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Sakura quase não conseguia pensar em meio ao zumbido de seu sangue correndo acelerado e à dor provocada pelas mãos que a seguravam. O peito do desconhecido era rígido contra suas costas.
– Isso é um engano – ela conseguiu dizer. – Por favor...
Ele puxou sua cabeça ainda mais para o lado, até Sakura sentir um cruel esticar dos nervos na articulação do pescoço com os ombros.
– Seu nome – o homem insistiu gentilmente.
– Sakura Haruno – arfou ela. – Peço desculpas. Eu não queria...
– Sakura?
A pressão diminuiu.
– Sim. – Por que ele pronunciara seu nome como se a conhecesse? – O senhor é... Deve ser um dos funcionários do hotel...?
Ele ignorou a pergunta. Uma das mãos deslizou levemente sobre os braços e o rosto dela como se procurasse alguma coisa. O coração de Sakura batia como as asas de uma ave pequenina.
– Não – Sakura murmurou com a respiração entrecortada, afastando-se do contato.
– Por que está aqui?
Ele a virou de frente para encará-la. Nenhum conhecido de Sakura jamais a tocara com tanta familiaridade. Estavam suficientemente próximos da luz que vinha do alto para que Sakura conseguisse ver seus traços duros e o brilho dos olhos profundos. Tentando recuperar o fôlego, ela estremeceu ainda sentindo uma dor intensa no pescoço. Com uma das mãos, massageou a nuca tentando aliviar o desconforto enquanto falava.
– Eu estava... perseguindo um furão. A lareira no escritório do Sr. Brimbley se abriu e ele passou pela abertura. Estava tentando encontrar outra saída.
Por mais absurda que soasse a explicação, o desconhecido pareceu entendê-la sem dificuldades.
– Um furão? Um dos bichinhos de sua irmã?
– Sim – confirmou ela, surpresa. Depois massageou de novo o pescoço e se encolheu de dor. – Mas como sabia... Já nos conhecemos? Não, por favor, não me toque, eu... ai!
Ele a virara e apoiara uma das mãos na lateral de seu pescoço.
– Fique quieta.
Era com um toque preciso e seguro que ele a massageava.
– Se tentar fugir de mim, simplesmente vou alcançá-la de novo.
Tremendo, Sakura suportou o contato dos dedos fortes enquanto se perguntava se estaria à mercê de um louco. Ele aumentou a força dos dedos, provocando uma sensação que não era de prazer nem dor, mas uma mistura inusitada dos dois. A garota fez um ruído de sofrimento e se contorceu, indefesa. Para sua surpresa, a dor havia diminuído e os músculos tensos relaxaram aliviados. Ela parou um momento, deu um longo suspiro e deixou a cabeça pender.
– Melhor? – perguntou o homem, usando as duas mãos para continuar a massagem, os polegares pressionando a nuca, escorregando por baixo da renda macia que enfeitava a gola alta do vestido.
Nervosa, Sakura tentou se afastar, mas as mãos seguraram seus ombros imediatamente. Ela pigarreou e tentou dar à voz um tom digno.
– Senhor, por favor, leve-me para fora daqui. Minha família irá recompensá-lo. Não haverá perguntas...
– É claro.
Ele a soltou devagar.
– Ninguém jamais usa esta passagem sem a minha permissão – falou ele. – Presumi que quem estivesse aqui sozinho não devia ter boas intenções.
O comentário lembrava um pedido de desculpas, embora o tom de voz não sugerisse o menor arrependimento.
– Posso garantir que não tinha intenção de fazer nada além de recuperar esse animal atroz.
Ela sentiu Dodger passar perto da barra de suas saias. O desconhecido se abaixou e pegou o furão. Segurando-o pela nuca, entregou-o aSakura.
– Obrigada.
O corpo do furão se acomodou manso e dócil nas mãos deSakura. Como já esperava, a carta havia desaparecido.
– Dodger, seu ladrão depravado, onde ela está? O que fez com ela?
– O que está procurando?
– Uma carta – respondeuSakura, tensa. – Dodge a roubou e trouxe para cá... Deve estar em algum lugar próximo.
– Aparecerá depois.
– Mas é importante.
– Presumo que sim, já que teve todo esse trabalho para tentar recuperá-la. Venha comigo.
Relutante, Sakura concordou e se deixou guiar pela mão em seu cotovelo.
– Aonde vamos?
Não houve resposta.
– Prefiro que ninguém saiba sobre isso – Sakura continuou.
– Certamente que sim.
– Posso contar com sua discrição, senhor? Preciso evitar um escândalo a qualquer preço.
– Mulheres jovens que querem evitar escândalos devem ficar em suas suítes de hotel – ressaltou ele, o que não a ajudou em nada.
– Eu estava perfeitamente contente em meu quarto – protestouSakura. – Só saí porque tive que perseguir Dodger. Preciso recuperar minha carta. E tenho certeza de que minha família o recompensará pelo trabalho se...
– Quieta.
Ele encontrava o caminho pelo corredor cheio de sombras sem nenhuma dificuldade, segurando o cotovelo de Sakura com delicadeza, mas de um jeito firme. Eles não estavam voltando para o escritório do Sr. Brimbley. Em vez disso, iam em direção contrária, percorrendo uma distância que pareceu interminável.
Finalmente, o desconhecido parou, virou-se de frente para a parede e empurrou uma porta, abrindo-a.
– Entre.
Hesitante, Sakura tomou a frente e entrou em uma sala iluminada, uma espécie de salão com uma fileira de janelas centrais em arco ladeadas por outras, retangulares. Dali era possível ver a rua. Uma pesada mesa de carvalho ocupava um lado da sala e estantes de livros cobriam quase todos os espaços disponíveis nas paredes. Pairava no ar uma mistura estranha e familiar de cheiros... cera de vela, velino, tinta e poeira de livro... Era um cheiro parecido com o do antigo escritório de seu pai. Sakura olhou para o desconhecido, que havia entrado na sala e fechara a porta oculta.
Era difícil calcular sua idade. Ele parecia ter pouco mais de 30 anos, mas havia nele um ar de sofisticação endurecida, a sensação de que já vira tantas coisas que a vida não o surpreendia mais. Os cabelos eram pesados, bem cortados, negros e a pele clara contrastava com as sobrancelhas escuras. E ele era belo como Lúcifer, com sobrancelhas fortes, nariz reto e definido, boca larga. O ângulo do queixo era pronunciado, tenaz, ancorando os traços sóbrios de um homem que talvez levasse tudo – inclusive ele mesmo – um pouco a sério demais.
Sakura se sentiu corar ao olhar para o par de olhos impressionantes... ónix e intensos, com bordas escuras, emoldurados por cílios negros e abundantes. O olhar pareceu invadi-la, absorver cada detalhe. Ela percebeu sombras escuras sob os olhos, mas elas não prejudicavam a beleza de seus traços endurecidos. Um cavalheiro teria dito alguma amenidade, teria feito algum comentário para tranquilizá-la, mas o desconhecido permaneceu em silêncio.
Por que a olhava desse jeito? Quem era ele e que autoridade tinha nesse lugar? Sakura precisava dizer algo, qualquer coisa, quebrar a tensão.
– O cheiro dos livros e da cera das velas... – comentou encabulada – lembra o do escritório de meu pai.
O homem deu um passo em sua direção e ela recuou, impelida pelo instinto. Os dois ficaram parados. Foi como se o ar entre eles estivesse coberto de perguntas escritas com tinta invisível.
– Seu pai faleceu há algum tempo, creio.
A voz combinava com o restante. Era refinada, sombria, inflexível. Ele tinha um sotaque interessante, não inteiramente britânico, com vogais abertas e sem erres pesados. Sakura assentiu, confusa.
– E sua mãe morreu logo depois – acrescentou ele.
– Como... como sabe disso?
– Meu trabalho exige que eu saiba o máximo possível sobre os hóspedes do hotel.
Dodger se contorceu em seus braços. Sakura se abaixou para colocá-lo no chão. O furão se aproximou de uma enorme poltrona ao lado de uma pequena lareira e se acomodou no veludo do estofamento. Sakura voltou a encarar o desconhecido. Ele se vestia com belas roupas escuras, peças cujo caimento solto sugeria sofisticação. Belos trajes, mas a gravata preta era simples, sem alfinetes, e não havia botões de ouro na camisa nem outra ornamentação que o proclamasse um cavalheiro de posses. Apenas uma corrente comum de relógio na frente do colete cinza.
– O senhor fala como um americano – disse ela.
– Sou de Buffalo, Nova York – respondeu o homem. – Mas moro aqui há algum tempo.
– É funcionário do ? – indagou ela, cautelosa.
A resposta foi um breve movimento afirmativo de cabeça.
– É um dos gerentes, suponho?
Seu rosto era inescrutável.
– Mais ou menos isso.
Ela começou a caminhar para a porta.
– Nesse caso, vou deixá-lo com seu trabalho, senhor...
– Vai precisar de companhia apropriada para voltar à suíte.
Sakura pensou no comentário. Devia pedir a ele que mandasse buscar sua dama de companhia? Não... A Srta. Misashi ainda devia estar dormindo. Havia sido uma noite difícil para ela, que era propensa a pesadelos que a deixavam trêmula e exausta no dia seguinte. Não acontecia com muita frequência, mas, quando acontecia, Sakura e Tenten a deixavam descansar o máximo possível nas horas seguintes.
O desconhecido a contemplou por um momento.
– Devo mandar buscar uma camareira para acompanhá-la?
O primeiro impulso de Sakura foi aceitar. Mas não queria ficar ali esperando com ele, mesmo que só por alguns minutos. Não confiava nem um pouco nesse homem. Ao ver sua indecisão, ele sorriu com sarcasmo.
– Se tivesse a intenção de molestá-la, já teria feito – disse.
A grosseria a fez corar intensamente.
– Isso é o que diz. Porém, pelo que sei, o ataque poderia ser algo lento.
Ele desviou os olhos por um momento e, quando voltou a encará-la, havia um brilho de humor em seus olhos.
– Não corre nenhum perigo, Srta. Haruno – falou, deixando transparecer o riso contido. – De verdade. Deixe-me mandar buscar uma camareira para acompanhá-la.
O brilho de humor mudou seu rosto, conferindo tanto charme e simpatia que Sakura quase se assustou. Ela sentiu o coração bater acelerado outra vez, espalhando uma sensação agradável por seu corpo.
Quando o viu aproximar-se da sineta, se lembrou do problema envolvendo a carta desaparecida.
– Senhor, enquanto esperamos, poderia fazer a gentileza de procurar a carta que perdi no corredor? Preciso recuperá-la.
– Por quê? – quis saber ele, aproximando-se novamente.
– Motivos pessoais – resumiuSakura.
– Ela é de um homem?
Ela fez o possível para dar a ele o olhar de reprimenda que vira a Srta. Misashi dirigir a cavalheiros inoportunos.
– Isso não é da sua conta.
– Tudo o que ocorre neste hotel é da minha conta.
Ele fez uma pausa enquanto a observava.
– É de um homem, ou teria dito que não.
Franzindo o cenho, Sakura virou as costas para ele. Em silêncio, chegou perto de uma estante coberta por objetos peculiares.
Havia um samovar de esmalte com douração, uma grande faca em uma bainha adornada de contas, coleções de esculturas em pedra e utensílios de cerâmica primitivos, um apoio para cabeça de origem egípcia, moedas exóticas, caixas feitas com todo tipo de material, o que parecia ser uma espada de ferro com uma lâmina enferrujada e uma lente de aumento veneziana para leitura.
– Que sala é esta? – Sakura não conseguiu evitar a pergunta.
– É a sala de curiosidades do . Ele mesmo recolheu muitos desses objetos; outros foram presentes de visitantes estrangeiros. Pode olhar, se quiser.
Sakura estava intrigada, refletindo sobre o grande contingente de estrangeiros entre os hóspedes do hotel, incluindo a realeza, a nobreza e membros dos corpos diplomáticos de toda a Europa. Sem dúvida, o ganhava presentes bem incomuns. Andando entre as estantes, parou para examinar uma estatueta de prata cravejada de pedras: um cavalo com os cascos estendidos no meio de um galope.
– Que lindo.
– Presente do então príncipe Yizhu da China – disse o homem atrás dela. – É um Cavalo Celestial.
Fascinada, Sakura deslizou um dedo pelo dorso da estátua.
– Agora o príncipe se tornou o imperador Xianfeng – comentou ela. – Um nome bastante irônico para um governante, não acha?
O homem parou ao lado dela e a olhou intrigado e alerta.
– Por que diz isso?
– Porque o nome significa "prosperidade universal". E esse certamente não é o caso, considerando as rebeliões internas que ele tem enfrentado.
– Eu diria que os desafios da Europa representam um perigo ainda maior para ele no momento.
– Sim – concordou Sakura com tristeza, devolvendo a estatueta ao lugar. – Fico imaginando quanto tempo a soberania chinesa pode durar diante de um ataque dessa magnitude.
O desconhecido estava suficientemente próximo para ela notar o cheiro de roupa passada e de espuma de barbear. Ele a olhava com grande intensidade.
– Conheço poucas mulheres capazes de discutir a política do Extremo Oriente.
Ela sentiu o rosto corar.
– Minha família mantém conversas bem incomuns à mesa do jantar. Quero dizer, são incomuns porque minhas irmãs e eu sempre participamos. Minha dama de companhia diz que não há problema em tomar parte dessas conversas em casa, mas me aconselha a não parecer muito bem informada quando estiver em sociedade. Isso costuma afastar pretendentes.
– Terá que ser cuidadosa, então – respondeu ele num tom suave, sorrindo. – Seria uma pena deixar escapar um comentário inteligente no momento errado.
Sakura se sentiu aliviada quando ouviu uma discreta batida na porta. A criada chegara mais depressa do que ela esperava. O desconhecido entreabriu a porta para recebê-la e lhe falou alguma coisa. A camareira se curvou numa reverência e desapareceu.
– Aonde ela vai? – perguntou Sakura confusa. – Deveria me acompanhar de volta à suíte.
– Eu a mandei buscar uma bandeja de chá.
Por um momento, Sakura ficou sem fala.
– Senhor, não posso ficar para um chá.
– Não vai demorar. Eles mandarão a bandeja por um dos elevadores de comida.
– Isso não importa. Porque, mesmo que eu tivesse tempo, não poderia! Tenho certeza de que sabe quanto isso seria inapropriado.
– Quase tão inapropriado quanto se esgueirar pelo hotel sem companhia – concordou ele, tranquilo.
Sakura franziu o cenho.
– Eu não estava me esgueirando, estava perseguindo um furão.
Ao ouvir a própria declaração e se dar conta de quanto era ridícula, ela corou. Tentou adotar um tom mais digno:
– A situação não foi inteiramente causada por mim. E terei muitos... e sérios... problemas... se não voltar logo ao meu quarto. Se esperarmos muito mais, pode acabar envolvido em um escândalo e tenho certeza de que o não aprovaria.
– É verdade.
– Então, por favor, chame a camareira de volta.
– Tarde demais. Teremos que esperar até que ela retorne com o chá.
Sakura suspirou.
– Tive uma manhã particularmente difícil.
Olhando para o furão, ela viu pedaços de enchimento macio e tufos de crina de cavalo sendo jogados para o alto. Empalideceu.
– Dodger, não!
– O que foi? – perguntou o homem, seguindo Sakura em sua corrida aflita em direção ao animal.
– Ele está comendo sua poltrona – respondeu ela com tom tristonho ao pegar o animal. – Ou melhor, a poltrona do . Está tentando fazer um ninho. Eu sinto muito – disse, olhando para o buraco no espesso e luxuoso estofamento de veludo. – Garanto que minha família vai pagar o prejuízo.
– Está tudo bem – respondeu o homem. – Temos um orçamento mensal para reparos no hotel.
Abaixando-se, o que não é fácil para quem está vestindo espartilho apertado e saiotes cheios de goma, Sakura pegou punhados do material macio que estofava a poltrona e tentou colocá-los de volta no buraco.
– Se for necessário, posso assinar uma declaração explicando como isso aconteceu.
– E quanto à sua reputação? – perguntou o desconhecido em tom gentil, estendendo a mão para levantá-la.
– Minha reputação não é nada comparada ao meio de vida de um homem. O senhor pode ser demitido por isso. Deve ter uma família para sustentar, esposa e filhos, e embora eu possa sobreviver à desgraça, o senhor talvez não consiga outro emprego.
– É muita bondade sua – respondeu ele, tirando o furão dos braços da moça e devolvendo-o à poltrona. – Mas não tenho família. E não posso ser demitido.
– Dodger – falou Sakura ansiosa, ao ver que mais tufos de estofamento eram jogados para cima.
Era evidente que o furão se divertia muito.
– A poltrona já está arruinada. Deixe-o continuar.
Sakura se surpreendeu com o conformismo tranquilo do desconhecido diante da ruína de um móvel tão caro, e tudo por causa das travessuras de um furão.
– O senhor não é como os outros gerentes – comentou ela.
– E a senhorita não é como as outras jovens.
A resposta a fez dar um sorriso divertido.
– É o que dizem.
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