À UM PASSO DA EXECUÇÃO
Arashi Kaminari

Capítulo 3

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo... Amém!"

Por detrás de uma das colunas da igreja, ouviu o coro responder ao início da prece. Aquela era a hora perfeita para uma "pequena" traquinagem. Os seminaristas estavam em plena missa matinal diária. Ninguém o visitaria por pelo menos uma hora. Era o suficiente para ir ao seu destino e fazer o que devia. Nenhum padre estava presente na igreja, exceto o que celebrava a missa. As irmãs não permaneciam por muito tempo. Faziam o trabalho pela manhã e voltavam ao convento assim que terminavam seus afazeres. Nem a própria irmã Helen permanecia. Era uma forma de manter o pecado longe da Santa Construção.

Durante dois dias havia recebido muitas visitas, muitas delas de caráter duvidoso. Sabia que queriam mesmo era saber o porquê da briga e não sobre seu estado. Mas antes que as mandasse para lugares nada sagrados, John sempre surgia e expulsava o "penetra". A verdade era que o sacerdote havia proibido visitas a Duo a pedido da irmã Helen. Ela pediu um tempo para que Duo ficasse na sua e refletisse sobre o que havia feito recentemente. Pelo menos era o que John havia lhe contado.

Aproveitou a sua chance e escapou. Sem ninguém notar, saiu por uma das portas de um dos corredores da igreja. Ainda tropeçando em seus pés pela falta de exercícios que teve nos dois dias, atravessou a rua e seguiu até o ponto de ônibus da esquina que havia no final da ladeira em que a igreja se encontrava.

A dor em seus joelhos havia cessado, mas era bom não abusar da sorte. Caminhou calmamente sem forçá-los. Pediu durante toda a descida para que não encontrasse nenhum conhecido. Não desejava ter seus planos frustrados antes mesmo de pô-los em prática. Agradeceu a Deus, assim que pôs seus pés no ônibus e ele partiu.

oOo

Pensou que encontraria empecilhos para conversar com Heero. Mas pelo visto a ordem que havia recebido na igreja não se aplicava na prisão. A prova era seu nome constando no livro de visitas permitidas ao prisioneiro mais famoso da região.

Aguardava Yuy há alguns minutos na mesma sala em que o conheceu. Sentado numa cadeira que havia colocado próxima ao vidro que os separaria, passava em sua mente tudo o que havia pensado durante a viagem. Não poderia se deixar levar por aquele homem. Lembrava do ar astuto que o cercava.

Logo a porta do outro lado do vidro se abriu, interrompendo seus pensamentos. Pôde ver de relance algo diferente no olhar que o recém-chegado lhe dirigia. Porém não soube identificar o que era. Permaneceram calados até que o guarda, que soltou Yuy das correntes e das algemas, saísse da sala.

"Surpreso por me ver?"

Heero sorriu perante a pergunta do jovem, enquanto massageava seus próprios pulsos. Ele lhe parecia pretensioso.

"Surpreso por vê-lo sem a companhia da irmã. Helen é o nome dela, certo?" – Heero brincou, querendo testar a paciência de Duo.

"Ela conseguiu algo?"

"Creio que minha teoria estava correta." – disse Heero, enquanto acomodava-se em uma cadeira, não permitindo que Duo entendesse o significado de suas palavras – "Sabe quem sou, não sabe?"

"Um homem que tem dia certo para morrer. Quem mais poderia ser?"

"Espera que eu peça desculpas?"

"Não."

O japonês deixou que a sombra de um sorriso pairasse sobre seus lábios. Mesmo se controlando, Duo deixava passar sua raiva em suas respostas. Ele poderia enganar qualquer um rebatendo daquela forma, mas nunca poderia enganar Heero.

"Ótimo. Elas não trarão seu amigo de volta mesmo."

"Por que fez isso?"

"Por que você quer saber?" – Heero rebateu, irritando Duo.

"Porque eu era amigo dele. Eu mereço saber o que aconteceu." – Duo gritou, ficando de pé no instante seguinte.

"Perdão. Não posso lhe contar. Sinto muito."

"Sente muito?" – ironizou – "Meu amigo está apodrecendo debaixo da terra e eu nem sei se ele teve seus sete palmos merecidos e tudo o que tem a me dizer é que sente muito? Que tipo de pessoa você é? Você não pode ser humano." – Duo explodiu, apoiando-se na bancada.

"O que aconteceu aquela noite..." – começou calmamente, batendo o dedo indicador da mão destra na cabeça – "está aqui. E por mais que você grite, me ofenda ou me ameace, você continuará a não saber."

"Ele nem te conhecia. Você não tem noção de quem você matou. Ele era muito querido. Ele e a irmã dele. Um futuro brilhante agora enterrado e tudo culpa de um bastardo feito você." – Duo continuou, policiando seu timbre de voz. Percebeu que o homem queria tirá-lo do sério. Não daria essa vitória novamente à ele.

"O que você sabe?"

"Que você os matou."

"Apenas isso?" – ironizou, esperando mais da resposta do seminarista.

"É o suficiente, desgraçado."

"Desapareça da minha frente. Volte apenas quando souber algo e não o que todos sabem. Talvez eu te conte."

Heero levantou-se em seguida. Estava cansado de ser ofendido e a conversa não chegar a lugar algum. O seminarista estava o fazendo perder tempo e saliva. Nada do que dissesse mudaria seu destino. Não havia sentido em conversar com o jovem de olhos violetas então. Tudo o que queria era um passatempo para não ter que pensar durante todo o dia em sua sentença, mas brincar com o garoto era cansativo. Queria um jogar com alguém que valesse a pena.

Bateu na porta e logo o guarda apareceu novamente, acorrentando-o e o algemando.

"Quem é você?" – indagou Duo.

"Heero Yuy, o assassino dos seus amigos. Não me torre a paciência."

oOo

"Achou fácil chegar até aqui?"

Tremeu ao ouvir a voz atrás de si. Por um segundo pensou que havia sido pego por um dos informantes do pároco. Sabia que a sua pessoa não estava muito bem perante o clero. Não poderia fazer asneiras.

"Que susto, John."

"Deixe seu espanto para depois e pense numa desculpa." – disse o jovem padre, fechando a bíblia que trazia consigo, enquanto levantava-se da cama de Duo.

"Para quê? Eu não fiz nada."

"Melhor, pense numa ótima mentira."

"Do que você está falando?" – Duo indagou, seguindo com os olhos a aproximação de John à porta do quarto.

"A irmã Helen percebeu que você não estava aqui." – Duo gelou. Boa coisa não viria. Já era de se esperar. – "Não se preocupe. Ela não contou ao pároco. Mas com toda a certeza contou ao seu tio."

"O quê?"

"Voltou hoje pela manhã."

"Mas..."

"Eu sei." – John continuou perante a falta de palavras de Duo – "Acho que a irmã Helen deve ter conversado com ele em virtude de suas recentes ações." – aproximou-se do seminarista, colocando uma de suas mãos sobre o ombro de Duo – "Diga-me que não foi lá. Diga-me!"

"Eu fui..." – Duo admitiu num sussurro.

"Duo, você tem noção das conseqüências que essa frase lhe trará?"

"Menos um pecado."

"Pecado? Pecado é o de menos nesse momento. Você desacatou uma ordem e por um mero capricho." – John acusou-o cruamente – "Conhecendo o padre Maxwell como eu conheço, você está encrencado." – terminou, abrindo a porta.

"Você sabe de algo mais?"

"Sobre?"

"A morte dos Winner."

John fechou a porta de supetão. Não queria acreditar no que Duo havia acabado de lhe perguntar. Pensava que depois de meses o seminarista já havia esquecido esse assunto. Ninguém em toda a igreja falava uma só palavra. Não era bom revirar um assunto já revirado. Isso só trazia mais dores e cicatrizes.

Estava começando a concordar com a irmã Helen. Duo estava mentindo para si mesmo. Precisava bater de frente com seus próprios medos e dúvidas. Mas Heero Yuy não lhe parecia a chave correta para abrir os olhos do jovem. Ele só confundia mais e mais a cabeça do seminarista.

"Esqueça isso, Duo."

"Eu não posso." – disse Duo de forma convicta – "Você sabe de algo."

"Não, eu não sei."

"Sabe sim. O que você sabe que eu não sei?"

"Sei apenas boatos. Sabe que não se deve confiar na língua ferina do povo."

"Diga-me."

John relutou por alguns segundos consigo mesmo. Não queria ajudar Duo nessa busca desesperada por algo que ele mesmo nem tinha certeza do que era. Mas também sabia que se não dissesse o que sabia, Duo não lhe deixaria em paz. Pior do que já estava, o estrago não poderia ficar.

"Eram dois agressores. Dizem ainda que um suicidou-se antes de ser pego."

"Dois?"

"Sim."

"Faz sentido."

"Duo..." – John chamou-o, conseguindo a atenção do garoto de trança – "Esqueça isso. Pelo menos por hora. Estão nos esperando no refeitório."

oOo

O almoço ocorreu de forma pacífica, apesar dos olhares de repreensão do padre Paul. Ele ainda achava que deveria ter castigado o seminarista pelo escândalo que havia dado ao discutir com a irmã Helen em pleno corredor.

Logo após todos terem feito sua refeição, rezaram mais uma vez e cada um saiu silenciosamente para cumprir seus afazeres. Duo desejava fazer o mesmo, mas seu tio havia dito que queria conversar com ele. Pela feição sorridente de Maxwell, por um momento pensou que a irmã não teria contado sobre o acontecido. Ledo engano...

"Sentiu saudades?"

"Como sempre."

"Isso é bom. Fortalece os laços. O que tem feito em minha ausência?"

"Nada demais. O que poderia fazer?" – Duo mentiu, seguindo o conselho de John.

"Hipócrita!" – Padre Maxwell acusou-o.

"Hã?" – Duo fez-se de desentendido.

"Não seja cínico. Quer acabar com essa congregação? Não será você quem tentará. Não o sangue do meu sangue."

"O senhor não sabe de nada..." – Duo murmurou.

"Eu sei o que você fez e o que você deixou de fazer. É o bastante."

"Acredita mais na palavra deles do que na minha?"

"Tu não honras a tua própria palavra. Até uma pena deve ter mais peso. Chega atrasado as missas diárias, isso quando não comparece. Passa as noites lendo livros hereges, deixa seus deveres de lado, discute com uma irmã e não cumpre uma ordem. Eu tenho fatos, Duo. O que você tem?"


Por Arashi Kaminari, 12 e 15 de maio de 2005.

Nota da autora:

Graças a ação terrorista (é como as fanwritters estão chamando) do ff . net, apenas agradeço aos comentários da Bela Youkai, da Anna Malfoy e da Camila nessa nota.