen respondeu gargalhando, dando um breve tapinha no ombro do moreno.

– Ah – Jared exclamou, olhando seu relógio digital. – Tenho que ir.

– Por quê? – Leo ficou manhoso, abraçando-o com força.

– Porque... – o moreno bagunçou os cabelos do filho de Jensen. – Amanhã vou buscar minha prima no aeroporto. Quer ir também?

Os olhos do menino brilharam, e ele abriu um largo sorriso.

– Papai? – e virou-se para Jensen.

O loiro lançou um olhar sorrateiro à Jared, que balançou a cabeça positivamente.

– Sua prima é gostosa? – o moreno revirou os olhos.

– Passo aqui de manhã, certo? – e beijou o topo da cabeça de Leo, colocando-o sentado no sofá. – Estejam de pé as oito – Jensen bateu continência, entediado, o que fez o mais novo gargalhar.

– Tchau, Jarhead.

– Tchau, J-dog – Jared sorriu travesso, fechando a porta ao passar.

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Come on, Jensen, só falta você! – Jared socou novamente a porta do banheiro, bufando irritado.

Me dá um minuto, droga! – Jensen berrou, de dentro do cômodo.

– Você já teve muito tempo pra se maquiar! – implicou o mais novo. – Anda, ou você vai ficar pra trás!

Jensen ignorou os gritos de Jared, soltando um longo suspiro. Olhou-se no espelho, dando breves tapinhas em seu rosto para manter-se acordado e não cair de cara na pia. O loiro passou sua colônia e mexeu os ombros, suspirando.

– Pronto! – berrou de dentro do banheiro, destrancando a porta logo em seguida. – Estou bonito – e pegou Leo no colo, arrumando os ombros da camiseta do filho. – E você também, campeão.

Leo sorriu enquanto o loiro afagava seu cabelo despreocupadamente.

Jarhead, anda, mexa esse traseiro do tamanho do Maracanã!

– Não enche – o moreno balançou negativamente a cabeça, guiando pai e filho até a porta da frente. – Por aqui – disse indicando a esquina da direita para Jensen, que colocou Leo no chão. O menino por sua vez, correu para segurar a mão do mais novo.

– A sua prima é bonita, tio Jared? – Leo perguntou inocentemente. Jared lançou um olhar de censura a Jensen, que abafou uma risada.

– Bem, faz um bom tempo que não a vejo – o moreno refletiu, atravessando a longa avenida com o loiro em seu encalço.

Quando os três finalmente chegaram ao aeroporto, Jensen já estava impaciente nos primeiros cinco minutos. Ele e Leo estavam sentados lado a lado em algumas cadeiras pretas, onde havia um grupo de coreanos conversando entre si.

– Tem certeza que é esse aeroporto? – o loiro perguntou bocejando.

Jared o ignorou olhando por cima da multidão. Por ser extremamente alto, era bem simples procurar no meio do povo.

– Acho que a encontrei. Puta que pariu...

– Que foi? Sua prima é um travesti? – o loiro perguntou curioso.

– Vai se danar, J-dog. Não acredito no que essa menina fez no cabelo, ela é louca – o moreno meneou a cabeça, acenando freneticamente. – Ei, Charlie!

Jensen ergueu os olhos, procurando a direção onde Jared acenava.

– Papai, me levanta? – Leo pediu, puxando a mão do loiro. Com rapidez, Jensen colocou o filho nos ombros, levantando-se para aumentar o campo de visão do garoto. Enquanto isso, Jared abaixara o braço, andando rápido pelo aglomerado de pessoas que iam à direção oposta.

– Minha nossa... – exclamou parando na frente de uma garota, que sorriu em um lampejo, guiando-o para longe do aglomerado.

Jared examinava Charlie minuciosamente. Londres realmente a mudara, pensou imediatamente. O cabelo, antes de um castanho médio, encaracolado nas pontas, agora estava vermelho vibrante e liso. Suas roupas estavam um pouco mais "descoladas" do que antes, embora o ar de adolescente ainda estivesse por lá. A ruiva usava uma regata listrada com calça jeans e all star, sua mochila estava colocada discretamente em suas costas. O moreno notara dúzias de bottons e chaveiros por todo o objeto. Charlie ainda possuía a pele pálida cor de leite de sempre e os olhos verdes escuros, que sempre foram o ponto mais alto de seu físico.

– Jare, eu tenho que dizer... – a ruiva exclamou, arrumando a mochila. – Você ficou tremendamente gato.

Jared arqueou as sobrancelhas, dando um abraço na garota, tirando-a do chão por alguns instantes.

– E eu nunca tinha imaginado você de cabelo vermelho – e mexeu despreocupado numa das mechas do cabelo da garota. – Anda, tem duas pessoas querendo conhecer você.

Charlie franziu o cenho, deixando Jared a conduzir até o desembarque. Logo se aproximaram de Jensen, que se ocupava em fazer cócegas nas pernas de Leo enquanto o garoto gargalhava.

– Depois eu sou a criança, né, J-dog? – Jared sorriu, chamando a atenção dos loiros. Puxou Charlie para perto, – Essa coisa aqui é a Charlie.

– Oi, tia Charlie – Leo acenou alegremente, fazendo a ruiva sorrir.

– Que coisinha mais linda – ela ficou na ponta dos pés e apertou as bochechas do garotinho levemente, o fazendo rir. – Eu não sabia que você tinha um filho, Jare.

Jared se engasgou com a própria saliva enquanto Jensen gargalhava.

– Ele não é meu filho, Charlie – o moreno revirou os olhos depois de conseguir se refazer de seu acesso de tosse. – É filho dele – e apontou para Jensen.

– Uau – o loiro exclamou. – Pensei que sua família fosse de titãs, Jare.

Charlie gargalhou, seguindo o primo e o loiro até a saída do aeroporto.

– É bom começar a contar as novidades, ruiva – Jared comentou distraidamente enquanto andavam pela rua. – A primeira coisa é: que foi que aconteceu com seu cabelo?

A mais nova riu.

– Dá um tempo, Jare, eu precisava de um "up" no visual, estava me sentindo presa ao castanho, entende? – explicou.

– Então, Charlie? – Jensen chamou a atenção da prima de Jared. – Casada, solteira, viúva?

A ruiva gargalhou novamente, colocando uma das mechas de cabelo atrás da orelha.

– Solteira invicta, querido.

– Coitada de você – Jensen meneou a cabeça. – Tinha que ser parente do Jared.

O moreno apertou os olhos, irritado.

– Haha. J-dog, o comediante. – Jared arqueou as sobrancelhas. – Estão entregues.

– Não querem entrar para tomar chá? – Jensen perguntou, colocando Leo no chão e abrindo a porta logo em seguida.

– Não, obrigado, querido – o moreno retrucou, sarcástico. – Tchau, Leo – e deu um abraço no filho de Jensen, que logo em seguida, pulou nos braços de Charlie.

– Foi um prazer conhecê-lo, Leo, você é uma graça – a ruiva comentou, dando um beijo na bochecha do garotinho, colocando-o no chão rapidamente.

Leo correu até os braços do pai, sussurrando algo em seu ouvido que fizera Jensen rir. O loiro deu uma breve piscadela para Jared e Charlie, entrando em casa.

– Tem alguma coisa entre vocês dois que eu sei – cantarolou Charlie, dando um breve cutucão nas costelas de Jared enquanto eles caminhavam pela rua.

– Do que você tá falando? – o moreno arqueou as sobrancelhas.

– É impossível notar o jeito que vocês se olham, Jare – disse Charlie, fazendo Jared fitá-la como se tivesse enlouquecido. – Não me olha assim, meu bem. É verdade. Aliás, vocês formariam o casal gay mais fofo que eu já vi.

– Dá um tempo, Charlie, você endoidou – o mais velho meneou a cabeça, escondendo as mãos nos bolsos do casaco.

– Endoidei, é?

– Eu diria que a tinta fez mal ao seu cérebro, se você tivesse um... – Jared fez uma careta de dor quando a ruiva lhe acertou um forte soco no braço.

– Você é um cretino – a ruiva reclamou. – Você mora aqui, Jare? – Charlie ficara admirada ao ver o sobrado de dois andares em cores claras a três ruas antes da casa de Jensen.

– Moro – o moreno respondeu, fuçando em seus bolsos à procura da chave, logo a encontrando. – Adivinha? – Jared perguntou misterioso, abrindo a porta.

– O quê? – a ruiva o seguiu, curiosa, entrando no sobrado. – Cara, você é organizado demais para ser um homem – Jared revirou os olhos.

– Vai ter que dividir o quarto comigo. – o moreno sorriu marotamente, tomando a bolsa da ruiva.

Charlie suspirou. – Contanto que você não ronque, está ótimo. Em Londres, eu dividia o quarto com três pessoas. Um casal de gays e uma menina bissexual.

– Como sobreviveu? – Jared indagou, subindo as escadinhas curtas até o quarto com a ruiva logo atrás.

– Prometi a garota que cuidaria do gato dela se ela não me atacasse e o casal de gays eu jurei que tomaria conta de uma iguana que eles compraram no Pacífico – a ruiva relatou, olhando boquiaberta para o quarto organizadíssimo de Jared.

– Você virou babá de uma iguana e um gato? – o moreno sorriu travesso, arrumando metodicamente as almofadas da cama perto da janela.

– A iguana se chamava Cher e o gato era o Sonny – contou séria. Os dois se entreolharam e caíram na gargalhada logo em seguida.

– Sonny e Cher? – Jared se sentou na beirada da cama, gargalhando.

– Inacreditável, eu sei. Mas eles são bem criativos, assim como os pais deles. Escuta – a ruiva se sentou ao lado do moreno. – John e Paul eram o casal de gays. A menina se chama Yoko. E ela não é oriental.

– Minha nossa... – Jared continuou a rir, jogando o cabelo para trás. – Ou você só conhece pessoas estranhas ou eu, decididamente, jamais vou pra Londres.

– Não é pra tanto, Jare – Charlie gargalhou.

– Você tem noção de que, se a tia te ver desse jeito, vai matar você – disse o mais velho, sorrindo.

– Eu sei – a ruiva puxou uma almofada, colocando-a em cima da perna de Jared, apoiando a cabeça logo em seguida. – Mas não ligo nem um pouco – sorriu em um lampejo fitando o mais velho. – E como vão seus pais, Jare? Sinto falta da sua mãe. Ela me mandava barras de chocolate pelo correio, dá pra acreditar?

O mais velho parou de rir com a menção de sua família e, para seu azar, Charlie percebera imediatamente.

– O que foi Jare? – a ruiva se levantou, sentando com rapidez ao lado do moreno.

Jared ficou cabisbaixo por alguns segundos, voltando rapidamente a encarar os orbes verdes da ruiva. – Não falo com a família há cinco anos.

Charlie pousou a mão no ombro do primo, fazendo uma breve massagem.

– O que houve?

– Eu e meu pai nos desentendemos por... Ah... – Jared parou, à procura de um termo. – Por causa da minha orientação sexual.

Charlie ficou em silêncio por alguns segundos, à procura de alguma coisa para dizer.

– Qual é Charlie, diz alguma coisa. – Jared quebrou o silêncio, inquieto.

– Calma. Estou à procura de um termo decente. Jare – a ruiva coçou o queixo, pensativa. Até que finalmente, sorriu em lampejo para o primo. – Bem-vindo ao clube dos excluídos da sociedade.

– Isso é animador? – Jared sorriu torto.

– Um pouco – a ruiva sorriu, jogando a franja para trás. – Somos mais verdadeiros que aquela sociedade puritana. Isso está mais do que comprovado. E nós nos aceitamos exatamente como somos e cuidamos um do outro. Para mim, isso é o que significa "família".

– Londres fez de você uma poeta, priminha – o moreno a abraçou com um braço. – Mas você está certa. Não me importo se amanhã você chegar aqui com o cabelo roxo, o que importa é que você ainda vai estar aí dentro – e apontou para o peito da ruiva, na parte onde fica o coração. – Pelo menos, é o que eu espero, né?

– Bobo – Charlie sorriu e o abraçou com força. – Eu te amo, Jare.

– Hun, assim eu gamo, hein? Vem cá – Jared começou a fazer cócegas nas costelas de Charlie, a jogando deitada no colchão, sorrindo ao ouvi-la rir.

– Pára, Jared!

– Não mesmo – ele fez uma leve careta de dor ao sentir o tapa forte em seu braço, mas continuou com as cócegas. Apesar do tempo, Londres não havia mudado Charlie. Isso o animava imensamente.