7 de setembro
"Meu querido Sirius,
Foram apenas semanas, mas tenho a impressão de que se passaram anos desde que você partiu. Perder você se tornou uma doença. Em vez de melhorar a cada dia, eu pioro. Minha imaginação me prega truques cruéis. Muitas vezes penso ver você, especialmente no meio de uma multidão. Meu coração começa a bater depressa. Então percebo dolorosamente que apenas acabo de ver alguém que me lembrou você..."
15 de setembro
"Amado Sirius,
Ontem à noite sonhei com você e acordei chorando..."
16 de setembro
"Meu querido,
Perdoe-me pela carta de ontem. Eu estava triste..."
2 de outubro
"Querido Sirius,
Senti o bebê mexer hoje! Oh, querido, não posso lhe dizer que experiência emocionante foi isso. No começo foi apenas um tremor. Prendi minha respiração e fiquei absolutamente parada. Então ele (tenho certeza de que é um menino) se moveu de novo, bem mais forte. Eu ri. Eu chorei. Mamãe e papai chegaram correndo. Eles não puderam sentir os movimentos porque foram muito leves, mas de algum modo sei que você poderia. Se você estivesse aqui, me tocando, você teria sentido o bebê. Tenho certeza. Eu te amo. Eu te amo tanto."
25 de outubro
"...e sua excursão às pirâmides parece ter sido maravilhosa. Estou com inveja. Mamãe e eu fomos ontem a North Park e fizemos algumas compras. Parece que o tráfego em Dallas está piorando. Eu estava tão cansada quando cheguei em casa, que mal consegui subir a escada. Depois papai apareceu no meu quarto com o jantar numa bandeja. Mas nós tivemos um dia muito produtivo! Não terei de comprar roupas para o bebê até ele fazer seis anos! Todos rimos com a sua história sobre a esposa do cônsul. Ela realmente se veste daquela maneira? E quanto ao seu amigo Pontas? FIQUE LONGE DELE! Ele não parece uma influência muito boa para um homem casado com uma esposa grávida..."
Dia de Ações de Graças
"...e eu quero tanto você aqui! Fui assistir a um filme com a Lene ontem. Eu devia ter imaginado. Foi um filme sexy, quase pornográfico. E agora eu quero você aqui! Estou escalando as paredes. Que vergonha! Senhoras grávidas não deviam se sentir como gatas no cio, deviam? Mas está frio e chuvoso... Acho que se estivesse aqui, poderia até fazer você esquecer que tem jogo na TV hoje."
21 de dezembro
"Meu amor,
Recebi sua carta ontem e ri muito. Então você quer que eu fique longe da Lene? Então façamos um acordo: se você terminar sua amizade com Pontas, eu termino a minha amizade com a Lene. Esse tal Pontas parece o tipo de homem que eu detesto. Ele pensa que é o presente de Deus às mulheres, não é verdade? Mesmo você tendo dito o quanto ele é bonito, eu sei que eu não gostaria dele..."
24 de dezembro
"Meu amado,
Os dias são curtos, mas parecem infindáveis. Ando muito desanimada. Eu gostaria de dormir durante o Natal. Para todo lugar que olho, as pessoas estão celebrando, sorrindo, compartilhando a época com as pessoas a quem amam. Eu me sinto uma alienígena num mundo feito apenas de casais. Onde você está? Percebo que papai e mamãe estão preocupados comigo porque ando muito deprimida. Eles já fizeram de tudo para me animar, mas sinto tanta falta de você que nada funciona. Os presentes que você me mandou estão debaixo da árvore. Papai resolveu esbanjar este ano e comprou um abeto, minha árvore de Natal favorita. Espero que você tenha recebido seus presentes a tempo. Eu trocaria todos os presentes que já recebi e que virei a receber nos natais futuros pelos seus beijos. Um daqueles beijos longos e lentos que satisfazem e provocam. Oh, Sirius, eu te amo. Feliz Natal, meu bem."
11 de janeiro
"...mas estou bem melhor agora que as festas acabaram e que nós passamos da metade do seu ano fora.
Dormir está cada vez mais desconfortável. Achei que você gostaria de saber que seu filho vai ser jogador de futebol americano. Do jeito que ele chuta, dentro de uns vinte e dois anos ele certamente será recrutado pelos Cowboys! A propósito, o que você acha do nome Harry? Se for menino, claro. Que é melhor que ele seja, porque até agora não pensei em nenhum nome de menina.
Você ficaria maluco com os meus peitos. Estão imensos! Infelizmente, o resto de mim combina com eles. Eu não tinha percebido que o bebê causaria uma mudança tão drástica neles. Até os mamilos cresceram. Eu os estou preparando para a amamentação. (A Lene diz que queria ter uma desculpa tão boa quanto esta... ela é uma menina tão má!). Eu queria que você estivesse aqui para me ajudar no projeto. (Como está vendo, também estou ficando má.)
Mas não consigo pensar em nada mais maravilhoso do que alimentar o nosso bebê... Harry..."
25 de janeiro
"...e foi o sonho mais horrível que já tive. Acordei toda suada. Não vou comer mais chili até a chegada do bebê!
O Pontas foi com você na viagem a Alexandria sobre a qual você escreveu? Você não mencionou ele e estou achando que fez de propósito. Se você fez alguma coisa indiscreta, se está tendo um caso com uma dançarina do ventre, pode me contar. Ontem me senti uma vaca de tão gorda, e chorei... ao mesmo tempo em que engolia uma banana split que a Lene me garantiu que ia me animar. (Três bolas de chocolate com amêndoas!)
As vezes me desespero pensando que nunca mais vou vê-lo de novo, Sirius. Você vai voltar a me abraçar? Eu vou sentir você dentro de mim novamente? As vezes acho que você não é real, que é uma pessoa maravilhosa com quem sonhei. Eu preciso de você, meu querido. Preciso saber que você me ama. Como eu o amo. Com todo o meu coração..."
— Vai receber alta semana que vem? ― James virou-se da janela.
— Vou. Finalmente.
— Isso é maravilhoso, filho — disse Ryan Potter com toda franqueza. — Você parece novo em folha.
— Não completamente.
Não havia amargura no tom de James. Nos últimos 13 meses, ele passara a compreender como tivera sorte. Seus passeios pelas alas do hospital o haviam convencido disso. Ele poderia ter ficado confinado numa cadeira de rodas pelo resto da vida, como tantos outros que via fazendo fisioterapia.
James podia caminhar, mancando de leve, mas podia caminhar. Como até se acostumara ao tapa-olho, não estava mais esbarrando nos móveis. Era verdade o que se dizia sobre a capacidade do corpo humano em compensar a perda de um de seus componentes. Ele mal conseguia lembrar como era ter dois olhos.
— Eles queriam que eu voltasse todas as semanas como paciente não internado para prosseguir a fisioterapia, mas eu disse não — contou ao seu pai. — Acho que eles não podem fazer mais nada por mim. Sou perfeitamente capaz de fazer meus exercícios sozinho.
— O que planeja fazer agora? — perguntou hesitante Ryan Potter a seu filho.
A escolha de carreira de James tinha sido um motivo de discussão entre eles desde sua formatura em Harvard. O alistamento nos Fuzileiros Navais fora um ato de rebelião contra o pai, que preferira que James seguisse seus passos na advocacia, e se recusara a ouvir os planos pessoais do filho.
— O que sempre planejei fazer pai. Construção civil.
— Entendo. — A decepção de Ryan foi evidente, mas ele a conteve. Ryan quase perdera seu filho. O flerte de James com a morte havia assustado profundamente o indomável Ryan Potter. Ele não queria perder James de outra maneira. Ele não tinha nenhuma dúvida de que iria perdê-lo caso tentasse direcionar seu futuro. — Onde? Onde você pretende começar?
— Texas.
— Texas! — Era o mesmo que em outro planeta. James riu.
— Você deve ter ouvido falar do boom da construção nos estados do Sunbelt. É lá que estão todas as oportunidades. Na quela região ainda há terra disponível para construção. Escolhi uma cidadezinha perto de Dallas. Chandler. É uma comunidade em crescimento e pretendo investir nela.
— Você vai precisar de um financiamento bancário.
— Tenho pagamentos atrasados dos Fuzileiros para receber.
— Não vai ser o suficiente para iniciar os negócios. ― James fitou intensamente o pai.
— Quanto um diploma de Harvard lhe custou, pai? — Ryan Potter fez que sim com a cabeça.
— Você tem razão. — Ele estendeu a mão e James apertou-a com firmeza.
— Obrigado.
Pela primeira vez desde que James se recordava, seu pai o abraçou, e o abraçou forte.
Mais tarde naquela noite, depois que havia feito as malas, James se deitou na cama do hospital pela última vez. Mas ele estava empolgado demais para dormir. Ele recebera uma segunda oportunidade na vida. Sua primeira oportunidade não tinha sido bem aproveitada. Mas esta nova, que começaria no dia seguinte, iria. Nada mais de desperdiçar sua vida com leviandades. Agora ele tinha uma missão.
Ele pegou a caixa de metal verde. Ela jamais ficava muito longe de sua mão. As cartas estavam marcadas por dobras e amassadas nas pontas. Ele sabia de cor cada uma das 27. Mas ele sentia prazer em ver os volteios e curvas de sua caligrafia feminina. Ele escolheu uma. Não foi uma escolha aleatória.
"...Esse tal Pontas parece o tipo de homem que eu detesto. Ele pensa que é o presente de Deus para as mulheres, não é verdade? Mesmo você tendo dito o quanto ele é bonito, sei que não iria gostar dele..."
James dobrou a carta cuidadosamente e a recolocou em seu envelope. Ele demorou muito a dormir.
Ela era linda.
Ele a vira muitas vezes nessas últimas semanas, mas nunca tão de perto. Nunca por tanto tempo. Era um luxo ser capaz de estudá-la.
Lily Black. Ela irradiava energia e luz como um raio de sol.
O cabelo ruivo puxado para trás num rabo de cavalo casual. As pontas dele eram enroladas, assim como os fios que tinham escapado para emoldurar seu rosto.
O rosto! Em forma de coração. Com um queixo delicado. Uma fronte lisa e alta, denotando inteligência. Uma compleição que deixava James com água na boca. Faces naturalmente tingidas com a cor de pêssegos maduros.
Vestia calças compridas castanhas, camisa de malha de algodão listrada com mangas enroladas até os cotovelos, e um cardigã amarrado em torno do pescoço. Tinha uma silhueta elegante e discreta. Proporções perfeitas.
Ela era... bem... ela era perfeita.
James gostava da forma como ela falava com o menino, como se ele entendesse cada palavra que ela dizia. E talvez ele entendesse, porque quando ela sorria, o menininho robusto também o fazia. Pareciam absolutamente alheios ao movimento intenso no shopping center nesta tarde de sábado, à multidão de fregueses das lojas e lanchonetes.
Foi numa barraquinha que ela comprou o sorvete de casquinha. Com uma agilidade miraculosa ela havia segurado o sorvete com uma das mãos enquanto empurrava o carrinho de bebê através de uma multidão até um banco. Ela ajudara o menininho, embora ele não precisasse de muito encorajamento para descer do carrinho.
Agora estavam sentados num banco e a criança estava destruindo a casquinha de sorvete enquanto sua mãe alternava-se em rir de deleite e repreende-lo por comer como um porquinho. Com a mão direita ela governava a casquinha, enquanto com a esquerda manejava habilmente um guardanapo.
Quando a casquinha de sorvete e o guardanapo tinham sido ambos reduzidos a uma lambança, ela falou duramente com o menino, e então saiu do banco para jogar a sujeira na lata de lixo mais próxima.
No instante em que deu as costas para o menino, ele desceu do banco para o chão do shopping e saiu correndo. Forçando o máximo suas pernas curtas e rechonchudas, seguiu até o chafariz que esguichava água até a clarabóia. Em torno do chafariz havia um laguinho artificial com cerca de 60 centímetros de profundidade.
Movido por seus reflexos, James empurrou a si mesmo da parede na qual estivera indolentemente encostado enquanto os observava. Ele arriscou desviar os olhos do menino por alguns segundos para ver Lily dar as costas para a lata de lixo e perceber que a criança sumira. Mesmo àquela distância foi possível ler na expressão de Lily o pânico instantâneo que apenas a mãe de uma criança sumida poderia registrar.
Sem pensar, James começou a costurar seu caminho através da multidão, seguindo em direção à fonte. O menino agora estava escalando o muro baixo que cercava o laguinho e esticando a mão para a água borbulhante.
— Meu Deus — murmurou James enquanto empurrava para o lado um homem fumando um cachimbo. Ele aumentou a amplitude de sua passada para se mover mais depressa. Mas não depressa o bastante. Ele testemunhou a criança cair da mureta para a água.
Vários transeuntes também notaram, mas James foi o primeiro a alcançar o chafariz. Ele levantou a perna direita sobre a mureta, pisou no laguinho, pegou o menino por baixo de seus bracinhos e o puxou da água.
— Harry! — Lily abria freneticamente caminho através da multidão.
Harry, cuspindo água, olhou com curiosidade o homem que o segurava. Aparentemente grato ao homem que o salvara, o menino sorriu, revelando duas fileiras perfeitas de dentes de bebê, e disse alguma coisa que poderia ser "água".
Pingando água, James saiu do laguinho. A multidão abriu em leque para lhe conceder espaço.
— Ele está bem?
— O que aconteceu?
— Onde está a mãe?
— Não tinha ninguém de olho nele?
— Alguns pais deixam os filhos correrem soltos.
— Com licença, com licença. — Lily finalmente abriu caminho a cotoveladas através dos curiosos. — Harry, Harry! — Ela tomou o filho dos braços de James e o apertou com força contra o peito, apesar de suas roupas molhadas. — Oh, meu bebê. Você está bem? Você assustou a mamãe. Oh, Deus.
No instante em que Harry percebeu o nervosismo da mãe, sua aventura se tornou um trauma. Seu lábio inferior começou a tremer, os olhos encheram-se de água enquanto o rostinho desabava. Então ele abriu um berreiro.
— Ele está machucado! Ele está machucado? — perguntou Lily, frenética.
— Andando, pessoal. Por favor, abram espaço para nós. Ele está bem, apenas assustado.
Lily estava vagamente consciente do homem grande ao seu lado. Ela sentiu a mão dele entre as omoplatas de seus ombros, empurrando-a através da multidão até um banco afastado. Estava tão ocupada examinando Harry em busca de ferimentos que o homem passou despercebido até ela estar sentada no banco. Finalmente, abraçando Harry enquanto o menino chorava, levantou os olhos para o homem.
Levou muito tempo para que seus olhos alcançassem o rosto dele, de modo que sua primeira impressão do homem foi de que ele era muito alto. Ela não estava preparada para o tapa-olho no lado esquerdo do rosto, e se conteve a tempo de arfar de susto.
— Obrigada.
O homem grande sentou ao lado dela.
— Acho que ele está bem. Só ficou assustado com a sua reação.
Ela virou o rosto, mostrando-lhe que seu queixo não era apenas delicado. Ele podia ser teimoso quando desafiado. Quando entendeu que o homem não estava sendo crítico, ela abriu um sorriso desgostoso.
— Acho que você tem razão. Eu exagerei. — Harry estava começando a parar de chorar. Ela o segurou a uma pequena distância e enxugou as lágrimas nas faces avermelhadas e rechonchudas.
— Você quase me matou de susto, Harry Black! — ralhou. E então, olhando novamente para o homem, explicou: — Num momento ele estava lá, no momento seguinte já não estava.
Ela tinha olhos verdes. Olhos verdes nos quais Trevor sentiu-se afundar.
— Ele se moveu como um raio. — Quando ela inclinou a cabeça, obviamente intrigada, ele explicou: — Eu estava observando ele comer seu sorvete de casquinha.
— Oh — exprimiu Lily. Não ocorreu a ela perguntar por que eles haviam atraído sua atenção. Ela estava tentando adivinhar o que acontecera com o olho dele. Era uma pena ele tê-lo perdido, porque o que a estava fitando era castanho esverdeado belíssimo, e cercado por cílios finos e pontudos.
O olho respondeu ao olhar de Lily como uma chama esmeralda. Embaraçada por ter sido flagrada olhando-o, baixou o rosto. Foi então que ela notou que ele estava com as calças jeans e as botas molhadas.
— Você entrou no chafariz?
Ele riu, olhando para suas pernas. As calças jeans estavam molhadas dos joelhos para baixo.
— Acho que sim. Não me lembro. Estava pensando apenas em Harry.
— Como sabe o nome dele?
O coração de James pulou em seu peito.
— Eu ouvi você chamar por ele.
Ela fez que sim com a cabeça e disse:
— Sinto muito por ter se molhado.
— Vai secar.
— Mas olhe essas suas botas caras.
— Não são tão valiosas quanto Harry. — Fez cócegas debaixo do queixo do menino. Harry estava com a manga do cardigã da mãe na boca, mastigando-a. Mecanicamente, ela o afastou dele e o aninhou em seu peito.
— Oh, minha nossa! — exclamou ela. Como se para reforçar o que ela acabara de compreender que eles dois estavam en charcados, Harry espirrou.
— Você está molhada — disse James.
Ele estava olhando para a frente da blusa de Lily de uma forma que espantou o frio que sentia. Ela se levantou.
— Mais uma vez, obrigada. Adeus.
Segurando Harry à sua frente como um escudo, ela correu até a saída mais próxima.
— Espere!
— Por quê?
— Não está esquecendo nada?
— O quê?
— A sua bolsa, para início de conversa. E o carrinho do Harry. Eles ainda estão lá, perto da barraquinha de sorvete.
Sentindo-se uma idiota colossal, ela balançou a cabeça, rindo trêmula.
— Ainda estou...
— Transtornada. Posso imaginar. Deixe que eu pego as coisas para você.
— Você já fez muito.
— Não tem problema.
Ele se afastou antes que ela pudesse levantar outro protesto. Lily baixou os olhos para o busto para ver se estava se expondo de forma indecente. Ficou apenas levemente aliviada ao ver que não seria presa por atentado aos bons costumes.
Rapidamente olhou de volta para o homem que se afastava. Foi então que notou que ele mancava. Era quase imperceptível, mas ele definitivamente favorecia o lado esquerdo. Ele devia ter sofrido algum acidente terrível no qual perdera o olho e tivera o lado esquerdo do corpo parcialmente mutilado.
Mas, isso não prejudicava a graça com que caminhava. Para um homem tão grande, ele era gracioso e tinha o porte de um atleta. E o corpo. Ombros largos e quadris estreitos. Seus cabelos eram negros como a noite e arrepiados. Lily notou que as mulheres por quem ele passava olhavam-no duas vezes. Nenhuma parecia importar-se com o tapa-olho. Na verdade, ele contribuía para seu apelo, que era sexy e levemente devasso.
Ainda assim, por mais másculo que fosse, ele não se importou de colocar a alça da bolsa no ombro e empurrar o carrinho de bebê pelo shopping em direção ao banco onde ela aguardava com Harry.
— Obrigada de novo — disse ela, evitando a mãozinha de Harry, que estava tentando puxar seu brinco, ela esticou a mão para sua bolsa. James deslizou a alça pelo braço, para em seguida colocá-la no ombro de Lily.
Ela é tão delicada, pensou James.
Ele é tão alto, pensou Lily.
Ela se curvou e tentou acomodar Harry no carrinho, mas ele se recusou. Seu corpinho permaneceu rijo como uma tábua e ela não conseguiu dobrar as pernas. O menino começou a protestar.
— Ele está ficando cansado — disse ela à guisa de explicação, constrangida por seu filho estar se comportando de forma tão indisciplinada. Eles estavam atraindo atenção de novo, e os novos transeuntes olhavam com curiosidade a criança encharcada, a mãe úmida e o homem de calças jeans molhadas.
— Por que você não carrega Harry e me deixa empurrar o carrinho até seu carro?
Ela se empertigou, levantando Harry consigo.
— Não posso deixar você fazer isso. Já lhe causei muita inconveniência.
Ele sorriu. Seus dentes eram muito retos e brancos.
— Não é inconveniente nenhum.
— Bem...
O homem deixava Lily nervosa. Por que motivo, ela não saberia dizer. Ele havia se comportado com cortesia suficiente para merecer uma medalha de escoteiro. Ele não a olhara sugestivamente. Mais do que provavelmente ele pensava que ela possuía um marido que estava jogando golfe ou em casa, trabalhando no jardim.
Ainda assim, ela sabia que ele estava ciente de sua blusa molhada, e embora ele não pudesse realmente ver nada, a sugestão estava presente, e isso a deixava tensa.
— Vamos. É melhor irmos antes que nem duas pessoas consigam cuidar de Harry.
A cada segundo o menino estava ficando mais pesado nos braços dela, e mais inquieto. Ele estava se debatendo irritado, porque sem dúvida estava tão desconfortável quanto ela nas suas roupas molhadas.
— Muito bem — disse ela, empurrando uma mecha de seus cabelos que fora puxada pelo menino. — Eu apreciaria isso.
— Por ali? — indagou James, apontando com a cabeça para a saída.
Ela pareceu inquieta.
— Na verdade, não. Estacionei do outro lado da Penney's.
Ele poderia ter perguntado por que, tendo estacionado do outro lado da Penney's, ela seguira na direção desta saída há poucos minutos, como se o diabo estivesse em seus calcanhares. Mas de modo autenticamente cavalheiresco ele não disse nada. Depois de esperar que ela o precedesse, ele empurrou o carrinho de bebê vazio em direção à loja de departamentos do outro lado do shopping center.
— A propósito, meu nome é James. James Potter. — Prendendo a respiração, ele observou o rosto dela, esperando por sinais de reconhecimento. Quando não viu nenhum, sentiu um alívio no peito.
— Sou Lily Black.
— É um prazer conhecê-la. — Ele apontou com a cabeça na direção de Harry, que parara de chorar agora que eles estavam em movimento novamente. — E Harry, é claro.
Sorrisos como o dele deveriam ser contra a lei, pensou Lily. Era perigoso para a população feminina. O charme de James transpunha barreiras de gerações. Ela viu algumas adolescentes flertarem abertamente com ele enquanto passavam. Ele também virou as cabeças de muitas avós.
Não importava se uma mulher estava acompanhada por outro homem ou não; todas elas notavam James Potter.
Ele era dotado de uma beleza clássica, mas seu rosto era marcado por linhas de expressão. Lily se perguntou como eles poderiam ter-se marcado tão profundamente ali. Dor causada pelo acidente? Ele não poderia ter mais do que 30 e poucos anos. Não muito mais velho do que Sirius seria hoje.
Sirius. Pensar nele deflagrou uma dor já muito conhecida através dela. Se estivesse vivo, estaria caminhando ao seu lado. Ela não precisaria da assistência de um estranho. Já havia mais de um ano desde sua morte.
De acordo com todos os livros sobre o assunto, o primeiro aniversário era um marco, ela estaria superando a perda a esta altura. Mas nenhum dia se passava sem que ela pensasse em Sirius, geralmente no momento em que ela menos esperava. E ela estava feliz por isso. Ela jurara manter seu marido vivo, tanto para o bem dela quanto o de Harry. Acalentar lembranças de Sirius dia após dia mantinha-o uma parte vital de sua vida.
— Qual é a idade de Harry? — perguntou James de repente.
— Pouco mais de quinze meses.
— Ele é robusto, não é? Se bem que não entendo muito de crianças pequenas.
— Sim, ele é robusto — disse Lily, rindo e passando-o de um braço para o outro. — Mas o pai dele era musculoso.
— Era?
Por que ela deixara o portão abrir? Não fora sua intenção.
— Ele morreu — explicou sem elaboração.
— Sinto muito.
E ele sentia mesmo. Ou não?
James esperara por este dia há meses. Desde que saíra do hospital, marcara o tempo, aguardando o momento certo. Estava ansioso para iniciar seus negócios, mas mesmo com a ajuda do pai, havia um milhão de detalhes tediosos para cuidar. As horas que passara aguardando em escritórios pareciam infindáveis para um homem que tinha meses de sua vida para recuperar. E também houvera as horas passadas ao ar livre sem camisa, para perder sua palidez doentia de hospital.
Durante todo esse tempo, ele imaginara seu primeiro encontro com Lily uma centena de vezes, perguntando a si mesmo onde aconteceria, como ela se pareceria, o que ele iria dizer.
Ele não se programara para conhecê-la naquele dia. Mas estava acontecendo! Ele estava vivendo aquele momento tão antecipado. E, tendo-a visto, ele honestamente não podia dizer que lamentava ter dormido no beliche de Sirius Black naquela noite fatídica. Por egoísmo puro, ele sentia uma felicidade imensa por estar vivo no momento.
— Temo que ainda tenhamos de andar muito — disse Lily, à guisa de desculpas, quando ele abriu a porta para que ela passasse.
— Não me importo.
O estacionamento era um bom indicador da multidão dentro do shopping center. Motoristas que tinham acabado de chegar disputavam vagas à medida que elas ficavam disponíveis.
— É daqui, Sr. Potter? —perguntou Lily enquanto atravessavam o estacionamento,
— Pode me chamar de James. Não, não sou. Eu me mudei para cá há um mês.
— O que o trouxe a Chandler? ― Você.
— Cobiça.
Assustada pela resposta, ela olhou para ele.
— Como disse?
Uma mecha de cabelos foi soprada diante dos lábios dela. O coração de James pulou uma batida enquanto ele pensava como seria afastar aqueles fios ruivos para beijá-la nos lábios. Ela tinha a boca mais convidativa que ele já vira.
— Sou empreiteiro — disse um pouquinho alto demais depois de pigarrear. — Quero fazer parte da expansão que está havendo aqui.
Talvez ele devesse ter pago a uma mulher para fazer amor com ele antes de conhecer Lily. Talvez ele devesse ter cultivado alguns relacionamentos casuais baseados apenas em sexo. Talvez não devesse ter-se submetido à abstenção.
— Ah, entendo. Bem, aquele é o meu carro. ― Ela apontou para uma perua azul-clara.
— Petal Pushers? — perguntou James ao ler a logomarca na lateral do veículo.
— Eu e uma amiga temos uma floricultura.
Ballard Parkway 5298. Ele sabia exatamente onde era, as cores do toldo listrado sobre a vitrine, e quais eram as horas de funcionamento.
— Uma floricultura, hein? Parece interessante.
Depois que ela havia prendido Harry na cadeira de bebê do carro, ele a ajudou a guardar o carrinho dobrável no banco traseiro.
— Não tenho como lhe agradecer... James. Você foi muito gentil.
— Não me agradeça. Gostei. De tudo, menos de ver Harry cair daquele muro na água.
Lily estremeceu.
— Não quero nem pensar nisso. — Ela olhou para ele por um longo momento. Parecia não haver nenhuma forma graciosa de se retirar. Como se dizia obrigado e adeus a um estranho que salvara a vida de seu filho?
— Bem, adeus — disse ela, sentindo-se constrangida e sem imaginar nada que pudesse fazer com as mãos.
— Adeus.
Ela sentou ao volante e fechou a porta. Ele recuou, acenou e começou a se afastar. Lily girou a chave. O carro produziu um gemido horrível, mas o motor não pegou. Ela pisou fundo no acelerador e tentou de novo. Vram, vram, vram. De novo e de novo. Mas o carro não pegou. Ela murmurou alguma coisa que sua mãe ficaria mortificada em ouvir de sua boca. Bem, era provável que sua mãe nem conhecesse essa palavra.
— Problema? — James Potter falara através da janela no lado do motorista. Ele estava com as mãos pousadas nos joelhos do brados.
Ela baixou a janela e disse: — Não quer pegar.
— Parece que a sua bateria arriou.
Teimosa, tentou de novo, várias vezes. Finalmente admitindo a derrota, ela desligou o carro e afundou no banco, agitando todos os quatro membros de raiva. Este estava sendo um sábado infernal.
— Posso ajudar? — perguntou James depois de um momento.
— Vou voltar para o shopping e ligar para o meu pai. Ele virá pegar a gente e mandar alguém ver o carro.
— Tenho uma idéia melhor. Que tal se eu levasse vocês para casa?
Ela olhou para ele sem fala, e então desviou os olhos. Um arrepio de medo correu por sua espinha. Ela não conhecia este homem. Ele podia ser qualquer um. Como ela iria saber que ele não sabotara o seu carro, e depois puxara conversa com ela no shopping e...
Pare, Lily. Isso é loucura. Ele não podia ter orquestrado a queda de Harry na fonte. Ainda assim, ela era suficientemente ajuizada para não entrar num carro e ir a algum lugar com um total estranho.
— Não, obrigada, Sr. Potter. Eu me viro.
A recusa acabou soando mais rude do que ela quisera, mas não podia correr o risco de cair nas garras de um possível seqüestrador. Ela inverteu o processo exaustivo pelo qual passara apenas alguns minutos antes, desafivelando Harry e tirando-o do carro, pegando sua bolsa, fechando a janela e trancando a porta do veículo. Seguiu na direção da qual eles tinham acabado de chegar.
— Não quero detê-lo, Sr. Potter — disse ela ao senti-lo caminhar ao seu lado.
— Não será incômodo nenhum levar vocês até onde queiram ir.
— Não, obrigada.
— Tem certeza? Seria um...
— Não, obrigada!
— Não é incrível isso? — Ele moveu a mão até seu olho esquerdo. — Eu sei que isto faz de mim automaticamente um suspeito, mas juro que você não precisa ter medo de mim.
Lily subitamente parou e se virou para ele. Oh, Deus. Agora ele provavelmente achava que ela nutria um preconceito contra deficientes físicos.
— Não tenho medo de você.
A tensão em seu rosto foi gradualmente substituída por um sorriso caloroso.
— Bem, você deveria ter. Hoje em dia não se pode confiar em estranhos. — Eles riram, sem se dar conta do tráfego que estavam bloqueando. Ele deu um passo para mais perto dela e lhe disse, com absoluta franqueza: — Só estou tentando lhe oferecer uma carona.
Ela se sentiu uma idiota. Qualquer homem disposto a arruinar um par de botas de 400 dólares para pescar um menininho num chafariz não deveria ser inclinado a seqüestrar, matar ou mutilar.
— Muito bem — concedeu ela.
— Ótimo.
A paciência do motorista esperando para sair da vaga que eles estavam bloqueando finalmente acabou, e ele buzinou. Eles começaram a caminhar.
— Onde está seu carro?
James indicou a direção com a ponta do queixo.
— A mais ou menos um quilômetro daqui — disse ele, rindo. — Porque não me deixa carregar Harry?
Com apenas um traço de relutância, Lily passou seu filho para ele. Com a palma da mão rechonchuda, Harry deu um tapa na testa de James. Ele parecia não ter nem um pouco de medo do homem alto, bonito, elegante e de tapa-olho, com o charme de um vendedor de tônico miraculoso e um sorriso que poderia causar danos sérios a um iceberg.
Olá pessoal!
AVISO IMPORTANTE: Já estamos no segundo capítulo e tenho notado que muita gente está lendo a fic, mas somente minha querida Ninha Souma tem comentado, desse modo não sei o que a galera está achando da fic, se estão gostando ou não, por esse motivo vou parar de postar Cartas de Amor, que já está com o epílogo pronto. Adoraria terminar de postar Cartas de Amor e postar minha próxima fic Esperando Por Você que também já está com o epílogo pronto, mas infelizmente não postarei até saber a opínião de meus queridos leitores.
Ninha Souma: Olá Ninha, como você pode notar partes de algumas cartas de Lily são mostradas no início deste capítulo, algumas dela revelando o grande amor que ela sente por Sirius, também amei ele, esse Sirius fisicamente igual ao orginal, mas capaz de amar profundamente alguém. O Jay se sente culpado pela morte de Sirius, mas ao mesmo tempo feliz por estar vivo e conhecer Lily. Como eu havia prometido flor, postei rapidinho, mas infelizmente devido aos motivos explicados acima, não sei quando postarei de novo, espero que seja logo. Um grande beijo Ninha.
