7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS PRÓLOGO
PRÓLOGO CAPÍTULO 3
ENQUANTO HÁ VIDA, HÁ ESPERANÇA
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MUITO TEMPO DEPOIS
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Gabriel aproximou-se respeitoso do majestoso tronco de carvalho. Abraçou a árvore e chorou, emocionado. Estava em um bosque. Ouvia o canto de pássaros e o zumbido de insetos. VIDA. Para qualquer lado que olhasse havia vida. Era maravilhoso. Um verdadeiro milagre. E pensar que estivera tão próximo de desistir. Foram tantos anos de busca. Tantos anos vendo apenas dor, morte e destruição.
Finalmente seus esforços foram recompensados.
UMA realidade sobrevivera. Uma única, dentre as mais de vinte mil que visitara. E talvez não apenas esta. Talvez existissem outras em que a vida subsistia abençoada pela luz do sol. Longe do terrível cheiro de enxofre. ESPERA. Calma. MUITA CALMA. Uma coisa de cada vez. Ainda era cedo para comemorar. Talvez não tivesse acontecido AINDA.
NÃO. Era verdade. O inimaginável ocorrera. O Apocalipse fora abortado. Os selos foram quebrados e Lucifer fora libertado. Mas, algo aconteceu e ele foi lançado mais uma vez no Inferno. E, com ele, Miguel. Miguel também estava aprisionado.
Gabriel escuta, investiga e descobre. Ao mesmo tempo, inesperado e óbvio. Os receptáculos. Claro, uma façanha desta magnitude exigia a ação de alguém excepcional.
Esse também era o motivo do Apocalipse acontecer justamente agora. Seus Irmãos finalmente tiveram sucesso. E o sucesso os fez acreditar que poderiam vencer. O ápice de um processo de eugenia iniciado há milênios e conduzido pela ordem dos kherubins, cumprindo ordens superiores. A criação de humanos geneticamente aperfeiçoados. Humanos fortalecidos de corpo e espírito para serem capazes conter a essência dos emissários celestes sem que seus corpos se incendiassem ou sofressem degradação celular acelerada.
Naquele momento, existiam cerca de quinze mil receptáculos em todo planeta. E, destes, pelo menos cem capazes de servir de receptáculo para anjos de ordens mais elevadas. Arcanjos como Miguel, Rafael ou ele próprio, Gabriel. Serafins como Zacariah. Ou para o falso arcanjo, o kherubim Lucifer. Nisso, não diferia muito do que vira em milhares de outras realidades quando o Apocalipse fora deflagrado. Via agora que essa era a condição que impelia seus Irmãos a porem o Grande Plano em marcha. A possibilidade do exército celestial caminhar sobre a face da Terra em corpos físicos.
Parecia, no entanto, que o aperfeiçoamento genético trouxera um efeito colateral indesejado para quem imaginava controlar o processo: uma força de vontade férrea. Os irmãos Winchester foram capazes de resistir a todas as pressões e mudar o Grande Plano.
Mas, somente NESTA realidade.
Algo dera errado em todas as outras. Havia mil coisas que podiam dar errado e, de uma maneira ou de outra, foi exatamente isto o que aconteceu. DEU ERRADO.
Mas, sabendo-se o que deu certo, é possível corrigir o que deu errado. Era isso o que faria.
Usaria a seu favor as mesmas leis universais que levaram milhões de realidades à destruição. Não precisava alterar o destino de todas, somente de algumas. As demais as acompanhariam. Só precisava escolher cuidadosamente quais as realidades que deveriam ter suas histórias alteradas.
A primeira condição era que as realidades escolhidas fossem muito diferentes entre si em algum aspecto essencial. E apostava todas as suas fichas que esse aspecto essencial era a história de vida de seu protagonista, Dean Winchester, o humano escolhido para tornar-se o receptáculo de Miguel. Precisava torcer que todas as suas versões tivessem a mesma determinação e espírito de luta. Ou moldá-los para que tivessem.
A segunda condição é que essas realidades fossem representativas da diversidade de formas como todos aqueles mundos encontraram o seu fim. Para que tivessem a capacidade de arrastar os seus similares ao mesmo desfecho.
SETE. Sete é um número cabalístico. Um número de poder. Precisava reverter o destino de SETE realidades. Salvando essas sete, salvaria a todas.
Nada é de graça. Existe sempre um preço a ser pago. Na realidade que sobreviveu, ele, Gabriel, fora morto por Lucifer antes da vitória final. Se estivesse certo, esse fato teria que se incorporar à história destas sete realidades que seriam modificadas. E, consequentemente, à de todas as demais. Se tivesse sucesso, estaria assinando sua própria sentença de morte em todas as realidades.
Um preço pequeno para salvar toda a Criação.
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Sete realidades. Chamaria de realidade zero a realidade que sobreviveu sem sua intervenção. A história de vida do Dean Winchester desta realidade seria o seu roteiro. Melhor, levaria esse Dean Winchester a cada uma das sete realidades que deveriam ter suas histórias mudadas. Para algum momento escolhido do passado destas realidades, quando salvá-las ainda era possível.
Por experiência própria, sabia que Dean Winchester ocuparia o corpo de sua própria versão da realidade em que estivesse. A consciência do corpo ocupado ficaria como que desligada, mas o cérebro registraria os pensamentos do novo ocupante. O registro permaneceria quando o corpo fosse devolvido ao seu legítimo dono. A experiência do Dean da realidade zero seria repassada de forma subconsciente. Ao final do processo, suas versões incorporariam elementos da forma de pensar e reagir que permitiram o Dean da realidade zero sair vitorioso em sua realidade. Isso os ajudaria a vencer suas próprias batalhas.
E também o Dean da realidade zero aprenderia com cada uma de suas versões. Ele não teria acesso às memórias do corpo ocupado. Mas, colocar-se no papel do outro, um outro ao mesmo tempo tão igual e tão diferente de si próprio, ia ensinar-lhe coisas essenciais para seu próprio futuro. Multiplicar por sete a sua experiência de vida. Ele estava destinado a sobreviver ao Inferno e impedir o Apocalipse, mas ainda teria que sobreviver aos anos seguintes. Novas ameaças surgiriam e ele precisava estar pronto para enfrentá-las. A experiência de suas contrapartes poderia ajudá-lo. Dar-lhe forças para sobreviver a seis meses no Inferno e a mantê-lo vivo para cumprir sua missão.
Não podia se iludir achando que seria fácil. Em outra realidade, você nunca é você mesmo. O outro está sempre lá, mesmo que em segundo plano. Em algumas realidades, as memórias do invasor se perdem e a personalidade do dono do corpo emerge a ponto de parecer que este voltou a assumir o controle do corpo. E isso seria verdade tanto para Dean quanto para ele próprio, Gabriel. Sabia como era. Vira acontecer. Variava muito de realidade para realidade. Mesmo onde conservassem a memória, a personalidade do proprietário do corpo sempre estaria presente. Alterando a forma de pensar e de sentir. Influenciando as decisões. Tornando o resultado final mais incerto.
Havia mais uma coisa a ser considerada. Não podia aparecer para Dean como seu amiguinho, ensinando passo a passo como deveria agir. Isso só o enfraqueceria. Dean precisava ser cobrado até seus limites. Além de seus limites. Repetidas vezes. Para fortalecer sua vontade.
Ele, Gabriel, teria que agir como um sargento. Tornar a vida de Dean Winchester cada vez mais difícil. Tornar sua vida um Inferno. Treiná-lo para sobreviver a tudo. Dean precisava odiá-lo. Como um soldado raso odeia o sargento que o oprime, embora o sargento tenha como único objetivo dar-lhe a chance de voltar da guerra vivo e saudável.
Dean precisava do arcanjo Gabriel como seu anjo da guarda. E precisava do Trickster, como seu nêmesis, o seu pior inimigo.
Sete diferentes versões de Dean Winchester. SETE VIDAS. E teria que confrontá-lo em todas elas.
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– Serei ao mesmo tempo o seu MELHOR AMIGO e o seu PIOR INIMIGO, Dean Winchester. Você vai ADORAR me conhecer.
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ESCLARECIMENTO:
Aqui é explicado o porquê do Trickster se mostrar tão diferente em cada realidade. O Trickster esquece a sua verdadeira identidade e seu objetivo em algumas realidades. Exatamente como acontece com o Dean.
26.04.2014
