Os dois andavam em zigue-zague por Rodorio. Aiolia alternava-se entre suspirar e praguejar. Milo, apoiado nos ombros do leonino, parara de soluçar e caíra no choro mais uma vez.

Antes de finalmente adentrarem o santuário, os efeitos do álcool obrigaram-nos a uma pausa. O escorpiano cambaleava. Ajoelhou-se. Aiolia segurou os longos cabelos. Quando Milo finalmente se livrou daquela "pequena indisposição estomacal" (palavras que ele usaria mais tarde, para tentar amenizar o vexame), começou a rir sardonicamente.

- Quer se aproveitar de mim mais uma vez, Leão?

- Deixe-me ver... Considerando que provavelmente ainda terei que te dar um banho...

- Olia, pare com isso... - Milo gemeu. - Por favor!

- Não é isso, Milo! Apesar de não estarmos mais sob a mesma rigidez de antes... - Milo manifestou seu desagrado com uma careta, mostrando a língua para o leonino. - A embriaguez ainda é proibida.

- Não tenho medo da punição.

- O problema não é a punição, Milo. É o exemplo. Atena me dê forças! Não esperava que eu tivesse que explicar essas coisas logo para você!

- Você está mudado...

- Todos estamos.

- Não, eu digo... Desde aqueles tempos.

- Bobagem. No fundo, ainda somos todos os mesmos.

Tropeços, crises de choro, soluços e quedas foram os obstáculos que enfrentaram até a casa de Áries. Quando a alcançaram, não sentiram o cosmo de Mu por perto. Estaria adormecido? Não... Estava na Casa de Touro. E não era o único que lá se encontrava.

- É, Milo... Acho que o Mu não vai se importar se usarmos a banheira dele.

- Usarmos? - Milo colocou malícia na voz propositadamente. Aiolia deu-lhe um tapa no topo da cabeça.

- Nada disso! - O leonino foi inflexível.

O Cavaleiro de Escorpião atrapalhou-se para tirar a própria roupa, contorcendo os braços e bufando de raiva no processo, até que Aiolia resolvesse ajudá-lo. Leão colocara-se atrás do outro, finalmente retirando-lhe a camiseta, escorrendo os dedos pela pele do outro cavaleiro.

Para Milo, o contato parecia natural, porém Aiolia corou violentamente.

- O que é? Até parece que nunca fizemos isso antes... - Milo lembrava-se das fases de experimentação. Tentou puxar Aiolia para perto de si, com a falta de coordenação fazendo desta uma tarefa impossível. O outro ficou aliviado.

Conduziu Milo até a banheira.

- Vai precisar de ajuda, Milo?

Ao ver o gesto negativo, Aiolia saiu do recinto.

- Não vá inventar de dormir aí, hein!

Milo ficou fascinado com as bolhas de sabão que subiam da banheira. Definitivamente, tinha tomado um porre. O que diabos ele achava que estava fazendo? Queria sair dali o mais rápido possível.

Mergulhou, molhando os longos cabelos. Começava a recobrar um pouco de lucidez. Com a lucidez, veio a mágoa. Sentia-se rejeitado. Por quê?

Agarrou as bordas da banheira com mais força do que pretendia e lançou-se para fora. Cambaleou, quase escorregando na pequena poça de água que ele mesmo formara. Atabalhoadamente secou-se. Conseguiu, ainda, vestir-se.

Encontrou Aiolia, de pé, na saída da Casa de Áries. Erguera um dedo acusador para ele:

- Nós estamos no Santuário e as armaduras são nossos uniformes e você não está de acordo!

- General Milo, nem mesmo você está de acordo. Venha, acho que encontraremos bastante gente em Touro.

Ao adentrarem a casa de Aldebaran, depararam-se com um Afrodite afoito. O Cavaleiro de Peixes andava em círculos, abanando-se freneticamente.

- Ai, graças aos deuses! Achava que vocês não chegariam nunca!

- Nossa companhia está tão ruim assim? - Queixou-se Shaka, surpreendentemente saído de seu isolamento. E, mais surpreendentemente ainda, segurando peças de dominó na mão.

- Não contaram para ele? - Mu perguntava, aos sussurros, para um Aldebaran que limitou-se a encolher os ombros.

- Contar o que? - Milo debatia-se para colocar-se de pé, atônito. O que os outros estavam aprontando? E, pior ainda, por que ele, Milo, não fora chamado para qualquer que fosse o plano maluco daqueles nove?

- Vem, Milo! Tenho uma surpresinha para você, querido!

Afrodite ofereceu a mão para um Milo que já desistira de tentar lutar contra a gravidade e escorregara para o chão da Casa de Touro. Com as casas de Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem e Libra desocupadas, não precisariam fazer pausas para o protocolo usual.

Afrodite não conseguia disfarçar a prórpria ansiedade. Milo, mesmo em seu estado ébrio, notou.

- O que 'tá "acocetendo", 'Frodite?

Peixes apertou as bochechas de Milo. Os passos lentos de Escorpião quase irritavam o outro cavaleiro. Não aguentava mais aquela demora até a casa de Escorpião!

- Você verá com seus próprios olhos.

Quando finalmente chegaram à Casa protegida pelo Cavaleiro de Escorpião, Afrodite conduziu um Milo embasbacado até o próprio quarto. Afrodite, aparentemente, tomara a liberdade de redecorar tudo... Tentou desviar das pétalas de rosa, afinal não queria ser mais uma vítima daquele floricultor sanguinário. Afrodite, ao ver a cena, garantiu-lhe que aquelas pétalas eram inofensivas. Milo ainda assim jurou que ele pagaria por se meter na sua casa...

Não teve tempo, porém, de praguejar contra o outro cavaleiro pois notara, naquela luz fraca, os contornos de um corpo bastante conhecido. Mais ainda, podia também sentir o cosmo.

- Não pode ser! - Milo, desprovido àquela altura de qualquer auto-controle, começara a gritar repetidamente. Também precipitara-se, desajeitado, sobre a própria cama.

Notou a figura, nua, com os braços amarrados por tiras de cetim vermelho à cabeceira. Ergueu uma sobrancelha, avaliando o porte sempre elegante e controlado do outro. Por que não se dera ao trabalho de se desvencilhar daquelas tiras e abraçá-lo? Novamente cedia ao choro.

- Camyu!

- Milo, chegue mais perto.

Milo atendeu prontamente ao chamado, colocando-se sobre o corpo de Camus, entrelaçando suas pernas às dele. Camus ainda teria muito o que explicar, mas não naquele momento. A atração dos corpos era irresistível. Milo lambeu os próprios lábios. Precisava admitir, aquilo era interessante. Melhor ainda, era genial!

- Bom, é nesse momento que deixo os dois pombinhos a sós. Por mais que eu goste de ver essas coisas, acho que seria congelado se eu ficasse aqui!


N.A.: Antes nunca do que tarde... Digo, antes (muito) tarde do que nunca. Estou aproveitando uma pequena visita da Musa para ver se desempaco tudo. Ainda tenho fé. E espero que dure.

Acima de tudo, devo desculpas a quem esperou, a quem se importou, a quem leu e queria continuação. A verdade é que não estava fácil desligar da vida "lá fora".