O que faltava de sabor no ensopado sobrava em quantidade, Edward concluiu. Pedaços de carne, de batata e de cenoura nadavam num caldo quase de sopa. Cebola era praticamente o único tempero, pois sal e pimenta do reino tinham sido usados com parcimônia. Ele os acrescentou ao próprio prato, consciente do olhar de Bella do outro lado da mesa.
—Não está muito bom, não é? Não sei cozinhar bem.
—Melhor do que se eu tivesse feito, Bella. Da próxima vez, seria melhor se tirasse a panela do fogo antes de os legumes…
—Cozinharem demais. Talvez eu não esteja mais aqui para uma próxima vez. Não quero que minha presença na fazenda o deixe em maus lençóis.
—Ninguém a encontrará aqui, tenho certeza. Caso seu pai apareça, enfrentará alguém mais forte do que ele.
Bella o fitou e Edward viu um lampejo de beleza na maneira como os cílios longos se erguiam. O olho, ainda roxo e inchado, deixou escapar uma lágrima enquanto seus lábios tremiam.
—O senhor é um homem muito bom. Acredito em sua sinceridade. Edward estendeu a mão e segurou a sua.
—Você pode ficar aqui pelo tempo que quiser, bella. Ela a puxou, levantou-se e pegou o prato.
—Amanhã cedo, vou lavar o carrinho de mão para transportar as batatas. Onde o senhor costuma guardá-las?
—Num depósito subterrâneo do lado oeste da casa. No ano passado, empilhamos as batatas junto à parede dos fundos. Duraram até quase o fim da primavera. Lá, há uma tina para cenouras e um varal para pendurar cebolas.
—Ainda falta desenterrar o resto das batatas. Minha mãe gosta de arrancar as plantas velhas e revolver a terra no outono. Farei isso amanhã.
—Nesse caso, não limpe as baias. Os homens cuidarão delas. Aliás, prefiro que faça o serviço da casa.
Ela estava perto da pia, ocupada em lavar a louça.
—Será que não posso ajudar a cuidar dos cavalos ou dos potrinhos? Tenho muito jeito para lidar com animais.
—Veremos. Você não quer dar uma olhada na vaca? Nos dois últimos dias, ela ficou inquieta na hora da ordenha. Bella virou-se para ele.
—Talvez ela esteja com o leite preso. O senhor já usou óleo canforado nela?
—Não, ela nunca teve problema algum.
—Se o senhor tiver esse óleo, vou esquentá-lo e ver se ajuda. Mas não pode misturar no leite. É preciso lavar bem o úbere antes da ordenha.
A moça podia estar certa e valia a pena seguir seu conselho.
—Na dispensa há um caixote cheio de ervas medicinais e poções. Vá olhar. Tenho quase certeza de que há um vidro de óleo canforado.
Bella enxugou as mãos enquanto dizia:
—Vou ver o que encontro. O senhor já a ordenhou agora à noite?
—Não. Pretendia fazer isso depois do jantar.
—Posso ir com o senhor?
—Claro. Eu a espero.
A vaca mugiu baixinho quando Bella se sentou no banquinho de ordenha.
—Não se assuste — ela murmurou enquanto passava a mão no flanco do animal. Olhou para Edward e perguntou: — Ela tem nome?
—Que eu saiba, não.
—Os animais atendem melhor quando têm um.
Deslizou as duas mãos pela curva da barriga da vaca e tocou a teta da frente. O animal tremeu e mexeu a perna mais próxima.
—Ela está quente, com febre. Vamos experimentar o óleo e ver se ela melhora até amanhã cedo.
Tirou um vidrinho do bolso, abriu-o e derramou um pouco do óleo aquecido na mão em
concha. Então, espalhou-o pelo úbere túmido. A vaca manteve-se imóvel, apenas mugindo baixo enquanto bella murmurava palavras carinhosas.
—O senhor não vai poder usar o leite desta noite, mas eu preciso de um pouco para passar nas tetas.
Edward assentiu com um gesto de cabeça e abaixou-se a seu lado para pegar o vidrinho que ela havia colocado entre os joelhos. Surpresa com o contato da mão dele, Bella o fitou. Ele, todavia, ignorou seu olhar.
—Quero ordenhá-la para o senhor. Mas sem tirar o leite todo. Apenas o suficiente para aliviá-la.
—Vou buscar o balde.
Ele afastou-se e voltou em instantes. Inquieta, Bella mexeu-se no banquinho. Ele ficava perto demais e a observava com atenção exagerada.
—O senhor não tem outras tarefas para fazer? Posso cuidar disto sozinha.
—Está bem. Deixe o balde perto da porta. Depois, jogarei fora o leite.
A vaca suportou as mãos de Bella, mexendo-se um pouco em protesto.
—Estou quase acabando. Amanhã, você estará boa. Só tem uma febrezinha que vai passar logo.
As palavras fluíam com facilidade e, em pouco tempo, o serviço estava terminado. Bella olhou para o fundo do estábulo, já tomado pelas sombras do anoitecer, e não viu sinal de Edward .
—Deve ter ido a algum lugar — murmurou para si mesma. Ajoelhou-se perto da manjedoura.
—Estou vendo você aí, gata. Venha para cá.
Com um miado e equilibrando-se nas três pernas, a gata passou pela vaca. Maggie sentou-se e a pegou no colo.
—Eu nunca lhe dei um nome, não é? Tinha medo de que você não sobrevivesse e eu não queria enterrar um animal de que eu gostasse. Achava que, sem nome, eu não me apegaria a você e não sentiria sua morte. Grande bobagem minha, não acha?
Pôs a gata no chão e levantou-se.
—Vamos embora. Você pode me acompanhar até em casa. Mas não acho que o homem a queira lá dentro.
Seguida pela gata, Bella saiu do estábulo, deixando o balde junto à porta.
O céu estava pontilhado de estrelas. Ela nunca tinha visto tantas, refletiu ao curvar a cabeça para trás. Talvez não houvesse prestado atenção. Durante anos e para não ser acusada de arrogante, andava de cabeça baixa. Mas naquela noite, sentia-se livre. A descoberta inundou-a de alegria. Sorridente, atravessou o pátio.
—Ela tem jeito com as mãos, não acha? — Pony perguntou enquanto, das sombras da última baia, ele e Edward observavam bella sair. — Será que sabe o que está fazendo? Quer dizer, ao passar aquele óleo na vaca?
—Amanhã descobriremos. Existe algo nela que não consigo definir. É seu jeito de lidar com a cadela e a gata. Agora mesmo ao falar com a coitadinha. Você vai achar que estou dizendo tolices, mas parece que ela as entende e as duas sabem disso.
—Não. Conheci pessoas com esse dom lá no circo. Ou se tem ou não. Eu até que tenho um pouco, mas só com cavalos. Agora, quem está dizendo tolices, sou eu.
Os dois atravessaram o estábulo parcamente iluminado por uma lanterna.
—O que o senhor vai fazer com a moça, patrão?
—Nada — Edward respondeu.
—Ela é bem bonitinha, não acha?
Muito mais do que bem bonitinha, Edward pensou ao lembrar-se do brilho de seus cabelos, sob a luz da lanterna, quando ela cuidava da vaca. Mas, disse apenas:
—Talvez seja.
—Ela sabe cozinhar? Não agüento mais minha comida e sempre acabo no fogão. Joe não sabe nem ferver água e Radley faz a parte dele trazendo lenha e controlando o fogo.
Edward sorriu por não ouvir Shay ser mencionado. Pony prosseguiu:
—Estava pensando se a moça não poderia preparar uma refeição para nós de vez em quando.
—Só quando ela aprender a temperar melhor a comida. Duvido que a mãe dela tivesse alguma inspiração para cozinhar. Pelo que bella contou, não havia nada na mesa deles para despertar o apetite. Perto da porta, Pony parou e, abaixado, espiou entre dois barris.
—Foi o que pensei. Ouvi um barulho algum tempo atrás. Acho que vamos ter novidade. A cadela já arrumou o ninho.
Edward abaixou-se também. Ouviu um rosnar baixo enquanto uma sombra se mexia.
—Vi a coitada ao lado do terraço de manhã e desconfiei. Imagino se bella não notou
nada.
—Acho bom lhe contar. Caso ela descubra que o senhor sabia e não disse nada, vai ficar
brava como uma galinha molhada. Ora, somos dois corações moles. As cadelas parem sozinhas desde que o mundo é mundo.
—Você tem razão quanto a avisar bella. Ergueram-se e foram até a porta.
—Até amanhã — disse Edward ao sair e seguir pelo pátio enquanto Pony fechava a porta do estábulo.
Com a mão levantada, Edward já ia bater na porta do quartinho quando ela se abriu. Envolta pela luz da vela, bella lembrava uma ninfa. Os olhos mostravam surpresa e a silhueta delgada mal aparecia sob a camisa fina. Edward crispou a mão levantada e ela encolheu-se. Baixou-a depressa ao murmurar:
—Desculpe, Bella, eu não quis assustá-la.
Com a mão na porta como se tencionasse fechá-la, ela recuou.
—Eu só ia beber água. Pensei que o senhor ainda estivesse no estábulo.
—Espere um instante. Preciso falar com você sobre a cadela.
—O que aconteceu com Maisie? — Recuando mais, ela pegou uma camisa nos pés da cama. — Vire-se de costas, por favor. Vou me vestir.
Edward a atendeu, mas não conteve um sorriso. Se soubesse que ele já tinha admirado seu corpo, ela teria um acesso de fúria. Não que houvesse muito para ser visto, pois sua silhueta era pouco maior do que o de uma criança. Exceto pelos seios. Caso ela se alimentasse bem e regularmente, seu corpo ganharia formas lindas. Instantes depois, ela saía do quarto.
—Onde está Maisie? — indagou afobada.
—Calce as botas, menina. A cadela está bem. Enfurnou-se entre dois barris lá no estábulo.
Parece que vai parir e achei que você gostaria de saber.
Depressa, ela enfiou os pés nas botas que Edward tinha convencido Pony a dar. Um segundo depois, saía correndo da cozinha.
Só lhe restava acompanhá-la, pois não dormiria enquanto ela não voltasse, Beau sabia.
Ouviu vozes e a porta do estábulo sendo aberta.
—E você, Pony?
—Não, sou eu, patrão — respondeu Shay. — Eu ia buscar uma lanterna. A moça apareceu e disse que a cadela já se acomodou para ter os filhotes. Ela vai precisar de luz.
—Eu trouxe uma — disse Edward .
—O senhor quer que eu fique por aqui?
—Não, volte para o galpão. Não vou dormir e deixar a moça sozinha.
Edward observou-o se afastar. O homem ou simpatizava com bella ou tinha assumido o papel de seu anjo da guarda. Melhor se fosse o último.
Uma égua relinchou. Edward percebeu que os animais estavam inquietos nas baias. Entrou no estábulo e viu bella abaixada, falando com a cadela.
—Quer que eu afaste os barris? — ele ofereceu.
—Um só, por favor. Já tentei, mas é muito pesado. Edward o inclinou um pouco e o rolou para o lado com facilidade, dando melhor acesso à cachorra. No mesmo instante, bella estendeu a mão para ela.
—Estou aqui, Maisie, para cuidar de você — murmurou enquanto apalpava a barriga do animal. — Você arranjou uma boa ninhada, não foi?
A cadela retesou o corpo, vergou a cabeça para trás e ganiu. Bella continuou a massageá- la e a murmurar palavras em tom suave.
—O senhor não precisa ficar aqui — disse após um momento.
—Quando vai começar a me tratar por você? — ele indagou ao abaixar-se a seu lado. Ela o fitou e sorriu.
—Agora é uma boa hora, acho. Vou ficar aqui por algum tempo, Edward . Por que você não vai dormir?
—Não. Gosto de ver uma vida nova chegar ao mundo. Vou buscar café e nós dois esperaremos juntos.
—Será que ela tem leite para seis filhotes? Está tão magra.
Recostado na cadeira, Edward observava bella preparar ovos mexidos. O sol já ia alto no céu. Eles haviam se levantado mais tarde, pois tinham ficado até depois da meia-noite no estábulo.
—Maisie vai dar conta. Caso você não se importe, reforçarei a alimentação dela. Os cachorrinhos devem ser fortes. São filhos de um cão pastor grandalhão da fazenda vizinha à de meu pai. Você não tem cachorro, não é?
—Havia um aqui quando comprei o lugar, mas morreu. Maisie pertencia a seu pai? Ela já começava a servir os ovos mexidos, mas parou.
—Está pensando que eu a roubei? Meu pai não gastaria um minuto cuidando de um animal, muito menos comida para ele.
—Desculpe, mas preciso saber qual é a situação verdadeira, bella. Se alguém aparecer por aqui à procura de um cão roubado, quero ter certeza de que você não tem nada com isso. Ela manteve-se em silêncio.
—Venha comer. Não duvidei de sua honestidade, achando que Maisie não lhe pertencia.
Para ser sincero, a coitada parece não valer muito, bella o encarou com o olhar fuzilando.
—Para mim, vale muito! Quando eu for embora, ela irá comigo.
—Sente-se. Precisamos conversar — ordenou Edward. Ela obedeceu enquanto dizia:
—Coma os ovos primeiro. Por enquanto, não vou a lugar algum e preciso falar sobre isso.
Edward começou a comer, esperando que ela continuasse. Bella mostrava uma grande diferença da moça a quem ele convencera a ficar na fazenda, três dias atrás.
—Vamos, fale, sou todo ouvidos.
—Bem, pensei que se trabalhasse o suficiente para pagar minha hospedagem, poderia ficar aqui até Maisie desmamar os filhotes. Eu estava preocupada em como nos abrigar na mata e ficar em segurança até eles nascerem. Como isso já aconteceu, imaginei se você não me daria trabalho por umas cinco ou seis semanas. Com as mãos crispadas em cima da mesa, fitou-o.
Edward fez um gesto de cabeça como se avaliasse a proposta. Bella facilitava um planejamento para o futuro ao lhe dar seis semanas. Teve de se controlar para não concordar, sorrindo.
—Na verdade, vou precisar de ajuda extra quando dois de meus homens forem levar cavalos a Dodge City. Talvez você…
—Já perguntei antes e você não me respondeu. Será que posso cuidar dos potrinhos que você não vender? — ela o interrompeu, inclinando-se para a frente e espalmando as mãos na mesa.
—Não quero que se afaste muito de casa, bella. Se seu pai aparecer, é melhor que não a veja.
—Posso trabalhar no curral. Naquele instante, ouviram uma voz exaltada no terraço.
—Cachorra desgraçada!
—Aposto como alguém provocou Maisie — disse edward ao correr para a porta e ver Pony.
—Patrão, a cadela não quer deixar ninguém entrar no estábulo. É melhor o senhor ir até lá.
—Eu vou — bella declarou ao levantar-se e sair para o terraço. Sem querer, esbarrou em Edward. — Desculpe, não foi minha intenção empurrá-lo.
Encolheu-se e, mais uma vez, ele sentiu raiva do homem que tinha lhe instigado tanto medo.
Então, disparou pelo pátio, seguida por Edward. Apesar das botas pesadas, mancava menos e corria com certa graça. Parou a uns passos dos empregados, à porta do estábulo.
—Ela não vai machucá-los se eu lhe disser quem vocês são. Venham todos comigo. Joe empurrou o chapéu para trás e balançou a cabeça.
—Gosto muito de meus dedos e não quero que sejam mordidos, dona. Ela olhou para edward e pediu:
—Explique que Maisie me obedece.
—E verdade. Vamos dar uma olhada — sugeriu ele ao abrir as duas folhas da porta e entrar, seguido pelos outros quatro. Bella passou depressa por eles e foi ajoelhar-se perto de Maisie.
—Abaixem-se a meu lado — ordenou com firmeza. Então, virando-se para a cadela, disse o nome dos cinco ao mesmo tempo em que apontava para cada um. Com a outra mão, afagava a cabeça de Maisie e, num monólogo suave, continuou a apresentação. Só quando o focinho cheirou a mão de Joe, a cadela rosnou.
—Seja uma boa menina — bella ordenou com firmeza para, em seguida, murmurar algo no ouvido do animal.
Maisie ganiu e baixou a cabeça. Então ergueu-se, latiu e balançou o rabo.
—Daria tudo para saber o que ela disse ao animal — Pony resmungou entredentes. A mesma idéia passou pela cabeça de Edward.
—Seja o que for, penso…
—Ela não atacará nenhum dos cinco. Basta a deixarem em paz — bella afirmou, interrompendo-o.
—Tem certeza? — Joe indagou com ar de dúvida. Ela postou-se diante dos cinco homens. Tão menor do que eles, mas de certa forma, em pé de igualdade, pensou Beau. Os outros quatro davam a impressão de vê-la com olhos diferentes dos do primeiro dia.
—Certeza absoluta. De vez em quando, tragam restos de seu jantar para ela. Isso a deixará mais mansa. Só não tentem pegar um dos filhotes — aconselhou bella.
Olhou para uma baia vazia e sorriu.
—Aí está você, gata. Imaginei aonde tinha ido. Equilibrando-se nas três pernas, o felino se aproximou do grupo. Bella abaixou-se e o pegou.
—Dei de comer à coitada agora de manhã, lá no galpão. Calculei que não pode mais caçar—comentou Joe.
—Muito obrigada.
—Bem, acho que já desperdiçamos tempo demais. O trabalho está esperando para ser feito. Já que está aqui, bella, não quer examinar a vaca? — indagou Edward enquanto os homens se dispersavam.
—Estava pensando nisso — ela respondeu.
Os dois foram à baia da vaca e bella abaixou-se a fim de apalpar o úbere. Sorrindo, olhou para Beau.
—Está sem febre, mas ainda não se pode beber o leite dela. Acho melhor passar mais óleo para que fique boa completamente. Mas antes, vou ordenhá-la.
Edward tinha pensado em fazer isso, porém, não quis discutir.
—Vou esquentar o óleo e trazê-lo — disse, disposto a ser apenas o ajudante de bella.
Mais uma vez, o jantar atrasou. Os empregados já executavam as tarefas da noite quando Edward sentou-se à mesa. As batatas estavam meio cruas, mas o filé ficara malpassado como ele gostava. Havia convencido bella a fritá-lo por apenas poucos minutos antes de virá-lo. Ela não disfarçou o espanto ao ver o suco avermelhado tingir-lhe o prato.
—Como consegue comer isso? Até parece que o novilho ainda pode se mexer — ela comentou com ar de repulsa.
Edward mastigou um pedaço da carne macia e o engoliu.
—Frite o seu até ficar duro, se quiser. Prefiro saborear o meu assim. Ela virou-se para o fogão.
—Quero o meu bem morto quando cair no estômago. Durante uns bons minutos, ela fritou o filé. Finalmente, o pôs no prato.
—Este, sim, está comível — declarou.
Serviu-se de vagem e de batata, deixando um tanto para Edward repetir.
—Bati manteiga hoje e terminei de arrancar as batatas. Estão todas no depósito — contou depois de algum tempo.
—Alguém a ajudou?
—Não. Shay se ofereceu, mas eu disse que podia fazer tudo sozinha. Depois, eu o vi colocando ferraduras numa égua, do lado de fora do estábulo. Fui até lá e o ajudei um pouco. Você se importa?
—Não, caso ele não se incomode. Shay não fala muito. Por isso, não se ressinta se ele não conversar com você.
—Ele não abriu a boca. Apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça quando segurei o cabresto da égua para que ficasse quieta.
—Eram suas primeiras ferraduras e, com certeza, ela assustou — explicou Edward.
—Percebi. Achei que precisava ouvir a voz de alguém. Então, falei com ela. Acabaram de comer em silêncio. Edward levantou-se e levou o prato à pia.
—Vou ficar um pouco lá fora. Obrigado por ter feito o jantar.
Saiu e notou dois homens entrando no estábulo. Como quisesse refletir, dirigiu-se ao pomar de pessegueiros, além do galpão. As árvores não tinham mais frutas e as folhas já começavam a amarelar. Sentou-se no chão, encostado num tronco. Precisava analisar bem o quanto estava se envolvendo com a fugitiva.
Ela era inteligente, mas ignorante. Ele a tinha visto folhear o livro de receitas de Esme e percebido que era analfabeta. Havia ficado consternado. A maioria das meninas freqüentava a escola no mínimo por seis anos. Bella, entretanto, parecia não ter feito isso. Não perguntara nada, pois não queria embaraçá-la.
Devia existir uma maneira para ajudá-la sem, ao mesmo tempo, a humilhar. Valeria a pena tentar. Além de inteligente, ela possuía aquele dom extraordinário para lidar com animais.
Edward percebeu que tinha se sentado sobre um galho de árvore. Puxou-o e algo nele chamou- lhe a atenção. Observando mais de perto, achou curiosa a forma dele. Tirou o canivete do bolso para cortar fora o excesso de galhinhos e as duas extremidades. Então, revirou-o à procura da forma que pensara ter visto. A de um gato.
No dia seguinte à noite, ele a sondaria. De alguma maneira, venceria sua desconfiança.
Aliás, Maggie já melhorara bem. Apenas duas vezes mais, na noite anterior e naquela manhã, ao ter contato com ele, encolhera-se, assustada.
—Maldição! — praguejou, o que não era hábito seu. A mãe abominava o uso de tal vocabulário e, em sua memória ele o limitava a um mínimo. Mas desta vez, a palavra fazia sentido e ele a repetiu:
—Maldição! Ela pensou que eu ia agredi-la!
Jogou fora o galho e apalpou o chão em volta à procura de um mais grosso. Não encontrou nenhum e deu de ombros. Havia muitos no telheiro de lenha, perto do sanitário. No dia seguinte, escolheria um e esculpiria um gato para bella.
A passos largos, dirigiu-se para casa. A lembrança da moça era uma atração irresistível.
—Só quero ajudá-la — murmurou ao apressar mais os passos. Talvez ela ainda estivesse na cozinha.
