Sinopsis: 1927, Howard Carter descobre o túmulo de Tutankhamon. No pico dos anos dourados da Egiptologia, duas pessoas movidas por fins distintos acabam juntas numa viagem por um mundo em plena exploração.


Travel to Strange

Capitulo 2


Mais uma vez Shaka acordara cedo, apesar do conceito de cedo ser um tanto "cedo demais". O desjejum só começava a ser servido no salão nobre do convés superior às oito, o que ainda lhe deixava umas boas duas horas para se preparar.

Saiu da cama lentamente, deixando escapar um suspiro de alivio. Aquela hora da manhã as temperaturas ainda eram amenas, sobretudo perto do rio. Para alguém que suportava pouco o calor era uma verdadeira delicia sentir a frescura da alvorada.

Enquanto se banhava, Shaka planeava o dia que acabara de nascer. Primeiro, desjejum. Da parte da manha havia uma visita guiada ao templo de Luxor. Esperava que regressariam a horas decentes, impedindo assim que ficassem muito tempo sobre o sol alto.

Almoço.

De tarde, uma visita guiada ao templo de Karnak. Templos, templos e mais templos. Imensidões no meio das cidades que séculos antes tinham sido grandes monumentos de culto.

Shaka não se sentia propriamente fascinado por esse tipo de coisa, mas porque não? Teria de ter algo para contar quando voltasse para casa de todas as formas. Podia sempre passar umas horas lendo no convés, à sombra, apreciando a vista.

Sim, aquela viagem podia não ser má de todo.

Após meia hora, estava pronto para enfrentar o dia. O barco ainda permanecia atracado, talvez pudesse dar uma voltinha em terra…

Hum. Não. Talvez fosse melhor esperar no barco mesmo, ou podia ter alguma ma surpresa desagradável.

Pegou num livro fino e saiu do camarote, percebendo que era o único acordado aquela hora. Silencio. Não podia esperar melhor.

Dirigiu-se a passos lentos até um conjunto de cadeiras que se encontravam viradas para o Nilo, acomodando-se numa delas.

Agora, só lhe restava esperar.

---oOo---

Mu sentiu o seu corpo estremecer, o que chamou o seu espírito adormecido de novo a realidade. Tinha adormecido sobre a cama, com a roupa do dia anterior, sem qualquer tipo de coberta para manter o seu corpo numa temperatura estável.

Ainda reticente, sentou-se sobre a cama, passando os dedos nos longos cabelos lavanda desalinhados e revoltos.

Ao sentir o estômago roncar, apercebeu-se de algo que devido à confusão do dia anterior lhe tinha escapado: não tinha jantado.

Que horas eram? Não conhecia bem o país, mas pela claridade parecia ainda ser cedo. Levantou-se, arrastando os pés ate ao pequeno banheiro que anexava o camarote.

A visão ao espelho era assustadora. Mu precisava urgentemente descansar plenamente e deixar de andar em busca de civilizações perdidas… como dizia o seu irmão, aquilo não o levaria a lado nenhum! Precisava sim de arranjar um emprego sério, deixando assim de sonhar o tempo todo.

Mas era isso o que era… um sonhador.

Arrumou-se decentemente tomando um banho, vestiu roupa lavada e penteou os longos fios lavanda. Verificou uma ultima vez se estava tudo em ordem, saindo para o convés.

O desjejum esperava-o na sala comum.

Não conseguiu impedir um longo bocejo ao sair do camarote. O sol tinha nascido no horizonte, ainda estava baixo.

Avançou a passos lentos pelo convés, acenando cordialmente a algumas poucas pessoas com quem cruzava. Entrou na enorme sala, onde algumas mesas estavam postas para o desjejum.

- Senhor?

Mu sobressaltou ao ouvir alguém interpelá-lo. Ajeitou os óculos finos sobre o nariz, abrindo um sorriso cordial para o atendente.

- Bom dia senhor. Seja bem-vindo a sala comum, o desjejum será servido dentre de minutos. – Mu assentiu em resposta – poderia me dizer o seu nome? Preciso confirmar na lista de passageiros a sua presença.

- Claro! Mu Lawrence.

- Agradeço senhor, queira me seguir por favor…

Mu foi levado até uma mesa perto da enorme fachada envidraçada, onde tinha uma vista sensacional para o exterior. Ao longe, conseguia distinguir o imponente templo de Luxor, perto do Nilo.

Estava feliz. Todos aqueles anos fascinado pela cultura egípcia, chegando a descobrir indícios de uma civilização desconhecida que teria vivido no mesmo tempo naquela zona. Uma civilização de grande avanço tecnológico para a época, a qual tal como a mítica Atlântida e quem sabe Lemúria teria sido erradicada da face da terra por alguma razão.

Os deuses estavam descontentes. Era essa a razão em que todos acreditavam.

Mu sorriu com os seus próprios pensamentos, colocando o guardanapo de pano sobre o colo. Antes de tudo, teria de aproveitar aquela viagem.

Tão distraído que estava e emerso nos próprios planos, não percebeu o súbito interesse de um par de olhos azuis sobre ele.

Desde que o jovem de longos cabelos lavanda tinha entrado pela porta da sala, Shaka tinha sido captado por aquela figura tão excepcional. Não só pela sua aparência exótica, mas havia algo a sua volta que cativava a atenção.

Um sonhador.

Shaka suspirou, fazendo um leve sinal negativo com a cabeça. Mais um que não sabia ter os pés assentes na terra e preferia viver num mundo de sonhos. Observou com o interesse de um cientista que observa a sua experiência o jovem de olhos verdes sorrir sozinho, fixando o olhar no templo que se erguia ao longe no horizonte. O queixo apoiado na mão direita, por sua vez apoiada na mesa pelo cotovelo, parecia sonhar acordado.

Por breves momentos, ele próprio parecia ter o olhar preso nas feições delicadas, nos lábios finos ligeiramente húmidos, nos olhos verdes em nada perdiam o brilho por causa dos óculos. Duas marcas pequenas no lugar das sobrancelhas? Shaka revirou os olhos. Mais um exibicionista…

Numa mesa à sua frente, virado para ele, Mu deixava-se levar mais uma vez por um longo bocejo de cansaço. Sentiu uma lágrima formar-se no seu olho esquerdo, e logo levou a mão para a secar.

Parou de repente ao perceber que alguém o fixava insistentemente. Piscou algumas vezes antes de conseguir sustentar o olhar azul de uma limpidez consternante.

- Senhor, deseja chá ou café?

Tão preso que estava àqueles olhos hipnotizantes, que deu um pulo de susto na cadeira quando ouviu a voz do garçon ao seu lado. Levou a mão ao peito respirando acelerado, virando a sua atenção para o homem de pe. Quando ele tinha chegado ali?

-Está bem senhor? – a preocupação era palpável na sua voz, ao perceber o susto que Mu tinha levado.

- Des… desculpe. Eu não o tinha ouvido chegar… - Mu acabou por esboçar um sorriso sem jeito, sentindo as suas bochechas aquecerem.

- Oh, não se preocupe senhor. Vinha apenas perguntar se desejava chá ou café.

- Café por favor. Acho que preciso de uma boa dose de cafeína para acordar. – retribuiu ao sorriso prestativo do garçon assentindo.

- Bem senhor.

Mu viu o seu ouro negro ser vertido na xícara à sua frente, o liquido fumegante soltando um delicioso odor a cafeína. Clareou a voz ainda se jeito, evitando voltar a olhar para o loiro de olhos azuis à sua frente, consternado por ainda sentir o peso do seu olhar sobre si.

Shaka sorria, contendo a vontade de rir da situação. Exibicionista? Talvez não… o rubor nas faces claras demonstrava claramente que não gostava de ter as atenções chamadas para si. Azarado sem duvida.

- Senhor, deseja chá ou café?

- Chá por favor.

- Bem senhor.

Apesar do liquido quente ser vertido na sua xícara, Shaka divertia-se a observar o jovem estranho, sonhador e azarado algumas mesas depois da sua. Parecia extremamente constrangido por estar a ser observado daquela forma, o que divertia mais Shaka. Observou-o beber um gole de café, desviando sempre o olhar dele. Visivelmente tímido.

Mu estava sentindo a paciência esgotar-se por estar a ser confrontado daquela forma. Logo ele que não gostava de chamar a atenção estava se sentindo incomodado com aquele par de olhos azuis dissecando-o. Por raciocínio lógico e pelo que tinha visto, Shaka era uma pessoa de posses. As vestimentas caras, o longo cabelo loiro cuidado e sedoso.

Mas que raio! O que aquele rico mimado pensava que estava a fazer? Não sabia que era má educação fixar assim uma pessoa?

Agradeceu ao garçon quando este lhe trouxe o comer, pegando num pedaço de pão. Respirou fundo finalmente tomando coragem, retribuindo ao olhar penetrante do loiro, com cara de poucos amigos.

Shaka não se abalou. Manteve a mesma postura de sempre sustentando o olhar do estranho que tanto fixava ao mesmo tempo que comia, ate se fartar daquele jogo de forças. Sem esperar mais, levou a xícara do chá aos lábios finos acabando de beber, secando-os com o guardanapo em seguida. Sem desviar os olhos de Mu, abriu um enorme sorriso. Golpe baixo… sabia bem, mas era tão divertido ver a face do jovem de cabelos lavanda ganhar cor. Ficava tão bonitinho corado daquela forma…

Mu acabou de comer rapidamente sentindo a face escaldar, levantou-se num salto e saiu da sala tão rápido que ia esbarrando num garçon.

O que tinha acontecido ali? Quem era aquele homem e o que queria dele? Não era possível que se tinha deixado levar tão facilmente… era fácil fazê-lo corar, e sempre se reprimia cada vez que acontecia.

Mas aquilo não ia ficar assim… ai não ia não… ou ele não se cham…

Sentiu uma dor aguda nas nádegas ao cair no chão.

- Senhor! Esta bem? – via alguém chegar perto dele, ajudando-o a se levantar – peço imensa desculpa senhor… o convés acabou de ser lavado. Não viu o aviso ali?

A vingança teria de esperar. Naquele momento estava mais preocupado a alisar as nádegas atenuando a dor, tentando acalmar o homem que parecia demasiado consternado com a situação.

---oOo---

Entrar no santuário de Amon, em Luxor, é uma experiência inesquecível. Pelo menos, era o que Mu pensava naquele momento. Avançava pela enorme avenida que precedia o templo, os bosques de colunas e relevos que percorriam toda a extensão ate finalmente serem acolhidos no recinto por esfinges, que pareciam dar as boas vindas.

- Na época de Ramsés II, a entrada do templo era ladeada por duas estátuas do faraó sentado, quatro mastros com bandeiras e dois obeliscos. – a voz do guia ecoava no santuário, um grupo de pessoas seguindo – Para glorificar o faraó Ramsés II, representou-se, nas paredes do pilone, a batalha de Qadesh contra os Hititas.

Tudo aquilo já Mu sabia à muito tempo. Apesar de ser a primeira vez ali, conhecia toda aquela historia de trás para a frente e as entrelinhas. O guia desenrolava a historia toda como se fosse obrigado a fazer aquilo, sem nenhuma expressão. Não admirava que a maioria das pessoas ali não estivessem com a mínima atenção, acabando por não entender o verdadeiro espírito do monumento, olhando como se fosse um amontoado de pedras.

Mas não importava. O que interessava era que estava ali, completamente fascinado e…

- Senhor, não pode tocar no obelisco.

Atrapalhado, Mu retirou rapidamente a mão do enorme obelisco que precedia o pátio. Tão fascinado que estava com aquilo, nunca mais se tinha lembrado de tal coisa. Olhou para o guia consternado, assentindo em sinal de que tinha entendido e pedindo desculpa.

Aproximou-se novamente do grupo ajeitando os finos óculos sobre o nariz, evitando olhar para os restantes presentes. Mas logo quando pensava estar liberado da vergonha, sentiu alguém o observar intensamente, tornando-o mais irrequieto.

Olhou de relance, percebendo um par de olhos azuis céu fixarem-no sem pudor. Desviou o olhar rapidamente engolindo em seco, reconhecendo o mesmo homem que o tinha fixado horas antes, durante o café.

O que aquele homem queria? Seria ele que tinha algo errado no rosto? E aquele sorriso nos lábios finos que sempre acompanhava o olhar fixo.

- Sigam-me por favor… se entrarmos no pátio conseguimos distinguir ali na esquina três capelas. Cada uma dedicada a uma barca sagrada: Amon, Mut e Khonsu. Tebas, como se chamava antigamente Luxor, era o centro de adoração do deus Amon. Aqui, Amon tinha a deusa Mut como esposa e o deus lunar Khonsu como filho. Neste templo adorava-se Amon nas suas diferentes formas. Uma delas era Amon-Ré que…

Mu afastou-se ligeiramente de onde estava, tentando esconder-se do olhar fixo de um certo loiro arrogante. Sem o constrangimento conseguiria finalmente prestar alguma atenção ao que o guia estava a dizer. Certamente tão cedo não teria outra oportunidade de viajar daquela forma portanto teria de aproveitar.

- Aqui ficam as salas mais privadas. Esta sala hipostila conduz à antecâmara, onde há restos de um santuário da época romana. Atravessemos por favor…

Mas o que estava a fazer? Céus, se alguma vez pensasse que ia fugir de alguém desconhecido porque estava a ser observado daquela forma… Apressou-se a seguir o grupo, tomando cuidado para não ficar na linha de vista do desconhecido.

- Esta antecâmara rodeada por um mammisi, ou "sala de nascimento", era o lugar onde Amon-Ré encarnava num homem para se unir à futura mãe do faraó. Como podem ver, nas paredes da sala está representado o nascimento divino de Amenhotep III, tal como verão em Deir-el Bahari, está reproduzido o nascimento divino de Hatshepsut.

Interessante! Muitíssimo interessante como forma de pensar. Todo aquele mistério em volta dos deuses e de não se conhecer exactamente como eram feitas as cerimonias de culto era algo que o fascinava. As colunatas pareciam contar uma historia, cada recanto ter a sua aura, cada…

- Não devia ser tão distraído sabia? Afastar-se assim do grupo pode ser deveras perigoso nestes lugares.

Mu já tinha perdido a conta da quantidade de vezes que era assustado daquela forma, só porque se perdia no meio de pensamentos e divagações, abstraindo-se completamente do mundo real.

- Ah, tem razão… devia ter mais cuidado. Obriga… - a sua voz sumiu quando percebeu quem era a pessoa que o tinha abordado. – você?

Shaka apenas sorriu. Um sorriso calmo mas que em nada reconfortava o jovem de cabelos lavanda. – Eu? Desculpe mas, conhecemo-nos?

- Não, claro que não… quero dizer. Acho que não… você esta constantemente me observando e isso é extremamente incómodo.

- Não nos conhecemos portanto. – o loiro estendeu a mão na sua direcção falando pausadamente – Shaka Gregory Ascott. Prazer. Agora que me conhece, deixe-me dizer-lhe que talvez seja mais sensato seguirmos o grupo.

Sem saber porque, talvez por intuição, Mu segurou na mão do loiro aceitando o aperto. Piscou algumas vezes não acreditando no que acabava de ouvir, hipnotizado pelos olhos azurados do seu interlocutor.

- Vamos? – Shaka deliciava-se com a reacção que causava. Puxou delicadamente a mão do ariano, fazendo-o avançar ao seu lado. – Posso lhe perguntar o seu nome?

Mu era encaminhado de volta para perto do grupo pela mão do loiro. Como se o seu corpo estivesse reagindo sem que ele soubesse bem porque, estava sendo encaminhado. Clareou a voz antes de responder a pergunta que lhe era colocada.

- Mu Lawrence… prazer é meu Shaka – respondeu mais por educação do que por sentimento. Aquele ser era demasiado estranho… mas não podia negar que o que tinha de estranho tinha de beleza.

- Mu, você é a pessoa mais distraída que eu conheço.

Continua