Aos poucos, a figura dela parecia ser interessante. Interessante de olhar, de aproximar, de falar... por trás daquela aparência "petiz", dava para perceber uma mulher interessante. Além de ser uma pessoa calma e obediente, era paciente e observadora. Gente pacata sempre o irritou, mas aquela moça não o irritava. Os olhos castanhos claros, quase âmbar na luz solar, eram muito expressivos. As roupas simples e velhas que usava deixavam revelar sutilmente belas curvas. Sempre com os cabelos presos em um coque, realçando a beleza dos ombros esguios e delineados e a cor bonita da pele, ainda mais realçada com um leve bronze adquirido pelo Sol.

Enquanto Kid consertava uma peça, observava discretamente Rhina estendendo algumas roupas em uma linha improvisada, amarrada entre dois mastros. Ela estava com um vestido cor de pêssego, de textura fina, meio colado no corpo. Os seios firmes e levemente pontudos se destacavam com seus movimentos, e enquanto ela estendia as roupas recém-lavadas, dava para ver o contorno bem feito. Assim como eram os seios, eram também seus quadris, só que maiores e mais roliços. Kid tinha certeza que a venderiam como escrava sexual. Achava aquele comércio de escravos repugnante. Ele agradecia Heat no fundo de sua alma, por tê-la flagrado se escondendo naqueles caixotes que levariam consigo. Seria injusto só de imaginar homens velhos e acabados desfrutando sexualmente de tal rica fruta. Estava tão distraído nos pensamentos que, de repente, flagrou algo. Rhina o olhava, parada, com um jeito que não entendia nada. E realmente, Rhina ficou surpresa ao flagrar Kid olhando em direção a ela, fixadamente.

- O que houve? - perguntou Kid.

- Nada. Apenas pensei que o capitão quisesse alguma coisa e que eu não tinha percebido. - justificou Rhina.

- Humm... só estou apenas distraído... - disse, largando a tal peça de metal que tanto mexia e que tinha parado de mexer por causa dos pensamentos em Rhina.

- Entendo. Mas o senhor vai querer alguma coisa?

- Por enquanto, nada. Se precisar, hei de chamá-la. - disse, levantando-se enquanto sacudia as calças com leves tapas, limpando-as.

Ele se retirou da presença dela. Sentiu que sempre ia ser flagrado se continuasse a pensar daquela forma. Assim, ele se isolava em seu camarote que correspondia ao seu quarto, e ficava montando e consertando peças de metal – um dos seus passatempos prediletos. Dentro do seu quarto, ele podia pensar melhor nesses últimos dias. Nela, especificamente.

Ao terminar o serviço, Rhina foi sentar perto da proa, onde gostava de ficar. Viu a tal peça que seu capitão estava mexendo antes. Curiosa, pegou e analisou-o. Uma simples roda de metal, de pontas em forma de quadrado. Era quase do tamanho de sua própria mão. De repente, veio a ideia de entregar a peça para Kid. Foi até o camarote dele, mas foi surpreendida quando Killer entrou em sua frente.

- Eu... ia entregar isso ao capitão. - Rhina mostrou a peça.

Killer olhou Rhina e a tal peça.

- Está bem, pode seguir.

Rhina foi até a porta do quarto de Kid e bateu. Achou estranho ter sido barrada por Killer. Mas ele parecia como um guarda-costas do ruivo, além de ser o braço-direito. Mas o loiro já a conhecia, e que mal ela poderia fazer, ela... uma criatura frágil que só servia para os serviços domésticos no navio dele?

- Capitão, sou eu. - disse Rhina, batendo a porta.

- Você? ...Pode entrar.

Delicadamente, Rhina abriu e fechou a porta.

- O que te traz aqui, Rhina?

- Isso. - ela mostrou a peça. - Você havia deixado onde estava sentado, provavelmente deve ter esquecido.

Kid parou de mexer nas peças e virou-se para ela, ainda sentado. Olhou-a de cima para baixo discretamente. E era gentil, inocentemente gentil. Ele estendeu a mão para ela, revelando um antebraço forte e com pulseiras de ouro.

- Dá aqui.

- Sim, senhor.

Ela mal foi lhe entregar a peça, e ele a puxou pelo pulso fino, fazendo com que ela ficasse entre os braços e pernas dele. Rhina ficou imóvel. Ele tirou a peça da mão dela e a olhou nos olhos que não queriam encará-lo.

- Era exatamente essa peça que faltava aqui! Agradeço por ter me lembrado desta!

Kid moveu uma de duas pernas, fazendo com que ela, que já estava encostada nela, se sentasse na coxa dele. Rhina não reagiu, mas ficou levemente corada. Ele levou a tal peça fria de metal até o queixo da jovem, fazendo com que ela levantasse o rosto.

- Por que está envergonhada, Rhina?

- Eu? ...não, estou bem... - disse num tom baixo, porque não conseguia falar mais alto.

- ...está em rubor.

- ...deve ser pelo Sol que acabei encarando enquanto estendia as roupas... mas... é só isso que precisava? - ela tentava conter seus gaguejos.

- Sim... já pode se retirar, se quiser.

- ...com licença.

Rhina saiu do colo dele e foi embora, um pouco apressada. Kid riu sozinho, admirando toda aquela timidez. Era pura. Rhina foi até a cozinha preparar alguma coisa, embora não fosse hora dela fazer refeição. Ela precisava coser algo para aliviar uma estranha emoção dentro de si. Nunca homem algum a tomou daquela forma tão íntima. Ele era forte... aquela mão grossa e levemente áspera parecia esmagar-lhe o pulso fino. Uma estranha sensação de "entusiasmo" agradava e assustava ao mesmo tempo. Depois de ter assado uns pães, Rhina os deixou na mesa e saiu da cozinha, indo até seu quarto. Deitada na cama, ficou pensando naquele rápido momento com o capitão até que finalmente caiu num cochilo.

Saindo do seu quarto, Kid foi até Killer falar-lhe algo. Enquanto os dois discutiam alguma coisa sobre Big Mom, os outros dois membros estavam cada um em seu canto.

- Ah, ia esquecendo! Você viu a Rhina por aí? - perguntou o ruivo.

- Só a vi quando entrou em seu quarto, parecia querer entregar alguma coisa.

- Sim, Killer. Era uma peça de metal que esqueci perto da proa, e ela me entregou.

- Depois disso, não a vi. Ela fica sempre sentada perto da proa quando não tem tarefas.

- É bem obediente ela, não? - disse com um pouco de sarcasmo.

- … e o que pensa em fazer com ela quando ultrapassarmos Red Line?

- Por enquanto, não tenho planos para ela. Rhina está sendo muito útil, seria uma excelente escrava doméstica ao seu senhor, mas agora é minha, hehehe... - disse, ajeitando as armas que ostentava no cinto amarrado no peito robusto.

- Deseja tê-la como uma escrava, Kid?

- Até... quando cismar de levá-la de volta para a terra dela. Mas ainda é muito cedo! E falando em cedo, já deve estar na cozinha preparando o jantar, vou até lá!

Kid se adiantou, mas só encontrou Heat e Wire comendo os tais pãezinhos que ela havia assado de tarde.

- Ué? Onde está aquela garota? - Kid perguntou aos dois.

- Deve estar perto da proa. Ela gosta de ficar ali quando está desocupada dos serviços. - disse Wire.

- Não é hora de ficar descansando! - Kid saiu de lá e foi até a proa, mas ela não estava lá.

Ficou praguejando o sumiço dela, até que Killer disse algo óbvio.

- Ela deve estar no quarto dela.

Foi o ruivo diretamente ao mais distante camarim do navio. Bateu-lhe a porta com certa rispidez.

- Ei! Já está na hora de sair daí!

Rhina acordou do cochilo longo, e levantou-se logo. Lembrou do jantar que deveria fazer. Foi atender a porta esfregando os olhos.

- Esqueceu da rotina, é? - Kid ironizou, vendo a criatura que parecia despertar.

- Desculpe-me, capitão. Isso não se repetirá... - disse, com a cabeça baixa.

- Olha para mim, enquanto eu estiver falando!

Rhina assim o fez. Estava com o coque assanhado, com algumas mechas do cabelo levemente ondulado soltos. Ela rapidamente endireitou o penteado. Kid assistia calado a moça se arrumar.

- Já está pronta?

- Sim, senhor.

- Então, o que espera?

Desculpando-se, Rhina saiu até a cozinha. Estava um pouco revoltada com aquela vida de serviçal de piratas que levava e dos tratos rudes do seu capitão. Mas em seu inconsciente, perguntava a si mesma por que tinha se enrubescido quando o capitão havia pego a peça de metal "daquele jeito". Em alguns momentos, ele era calmo; em outros, nervoso. Ela julgava-o "bipolar". Mas quando o ruivo estava de mau humor... tinha que se segurar. Ela sabia que estava dependente dele em relação a soa sorte. Se ele cismasse em devolvê-la ao mercado de escravos, ele faria sem pensar duas vezes. Ela não possuía força suficiente para confrontá-lo. Estava a mercê dele.

Apressadamente, Rhina preparou o jantar deles. Um simples caldo – como sempre fazia -, porém não ficou com um bom paladar. E obviamente, seu capitão já foi ferindo-a com palavras.

- Isso está horrível! - empurrou o prato para longe. - Que aconteceu, Rhina?

- Desculpa-me... tentei fazer o máximo que pude...

- Se deixasse, você dormiria o tempo todo, não é? Se não lhe acordo, o jantar ficaria para o café da manhã! - disse Kid, se levantando da cadeira.

Wire aproveitou o prato que Kid afastou e guardou ao lado do prato dele. Killer tentou apaziguar a situação.

- Capitão Kid, não se preocupe. Ela teve muitas tarefas hoje e não pode descansar, e a comida não está tão ruim assim. Deixe-a descansar.

- Acho que ela já descansou demais! Temos mais tarefas que ela aqui, e mais árduas, ela só cuida dos serviços domésticos! Está começando a fazer corpo mole! - disse ele para Kid. E voltou para ela. - Lembra-se bem do nosso acordo, não é?

- Sim... mas prometo que essa será a última vez que esqueço o jantar! … eu... realmente estou cansada, apesar do meu trabalho ser mais leve que o de vocês...

- Chega de se desculpar! - Eustass bateu com o punho fechado na mesa. - Você se desculpa mais que trabalha!

Rhina sentiu um pouco do sangue ferver.

- Não é verdade! Já fiz muita coisa aqui como criada! Mesmo fatigada, ainda limpei chão, arrumei os quartos, as camas, lavei as roupas e fiz as refeições! Muita coisa que você mesmo poderia fazer e não faz, já que serviços domésticos são serviços simples...

- Ora, como se atreve a falar comigo assim? Essas tarefas agora são suas! Quando não tinha ninguém aqui para fazer, éramos nós que fazíamos, cansados, feridos, exaustos de nossas tarefas! Parece que a fazendeirinha só sabe colher florezinhas e frutinhas na vida!

Killer se levantou, para caso precisasse interferir. Ele sabia muito bem que, se Kid desse um estalo na cabeça dela, mataria. Ele tinha um pouco de pena dela, mas também não se metia nas ações do capitão, a não ser se fosse algo extremo.

- Esse meu trabalho é o que me dava de comer! Só que nunca tive um patrão que me explorasse do meu suor! Por isso que reclamo! - ela tinha alterado um pouco a voz.

- Fique calma, Rhina! Não enfureça o capitão... - interveio Heat, atrás dela.

- Nunca teve quem te explorasse, não? Realmente... você não sabe ainda o que é a vida. - ironizou o ruivo.

- Posso não saber o que é a vida, mas sei quando a pessoa é abusiva!

Kid avançou nela, sendo detido por Killer.

- Não me diga que está protegendo essa garota?

- Perdão, capitão. Mas é desnecessário brigar com ela desse jeito. Ela ainda é útil... - disse Killer.

- Solta-me! - Kid se libertou. - Escuta aqui, mulher! Vai logo para o seu quarto e pensa bem na sua situação... é a última vez que fala comigo desse jeito e nesse tom! Não a perdoarei na próxima vez! Saia!

Rhina ainda queria responder algumas palavras, mas decidiu ir para o quarto. Já em sua cama, ela chorava em silêncio, emitindo apenas alguns soluços audíveis de vez em quando.

- Idiota! ...Idiota! - ela dizia baixinho.

Kid em seu quarto, terminava de mexer em suas engenhocas antes de vir o sono. Ela não saia da cabeça, o calor daquela discussão com ele também não.

- Atrevida! …Atrevida! - ele dizia baixinho.