Capítulo III - Destroçados

Bill fala:

Adoro ter amigos, estar cercado por eles, mas há momentos em que só a solidão resolve. Tente ficar sozinho no meio de seis irmãos ou no dormitório da escola, e vai descobrir que uma carreira no exterior é bem tentadora.

Remus mal começara a dormir quando acordou com um grito agudo de mulher. Por instinto, soube que a alcatéia estava sob ataque, e alguma coisa dentro dele se retorceu de ódio.

Gritou para as crianças, que acordavam assustadas, ficarem ali e, sacando a varinha, correu para onde o bando dormia, possuído por uma fúria que desconhecia.

O primeiro corpo que encontrou foi de uma das mulheres. Os olhos arregalados e a ausência de ferimentos indicavam que ela fora atingida pela maldição fatal.

Mais à frente havia o corpo das duas sentinelas: as gargantas foram cortadas, e, pelas marcas de queimadura em volta da ferida, Remus percebeu que prata fora usada. Enfraquecidos pela ausência da Lua os dois lobisomens não tinham como oferecer muita resistência.

Quando chegou no acampamento, o fedor de morte e sangue o atingiu em cheio.

Os corpos das mulheres e dos lobisomens estavam por todos os lados. Com os olhos embaçados de dor e ódio, Remus procurou por Ian. O velho morrera, aparentemente defendendo a mulher grávida que estava caída atrás dele, morta, com um punhal de prata cravada na barriga. Nem mesmo o filho não nascido de lobisomem fora poupado. Que tipo de monstro faria uma atrocidade dessas?

Pelo que ele podia ver, alguns lobos ainda tentaram reagir, mas o número de atacantes devia ter sido muito superior. E eles também escolheram o momento mais vulnerável dos lobisomens para atacar.

A chacina fora completa. Derek tinha um punhal de prata enfiado na garganta, David, John, Drew e Pat tinham caído sob o imperdoável. Jim fora cortado várias vezes, novamente por punhais de prata. Havia um grupo de corpos sem cabeça, inclusive alguns de mulheres. Fiona tinha sido empalada. Provavelmente, a selvagem escocesa tentara vingar seu homem, Seamus, o enorme lobo vermelho que tinha dois punhais cravados nele.

O estômago de Remus revoltava-se diante do que via. Joe e Simon tinham os olhos arregalados e marcas de sangue nas mãos. Pelo menos os dois lobos mais ferozes conseguiram atingir alguém.

Tommy ainda estava vivo. Remus ajoelhou-se ao lado dele e arrancou a faca de prata que estava enfiada na barriga do garoto, sem se preocupar com a dor que isso causava na própria mão. Já não podia fazer nada, a não ser segurar em seus braços o menino de cabelos sujos e ar faminto que morreu antes dos quinze anos.

Remus uivou de dor. Sua gente, aqueles que como ele foram transformados em criaturas da noite por Greyback, estava caída ao seu redor. Mortos à traição.

Havia quarenta e dois corpos espalhados. Praticamente toda a alcatéia. Remus olhou um por um, uma fúria gelada crescendo em sua alma. Não achou o corpo de Greyback. Aparentemente o líder do bando e Remus eram os únicos sobreviventes.

Não! Ainda havia os filhotes! E Remus sentiu medo por eles.

Aparatou na caverna, fazendo com que os meninos gritassem e quase o atacassem. Não precisou explicar muita coisa. Os pequenos já haviam sofrido demais, podiam perceber que outra tragédia estava acontecendo.

Pegando o mais novo no colo, fez os outros seguirem-no em uma marcha forçada. Queria estar longe dali se os atacantes voltassem a procura de sobreviventes.

Depois choraria por Ian e pela alcatéia. Depois ele ia procurar o líder que abandonara seus "filhotes" e caçar os assassinos do seu povo.

Agora ele ia cuidar dos pequenos e deixar que a própria natureza cuidasse dos mortos. Remus só conseguia pensar numa pessoa que teria o coração grande o suficiente para acolher suas crianças. E ele ia dar um jeito de levar todas elas até Molly Weasley.

A Luz da Lua // A Luz da Lua // A Luz da Lua // A Luz da Lua // A Luz da Lua //

Remus levou cinco dias para chegar à Toca. Viajava quase sempre à noite, evitando as estradas dos trouxas e suas cidades, parando apenas para caçar ou roubar comida. Não ousava aparatar para buscar ajuda, com medo de deixar os filhotes sozinhos.

Os meninos estavam exaustos, dois deles tinham se ferido e um estava com um pouco de febre. Remus sentia que apenas sua raiva o sustentava quando enfim avistou a Toca. Escondeu-se com eles no mato próximo e observou.

Mal o dia amanheceu, pôde perceber que já havia movimento na cozinha. Quando viu Molly abrir a porta, ele se aproximou com as crianças.

A bruxa o olhou sem reconhecer por alguns instantes. Remus chegou a pensar que ela os expulsaria dali. Ele devia estar horrivelmente sujo e desgrenhado. Mas os olhos da mulher iluminaram-se em um súbito reconhecimento.

Michel, o mais novo dos meninos, agarrou-se às pernas de Remus, atraindo o olhar de Molly. Sem perguntas, ela abriu a porta e fez sinal para que eles entrassem depressa.

Para a maioria dos meninos, era a primeira vez que entravam em uma casa desde que foram mordidos. Espremeram-se em um canto, sujos, famintos e intimidados. O cheiro do café da manhã fazendo com que eles olhassem esperançosos para as panelas.

Molly não perdeu tempo com perguntas, empurrou-os em direção a mesa e encheu seus pratos de comida.

Remus agradeceu aos céus que ela não se importasse de ter sua cozinha invadida por um bando sujo e maltrapilho e nem reparasse no desespero com que os meninos atiraram-se aos pratos, nem na bagunça que faziam.

Levou algum tempo para perceber que havia um prato na sua frente também.

Continua...