7VERSE : VIDA 4

EPÍLOGO VIDA 4: UMA PEDRA NA MINHA DIREÇÃO

CAPÍTULO 2

ENXERGANDO LONGE DEMAIS


ATENÇÃO: O CAPÍTULO TODO É UM GRANDE SPOILER PARA QUEM NÃO ACOMPANHOU VIDA 4.


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Dean nunca gostou de reality shows e achava constrangedor acompanhar o dia a dia da vida dos outros. Sentia-se como aquelas vizinhas velhas que passam o dia inteiro na janela para saber quem está dormindo com quem.

É impossível entender o que é ser um DEUS sem ter sido transformado em um. Baldr possuía tantos e tão vastos poderes que era até difícil listá-los. Mas, nenhum se igualava à sua capacidade de ver tudo o que acontecia em todos os lugares simultaneamente. Podia estar de olhos fechados, mas via. A sala onde se encontrava, a rua onde morava, a nascente do rio Nilo, a cratera onde o homem pisou pela primeira vez na Lua, a sonda Voyager-I em um ponto muito além de Plutão. Via tudo com uma riqueza impressionante de detalhes. A visão combinada à memória fazia que, ao ver um objeto, sentisse a sua textura, o seu cheiro e até o seu gosto.

Baldr era mais antigo que qualquer idioma falado atualmente. Vira cada um destes idiomas nascer. Conhecia o significado de cada gesto em cada cultura. Isso lhe dava fluência em todos os idiomas. E também na interpretação da linguagem corporal. E, não só de humanos. Também de animais. Conhecê-los a todos como indivíduos tão intimamente o fazia entendê-los, admirá-los, amá-los. Entendia agora porque as histórias antigas diziam que Baldr era amado por todas as criaturas. Elas retribuíam o amor e o interesse que ele demonstrava por cada uma delas.

Entendia também que era esse amor não direcionado que fizera Baldr deixar o mundo seguir seu curso sem interferir nos destinos dos seres vivos por tantos milênios. Como privilegiar uma forma de vida em favor de outras? Todos tinham as suas razões para fazer o que faziam. O bem e o mal na verdade não existiam. Eram apenas pontos de vista diferentes. Vida, morte, multiplicação, extinção. Seria como tivesse que ser.

Não tomar partido talvez fosse a única forma de um Deus se mostrar justo. Baldr era o Sol e o Sol não faz distinções. O sol nasce para todos.

Dean começava a vislumbrar essa verdade, mas ainda era humano demais para segui-la.

Sempre fora engajado. Solidário. Sempre se importou com as pessoas. Tinha por profissão e vocação salvar vidas. E agora que tinha o poder de salvá-los, devia ignorar seus pedidos de socorro? Fingir que não escutava seus apelos, suas súplicas, seus gritos de dor? Era isso que se esperava de um Deus?

Mas, e se as pessoas que fossem poupadas de qualquer sofrimento? Se nunca fossem postas à prova? Se não lhes fossem apresentados desafios? Os animais protegidos dos zoológicos são mais felizes que os que lutam pela sobrevivência soltos no mundo? A morte, o envelhecimento, as doenças, as dores, os dissabores e as desilusões são parte indissociável do pacote conhecido como VIDA. É razoável transferir para Deus a responsabilidade pela solução de cada problema, cada dificuldade, cada desafio?

Mais difícil que não poder fazer nada é poder fazer qualquer coisa e saber que não deve agir assim. É como um pai, que não pode e não deve definir os rumos e viver da vida dos filhos.

Mas, e quanto àqueles de cuja vida já participara intensamente? Seus pais, sua filha, Sam.

É muito difícil desligar-se do passado. Daquilo que fomos. E, principalmente, daqueles que deixamos para atrás. Aqueles que amamos. Aqueles que sabemos que nos amam e que sofrem com a nossa ausência. Mais difícil ainda quando os vemos sofrer por nossa causa. E, querendo ou não, Dean acompanhava o dia a dia dos seus e testemunhava seu sofrimento, alongado pela esperança de que ele e Sam ainda estivessem vivos ou que seus corpos seriam finalmente encontrados.

E o pior era saber que esse sofrimento podia ser facilmente evitado. De muitas maneiras. Bastaria reaparecer e retomar sua antiga vida. Bastaria usar suas novas habilidades e substituir sofrimento por bem-estar. Ganhara esse poder. Esse dom. O mais maravilhoso de todos os dons. O dom de trazer bem-estar, o estado mais próximo que existe da felicidade. Só não fazia isso porque ..

.. queria para os seus uma vida normal. Eles MERECIAM uma vida normal. E sua presença tornaria isso impossível.

Acompanhar a vida de milhões de pessoas por milhares de anos deu sabedoria a Baldr e essa sabedoria lhe aconselhava a deixar todos acreditarem que ele e Sam estavam mortos. De qualquer forma, não podia retornar sem o Sam. E Sam não estava em condições de retornar.

Sam ainda estava longe de alcançar seu ponto de equilíbrio. Podia sentir suas mudanças de humor, seus acessos de fúria, a sua necessidade de aplacar suas dores com destruição cega. Felizmente, Hod conseguia canalizar essa fúria para o núcleo do planeta. As consequências eram sentidas apenas em pontos remotos do planeta. Um vulcão submarino da divisa entre as placas australiana e do Pacífico estava ativo desde que chegaram a Vancouver com violentas erupções quase diárias. O aumento da atividade vulcânica em todo o planeta já chamara a atenção de especialistas.

Queria abraçar Sam, mas sabia que isso desencadearia uma reação violenta por parte do irmão e isso podia ter consequências catastróficas. Escutava Sam acusá-lo de tê-lo abandonado, mas sentia que ele o repeliria se tentasse uma aproximação. Sam precisava de tempo. O que podia fazer, já vinha fazendo. Irradiando Sam com energia curativa. Uma onda de bem estar que ultrapassava os limites da casa e que se estendia por toda aquela região. Era isso que estava mantendo as folhas das árvores do bairro verdes em pleno outono, os canteiros floridos e atraindo pássaros. Atraindo também cães de rua e ratos, mas as pessoas estavam com o astral tão elevado que relevavam os pequenos problemas. Elas nunca tinham se sentido tão felizes antes.

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A morte faz parte da vida. Estamos condicionados a aceitá-la como parte da ordem natural das coisas. Doí, mas um dia passa. O tempo é o melhor remédio. O tempo foi passando e seus pais começavam a aceitar a morte dos dois filhos. Dean não sabia ao certo se isso o deixava alegre ou triste. Sua filha era adolescente e, embora chorasse às vezes, espantava a tristeza e seguia em frente. Como devia ser. O único que parecia não ter superado ainda sua morte era seu misterioso recém-descoberto filho.

Jamais saberia da existência deste filho se não tivesse se tornado o Deus da Luz. Podia ver o que acontecia em todos os lugares, mas geralmente focava sua atenção em um ou múltiplos objetos e ignorava os demais. Mas, às vezes acontecia de um detalhe minúsculo do gigantesco painel de seu campo de visão chamar sua atenção. E foi assim que tomou consciência deste 'filho'. Numa cidade pequena do Oregon, viu um rapaz, que tinha certeza nunca ter visto enquanto era um mortal, olhando com tristeza, talvez saudade, uma foto sua. Uma foto dos tempos da Global Rescue. Enquanto olhava para a foto, o rapaz deixou escorrer uma lágrima e o chamou de pai. Isso o deixou intrigado.

Tinha total convicção que era impossível que o rapaz fosse realmente seu filho. Mark Lawson era um garoto nascido e criado no Alabama, que saíra de lá apenas para estudar no Oregon. A mãe do garoto era atraente, mas tinha certeza que nunca tinha transado com ela. Usara as habilidades de Baldr para revisitar a própria memória. Sua vida e a da mãe daquele rapaz não tinham absolutamente nenhum ponto em comum. Ele e Mary Lynn Lawson nunca sequer se encontraram. Porque, então, o rapaz acreditava ser filho de Dean Winchester? Acessar diretamente as memórias do garoto era uma alternativa que esperava não precisar usar. Queria esgotar todas as outras possibilidades antes.

Talvez a mulher tivesse mentido ao filho sobre a paternidade. Dean Winchester era relativamente famoso. Fora entrevistado muitas vezes. Aparecera em programas de TV. Só não conseguia imaginar um motivo para aquela mentira. Os Lawson pareciam viver um casamento feliz. Ainda existia amor de parte a parte. Peter Lawson tinha muito orgulho do filho e não alimentava qualquer dúvida quanto a ser o pai biológico do garoto. Mesmo porque o garoto tinha a sua cara. Ninguém que os visse juntos duvidaria quanto a serem pai e filho.

Nada naquela história fazia sentido.

Os meses passaram e estava a ponto de dar aquele assunto por encerrado, quando vê seu auto-declarado filho ligar do celular para sua princesinha Sarah. Como ambos estavam ao ar livre, Dean podia ver e escutar como se estivesse simultaneamente ao lado de ambos. Percebeu que havia intimidade entre os dois. Estranhou que Sarah o chamasse de Ben. Ben? Não era Mark? Quanto mais escutava, mais intrigado e preocupado Dean ficava.

Dean não demorou para descobrir que Ben era de Benjamin Campbell, o misterioso dono da Global Rescue. Seu antigo empregador. Mark Lawson estava enganando Sarah ao se passar por Benjamin Campbell ou os dois eram cúmplices numa elaborada armação para controlar a Global? Entendera certo? Sarah, a sua menininha, estava mesmo usando um sofisticado programa de simulação de voz para se fazer passar Benjamin Campbell, cumprindo determinações de Mark Lawson? Há quanto tempo? Por quê?

Mark passara instruções para que ela fizesse um redirecionamento de parte dos lucros da Global para investimento em uma empresa de biotecnologia que produzia derivados de sangue. A transação, aparentemente, seria boa para a empresa. Até onde entendera, nem Mark nem Sarah teriam vantagens pessoais indevidas, mas tudo era muito suspeito. O que acontecera com o verdadeiro Benjamin Campbell? Ao se despedirem, Mark perguntou a Sarah se ela tinha alguma notícia 'do nosso pai'.

Dean era um deus da verdade. Podia perceber os sentimentos e as intenções das pessoas. Os sentimentos de Mark eram verdadeiros. Havia esperança na voz de Mark ao fazer a pergunta. Havia resignação e tristeza ao escutar a negativa. Havia amor antes, durante e depois da resposta.

Baldr viera de outra realidade e se fundira a Dean quase que imediatamente após chegar nesta. As memórias de Baldr anteriores à fusão eram as de sua própria realidade e Benjamin Campbell não existia na realidade de origem de Baldr. Não havia, portanto, como saber de fatos que aconteceram antes de estarem fundidos. Além disso, Dean não gostava de acessar as memórias recentes de Baldr relativas àquela outra realidade. Sentia-se incomodado desde que descobrira que a sua versão daquela realidade era gay.

Não podia protelar mais aquele assunto. Dean decide acessar as memórias de Mark. Mas o faria enquanto ele estivesse dormindo. Não pretendia se revelar para o rapaz. Pelo menos, não ainda.

E assim o fez. Naquela mesma noite, Dean se transportou para La Grande e tocou a testa do rapaz adormecido.

Dean estava aturdido. O garoto era realmente filho de Dean Winchester. Um inacreditável e infeliz Dean Winchester de uma linha temporal que não mais existia. Filho de Dean Winchester e de Lisa Braeden. Mas não nascera essa pessoa que é agora. Seu antigo eu sofrera na adolescência por não corresponder às expectativas do pai. Coitado do garoto, sempre ansioso por um elogio que nunca vinha. Esse outro Dean, era um babaca cretino. Não foi à toa que um dia o garoto desistiu dele e buscou no padrasto o pai que não tinha.

Nova surpresa: o garoto tivera contato com Baldr em sua realidade de origem. Uma realidade posta em perigo pela chegada do próprio Baldr. E, naturalmente, de Hod. O garoto ficara soterrado após um terremoto e teria morrido de frio se Baldr não o tivesse salvo. O garoto viveu um momento de intensa felicidade, ao escutar do pai que era amado por ele. Para, em seguida, sentir a dor de perdê-lo no exato momento em que acreditava terem finalmente se reencontrado.

Então, uma misteriosa entidade desencarnada interveio e enviou o garoto para o passado, com a missão de salvar a vida de Sam. O Sam daquela realidade e Mary, sua mãe, haviam morrido no dia do aniversário de 14 anos de Sam. E o garoto fora enviado exatamente para aquele dia. Era estranho rever-se tão jovem nas memórias do garoto. O garoto teve que lutar contra o próprio medo, o que tornou seu sucesso ainda mais significativo. Mas, ao salvar Sam e Mary, ele apagou a linha temporal de onde veio e deixou de existir. Ou DEVERIA ter deixado de existir. Mas não foi o que aconteceu. A partir daí, as memórias do garoto coincidem com os fatos que ele próprio já conhecia. Que vivenciara. Toda a realidade que lembrava ter vivido e que ainda estava vivendo havia sido CRIADA por aquele garoto.

De alguma forma, a consciência de Benjamin Winchester assumira uma forma física idêntica a que tinha antes e ele viveu 20 anos como Benjamin Campbell, o principal acionista da Global Rescue. Como Benjamin Campbell, cuidou dele, Dean, como um pai cuida de um filho. Fora graças a esse garoto, filho de uma versão alternativa sua, que ele, Dean, e também Sam, tiveram vidas tão extraordinárias, tão felizes. Graças a ele, Sam estava vivo quando Baldr e Hod chegaram a essa realidade e lhe propuseram o acordo que fez dele e de Sam deuses.

E, durante todo esse tempo, o garoto viveu assombrado pelo medo de deixar de existir. Por não saber se existia um lugar para ele no mundo que criou.

Um novo terremoto, um novo encontro com a entidade e o garoto acordara no corpo de Mark Lawson, um rapaz que acabara de MORRER vítima da queda de um ramo de árvore.

Que história mais fantástica! O garoto estava vivendo uma segunda vida. Era um homem feito e voltara a ser um pós-adolescente, ocupando outro corpo. Esse filho que não gerara e não conhecera dedicara toda a sua vida para fazê-lo feliz, depois de receber de seu outro eu apenas rejeição. O próprio Baldr não lembra de alguma vez ter encontrado o garoto. Também ele fora afetado pela mudança temporal.

Mas, havia nas memórias de Benjamin um elemento que o garoto nunca dera a devida importância. A entidade que manipulara para que ele e Sam se tornassem receptáculos dos deuses da luz e da escuridão, e que se apresentara ao garoto como sendo Gabriel, usara um objeto para sair da realidade que estavam. Um objeto que parecia, mas não era, um despertador digital comum. O mesmo objeto que Baldr lembrava ter visto em sua própria realidade. Era esse objeto que alterava de forma sutil o ambiente do quarto de motel onde o Dean e o Sam daquela realidade se hospedaram.

Aquele objeto era uma chave para outras realidades.

Dean estava atordoado com tudo o que descobrira sobre Mark Lawson e seu envolvimento anterior com Baldr e com o Dean que ele fora em outra linha temporal. Precisava de um tempo para assimilar o que acabara de descobrir.

Achou que se acalmaria observando as estrelas. Mas, o que viu foi um imenso asteróide se aproximando da Terra em rota de colisão. Se o choque viesse a acontecer, ninguém no planeta sobreviveria. Ficou apavorado com a perspectiva de observar impotente à morte de seus pais, de Sarah, de Lisa, de seus antigos colegas da Global e dos bilhões que, querendo ou não, podia ver batalhando diariamente pela própria sobrevivência e pelos próprios sonhos.

Sentiu medo de vagar eternamente num planeta morto.

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06.07.2014