AVISO: os trechos do diário do Draco contém alguns spoilers do livro 7, mas nada que possa fazê-los me odiar.

A TEIA DA ARANHA

Capítulo 2 – Preso na Teia

Ainda estou insistindo nisso... Escrever esse diário... O que mais me resta? Preso neste quarto, me preparando para minha missão em Hogwarts sei que vou morrer de qualquer jeito. Se não for nesta tarefa que eu não desejo, será nas mãos do Lorde das Trevas. Talvez esteja gastando meus últimos momentos pra escrever isso, como uma forma de deixar registrado o supremo sacrifício que estou pra fazer.

Meus planos seguiram por uns poucos dias, mas mesmo aquele abraço não se repetindo, algo mudara entre nós. Muitas vezes ficávamos ali, calados, apenas observando o plácido lago, em outras falávamos da solidão, da tristeza e dos sonhos. Coisas que somente amigos fazem, mas... Havia algo mais. E isso me deixou satisfeito, sabendo que estava tendo sucesso. Tolo! Eu... Era o tolo.

Mas precisamos mudar aquela nossa rotina, pois um intrometido garoto da minha casa quase nos pegou juntos. Aquele lago estava movimentado demais! Então decidimos nos ver na Torre de Astronomia, depois do toque de recolher.

Os olhos cinza observam atentamente a porta que leva ao topo da torre, temendo que essa mudança tivesse sido muito radical para o Potter ou que a desconfiança dos intrometidos de seus amigos tivesse sido despertada. Qualquer das duas hipóteses coloca em risco seus planos, o que ele nem pensa em cogitar, pois não tem mais idéia nenhuma. Passa a observar o céu estrelado, notando como nesta noite as estrelas estão mais brilhantes do que o normal ou... Talvez tenha parado para prestar atenção e isso faça uma grande diferença. Teme os rumos que tudo isso possa tomar, lutando contra a idéia de que aquele abraço também mexeu com seu íntimo. É bobagem sua! Só não está acostumado com esse tipo de coisa, muito menos do seu maior inimigo.

Começa a se mover inquieto, de um lado a outro da torre, sabendo que logo terá de fazer uma nova visita a sua casa, onde terá de prestar contas a seu pai. Somente a lembrança desse detalhe fazendo-o estremecer. Ele quer resultados e o que tem a relatar? Que o Potter lhe deu um abraço de amizade e consolo?

"Imperdoável! Parece que ouço a voz dele dizer com aquele tom de desprezo." – Tudo isso embrulhando seu estômago frágil.

- Desculpe a demora. – Harry diz um pouco preocupado, sabendo que o loiro não é das pessoas mais pacientes. - O pessoal custou a ir dormir.

- Imaginei. – Ele se volta tranquilamente, como se nem tivesse notado uma hora de atraso. – São as vantagens de ter um quarto próprio. E... Ninguém ousa perguntar aonde vou.

A conversa inicial é seguida de um silêncio incômodo. Antes cada um deles sabia onde sentar ou o que fazer diante do lago, agora é uma situação nova. Ficam ali parados por alguns instantes, cabeças baixas, novamente aquela incômoda sensação tomando conta do ambiente, até que Harry se senta encostado nos balaústres, Draco ficando de pé ao lado dele.

- Nunca tinha reparado em como o céu daqui é bonito. – Os olhos cinza percorrem novamente a abóbada celeste. – Engraçado como estamos sempre tão alheios, enquanto coisas lindas como essa passam despercebidas.

Os olhos verdes se voltam para o rapaz de pé, admirando como o conhece tão pouco, pois nunca imaginara ouvir coisa tão profunda sair de seus lábios. Repreende-se, percebendo novamente como tem o costume de prejulgar, quando as pessoas são muito mais complexas do que possa pensar.

- Harry... Posso te fazer uma pergunta? – Treme, a pergunta seguinte sendo um passo decisivo em sua estratégia.

- Claro! – Sorri, pois é muito raro que ele o chame pelo primeiro nome.

- O que é isso que está entre nós desde que você me abraçou? – Respira somente depois de conseguir falar tudo.

O moreno se levanta também. Não sabe dizer por que, mas a pergunta o deixa nervoso. Fica ao lado dele, mas também se perde observando os arredores do castelo, evitando olhar diretamente para o loiro. Percorre seus sentimentos, sabendo que realmente há algo, mas... Não consegue definir. Há uma necessidade de se verem, mas ao mesmo tempo um temor a cada encontro. Por dentro há um calor estranho, o coração acelerado, um leve descompasso na respiração. Nunca sentiu isso e...

- Pra ser sincero... Não sei te dizer. – Sua boca fica estranhamente seca, um leve tremor em suas mãos quase denunciando o seu nervosismo. – Você também sente?

- Se eu não sentisse não te perguntaria, seu... – Cala a boca imediatamente. Precisa se controlar, acostumado que está a insultá-lo. – Desculpa... O costume do dia-a-dia... Às vezes é difícil separar um momento do outro.

Um riso meio sem graça passa pelos dois, que se voltam, os rostos se encarando finalmente. Os olhos verdes admirando os cinza, percebendo que nunca reparara nos leves toques prateados de suas pupilas. Novamente aquele sentimento se instala, o corpo respondendo a tudo aquilo que parece mexer com o íntimo. As respirações ofegantes, condensando-se no ambiente gelado que denuncia a proximidade do inverno.

Draco fica sem saber o que fazer, como se aquelas esmeraldas tivessem gelado completamente sua iniciativa. Não consegue pensar no que fazer em seguida... Isso depois de ter planejado direitinho tudo que faria. Fica ali, sem ação, tentando pensar no próximo passo, mas... Nada. Apenas desespero e vontade de sair correndo, mas suas pernas estão sem ação. De repente, mesmo sem planejar, sem ter pensado nisso, leva sua mão e toca o rosto delicado a sua frente. Aquele toque sendo tão intenso, como se toda a sua pele estivesse eletrificada.

Quando aqueles dedos finos e frios tocam seu rosto, Harry sente um forte estremecimento. Um arrepio percorre todo o seu corpo, causando reações que jamais sentira, coisas que não esperaria sentir ao toque de Malfoy. Ainda sem entender sua própria reação, encara ainda mais os olhos prateados, querendo ler neles o motivo para seu antigo desafeto estar agindo assim. Mas fixar o olhar em seu rosto apenas o instiga ainda mais, sentindo uma louca vontade de... Potter se afasta ainda sem saber o que fazer, meio perdido em um turbilhão de sensações que jamais sentira antes. A confusão finalmente o faz dar as costas ao loiro e sair correndo escada abaixo.

O outro permanece uns instantes ainda paralisado, sua mão levantada no ar, ainda com a sensação daquela pele macia sob seus dedos. Quer sorrir, sabendo o efeito perfeito que causou, mas não consegue. Isso mexeu demais com ele também e... Isso não estava nos planos.

Olha mais uma vez para as estrelas, tentando entender a si mesmo. Odeia aquele garoto metido a 'herói' e quer cumprir sua parte no acordo para ser livre, mas...

"Isso tudo é impressão minha!" – Dá um tapa na própria cabeça. – "Estou conseguindo o que queria... Estou apenas entrando no personagem."

ooOoo

Os encontros daquele dia em diante cessam, apesar de Draco estar todas as noites na Torre de Astronomia. Vê Harry todos os dias na escola, mas este o evita, fazendo de tudo para não ficar sozinho em qualquer momento. Seus olhos nunca se encontram, percebendo que as esmeraldas parecem fugir dele.

Teme ter exagerado na dose, mas algo mais o incomoda. Há uma tímida aproximação do moreno com uma garota da Corvinal... Uma que era... Se não se engana... Namorada de Cedric Diggory. Sente uma profunda repulsa por aquela garota que sequer conhece. Observa seu cabelo preto extremamente liso, os olhinhos escuros, o rosto sem nada de especial. O que teria atraído Harry? Ela é absolutamente, completamente, totalmente sem graça. Em certo momento a menina parece perceber a atenção sobre si, olhando para o loiro, que lhe lança um olhar de ódio e a habitual expressão de nojo, fazendo com que rapidamente volte o rosto.

Draco se envolve em uma situação de perseguição, da qual não se dá conta. Sempre está nos locais onde Harry está, observando cada atitude, cada roçar de mãos ou conversa com segunda intenção. Sente algo contorcer-se dentro dele. Sabendo que toda sua atenção é percebida pelo outro, que evita olhá-lo, mas que não o consegue com sucesso.

Malfoy pensa nisso tudo que está fazendo, às vezes, quando consegue um pouco de clareza, mas em geral faz como que por instinto. Quando racionaliza suas ações, com a cabeça sobre o travesseiro, nas noites insones, acredita estar raivoso por seu plano estar falhando.

"Tudo por causa daquelazinha!" – Suas entranhas se contorcem cada vez que se lembra do rosto da garota.

Apenas três dias depois do incidente da torre parecem uma eternidade para o loiro, já meio fora de si. Todo o cuidado que tomara no início deixa de existir, procurando uma forma de abordar o outro dentro da escola, agindo para trazê-lo de volta a seus planos. Observa cada passo em falso, cada oportunidade de chegar até ele sem ser visto. E todo seu esforço é recompensado em um dia quando Harry esquece suas anotações na sala de poções, voltando sozinho para apanhá-las. Quando finalmente deixa a sala, o corredor completamente vazio, segue apressado para a próxima aula quando é empurrado para dentro de uma sala vazia.

- O que... – Grita ainda sem saber o que está acontecendo.

O loiro o encosta contra a parede, esbarrando em algumas carteiras, fazendo mais barulho do que gostaria. Segura seus braços, o rosto deles tão próximos que podem sentir a respiração um do outro.

- Ficou maluco? – Harry tenta se soltar, mas não consegue.

- O que foi que eu te fiz? – Malfoy está claramente alterado, mais do que ele mesmo imagina. – Você tem me ignorado...

- Eu... Não... Não é você. – O moreno tenta abaixar o rosto, mas o outro solta um de seus braços e toca seu queixo, fazendo com que o encare.

- Não sou eu?! Você evita somente a mim... Enquanto fica com... – Sua voz sai com dificuldade, entrecortada por sua respiração ofegante. – Enquanto fica cheio de graça com aquela... Aquela...

- Espera... Eu... Estou confuso... – Toda aquela fúria mexendo demais com ele.

As mãos finas do loiro soltam os braços de Harry, uma delas enlaçando-o pela cintura, encostando os dois corpos, seus rostos ainda mais próximos, eletricidade em seus olhos que continuam se encarando, agora sem palavras. Delicadamente a outra mão se coloca na nuca do moreno, que imediatamente se arrepia, trazendo-o para frente, fazendo com que os lábios se toquem delicadamente. Os olhos prateados observando sua reação quando estes se afastam.

Harry parece um pouco assustado com a ousadia, mas... É seu o próximo passo, atacando com paixão os lábios que o haviam tocado, também enlaçando o loiro, aproximando ainda mais os corpos enquanto o beijo se aprofunda. E tudo se apaga no calor daquele beijo. Nada mais no mundo importa, apenas tudo o que sente enquanto suas línguas se tocam, as mãos do outro subindo por debaixo de sua camisa, tocando sua costas, aumentando os arrepios que o percorrem.

Draco coloca uma de suas pernas entre as do moreno, deixando-se levar por aquilo que seu corpo dita. Nada de planos, nada de acordo, apenas seguindo seus instintos. Uma de suas mãos desce, tocando as nádegas, passando pela coxa, esse movimento fazendo com que sinta o efeito que causa... Na proximidade de seus corpos pode sentir as ereções roçando uma na outra, o desejo ficando ainda maior, querendo...

- Harry! – A voz de Hermione ecoa pelo corredor vazio.

Isso os faz despertar, os lábios finalmente se separando. Ficam alguns instantes se olhando, em silêncio, ainda assustados com a intensidade do que aconteceu. Tudo parece girar, com os dois no centro, sem acreditar que algo como isso pudesse acontecer com eles.

- Pre-preciso ir. – Harry diz ainda trêmulo, ajeitando a camisa, colocando a mochila no ombro, tentando disfarçar aquilo que está evidente em suas calças.

- Desculpa... Eu... – Malfoy não sabe o que dizer, pois o medo o cala.

- Conversamos à noite. – A mão pequena do moreno toca em seu rosto. – Na Torre.

Nada consegue dizer enquanto observa o outro deixando a sala furtivamente, fingindo que vinha de outra direção ao encontrar os amigos no corredor.

- Eu fui até o banheiro... Não precisam se preocupar. – Sente que a voz de Harry ainda está falhando. – Não preciso de babás.

Só volta a respirar quando percebe que se afastam, sentando no chão da sala. Coloca a cabeça contra o joelho e as mãos sobre ela.

"O que está acontecendo comigo?" – Seus pensamentos estão desordenados, tudo rodando como se perdesse todo o controle. – "Eu estou apenas interpretando... Apenas interpretando... O personagem. Não... Não! Maldito cabeça rachada!"

ooOoo

O vento faz os dois tremerem enquanto se perdem no ardor daquele beijo, deslizando devagar até que deitam sobre a laje fria, os corpos cada vez mais próximos, mãos explorando, invadindo os robes, passando por baixo dos pijamas, tocando as peles quentes e arrepiadas. Os lábios do loiro descem pelo pescoço, deliciando-se com a pele macia e delicada.

- Humm... Draco... Pre... Precisamos conversar. – Harry se arrasta de volta para a racionalidade, perdido que já está no mundo sensorial, sabendo que não podem se deixar levar por tudo isso.

Um tanto irritado o loiro pára e se levanta. Seu movimento sendo imitado por Harry, que fica a sua frente, encarando os olhos famintos.

- Ok. Então fala. – O nível da irritação dele sobe às alturas.

- Não fica assim. – O moreno tenta burlar o gênio do garoto, sem ofendê-lo. – O que está acontecendo... Eu... Nunca...

- Será que você tem de racionalizar tudo? – Controla toda sua frustração. – Eu também estou confuso. Nunca imaginei sentir tudo isso. Eu não planejei estar aqui com você... Acha que faz parte de algum plano maligno para destruí-lo?

- Não... Eu... – Fica sem ação diante dessa torrente de indignação.

- Seu problema é não entender sentir isso por um garoto ou... – Respira fundo, pois está jogando duro. – Não consegue aceitar o fato de sentir isso por mim?

- Pára com isso! – Harry o puxa para si, ficando bem próximos. – Você alguma vez imaginou que gostaria de um garoto assim dessa forma? Eu não. Sou meio sem jeito com garotas, mas... Achei que era coisa da idade.

Passa a mão por sua cintura, sentindo o leve tremor no corpo pálido.

- Não tem nada a ver com o fato de ser você. – Toca de leve seus lábios e se afasta, voltando a encará-lo. – Na verdade, tudo sobre nós tem me surpreendido este ano.

Toma seus lábios com mais ardor, sentindo o corpo ligeiramente mais alto se derreter em seus braços, o frio sendo esquecido.

- Estou confuso por te desejar tanto. – Diz com os lábios ainda colados, mas se afasta para observar os cinza. – Não dormi pensando em você... Temi o que sentia... Queria ver se era igual com a Cho...

- Aquela... – A voz irritada sai quase sem querer.

- Mas não é igual... – Passa a língua em seus lábios. – Estar nos seus braços... Me...

O beijo novamente faz os dois se perderem, os toques se intensificando a cada instante, luxuriosamente se tornando mais íntimos, mas quando as mãos de Draco descem e tocam Harry mais intimamente... Ele reage e pára.

- Não! – O garoto se encosta aos balaústres tremendo.

- O que foi?! – Draco olha intrigado para ele. – Você não quer...

- Não... Não estou pronto. Eu... Não sei... Se é isso que quero. – Sua voz está igualmente trêmula.

- Você acabou de dizer... – A voz de Draco se torna irritada de novo. – Era só uma mentira pra me acalmar?

- Não... Não é isso. – Tem medo de não conseguir exprimir o que realmente sente. – Estou confuso... Não sei... É um passo muito grande... Eu nunca... Amanhã...

- Amanhã não estarei aqui. – Há tristeza em sua voz. – Vou passar o final de semana na casa de meus pais.

- Não! – Harry tenta se aproximar, mas ele o impede.

- Pense muito bem no que você quer. – Tenta vencer o nó que aperta sua garganta. – Sei que você tem medo... Nunca esteve com ninguém. Também tenho medo, pois isso nunca foi bom pra mim.

Aproxima-se e toca delicadamente os lábios de Harry, com uma expressão de despedida no olhar.

- O caminho que estamos seguindo nos leva a isso. – Passa delicadamente os dedos na pele macia. – Então tenha certeza de que quer seguir por ele. Senão terminamos por aqui.

Ele sai deixando um Harry inseguro e infeliz, mais uma vez em sua vida sem saber o que fazer perdido na solidão, se agarrando a todo amor que invade sua vida, mesmo que não o procure. Tem mais medo do que já teve antes, mais medo do que aquele que sentiu ao enfrentar Voldemort. Enfrentar um sentimento tão forte, tão desconhecido, algo que pode virar sua vida de pernas para o ar, mais uma vez... Está completamente apavorado.

ooOoo

Pensando friamente eu poderia voltar para casa feliz, sabendo que meus planos corriam muito bem, forçando Potter a confiar plenamente em mim. Uma jogada perigosa, mas que dava sinais de pleno sucesso. Mas não era assim que eu me sentia.

Para ser franco, eu não acreditava de verdade que estivesse envolvido, creditava todas as sensações a um grande talento para o teatro que ainda não fora descoberto. Eu seria o novo 'Lawrence Olivier'... Ok, eu também gosto de algumas coisas trouxas... E antigas, diga-se de passagem. Mas o ponto é que o homem foi um dos maiores atores trouxas e eu era mais talentoso que ele.

Mas procurava afastar da minha mente o final de toda essa trama, pois quanto mais pensava na morte dele, mais me acovardava. A repulsa, a revolta, tudo isso ia contra toda a rivalidade que sentia desde o primeiro ano. Decidi me concentrar na minha parte do plano, esquecer que meu pai o mataria.

A biblioteca como sempre o apavora, mas mal chega em casa e logo é arrastado para lá. Seu pai está empolgado, ansioso por perguntar de seus progressos, mas nada dizendo, como se fosse obrigação de Draco entregar seu relatório de uma vez, sem enrolação.

- O senhor ficaria orgulhoso. – Diz desejando sua aprovação. - Eu preparei a teia, direitinho, e estou com a 'mosca' quase completamente presa a ela.

- Quase?! – O tom de sua voz desanima o garoto, pois está carregado de insatisfação. – Então você não foi capaz de...

- Olha... Eu disse que demorava. – Só depois de interrompê-lo é que percebe como isto ultrapassa os limites existentes entre eles. – Desculpa... Ele está confuso... Normal... Ele nem sabia que pudesse gostar de um garoto! Mas estou chegando lá.

A afirmação acalma Lucius que pretendia demonstrar como não gosta de ser interrompido. Sabe muito bem de toda a evolução dos planos do filho através de seu espião mais do que eficiente, mas não pretende revelar seu ardil.

- Muito bem. – Se mantém afastado, querendo estimular toda essa autoconfiança que o filho demonstra pela primeira vez, sabendo que necessita dela para a conclusão do plano. – Mas preciso tê-lo totalmente confiando em você... Muito em breve.

Draco permanece calado, sendo arrastado para a real finalidade de toda essa trama, vendo nos olhos paternos todo o desejo de ter o sangue de Potter em suas mãos.

- O Lorde das Trevas está a par do seu plano? – O garoto diz isso, recuando com o olhar que o pai lança.

- Por que está me perguntando isso? – Uma profunda irritação toma conta do homem.

- É que... Será... Sempre achei que ele quisesse... – Engole em seco ao notar como cada palavra sua tem um efeito terrível sobre o pai. – Temo que seu plano esbarre nos planos dele... Pensei que ele quisesse... Matar o Potter pessoalmente.

- Cala a sua boca. – Seus olhos faíscam de ódio. – Você está falando isso somente por que não quer causar a morte do Potter?

Draco se refugia atrás de uma grande poltrona, sentindo claramente que ultrapassou o limite máximo de Lucius.

- Não é verdade! – Pensa muito bem no que dizer. – Só não quero vê-lo com problemas...

- Quanta preocupação! – Há um profundo desprezo em sua voz enquanto passa por ele, já deixando a biblioteca. – Concentre-se na sua tarefa... Deixe as decisões para quem sabe tomá-las. Alguns são feitos pra comandar... Alguns só devem obedecer.

O garoto fica parado, as palavras do pai ecoando em sua mente, desejando deixar de lado todo o desprezo dele. O mais assustador foi não ter reagido de forma mais efetiva. Desde quando Lucius é tão contido? Isto o faz estremecer, pois novidades nem sempre são bom sinal.

Senta-se na poltrona ainda tentando se recuperar da conversa, mas pensa muito na conversa que tiveram e algo fica insistentemente provocando seus pensamentos. Será que seu pai está certo? Toda sua resistência em continuar a missão estaria no fato de não querer a morte de Harry?

- Nem pude te ver direito. – A mãe pára ao lado da poltrona, abrindo os braços para o filho que se levanta de um pulo e a estreita em seus braços. – Esse plano do seu pai... Seja qual for ele... Tem uma coisa de bom. Trouxe você mais vezes para casa.

- Pelo menos a influência da família serve pra alguma coisa. – Ele diz no tom irônico que ela não gosta e percebe isso. – É bom vê-la.

Ela se afasta ligeiramente, passando a mão por seus cabelos delicadamente, observando o rosto do filho, a pessoa mais importante em todo o mundo... Pelo menos no coração da mãe. Por ele faria qualquer coisa.

- Quer comer algo? – Narcissa se dirige para a porta. – Pensei que ia chegar mais cedo e preparei seus pratos favoritos.

- Aceito! Claro! – Sorri para ela com carinho. – Estou faminto.

Enquanto aguarda a volta da mãe decide observar os livros. Este é o território de seu pai e raramente pode olhar sua extensa biblioteca. Sabe que a grande maioria desses livros nunca foi lida, mas tudo isso impressiona os demais comensais, que o consideram um homem extremamente culto. Irônico! Lucius é mais um 'pavão' como os que tem no jardim do que um intelectual.

Mas em um canto quase escondido das estantes encontra livros de escola. Pega um deles, de 'História da Magia' e reconhece a linda caligrafia de sua mãe, seu nome escrito de forma delicada na contracapa. Sorri ao pensar na delicada garota loira na escola, uma slytherin atípica, mas dedicada, como em tudo que faz. Pega outro livro, o de Poções, sabendo que fora a matéria favorita dela. Quando o tira da prateleira algo cai de dentro dele... Uma fotografia. Abaixa-se e a toma em suas mãos, observando o rapaz bonito, de cabelos escuros e...

"Por que minha mãe tem uma foto do pai do Harry? Pelo menos acho que é ele, pois são muito parecidos." – Pensa intrigado, ainda com a foto na mão, escondendo-a no bolso da calça assim que percebe que ela se aproxima, devolvendo o livro para o seu devido lugar.

Narcissa entra solícita, fazendo aparecer, vindo diretamente da cozinha, muitas guloseimas sobre a escrivaninha que esvaziara com cuidado. O filho se aproxima dela, olhar guloso sobre as coisas deliciosas.

- A senhora me mima demais! – Pensa ainda na foto que o surpreendera. – Sempre a mãe tão sincera... Incapaz de esconder algo de mim.

- Ahn?! – Ela observa-o intrigada, não entendendo a dimensão de suas palavras. – Senta comigo e me conta o que anda fazendo de bom.

Draco decide deixá-la em paz, pois há muita coisa da qual se envergonha e prefere não falar sobre isso, então por que a julgaria? Farta-se de seus doces preferidos, os olhos da mãe sobre ele trazendo-lhe conforto.

ooOoo

"Fogo... Fogo... O calor insuportável... Draco corre... Está encurralado... Sem saída... Olhos verdes... A mão segura a sua..."

- Não! – Mais um dos pesadelos que o atormentam, tendo se tornado uma constante nos últimos tempos, desde que tudo isso começou.

- Sonhando com o que? – A voz vem da escuridão, longe da luz do abajur. – Espero que não seja com...

Draco senta na cama assustado, seu coração apertado pelo pavor. Observa seu pai aproximando-se da cama como uma aparição. Deseja levantar, mas o medo o paralisa completamente, agarrando-se com força às cobertas.

- O que o senhor quer? – Nem acredita que conseguiu dizer qualquer coisa. – Temos um acordo...

- Você ainda não me deu o que quero... – Lucius fala de forma mansa e gentil. – Sinto que sua parte do acordo está fraquejando e... Vim relembrar o que você ganha com ele.

- Não... Juro que não fraquejei... Por favor... – Ele treme quando o pai senta na cama.

Os dois se encaram por alguns minutos, todo o medo de tantos anos acumulado nessa relação doentia de poder. Não é desejo ou qualquer outra coisa, é apenas humilhação e subjugação.

- A morte dele é a sua liberdade... – Segura-o pelo braço e o puxa para perto de si, os rostos muito próximos. – Não me traia.

- Ja-jamais faria isso! – Tenta soltar o braço, mas em vão.

Lucius o empurra de encontro aos travesseiros, tirando a camisa sob o olhar amedrontado do filho. Ele poderia fugir ou resistir, há força suficiente no garoto de quinze anos para reagir, mas infelizmente o domínio do pai é absoluto, congelando qualquer movimento seu, se tornando o mesmo menino assustado da primeira vez. Um grito surdo parado em sua garganta quando mais uma vez o pai o faz se sentir sujo e fraco.

ooOoo

Só posso dizer que voltei da casa dos meus pais decidido a fazer esse plano funcionar o mais breve possível. Tudo isso precisava acabar. Assim mesmo evitei Potter no primeiro dia em que voltei, não desejava encará-lo e sei que isso mexeu com ele, pois sabia o que havia acontecido.

No dia seguinte nos vimos no salão e depois na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, onde foi ameaçado e reprimido como sempre. Acho que naquele dia nós dois nos sentíamos sozinhos e foi inevitável o que aconteceu... Decidido a levá-lo ao limite da confiança, acabei derrubando as minhas próprias barreiras, estava disposto a tudo pela liberdade.

Saindo da última aula do dia, doido por um banho e jantar, Draco segue pelo corredor das masmorras, absorto em seus problemas, ainda não sabendo como dar o próximo passo em seus planos. De repente esbarra em alguém parado no corredor e quase cai para trás ao perceber que é Potter.

- O que você está fazendo aqui? – Olha para os lados, temeroso que alguém os veja conversando.

- Dessa vez VOCÊ está me evitando... – Harry parece decidido. – Sei o que... Mas precisamos conversar.

Avança na direção dele, prensando o loiro contra a parede, os livros e tudo o mais que segurava caindo no chão, enquanto seus lábios são tomados selvagemente. Ele retribui, sentindo um calor subir para sua face, ficando imediatamente corado. Mas...

- Pára! – Empurra o moreno com força. – Você ficou louco?!

Harry ajeita os óculos, encarando o rapaz recolhendo as coisas do chão.

- Da próxima vez olhe por onde anda... E... Por acaso... – Draco tenta manter a calma enquanto alguns garotos da sua casa passam. – O que você está fazendo por aqui, seu...?

- Cuida da sua própria vida, Malfoy! – O moreno diz isso mecanicamente, tendo que se forçar para não rir.

- Sua sorte é que estou com pressa... – Fala alto para que os garotos que passaram por eles o ouçam. – Porque senão...

O outro sequer responde, entendendo muito bem suas palavras e a dificuldade para manter a pose depois daquele beijo. Sorri suavemente para ele, recebendo um disfarçado sorriso em retribuição.

ooOoo

Harry segue pelo corredor, bem depois do toque de recolher, temendo deparar-se com algum dos simpatizantes da Umbridge, na verdade desejando topar com um deles. Não sabe muito bem onde se encontrarão, pois a torre está fria demais para se verem por lá. Olha novamente o bilhete que foi colocado em seu bolso disfarçadamente na confusão da saída do jantar. Segue com apenas a varinha para iluminar seu caminho, não querendo usar o Mapa do Maroto e revelar um de seus segredos a Draco.

Ainda não pode dizer que confia nele inteiramente... Jamais falaria sobre a Armada de Dumbledore para um sujeito que faz o jogo da ditadora a serviço do Ministério. Mas é engraçado pensar nele dessa forma, pois sente algo forte demais pela mesma pessoa a quem não confiaria sua vida e a dos seus amigos.

- Perdido...? – Os olhos cinza brilham sob a luz da própria varinha.

- Infelizmente sim... – Um sorriso malicioso surge em seu rosto levemente corado. - Perdido pra sempre...

Draco toma sua mão e o guia até uma sala vazia, uma das que Harry percorrera no primeiro ano, meio que acidentalmente.

- Trouxe algumas coisas para ficarmos mais confortáveis... – O loiro mostra um macio colchão de penas e cobertas, além de um antigo lampião. – Roubei a chave dessa sala do Filch... Então não seremos surpreendidos.

Puxa Harry para perto do colchão, tirando seu robe, tocando seu rosto e o beijando delicadamente.

- Como você sabe se minha resposta a sua pergunta é essa? – O moreno ainda temeroso se afasta um pouco.

- Se não fosse... O que você... – Os olhos cinza se estreitam. – Não brinque comigo!

- Eu nunca... Estou com medo... – Há claramente pavor em sua voz.

Draco se aproxima novamente dele, enlaçando sua cintura e puxando-o para si. O abraça com força, a proximidade de seus corpos fazendo-os estremecer.

- Eu também estou com medo... Nunca estive com alguém que... – A palavra fica presa na garganta, temendo que a dizendo se comprometa.

Ele tira o próprio robe e os dois se deitam, cobrem-se para afastar o frio, aconchegando-se, seus olhos fixos tentando ler um no outro o que aconteceria em seguida. Se abraçam e mais um beijo surge de toda a expectativa. No início delicado, mas tornando-se ardente, voluptuoso, as mãos tocando as peles por sob os pijamas. Sentindo a maciez, o leve tremor do corpo menor, os dedos finos do loiro vão abrindo os botões do pijama de algodão, continuando com os beijos pelo pescoço, chegando aos ombros, descendo para o tórax juvenil. Seus movimentos colocam Harry deitado de costas, estando quase sobre ele, os olhos verdes fechados, deliciando-se com as sensações que estas carícias lhe provocam.

- Humm... É muito bom... – A pele se arrepia imediatamente, ainda mais quando os lábios quentes tocam seus mamilos, sugando-os suavemente.

E a boca macia continua seu caminho, descendo devagar, os dedos pequenos entremeados nos cabelos loiros, uma sensação de puro êxtase o dominando, pedindo mais. Chega ao elástico da calça do pijama, percorrendo-o com a língua, pedindo com os olhos que Harry o deixe continuar.

Há medo naqueles olhos verdes... Um medo que nem ele sabe explicar. Não tem idéia do que o amedronta... O ato ou adentrar em um campo em que pode se ferir. Gostar de um garoto traz muito preconceito, mas... Como resistir a algo que o preenche de forma absoluta, que o faz se sentir inteiro pela primeira vez na vida.

- Nós só vamos até onde você deixar... Eu juro... – O loiro sabe que não pode forçar a barra ou perde para sempre a chance de tê-lo.

- Bem... Eu... – Olha para os olhos cinza que lhe parecem tão sinceros em sua preocupação. – Eu confio em você.

Essas palavras que deseja tanto ouvir funcionam como uma afrodisíaco para o jovem Malfoy, que desce devagar o pijama, tocando o pênis teso de Harry com o nariz, por cima da cueca, sentindo como esse toque faz o moreno aprofundar a cabeça no travesseiro. Baixa também a roupa íntima, tendo a sua frente o membro pulsando, pedindo para ser tocado. Toma-o com a boca, deliciando-se com seu sabor, surpreendendo-se, pois sente como se fosse a primeira vez. O sabor, a sensação da pele, a vontade de tomá-lo todo com a boca, a textura da pele... Totalmente diferente do que experimentara antes.

As reações daquele corpo virgem o excitam ainda mais, maravilhado como cada toque, sugada e lambida o faz gemer timidamente. Observa o rosto do moreno enquanto o prova, notando cada detalhe, a curva suave do nariz, os cílios longos, a boca bonita. Percebe que nunca reparara na beleza daquele rosto, na simplicidade de suas formas. Aumenta a intensidade com que toma o membro em sua boca, roçando a pele com os dentes, para logo em seguida lamber o local de forma libidinosa. Isso provoca de forma incontrolável o outro garoto, que teme não conseguir suportar mais.

- Ah! Eu... Ahhhhhhhhhhhhh. – Harry tenta segurar o quanto pode, procurando prolongar esse prazer o maior tempo possível, desejando ficar ali pela eternidade, mas não suportando mais sente sua cabeça rodando, os ouvidos zumbindo como se fosse perder a consciência.

Draco levanta o rosto, sêmen escorrendo pelo canto de sua boca, pela primeira vez saboreando ao invés de cuspir, não se sentindo mal como geralmente se sente. E toda essa diferença o empolga, encarando os olhos verdes que o encaram, o sorriso carinhoso que agradece o prazer que proporcionou. Sente-se a vontade para tentar ir além... Pelo plano... Não... Por ele mesmo, pois deseja Harry mais do que a razão pode explicar. Coloca os dedos na boca, maliciosamente os molhando, enquanto o outro o observa ainda sem saber o que está fazendo, assustando-se ao perceber sua intenção.

- Não... Não quero... – Diz quase em um sussurro.

Mas quando tenta usar os dedos para preparar o moreno para a penetração, este levanta de um salto, quase caindo por causa dos pijamas que estão na altura dos joelhos. Tenta se vestir desajeitadamente, enquanto Draco se aproxima dele.

- Eu disse que não queria! – Harry o repele quando tenta abraçá-lo.

- Desculpa... É que... – Aproxima-se de novo, mas dessa vez consegue passar os braços em torno dele. – Você me deixou doido de desejo...

- Só isso... Desejo? – Há um toque de mágoa em sua voz.

Pára um instante, observando o significado daquela pergunta, logo entendendo que para Harry não basta o prazer, que sexo por sexo não é o suficiente... Aquelas esmeraldas desejam amor, como se fosse a razão de sua vida, como se precisasse ardentemente ser amado. Pensa sobre isso e treme, pois não pensara que em seu genial plano precisasse envolver sentimentos para conseguir o seu objetivo.

- Eu... Não sei o que sinto... – Poderia mentir, mas não consegue fingir com os olhos verdes fixos nos seus. – Você entende o que sente?

- Não... Eu quero estar com você, mas... – Ele treme nos braços que ainda o envolvem. – Não consigo explicar porque eu...

- Eu sei como é se sentir sozinho... Com medo... – Draco engole em seco, sentindo estas afirmações encontrarem eco na sua própria vida. – Desejar se sentir amado...

Harry encosta a cabeça no ombro do rapaz mais alto, aconchegando-se no calor daquele abraço.

- Já que você está com medo... – As esmeraldas voltam a encará-lo, tendo que disfarçar como estas palavras lhe custam, desejoso de fazer com Harry exatamente o mesmo jogo de poder que o pai faz com ele. – Eu serei... Você que...

- O que? – Ele percebe que não é bem o que Draco deseja, mas isso só torna sua atitude mais significativa.

- Você entendeu! – Luta contra uma irritação que ameaça colocar seus planos em risco. – É... Eu... Droga! Pareço um bobo... Gaguejando desse jeito.

- Bobo você é... – Harry ri, sem perceber que sua piadinha atinge Draco.

- ...! – O loiro prefere não responder.

- Já é tarde... Vão acabar descobrindo que saí. – Afasta-se, pensando em como Rony anda desconfiado. – Nos encontramos aqui amanhã.

Draco fica calado enquanto Harry o beija delicadamente e sai. Chuta o colchão com raiva, mas sem conseguir definir por quê. Chegou tão perto de ultrapassar o limite, ouviu as palavras de confiança, descobriu que Harry sente algo por ele, o que o torna mais vulnerável. Mas ao mesmo tempo viu-se frustrado em seu desejo, o que o irrita profundamente, percebeu que tudo aquilo não era apenas um jogo de sedução para si próprio e foi obrigado a encarar que também sente algo.

"Droga, droga, droga!" – Chuta o colchão mais uma vez. – "E abri mão da primeira vez em que eu dominaria o jogo. Por que fui abrir minha boca grande?!"

ooOoo

Não preciso dizer que naquela noite não consegui dormir. Tudo o que havia acontecido nos últimos dias passava por minha mente como um vagalhão. O acordo, o plano e uma porção grande demais de coisas que sentia, mesmo que tentasse dizer pra mim mesmo que não.

Ainda havia o jogo de quadribol entre as nossas casas e eu havia preparado uma surpresinha para os adversários. Ao vê-lo em campo agi como sempre, provocando-o, fazendo de tudo para vencer. Nestes momentos me esquecia do que acontecia entre nós, havia apenas a nossa antiga rivalidade. Assim como o fiasco do Weasley como goleiro e a música que compus para desconcentrá-lo fizeram Harry esquecer-se também.

Quando perdemos, meu 'plano para o caso de uma quase impossível derrota' foi automaticamente acionado, com Crabbe acertando Harry com um balaço, enquanto eu o ofendia, perdendo qualquer noção de limites. Feri fundo. E pensar que eu o estivera beijando menos de doze horas antes disso! Meu objetivo era fazê-lo brigar comigo e ser expulso do time, mas... Ele me feriu fisicamente, assim como eu fizera moralmente falando de sua mãe. Consegui o que queria, mas me custou um nariz quebrado e muitos hematomas.

Eu fui um idiota... Colocando minha liberdade em jogo por causa de uma partida de quadribol... Pior... Depois de dispensado da enfermaria totalmente refeito... Algo dentro de mim doía demais... Um medo insano de que tivesse perdido Potter de vez.

Como combinado Draco está na sala que escolhera como refúgio a espera de Harry. Anda de um lado para o outro, temeroso de que jamais o veja novamente. O acordo...

"Dane-se essa droga de acordo!" – Seu medo é mais palpável do que gosta de admitir. – "O que vou fazer se ele não voltar?"

A porta então se abre devagar, o moreno de olhos verdes entra com fúria no olhar, fazendo Draco ficar na defensiva, esperando algo de ruim.

- O que você estava pensando seu miserável! – Harry avança para ele com raiva e o empurra, quase o fazendo cair sobre o colchão.

- Fiz o que deveria... Pelo time... Pela casa... – O velho Malfoy retorna em uma atitude arrogante de enfrentamento.

- Então agora você precisava me afastar do time pra conseguir ganhar? – Há uma nota de desprezo em sua voz. – Patético!

- O senhor certinho... – Não consegue encontrar palavras para se defender dessa acusação que o atinge fundo.

Harry leva as mãos à cabeça, ainda tentando pensar com clareza diante de tanta loucura.

- E um pouco antes você só pensava em me beijar e... Queria... – Lágrimas surgem em seus olhos. – Que raiva! Como eu sou idiota.

- As duas coisas não têm nada a ver... – Draco se aproxima com cautela. – Falei desde o início que seria o mesmo Malfoy de sempre diante dos outros.

- Você se saiu muito bem mesmo... Parabéns! – Começa a andar na direção da porta. – Covarde!

- Covarde?! Eu?! Não fui eu que tive medo de me entregar ao... Inimigo. – Harry se volta novamente para ele. – Isso mesmo. Você teve medo porque era eu... Não confia em mim o suficiente. E depois vem me dar lição de moral.

Seu andar é incerto, como se toda essa comoção o perturbasse profundamente.

- Pra você eu sempre serei um 'futuro comensal da morte'... O inimigo. – Cerra suas mãos, mantendo-as ao longo do corpo.

- Como quer que eu confie? Que me entregue? – Os olhos verdes estão opacos pelas lágrimas que já escorrem. – Suas atitudes são contraditórias... Você me entregaria ao carrasco se isso lhe trouxesse alguma vantagem.

Estas últimas palavras atingem o alvo em cheio, a visão de Lucius vindo diretamente à mente de Draco, sabendo que realmente está a ponto de fazer isso. Abaixa a cabeça tentando esconder tudo que passa por sua mente, querendo impedir que Harry possa ler em seus olhos. O coração dele dispara, sentindo um aperto tão forte no peito que lhe dá falta de ar.

Harry fica perturbado com a visão de um Malfoy pálido e trêmulo, tão frágil como quando volta da casa de seus pais, mas de uma forma diferente. É como se houvesse um conflito interno, onde as duas facetas do mesmo Draco lutassem pela supremacia.

- Não quero que ninguém perceba... – Draco esquece completamente o plano, dominado por sentimentos fortes demais. – Senão vamos ter de nos separar...

Ele se afasta, ficando de costas, ainda tentando controlar o coração que parece querer lhe sair pela boca. Nunca teve alguém com quem tivesse sensações tão boas, com quem pudesse ser sincero, que pudesse dividir suas aspirações e seus medos, sem máscaras. Sem máscaras? Que irônico! Tudo em sua vida parece ilusório.

- Admito, sou egoísta por desejar isso... – Leva a mão ao rosto, desesperado por não conseguir se conter. – Por manter esse disfarce pra proteger o que sinto por você.

Só então se dá conta de tudo que falou e como agora Potter sabe de seus sentimentos, de sensações que ele mesmo não entende e que o tornam vulnerável. Afasta-se mais ainda, quase se encostando à parede, confuso consigo mesmo. O pai... O acordo... Harry... Uma luta se processa dentro dele. E agora revelou como se sente, dando vantagem a ele, que pode se aproveitar disso...

"Eu não deveria estar sentindo tudo isso!" – Sente-se completamente sem chão. – "Eu sou um Malfoy... Não um tolo romântico."

Apesar de parecer egoísmo, Harry sabe que é típico da personalidade de Draco, acostumado a resolver as coisas com agressividade, não sabendo lidar com as próprias emoções. E ele está absolutamente certo. As conseqüências caso os sentimentos deles fossem descobertos poderiam ser terríveis... Principalmente conhecendo Lucius Malfoy e... O que acontece entre pai e filho. Começa a entender melhor a atitude desprezível dele no jogo e se sente um pouco culpado por ter quebrado seu nariz, olhando para os machucados em sua própria mão por tê-lo acertado no queixo.

- Você é egoísta mesmo... – Diz enquanto se aproxima.

- Ok. Então é assim... – Draco se vira e anda na direção da porta. – Tem todo o direito de estar zangado.

Antes que consiga sair Harry o abraça por trás, segurando forte, colocando o queixo em seu ombro e chegando com os lábios bem perto de sua orelha.

- Mas eu partilho esse seu desejo... – Sussurra, fazendo o outro se arrepiar. – E acho que sobrevivo ao seu modo distorcido de manter nosso segredo.

Ele o vira, tomando seus lábios com toda a paixão, a energia da briga agora voltada para esse sentimento que ainda não entendem direito, mas que os atrai cada vez mais um pra o outro. Enquanto o beija o envolve com seus braços, fazendo-o recuar devagar, com cuidado, até que chegam à orla do colchão, deitando-o delicadamente, colocando-se sobre ele, ainda deliciando-se com seus lábios.

Confuso com a reação inesperada do moreno, Draco pára e afasta um pouco Harry, encarando os olhos verdes que o observam divertidos.

- Por quê? – Tenta ler naquele rosto o que ele realmente sente, sendo brindado por um belo sorriso.

- Estou tornando realidade os seus anseios... – Beija-o de novo, calmamente, demonstrando a força do que sente e que entende finalmente a atitude dúbia do loiro.

Beija-o cada vez mais intensamente, excitando Draco, mas que diante desse momento sente-se temeroso, relembrando como isto nunca envolvera prazer ou amor para ele. E percebendo isto em seus olhos Harry se aproxima novamente, ficando bem próximo de seu rosto.

- Permita que eu demonstre como pode ser bom. – Sussurra carinhosamente, tocando com delicadeza seus lábios.

Draco fica todo corado e sem jeito, ainda sem acreditar na atitude de Potter, confuso com seus próprios sentimentos. Pensa que alcançou sucesso em seu plano, mas... Ele parece tão insignificante diante de tudo que acontece no momento. Quer saber como seria de verdade estar com alguém que...

- Si-sim... – Diz fechando os olhos, se entregando aos lábios que o tomam com ânsia.

- Vou te fazer esquecer o mundo. – Suas palavras saem com os lábios ainda colados, estreitando-o mais em seus braços.

O que começava a acontecer naquele momento selou meu destino para sempre. Estava perdido... Preso na minha própria teia. E toda a minha tragédia se delineou, escrevendo o que aconteceria depois, me levando ao momento que vivo agora... Encurralado em algo que não desejo... Vítima e protagonista das circunstâncias que podem levar a minha morte.

Continua...

ooOoo

Sei que demorei, mas não me matem, por favor. Este capítulo está pronto há algum tempo, mas minha beta está trabalhando numa super história e estava sem tempo de betar. Mas em compensação, posto o capítulo 3 já na semana que vem. Quem sabe assim vcs me perdoam?

Muito bem, continuo a acompanhar a história de Draco Malfoy e os bastidores dos livros de JKRowling. E as coisas vão ficando feias para o lado dele, pois sua teia começa a se voltar para ele mesmo. E... Gostaram do ponto em que parei? Fui má, admito, mas faz parte do suspense.

Relembro que essa fic é um presente para o meu afilhado e amigo Felton Blackthorn, que anda meio sumido, mas merece toda a gama de sentimentos e sensações dessa fic. Do jeitinho que ele tanto gosta.

Agradeço a minha sempre querida beta e afilhada Samantha Tiger Blackthorn, que encontrou um tempinho durante a confecção de mais de uma de suas deliciosas fics pra me ajudar.

Agradeço aos reviews de Simca-chan, Babi-chan, Regulus ABlack, Alis Clow e Isa Tinkerbell, seus comentários me incentivaram a continuar e a caprichar ainda mais em cada detalhe, mantendo-a sempre canon.

Espero que gostem e COMENTEM!!!!!!

06 de Outubro de 2007

02:15 PM

Lady Anúbis