I Know What You Did That Summer
Epílogo - Lembranças Amargas.
Ele havia se tornado escravo das suas próprias lembranças. Tudo à sua volta lembrava ela. O copo de firewhisky firme em uma das mãos, sendo esvaziado pela vigésima ou quem sabe centésima vez. Ele não vivia, não sem ela. Sua alma tinha ido junto com a dela, ele estava vazio.
Astoria tinha ido embora depois de um previsível escândalo. Blaise já tinha tentado entrar na Mansão Malfoy pra conferir se ele estava vivo umas cinco vezes. Mas ele não queria companhia, queria apenas permanecer ali e definhar, até não ser possível respirar pra viver. Ele não sentia nada, estava entorpecido. Ele queria ter matado o maldito Weasley como castigo. Mas que castigo seria pior do que viver com a culpa? Do que viver sem ela? Desse castigo os dois compartilhavam.
Ele não sabia dizer a partir de qual momento ele passou a amá-la. Ele não sabia dizer a partir de qual momento passou a precisar dela. Talvez tivesse sido desde a primeira vez. Ele ainda lembrava como se tivesse sido ontem.
"Eu te odeio, Malfoy!", ele via as lágrimas cristalinas escorrerem pelo rosto da garota. "Eu te odeio tanto!", ela continuou, a voz fraca demonstrando seu estado de espírito.
Por algum motivo desconhecido pra ela, ele ainda insistia em humilhá-la, insistia em se mostrar superior, insistia que ela não merecia a magia que emanava de seu corpo, insistia em fazê-la chorar. Alguns mudaram com o fim da guerra, mas isso não se adequava à Draco Malfoy. Ele não conseguia mudar, seu orgulho era maior do que tudo à sua volta.
E ela tentava. Tentava convencê-lo a ser melhor, a ser alguém digno mas tudo sempre acabava em lágrimas. Lágrimas dela, claro. Ele não se importava em magoá-la da forma que lhe fosse cabível. Ele apenas tinha que fazê-lo. Fazê-la chorar era sua válvula de escape pro mundo em que ele vivera, pra sua zona de conforto. Humilhar Hermione Granger o fazia lembrar-se como era ser um Malfoy e ele não podia se permitir esquecer isso. Até agora. Até ela parecer cansada dele.
Ele sentiu seu estômago revirar quando ela se apoiou na parede e deixou que o corpo escorregasse até o chão frio do corredor. Os soluços dela podiam ser ouvidos por todo o castelo mas não se preocuparam, ninguém devia estar fora de suas camas além deles.
Tudo o que aconteceu a partir dali foi puro impulso. Ajoelhou em frente à garota que chorava copiosamente e obrigou-a a levantar a cabeça pra olhá-lo. Foi a primeira vez que seus olhos se encontraram. Os olhos castanhos brilhavam por conta das lágrimas. Castanho, marrom, mel, todas essas cores misturadas nas íris da garota à sua frente. Uma lágrima preguiçosa escorreu pela bochecha rosada quando ela piscou, quebrando o contato visual. A mão dele a alcançou antes que ela se perdesse em sua boca trêmula. Mais uma vez os olhares se encontraram e dessa vez foi mais intenso. A mão dele ainda estava em seu rosto e acariciava a bochecha com o polegar. Ela teria o azarado se não estivesse tão entretida com a tempestade de seus olhos, refletindo os dela.
"Não chore, Granger. Eu não mereço que chore por mim", as palavras saíram num sussurro, como se ele não quisesse que ninguém além dela ouvisse.
As lágrimas cessaram lentamente mas os soluços persistiam e o contato visual ainda era mantido. E ele descobriu uma nova válvula de escape. Seus olhos. Seus grandes e belos olhos castanhos.
Ela voltou a abaixar a cabeça, os soluços teimosos balançavam os ombros. A mão dele acariciou seus cabelos e depois de quase um minuto, os ombros relaxaram.
"Me desculpe," ele afastou seus cabelos e sussurrou em seu ouvido. Tinha a maldita necessidade de fazê-la sentir-se melhor. "por tudo", ele terminou.
Ela levantou a cabeça e o encarou. Ela parecia surpresa e a mão dele escorregou do emaranhado de seus cabelos em duvida. Ela sorriu, minimamente mas sorriu. E ele também sorriu e voltou a acariciar-lhe os cabelos. Ela fechou os olhos pra apreciar o toque e suspirou. Eles eram apenas instinto, não pensavam, apenas agiam. Quando ela voltou a abrir os olhos, ele estava tão próximo que podia sentir sua respiração pesada batendo contra seu rosto. Eles se olharam uma última vez antes de fecharem os olhos e se deixar levar. Apenas um roçar de lábios e ele se afastou minimamente pra lhe dar uma chance de desistir daquela loucura, mas ela não o fez. A mão que ficara o tempo todo esquecida em suas pernas, alcançou sua nuca o puxando de volta pra ela. O beijo era sofrido, calmo, hesitante e depois intenso, desesperado, arrebatador. A mão dela se agarrou aos fios loiros enquanto ele apoiava uma mão no joelho dela e a outra na nuca, tentando trazê-la pra ainda mais perto. Eles não queriam que acabasse. Eles não queriam ter que se encarar depois daquilo, mas o oxigênio era agoniadamente necessário.
Ele sentou no chão de frente pra ela, respirando tão pesado que seu corpo tremia pela falta de oxigênio. Ela ainda mantinha os olhos castanhos fechados, apertados, como se lutasse pra não acordar de algum sonho. E quando ela tornou a abrir, só teve tempo de ouvir os passos rápidos dele ecoar pelo corredor e sumir.
Ele tomou mais um gole de firewhisky e sorriu pro nada. Ele era um crápula e ela ainda ficou lá. Ela tentava mesmo que ele a humilhasse. E ela conseguiu, não conseguiu? Ela era tão determinada que irritava. Tudo nela o irritava. Sua inteligência, sua perspicácia, sua determinação, sua maldita bondade e mania de ver sempre o melhor em todo mundo. E ela foi a única que conseguiu ver o melhor dele. Ela era o melhor dele. E só ela sabia disso.
"Sabe, eu gosto de estar com você", ela começou seu monólogo pós-sexo. "é como se você conseguisse trazer o pior de mim lá do fundo", ela riu e depois suspirou. "eu sou tão eu quando estou com você. Você não espera nada de mim e não me pressiona pra ser o que você espera que eu seja. Você entende o que eu quero dizer?", ela levantou a cabeça pra observá-lo e esperou por uma resposta.
"Eu posso dizer totalmente o contrário sobre mim", ele a olhou por alguns segundos e depois passou a fitar o teto. "você traz o melhor de mim e eu incrivelmente não me importo com isso. Você é a melhor coisa que aconteceu depois dessa merda de guerra. E, ah, apenas vamos parar com isso. Por Merlin, você me transforma numa mulherzinha", ele resmungou apenas pra ouvi-la rir.
Rir. Isso ele não conseguia e sabia que não conseguiria mais. A risada dela era o seu som favorito. Adorava quando ela ria especialmente com ele, embora observasse ela rir junto com os amigos pelos corredores do Ministério. Por vezes, ele falava coisas idiotas somente pra ouvir o som de sua risada. Depois dos olhos, os lábios eram sua parte favorita do rosto dela. Ele adorava cortar a risada dela com um beijo roubado ou uma mordida nos lábios vermelhos até sentir o gosto do sangue dela descer pela sua garganta. O sangue sujo dela. O sangue sujo que ele passou a não se importar depois daquilo.
"Ai!", a castanha gritou.
"O que houve, Granger, por que gritou?", o loiro entrou correndo na cozinha do dormitório que dividiam.
"Me cortei", ela choramingou. O sangue escorria, manchando o chão branco e Draco pareceu paralisado por um segundo. Focado no sangue que escorria da mão dela. Vermelho escarlate. Igualzinho ao seu.
Ela pareceu perceber o estado de espírito dele e se virou pra pia, colocando a mão embaixo da água fria, deixando o sangue escorrer pelo ralo. Ele se aproximou dela devagar e segurou sua mão com delicadeza.
"O que foi? Achou que tivesse lama correndo em minhas veias?", ela riu com desgosto da própria insinuação. Ele ignorou. Era visível o rancor dela. Mas ele não a culpava por aquilo, a culpa era toda dele. Anos e anos a chamando de sangue-ruim e ele não podia esperar que ela simplesmente esquecesse.
E então ele fez algo que nenhum dos dois esqueceria, nenhum feitiço de memória apagaria. Ele pegou a faca que descansava encima da bancada e cortou a própria mão. Ela soltou uma exclamação de surpresa e olhou incrédula quando ele juntou as mãos ensanguentadas, misturando ambos os sangues, demonstrando que ele definitivamente não se importava mais com aquilo. E eles ficaram ali durante segundos, minutos, horas, dias, ninguém sabe ao certo. Apenas olhavam pras mãos entrelaçadas e depois de volta pros olhos um do outro. Palavras não eram necessárias.
E então ele amava tudo nela. Ele amava a risada dela, ele amava seu jeito autoritário e amava quando ela brigava com ele. Ele amava seus cabelos, ele amava as milhares de sardas que decoravam seu rosto, ele amava quando seus lábios contorciam em raiva quando ele dizia algo que ela não aprovava. Ele amava as curvas dela, os seios pequenos, a barriga lisa, as pernas bem torneadas, o quadril largo. Ele amava quando ela tremia debaixo de seu corpo, ele amava seu rosto contorcido de prazer. Prazer que ele lhe dava. E foi pelo prazer que tudo começou. Era tudo apenas pelo sexo. Era.
"Tenho uma proposta pra você, Granger"
"Humm?", ela murmurou em resposta enquanto ele beijava seu pescoço. Estavam nus, um enroscado no outro, cansados e suados. "Diga, Malfoy", ela falou quando ele demorou a prosseguir.
"Nós continuamos a nos encontrar em segredo, sempre que pudermos. O que acha?"
"O que te leva a pensar que eu vou aceitar isso? Eu tenho namorado, Malfoy!"
"Você também tinha um namorado quando nos beijávamos em Hogwarts e as duas vezes que transamos. Você está nua em minha cama, Granger, não venha me dar lição de moral. E quanto ao Weasley…", ele gargalhou, deixando a frase no ar.
Ela se afastou bruscamente, levando o lençol da cama enrolado no corpo. Ela estava irritada, com ele e com ela mesma. Ela traíra Ron tantas vezes que já tinha perdido as contas e o pior é que era com o Malfoy. E ela sentia-se mal por não sentir tanta culpa. Ela devia estar se martirizando por causa disso mas não estava. E o pior de tudo é que ela estava realmente tentada a aceitar essa proposta inescrupulosa de Malfoy.
"Volte aqui, Granger", ele a tirou de seus pensamentos. Ela voltou a deitar na cama e ele a puxou pra ele. "Diz logo que aceita"
"Tudo bem, já estamos fazendo isso mesmo, que mal há?", ele riu em contentamento. Tinha certeza de que ela aceitaria, mas não sabia que seria tão fácil. "Porém tenho algumas condições."
"Sou todo ouvidos", ele murmurou.
"Primeiro: nós vamos nos encontrar onde EU quiser e quando EU quiser. E segundo: quando eu disser que acabou, você vai sair por aquela porta e nunca mais vai voltar."
"Combinado"
O copo de firewhisky foi arremessado contra a parede e os pedaços de vidro voaram pra todos os cantos. O líquido âmbar escorria pela parede branca. Ela nunca tinha sido boa o suficiente pro Weasley. Mas ele sabia que ela o amava de qualquer jeito. E isso estranhamente doía. Doía porque ele nunca estaria no lugar dele algum dia. E ela havia deixado aquilo bem claro.
"Você teria coragem de nos assumir, Granger?", ele perguntou fingindo descaso. E ele sabia que era muito bom em fingir. Viu os olhos dela o avaliarem com cuidado e depois desviar.
"Não", ela respondeu simplesmente, como se fosse um pouco óbvio. E querendo ou não, aquilo tinha deixado-o irritado. Mas ele não demonstrou. E ele queria ter cortado o assunto por ali, mas ela tinha sempre uma maldita necessidade de explicar suas escolhas. "Todo mundo ainda te odeia, Malfoy. Eu perderia tanta coisa e magoaria tanta gente que me assusto só de pensar na possibilidade. Eu nunca seria capaz de magoar Ron dessa forma. Por isso, eu prefiro deixar as coisas como estão. Você teria?"
Ele queria responder que sim, que não tinha nada a perder, que não tinha amigos, família, não tinha ninguém além dela, mas tudo que ele fez foi odiar ainda mais o Weasley.
"Não fale mais do Weasley na minha presença", era uma ordem, não um pedido e ela nem sequer cogitou a possibilidade de retrucar.
Que porra ele tava pensando afinal? Eles nunca poderiam ter uma vida juntos. Nada além de alguns encontros, conversas e sexo. No final, tudo se resumia a sexo.
Ah, o maldito Weasley! Se ele o odiava antes agora ele queria matá-lo. Não bastava ter casado com ela, ter tido ela em sua cama todas as noites, apenas pra adormecerem juntos. Só de pensar que ele também a tocava o deixava nauseado. Tão nauseado quanto no dia em que ela disse que iria se casar. Ele simplesmente não entendia como ela podia fazer isso. O Weasley era desprezível.
"A gente precisa conversar", ela falou. Passava as mãos pelos cabelos, mostrando quão nervosa estava.
"Estou ouvindo, Granger", ele se aproximou, colocando as mãos na cintura dela, obrigando-a a olhá-lo nos olhos. Ela suspirou e levou a mão direita até o rosto dele.
E então ele viu. A aliança prata com um rubi encravado. E ela subitamente abaixou as mãos mas ele não deu a chance pra que ela escondesse. Os olhos dela baixaram pra seus sapatos e ele pigarreou.
"O que é isso, Granger?", ele perguntou, quase ameaçador. Ela puxou a mão de volta.
"Uma aliança?", ela debochou. Aquilo era uma das coisas que ela havia aprendido pela convivência com ele.
"Isso eu já notei", ele cruzou os braços e a encarou.
"É sobre isso que precisamos conversar. Eu vou me casar, Draco", ela soltou o óbvio. A expressão dele endureceu.
"E?"
"Precisamos acabar com isso, de uma vez por todas"
Acabar? Acabar. Acabar. Acabar. A palavra ecoava na mente dele enquanto ele absorvia a informação. Ele aceitava o fato dela escolher o pobretão como marido, mas daí a acabar com os encontros deles depois de anos era inaceitável.
"Não precisamos", ele retrucou.
"Eu vou me casar, Draco. Casar!", ela exasperou-se.
"Eu ouvi da primeira vez, Granger"
"E você também prometeu. Prometeu que quando eu te mandasse embora você iria", ela sussurrou, parecia prestes a entrar em colapso. As mãos tremiam e ela parecia tanto com a Hermione de Hogwarts. Insegura e vulnerável.
"E se eu não cumprisse?", ele desafiou.
"Por favor, Draco", agora ela parecia prestes a chorar, prestes a desistir do que estava fazendo, prestes a ir embora.
"Eu não posso ir embora, Hermione", pela primeira vez em anos ele parecia abalado por algo que ela dissera. "Eu simplesmente não posso ir embora", por alguns segundos ele pareceu tão devastado que Hermione pensou em ir abraçá-lo, mas ele sabia esconder seus sentimentos muito bem.
"Você precisa ir", ela sentiu uma lágrima traiçoeira manchar sua bochecha e ele também viu.
Ele se aproximou a passos lentos e segurou seu rosto entre as duas mãos.
"Você também não quer isso, eu posso ver em seus olhos, Hermione", e ela notou que era a segunda vez que ele a chamava pelo primeiro nome. Isso raramente acontecia. "Merlin, eu te conheço tão bem! Você sabe que não consegue mentir pra mim"
E ela realmente sabia. E seus olhos cinzas pareciam tão perdidos que ela não conseguiu mais sustentar aquela mentira. Ela queria ele só pra ela, ela queria ser só dele, mas não podia, tinha tanta coisa em jogo. E tudo era tão maior que eles dois que não valia a pena. E ela era egoísta, aprendeu com ele. Não queria ter que continuar sem ele. Ela só não entendia o por que de tanta dor só de cogitar a ideia. E ela tinha medo de saber a resposta. E ela sabia que algum dia aquilo iria acabar com a sua vida de uma forma ou de outra. Mas era aquilo que Malfoy era em sua vida. Ele acabava com ela a cada encontro que tinham, pois ela saía de lá relutante em voltar pros braços de Ron. E isso não deveria acontecer. O ruivo era o amor da sua vida e ele era só prazer. Era. E ela não soube quando foi que deixou de ser.
Ele a abraçou e enterrou o rosto em seus cachos. Absorveu todo o cheiro que emanava dela, afim de memorizar. Ela se soltou do seu abraço e olhou nos olhos dele. Ele não queria que ela fosse, estaria tão perdido sem ela, embora não admitisse isso. Ele nunca admitiria isso. Ele a beijou com tanto fervor e desejo que a castanha perdeu o sentido e esqueceu tudo o que tinha ido fazer ali.
E ele achava que nunca sentiria de novo aquela sensação de perda. Aquela dor no peito. Aquele nó na garganta. Aquele medo. Mas agora sentia tudo aquilo milhões de vezes pior. E simplesmente não conseguiu evitar as lágrimas que caíam desenfreadas. A tristeza era mesmo uma grande merda. A última vez que lembrava-se de chorar fora no dia em que sua mãe morreu. Mas Hermione estava lá com ele. Ela sempre estava. Mas hoje não. Hoje era ele quem iria estar com ela. Duas gotas de veneno seriam o suficiente.
N/A: Bom, esse foi o último capítulo da short :) Espero que tenham gostado. Au revoir!
