Capítulo 3. A Breve história de Lily
O silêncio era quase palpável e permaneceu na sala comunal por um ou dois minutos, então foi quebrado. Sirius gaguejava, sem conseguir articular uma palavra coerente que fosse. Peter começou a rir, Lily só não identificou se era um riso nervoso ou se ele realmente achou que era uma piada. O bom e velho Remus, não parava de fazer perguntas. Lily olhou para James, que estava branco e não dizia nada, só olhava para Harry em seus braços. Lily nunca o havia visto tão sério.
- Vocês vão acordar o garoto – disse James sério e baixo, mas mesmo assim aquela frase pareceu acionar alguma coisa nos rapazes, todos calaram a boca e encararam James, que continuou falando como se nada tivesse ocorrido – Vamos levar ele para o nosso dormitório, e depois vamos conversar sobre isso.
Lily concordou tentando se levantar sem acordar Harry, mas James foi mais rápido se levantando, indo em direção aos dois com os braços estendidos.
- Deixa que eu levo ele – disse James. Sentindo uma leve hesitação de Lily ele suspirou continuando mais calmamente – Não vou acordá-lo.
Lily entregou Harry a ele, o menino automaticamente se acomodou na curva do ombro de James, sem parecer se incomodar.
- Vou colocar ele na minha cama – sussurrou James.
Lily concordou e o seguiu, depois de pagar os óculos do menino, deixando os demais garotos perplexos para trás. Os dois subiram as escadas silenciosamente, James chocado com a familiaridade que o garoto parecia ter, e Lily, sorridente, olhando dois pares de cabelos extremamente iguais. E pensar que já havia odiado os cabelos de James e agora eles pareciam adoráveis naquele menininho.
James entrou no dormitório e esperou Lily para ajudá-lo a arrumar a cama. Ele depositou o menino na cama calmamente, retirou a capa de Sirius que ainda o embrulhava e o cobriu com as cobertas com todo o carinho que possuía. Passou a mão nos cabelos do menino e reconheceu a mesma sensação que sentia ao passar a mão nos seus próprios cabelos. E aquilo o assustou.
Lily deu um beijo no rosto de Harry e puxou James para que eles saíssem do quarto e fosse diretamente para a sala. Enfrentar três garotos cheios de dúvidas e perguntas.
Eles mal chegaram e foram bombardeados:
- Você disse o que eu ouvi? – perguntou Remus.
- Como ele pode ser seu filho? – disse Sirius – Você sabe que crianças não dão em arvore, não sabe, Lily?
- Você não estava brincando? – perguntou Peter assustado.
- Não, não estava – disse Lily em um suspiro, sentando-se na poltrona e pegando a foto que havia mostrado a Harry e estendendo para os garotos. – E eu sei da onde as crianças vêm, Sirius.
James segurou a foto tremulo. Nela ele reconheceu Lily, talvez um ou dois anos mais jovem, ao lado de uma garota emburrada, loira, alta e magra, com uma leve cara de cavalo. James então entendeu e parou de respirar. Sirius e os outros encarapitaram ao seu lado a fim de ver a foto.
- Ela não mexe – disse Peter cutucando a foto.
- É claro que não mexe – disse Remus – É trouxa.
- Essa é minha irmã – disse Lily explicando a foto – Ela é trouxa. Nossa mãe nos obrigou a tirar esta foto no último verão – Ela deu de ombros – Não nos damos muito bem.
- Mas Harry não disse que ela era... – começou Sirius. O entendimento então povoou seu rosto, mudando suas feições.
- O nome dela é Petúnia – disse Lily concordando – O namorado dela chama Valter Dursley – ela continuou - Os dois nomes dos tios de Harry.
- Mas, Lily isso não quer dizer que ele seja seu... – começou Remus cauteloso – Talvez o marido... namorado da sua irmã tenha irmãos.
- Eu pensei nisso - ela respondeu aceitando a foto de volta – Mas Valter só tem uma irmã e ela não tem cara de quem terá filhos. Além disso, ele tem meus olhos.
- E seu nariz – concordou James, falando pela primeira vez.
- Você percebeu? – ela questionou animada
- Sim – James respondeu simplesmente.
- Mas isso não explica como você pode ter um filho – disse Remus.
- Harry tem um vira tempo – disse Lily simplesmente. Todos olharam para ela descrentes, até mesmo James havia se surpreendido – Alguém deu um vira-tempo a ele. Acionou quando ele caiu da escada.
- Céus – disse James se levantando passando a mão na cabeça deixando o cabelo desengonçado – Então ele é mesmo seu... Meu... Nosso filho?
- Sim – disse ela olhando para James curiosa, talvez se imaginando casada com ele – Imagino que sim.
- Ele tem sua aparência, ao que parece – disse Remus com um sorriso preocupado – E seu cabelo com certeza.
- Merlim, isso é assustador – disse James, mas estampava um sorriso no rosto – Ele se parece mesmo comigo, não é?
- É idêntico – disse Peter concordando
- E tem seu nome – disse Lily sorrindo – Harry James...
- Potter – completou James com um sorriso orgulhoso.
- Espero que eu seja o padrinho – disse Sirius animado.
- É claro que é – disse James ficando animado e depois olhando para Lily assustado – Não é?
Lily olhou para James, parecia um cachorrinho perdido. Sirius olhou para ela e ajoelhou, também a mesma cara de filhote, e foi até ela de joelhos. Com as mãos juntas, como se fizesse uma prece.
- Por favor, Lily, flor. – disse ele – Nunca te peço mais nada nesta vida.
Lily gargalhou e concordou com um sorriso. Animada pela primeira vez na noite. Sirius comemorou e se levantou pegando Lily em um abraço e girando-a pela sala comunal.
- Só não entendo uma coisa – disse Peter – Se Harry é filho de vocês, por que ele mora com sua irmã?
Sirius parou bruscamente, colocando Lily de volta ao chão, completamente assustado e pálido. Ela sentiu James a abraçando pelo ombro.
- Harry não disse que os pais dele estavam... – começou Remus quieto, mas foi interrompido.
- Não diga! – disse Sirius nervoso.
- Não dizer não vai tornar menos verdade, Almofadinhas – James disse em um suspiro cansado, sentando no sofá e trazendo Lily junto – Nós vamos morrer, isso é um fato.
- Mas podemos impedir – disse Sirius aflito – Quer dizer, nós sabemos agora.
- Mas não sabemos como aconteceu, ou quando. – disse Remus encarando os olhos de James – E duvido que Harry saiba. Ele nem... nem reconheceu vocês.
- Talvez só tenhamos ele quando estivermos muito mais velhos – disse James pensativo – Meus pais demoraram para me ter.
- Ele não teria reconhecido Petúnia se ela fosse muito mais velha – disse Lily negando – Não acho que tivemos ele muito velhos.
- Então temos pouco tempo? – disse Peter temeroso
- Tempo suficiente – disse James olhando para Lily – Não vou deixar você morrer, não de novo.
- Você não é Deus, James – ela respondeu com um sorriso ao mesmo tempo carinhoso e resignado – E eu não morri ainda. Pode ser eu seja inevitável, talvez eu tenha morrido para salvar Harry, não trocaria a minha vida pela dele.
- Nada é inevitável, Lily – disse James.
- Não vamos deixar vocês morrerem – disse Sirius – Não podemos deixar Harry sozinho afinal.
- Tuney parece tratar ele mal, não é? – disse Lily se deixando ficar triste.
- Talvez eles sejam mesmo pobres, Lils – Remus tentou consolar, mas ela negou veementemente.
- Dursley não é pobre. Harry me disse que dorme em um armário, que brinca com os brinquedos velhos do primo, por Merlim, aquelas roupas não foram compradas para ele. Ele me disse nunca fez aniversário, James, nunca! Petúnia não teve coragem de fazer um bolinho para ele. – Lily foi se exasperando, as lagrimas brotando do rosto – Eu sabia que ela me odiava, mas porque ela desconta no meu filho? Meu menininho? Ele só é uma criança...
James a abraçou balançando-a de um lado para o outro tentando acalmá-la. Todos abaixaram a cabeça tristes.
- O que vamos fazer, agora? – disse Remus – Não podemos ficar andando com uma criança por Hogwarts.
- Não vamos manda-lo de volta para Petúnia! – disse Lily enxugando as lágrimas – Não vou abandonar meu filho.
- Lils, esse não é o tempo dele – disse Remus em um suspiro.
- Não! – disse Lily – Ele é meu e não volta para a Petunia, não enquanto eu viver.
- Enquanto nós dois vivermos, Lily – disse Sirius firme – Não vou deixar meu afilhado com sua irmã.
- Não seria melhor contar para Dumbledore? – disse Peter – Quer dizer, ele vai saber o que fazer com ele.
- Não vamos contar para Dumbledore, não por agora – disse James olhando para Lily – Não até temos um plano de como podemos garantir que Harry tenha uma família de verdade.
- E como vamos fazer isso? – Pergutnou Peter.
- Não sei, Rabicho, mas vamos fazer. – disse James – Estamos há alguns dias no recesso de Natal, podemos focar nesta semana no que fazer.
- E se não conseguirmos – disse Remus.
- Se não conseguirmos, contamos para Dumbledore, tudo bem? – James olhou para todos na sala.
Os rapazes concordaram, mas Lily parecia relutante.
- Não vamos mandar ele de volta para Petunia – disse James olhando para ela – Não seu eu puder evitar.
- Obrigada – ela sussurrou e abraçou ele.
- Não foi nada – ele sussurrou, e depois mais forte para o restante – Devíamos tentar dormir, já esta tarde.
Lily negou, mas James sussurrou no ouvido dela.
- Eu vou tomar conta dele. Precisamos dormir, para pensarmos com mais clareza.
- Se... – Lily começou nervosa – Se acontecer alguma coisa...
- Eu chamo você – James terminou dando um beijo no alto da cabeça dela.
Lily concordou com um suspiro e dando um beijo no rosto de cada um dos garotos, afim de desejar boa noite, ela subiu as escadas sendo seguida pelos rapazes que subiram para o outro lado. Silenciosamente eles entraram no dormitório masculino do sétimo ano e viram o jovem Harry, meio descoberto, dormindo de barriga para baixo, as pernas separadas. Sirius começou a rir e transformou logo em uma taque de tosse ante ao olhar mortífero de James.
- Lily estava realmente certa – disse Sirius com um sorriso malicioso – Ele dorme igual a você. Isso me leva a perguntar, como ela sabe disso?
- Não te interessa, Sirius – sussurrou James, enquanto tirava os sapatos silenciosamente e cobria Harry novamente – Mas isso me faz questionar: como você sabe como eu durmo?
- Infelizmente são sete anos dormindo no mesmo quarto que você – disse Sirius ainda silenciosamente.
- Aonde você vai dormir, Pontas? – perguntou Remus olhando a disposição do quarto.
Em resposta James realizou um floreio e conjurou uma cama de armar que ficou firme entre sua cama, onde Harry dormia, e a de Sirius. Ele deu um sorriso ao olhar o trabalho elaborado que tinha acabado de fazer.
- Convencido – disse Sirius com um sorriso no rosto.
James gargalhou enquanto deitava-se na cama e se embrulhava na sua capa, tentando se ajeitar na cama ele rolou para um lado e para outro, sem sucesso. Então olhou para Sirius que acabava de deitar e puxou com toda a força o travesseiro dele, fazendo a cabeça de Sirius quicar no colchão. James se deitou confortavelmente no travesseiro de Sirius, ignorando a exclamação indignada do amigo.
- Você é o padrinho dele, o mínimo que tem que fazer é me ceder seu travesseiro – disse James com um sorriso travesso.
- Sabe, companheiro – Sirius disse animado – Eu babo enquanto durmo.
James fez uma cara de horror e se levantou imediatamente do travesseiro jogando-o de volta para Sirius.
- Isso é nojento, Almofadinhas – James exclamou revoltado, enquanto o amigo gargalhava alto deitando novamente sobre o travesseiro que foi devolvido.
- Vocês vão acordar, Harry – disse Remus em tom de censura, fazendo-os parar de rir ou gritar.
James olhou para o menino eu dormia graciosamente, como se não tivesses gritando ao seu redor. Ele traçou o rosto do menino, os olhos tinham o mesmo formato dos de Lily, assim como o nariz pequeno, mais delicado que de James, mas o restante era todo seu, o maxilar fino, as maças do rosto altas, as linhas dos lábios, até mesmo a orelha parecia com a sua, isso sem falar nos cabelos, idênticos em cor, tom e formato.
- Como você está se sentindo? – perguntou Peter cortando o silencio e os pensamentos de James.
- Eu? Por que? – James questionou confusamente, ainda sem afastar os olhos de Harry.
- Você – Peter respondeu – Não deve ser muito fácil descobrir que tem um filho.
James desviou seus olhos de Harry e olhou ao redor. Sirius olhava para ele apreensivo, assim como Peter, Remus estava mais calmo, parecia curioso, mas confiante em James. Ele olhou novamente para Harry, vendo as costas do menino subirem e descerem no ritmo da respiração dele.
- Eu não sei – disse James ainda olhando para o menino – Eu mal o conheço, mas ao mesmo tempo ele parece tão familiar para mim. Eu estou morrendo de raiva de quem bateu nele e juro que se eu conheço não sei se vou me controlar, mas ao mesmo tempo não consigo vê-lo como filho, é tudo muito surreal.
- Mas você já gosta dele, não é? – disse Remus compreensivo.
- Sim – respondeu James carinhoso – Muito!
- Então somos dois – disse Sirius com um sorriso no rosto – Não tem como não gostar do mini Pontas.
- Três na verdade – disse Remus.
- Quatro – disse Peter.
James sorriu carinhoso para os amigos.
- Eu só espero que eu consiga cuidar dele – disse James triste – Sinto como se já tivesse falhado, como se tivesse abandonado ele. Faz sentido?
- Nenhum – respondeu Sirius triste – Mas eu te entendo. Parece que eu não fui um padrinho muito útil também. Ou não deixaria ele com estes tios trouxas.
- Será que vocês também... – começou James.
- Provavelmente – disse Remus – Duvido que deixaríamos Harry desamparado, apesar que, sendo o que eu sou, não teria muito como cuidar de uma criança.
- Temos que pensar em alguma maneira de fazer Harry se lembrar do que aconteceu com ele, do que aconteceu conosco. – disse Peter.
- Ou dar a ele o carinho que não podemos dar neste tempo, pelo menos – disse Sirius sorrindo.
- Sim - concordou James pensativo. Ele pegou uma camiseta em seu malão e com a varinha disse Pulvinus e ela se transformou em um travesseiro fofo, onde ele colocou a cabeça e ficou por alguns bons minutos olhando para o rosto sereno de Harry, até que sucumbiu ao sono e dormiu, muito depois de seus amigos.
...
Agradecimentos:
Obrigada, principalmente, a Sammie, Danielle Lyra e Assunção, pelos reviews. Muito obrigada, mesmo, vocês me ajudam a continuar.
E um abraço especial a todos que favoritaram e/ou estão seguindo a Fic: Human00800, doni-ghost, Sirius Raven Black, Rafaxadrez, NandaMalfoyPotter, Kamilly Tobias, Danielle Lyra, Callidora Gaunt e Assunção. Obrigada a vocês também.
Espero que tenham gostado deste capitulo.
