Mais um dia havia se passado. Era hora do jantar na casa dos Ackerman. E eu... bem, eu estava no quarto, com fones ligados no aparelho de som de Suzannah, ouvindo música. Essa foi uma das invenções que eu mais gostei.
Derrepente, no andar de baixo, eu senti uma presença. Era a mesma presença que eu já sentira antes, rondando a casa. Não era a mulher que viera na outra noite. Era alguém que morrera há um pouco mais de tempo. Acredite, dá para saber mais ou menos há quanto tempo a pessoa está nessa "vida" de fantasma.
Aquela presença não estava fazendo mal nenhum, então eu a ignorei novamente. Eu cruzei os pés sobre a colcha da cama, preguiçosamente, e me reclinei na cabeceira. Passados alguns minutos, o CD acabou e eu me ergui da cama para trocá-lo.
Abaixei-me próximo ao aparelho e comecei a procurar por um CD que ainda não tinha ouvido. Foi então que a presença que senti antes se materializou ao meu lado. Virei-me rapidamente para ver que era. Era um homem, com pouco mais de trinta anos, vestindo camiseta e uma calça moletom. Ergui meu olhar para o rosto dele.
- Pois não?
Não iria matar ser educado, certo? Ok, esquece o comentário... Mas o homem parecia furioso comigo. Realmente furioso. E eu nem ao menos conseguia imaginar o por quê.
- Não me venha com essas. – ele disse rispidamente. – Você seria o Jesse, certo?
- Sim, senhor. – respondi cautelosamente enquanto me levantava. – E o senhor seria...?
- Peter Simon. Pai da Suzannah.
Droga!
Eu estava muito ferrado, a julgar pela expressão com que ele me fuzilava.
- Prazer, em conhecê-lo Sr. Simon. – Eu estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ao ver que ele não iria se mexer, desisti e abaixei a mão.
Seguiu-se um silêncio constrangedor. Bem, constrangedor para mim. O Sr. Simon apenas me encarava em uma fúria silenciosa. Ele decidiu, por fim, quebrar o silêncio:
- Você realmente achou que eu não descobriria? Não descobriria que havia um homem morando no mesmo quarto de minha filha?
- Olha, eu...
- Não me venha com essas! – ele me interrompeu.- Por que você está ficando aqui, mesmo consciente do fato de haver um moça de 16 anos dormindo nesse quarto? Você acha isso louvável?
- Ahm... eu...
- Ou você achou que eu não iria me incomodar? Que estaria tudo bem para mim?
- De maneira alguma, senhor. – consegui manter a voz mais firme do que eu me sentia e fiquei satisfeito com isso. – Acredite em mim, eu tentei ir embora.
- E por que ainda não foi? – Ele me olhava com despreso.
Respirei profundamente e continuei:
- Primeiro, porque acho que não posso. Eu não consigo ir embora, acredite, nesses 150 anos eu tentei. Depois, creio que apenas quero o mesmo que o senhor, em relação à Suzannah. - talvez um pouco mais, completei mentalmente. –Jamais agiria de forma grosseira ou a tratarei de forma... incorreta. Não a tratarei de forma diferente do que uma dama como ela merece ser tratada. E não ousaria me aproximar dessa forma. Quero que ela fique protegida, segura. Ela parece ter a tendência de se meter em apuros.
Ele parou de me olhar com raiva e passou a olhar com... compreensão, talvez?
- Ela tem, não é? – ele perguntou sorrindo. Ele suspirou, fechou os olhos e balançou a cabeça. Depois olhou novamente para mim. – Você realmente gosta dela, não é?
Senti meu rosto queimando. Não que eu pudesse ruborizar (graças a Deus por isso), mas meu rosto estava pinicando.
- Sim, senhor. – admiti, com certa dificuldade.
- E você sabe que isso pode vir a ser um problema, certo?
- Sim, senhor. – abaixei a cabeça e me ocupei em olhar para o tapete sob meus pés.
- Você realmente acha que poderá resistir a qualquer tentação?
Abri a boca para responder, mas ele me interrompeu.
- Seja honesto, Jesse.
Engoli em seco antes de continuar falando.
- Creio que sim, senhor. Do mesmo modo que creio que ela não me vê dessa forma.
Então, em um sussuro quase inaldível, ele murmurou:
- Deus te ouça.
Depois, mais aldivelmente, completou:
- Você conseguirá ficar longe dela?
Trinquei os dentes e não consegui responder. Lutei para manter a expressão firme.
Ele compreendeu meu silêncio.
- Foi o que eu pensei. – ele soltou um suspiro e voltou a me olhar nos olhos. - Você me parece um cara legal, Jesse. – ele riu e ergueu as mãos, do mesmo modo que Suzannah fazia, às vezes. – Está certo. Vou deixá-los em paz. Porém – e ele me olhou com dureza. – se eu souber de alguma coisa, fique certo que você saberá. Fui claro?
- Sim, senhor. – assenti com a cabeça.
Passou-se um segundo antes de ouvirmos um barulho na escada. Era Suzannah subindo. Olhamos um para o outro e nos desmaterializamos no mesmo instante em que ela abria a porta.
