Coração de Guerreiro

Sharon Schulze

Título original: To Tame a Warrior's Heart

Esta história não me pretence. Apenas a estou postando no universo Inuyaha. Aproveitem!!!

CAPÍTULO DOIS

A mente de Kagome vagava confusa, num abismo escuro e frio onde ecoavam palavras sem sentido. Aos poucos, sua consciência foi voltando e com ela a noção de estar caída na relva molhada.

Risadas e vozes estrondosas soaram nas proximidades, trazendo à tona a lembrança da emboscada. O medo a fez ficar imóvel, rezando para que os atacantes a supusessem como morta.

Com a volta da consciência, uma onda de náusea tomou conta dela, seguida de uma dor aguda nas costas. Apertando os dentes, ela concentrou-se em descobrir o que acontecia a seu redor.

A terra tremeu sob seu rosto, e seus ouvidos captaram o som abafado de cascos de cavalos em retirada. As vozes soaram ainda mais iradas. Kagome arriscou-se a abrir os olhos.

Um pequeno grupo de homens, discutindo e gesticulando, rodeava um cavaleiro, vestindo uma roupa de malha, que se encontrava caído por terra, aparentemente morto. Nesse momento um dos salteadores, dando um passo à frente, obrigou com um gesto os demais a silenciarem.

- Vamos pegar os cavalos que fugiram - falou em tom de comando. - O garanhão, por si só, vale uma fortuna, e os outros também são de alta qualidade. Com o pagamento desse trabalho - sua mão indicou a cena da carnificina - vamos levar uma vida de reis. Milorde disse que podíamos ficar com toda a pilhagem, o que significa que os cavalos nos pertencem.

- Ralph tem razão - concordou outro. - Podemos voltar para recolher o resto do saque mais tarde. Essa gente não vai mesmo a parte alguma. - Rindo, o bandido chutou o corpo a seus pés. - Vamos logo atrás desses cavalos.

Para alívio de Kagome, pouco depois os assaltantes partiam, o ruído dos cascos dos cavalos perdendo-se na distância. Mas ela sabia que precisava sair daquele lugar antes que voltassem, ou em breve estaria morta de verdade.

Ou desejando que a morte viesse salvá-Ia, se aquele canalhas resolvessem estuprá-Ia, acrescentou num segundo pensamento, pouco antes de mergulhar de novo na inconsciência.

Deitado de costas na relva, Inuyasha não se importava com os pingos gelados que caíam sobre ele. Proporcionavam alívio a seu corpo dolorido, além de arrancá-Io da pesada nuvem negra que lhe entorpecia a mente. Gemendo, rolou de lado.

Um bafo morno atingiu-lhe o rosto, fazendo-o abrir os olhos no momento exato em que uma língua áspera e quente lhe lambia a face.

Só podia estar morto, pensou, e no inferno. Porque somente lá poderia encontrar-se de novo cara a cara com o feroz cão de caça de lady Kagome.

Inuyasha não tinha a menor dúvida de que se tratava de Buyo, principalmente vendo-o daquele ângulo. Pelo menos dessa vez as aguçadas presas do animal não estavam ameaçando fincar-se em seu pescoço, com Kagome a observar a cena, divertindo-se à sua custa. Piscando para clarear a visão, ele apoiou a cabeça na mão e encarou a fera. Buyo achava-se esparramado no chão, a boca aberta, as presas brilhando.

Era incrível que ainda conseguisse se mexer. O cabo de uma seta projetava-se das costas do animal, e o sangue escorria de vários ferimentos em seu flanco. Ainda assim, conseguira arrastar-se para perto dele.

Estendendo a mão, acariciou a cabeça de Buyo, surpreendendo-se com a fraqueza que esse simples gesto lhe causou.

- O que está fazendo aqui, amigão? E onde está a sua dona?

Dominando a súbita náusea, e o terrível latejar da cabeça, Inuyasha se sentou. Céus, estaria melhor se tivesse passado a noite inteira bebendo. Mas ficar parado sob aquela garoa gelada em nada o ajudaria, e ainda o colocaria à mercê do próximo salteador de estrada. Amaldiçoando o tempo, o rei e os assaltantes com igual violência, pôs-se de joelhos e, depois de algum esforço, conseguiu ficar de pé.

Se Buyo estava lá, Kagome também devia se achar por perto. E Inuyasha tinha certeza do lugar. Com as pernas bambas, dirigiu-se para junto do combatente que vira tombar no momento em que chegara à clareira. O terreno irregular tornava ainda mais penosa sua caminhada, mas afinal alcançou a figura envolta num manto escuro e encapuzada, ao lado da qual se deixou cair.

Puxando-lhe para trás o capuz, descobriu uma massa de cabelos escuros e sedosos. Com delicadeza, virou a cabeça inerte em sua direção.

Como desconfiava, tratava-se de lady Kagome.

Com o rosto branco feito cera, sem a habitual expressão desafiante, ela parecia morta. Contudo, ainda estava viva, como comprovava o leve sopro que sentiu nos dedos ao tocar os lábios gelados e sem cor. Lábios que sabia serem ardentes e macios. A recordação daquela boca sob a sua, num beijo devastador, tinha lhe ocupado a mente com freqüência nos meses decorridos desde que conhecera Kagome em L'Eau Clair. Afastando a lembrança perturbadora, Inuyasha voltou a atenção para as setas cravadas nas costas dela.

Não se tratavam de setas comuns e sim do tipo arremessado por arcos cruzados, conhecidos como besta muito mais eficientes e mortíferos.

Muitas vezes via soldados fortes morrerem em meio terrível sofrimento, depois de feridos daquela maneira. Era praticamente impossível uma mulher frágil sobreviver a tais ferimentos.

Nesse instante, como a desmenti-lo, a sombra de um gemido escapou dos lábios pálidos de Kagome e ela abriu os olhos. A cor cinza-prata daquele olhar luminoso que Inuyasha não conseguira esquecer tinha no momento o tom escuro e opaco do estanho.

Kagome olhou em torno, confusa, antes de focalizar aquele belo rosto másculo tão próximo do seu. Um Iampejo de reconhecimento animou-lhe as feições até então inexpressivas.

- Inuyasha Taisho! Isso só pode ser um pesadelo! - Resmungou, antes de fechar de novo os olhos.

Levantando-se, Inuyasha afastou da testa os cabelos molhados e estudou o ambiente que o rodeava. O nevoeiro emprestava um aspecto ainda mais sinistro à carnificina. Nada se movia. O silêncio era absoluto, com exceção do barulho dos pingos caindo da folhagem encharcada das árvores. Ainda assim, convinha examinar os corpos caídos em torno, pois apesar do sangue espalhado em toda parte era possível que alguém mais tivesse sobrevivido.

Um gemido de Kagome atraiu-lhe de novo a atenção. Vendo que ela tentava virar-se de lado, ajoelhou-se, segurou-a com firmeza, obrigando-a a permanecer deita da de bruços.

- Cuidado, ou vai piorar seus ferimentos - alertou.

- Isto não é um pesadelo, é a realidade, não é? 

E o olhar de Kagome implorava-lhe que negasse. De repente, tudo voltou à memória dela.

- Fomos atacados por ladrões. Os guardas de minha escolta eram poucos e morreram me defendendo. - O desespero contorcia-lhe as lindas feições. - Foi tudo culpa minha, só minha. – Os olhos dela se encheram de lágrimas. - Os bandidos foram atrás dos nossos cavalos, mas vão voltar. Eu os ouvi conversando. - Com grande esforço, Kagome tentou erguer o corpo, mas Inuyasha a impediu, segurando-lhe os braços com firmeza.

- Você levou três flechadas nas costas. É melhor não tentar se mexer.

- Mas nós precisamos sair daqui. - insistiu ela, tentando se soltar. - Quando voltarem e descobrirem que sobrevivemos vão acabar conosco. Talvez possamos encontrar um cavalo perdido por aí e fugir.

- Você não está em condição de cavalgar.

Ela empurrou-o com um pouco mais de força.

- Não está entendendo, seu normando covarde? Prefiro morrer tentando escapar do que ficar esperando a morte nas mãos daqueles malditos.

Inuyasha apertou mais os braços dela.

- Nunca fui chamado de covarde, milady. Fique calma. Vou arranjar um meio de sairmos daqui.

Sem demonstrar a dor que estava sentindo, o jovem normando tomou Kagome no colo, e carregou-a para baixo da árvore mais próxima. Ela, por sua vez, também não soltou um gemido, embora para isso tivesse que morder com força o lábio inferior.

- Deus do céu, nunca encontrei uma mulher assim - resmungou Inuyasha ao colocá-Ia no chão. Se era um elogio ou uma crítica, nem ele saberia dizer.

- Nesse caso, o azar foi seu, milorde. - Deitada de bruços, Kagome apoiou a cabeça nos braços.

Reprimindo um palavrão, Inuyasha recuou e observou lhe o rosto pálido. A voz aparentava melhor disposição do que a fisionomia, mas não havia indícios de que ela fosse perder de novo a consciência.

- Acha que vai ficar bem? Vou ver se encontro mais algum sobrevivente. Não demoro - acrescentou. Ela acenou em concordância e fechou os olhos.

Com passos bem mais firmes, apesar da dor de cabeça não haver melhorado, Inuyasha atravessou a clareira. O sofrimento físico, porém, não importava no momento. Se não saíssem logo dali, a cabeça latejante seria o menor de seus problemas.

Pouco depois, tinha adquirido a certeza de que somente Kagome, Buyo e ele tinham sobrevivido ao ataque. Embora não gostasse da idéia de deixar os guardas de Kagome no lugar em que haviam tombado para sempre não dispunha do tempo, nem da força, necessários para enterrá-Ios.

Quanto aos bandidos mortos, tinham merecido seu destino.

O cavalo que carregava a bagagem de Kagome deve ter fugido apavorado durante a luta, pois tudo que Inuyasha conseguiu encontrar foram os parcos pertences dos guardas, espalhados pelo terreno ensangüentado. Sua própria bagagem estava perdida, levada pelo garanhão em fuga.

Sentindo-se como um ladrão de túmulos, ele tratou de remover os mantos surrados dos soldados mortos. Depoisde uma busca mais atenta, tudo que conseguiu fora alguns cinturões, uma pederneira e o aço para fazer um fogão e uma caneca amassada.

De repente, um ruído se fez ouvir por trás dos arbustos. Instintivamente, Inuyasha procurou por sua adaga, mas nada encontrou. Os bandidos a haviam levado, junto com sua espada. Antes que tivesse tempo de improvisar uma arma, uma égua de triste aparência surgiu na clareira. Apesar do sangue que lhe manchavam o pelo castanho, o animal não parecia ferido. Um rústico bridão pendia-lhe da cabeça e as rédeas vinham soltas atrás. O lombo ossudo estava coberto por uma velha pele de carneiro, bastante encardida. Devia pertencer aos bandidos. Emitindo sons tranqüilizadores, Inuyasha aproximou-se com cuidado do animal. Arrastando os cascos pela relva escorregadia, a égua veio deter-se diante dele, parecendo hesitar entre aceitar-lhe os agrados ou fugir.

Finalmente, resignado, o animal permitiu que Inuyasha o tocasse. Embora não passasse de um monte de ossos, serviria para carregar Kagome para longe daquela carnificina.

- Venha cá, lindeza - ele murmurou, agarrando as rédeas. Com um suspiro de alívio diante da passividade do animal, pôs-se a lhe afagar o pescoço trêmulo e molhado. Depois de breve hesitação, a égua seguiu-o para junto de Buyo.

Com a chegada de Inuyasha, o cão tentou se levantar, sem sucesso. Pelo visto, Buyo possuía a mesma natureza teimosa da dona. Inuyasha quase desejou que o animal tivesse sucumbido aos ferimentos, porque Kagome jamais concordaria em deixar o fiel companheiro para trás. Com uma praga, segurou o cão, impedindo-o de se debater, e colocou-o atravessado no lombo do cavalo.

O esforço levou a seta que o atingira a enterrar-se mais profundamente no braço, fazendo o sangue jorrar. Prendendo as rédeas no cinturão, Inuyasha pressionou com a mão direita o ferimento por sobre a roupa de malha, a fim de estancar a hemorragia e, caminhando com passos lentos, conduziu a égua para onde deixara Kagome. Esta não se mexeu, nem mesmo quando Inuyasha se deixou cair a seu lado.

Apertando com força os maxilares, ele tentou partir o cabo da flecha, que se projetava de seu braço, fazendo com que a ponta se aprofundasse mais.

A dor aguda fez um gemido involuntário escapar-lhe dos lábios. O som penetrou na letargia que acomete Kagome, forçando-a a abrir os olhos.

- Você ficou louco? - ela gritou, ao ver o que Inuyasha estava fazendo. - Não pode arrancar isso! Só vai pior sua situação!

- Acha que não sei? - Largando a seta, ele se pôs de joelhos e, num gesto exasperado, correu os dedos pelos cabelos de um tom prateado, que a umidade deixara emplastrados no crânio. - Só estou tentando quebrar o cabo, mas não consigo agarrar a maldita coisa com firmeza necessária.

- Levante a minha mão para que eu possa ajudar - disse Kagome, lutando para mudar de posição. Inuyasha sacudiu a cabeça.

- Você não tem força para isso.

- Pare de perder tempo, Taisho e faça o que estou dizendo! Vou firmar seu braço, enquanto você quebra o cabo da flecha. - Vendo que ele não parecia convencido acrescentou: - Vamos, sou mais forte do que pensa.

- Disso não tenho a menor dúvida! Nunca vi uma mulher que fizesse tanta questão de agir como um homem.

- Foi por isso que me beijou daquele jeito na última vez que nos vimos? Bem que ouvi dizer que alguns nobres da corte normanda preferem parceiros de cama do sexo masculino! - Os lábios carnudos de Kagome se ergueram num sorriso de mofa.

- Assim que sairmos daqui, vou lhe mostrar qual é a minha preferência! - Com o rosto vermelho, ele correu um olhar atrevido por todo o corpo dela. - Pelo que posso ver, parece que você dispõe do equipamento necessário!

Os maravilhosos olhos âmbares de Inuyasha tinham escurecido até um profundo tom de dourado, refletindo muito mais do que uma simples explosão de temperamento. Seria dor o que lhe sombreava o olhar? Kagome, porém duvidava que a flechada no braço fosse suficiente para afetar um guerreiro da têmpera de Inuyasha Taisho.

O calor dos dedos dele em torno de seu pulso a fez perceber quanto se achava enregelada. Embora o frio tivesse tomado conta de todo seu corpo, pouco contribuíra para anestesiar-Ihe a dor dos ferimentos. Quando Inuyasha lhe ergueu a mão, uma agonia pura se irradiou das costas dela. Mordendo o lábio inferior para sufocar um gemido, Kagome forçou os dedos a apertarem o braço masculino.

- Se aqueles bandidos não tivessem levado minha adaga, eu poderia abrir o corte e soltar a flecha - ele falou. - E também cortar os cabos das setas nas suas costas. Bem, vou ter que descobrir um jeito - concluiu, franzindo o cenho.

Fascinada pela soberba musculatura do braço de Inuyasha, que podia sentir mesmo através da roupa de malha, Kagome levou algum tempo para se ligar nas palavras dele.

- A faca que uso para comer está presa em meu cinto - informou, caindo em si.

- Este brinquedinho? - Inuyasha caçoou, ao retirar da bainha a pequena adaga de punho lavrado.

- Levante a minha saia - disse ela, sentindo a boca seca devido ao nervosismo.

- Sob outras circunstâncias, milady, eu teria o maior prazer em satisfazê-Ia. - O sorriso que curvou os lábios masculinos era pura provocação. - Mas este não é o momento mais adequado.

- Seu idiota pretensioso! - Se tivesse outra alternativa, Kagome não permitiria nem sequer que ele lhe tocasse a mão. Mas aquela não era uma ocasião normal. Erguendo a cabeça e encarando-o com altivez, continuou: - Faça o que eu disse. Presa em minha coxa há um punhal do qual não vai zombar.

Ele sustentou-lhe o olhar por um instante com um brilho estranho nos magníficos olhos dourados.

- Duvido que haja alguma coisa debaixo de sua saia da qual eu possa zombar - murmurou, com a mão já na barra do vestido. - Qual coxa?

- À direita. - Kagome fixou o olhar na distância, enquanto ele erguia o tecido molhado o suficiente para descobrir a arma, e a maior parte de uma perna escultural. Coberta por um suor gelado, o corpo tenso, o estômago revolto, ela aguardou pelo contato da mão masculina em sua pele.

A suavidade e o calor do toque a surpreenderam, fazendo-a voltar o olhar para Inuyasha. Tudo o que pôde ver foi o topo da cabeça curvada sobre ela.

- O que está olhando? - perguntou, em tom áspero. Retirando o punhal da bainha de couro, Inuyasha apressou-se a endireitar a roupa de Kagome antes de responder:

- Isto sim é uma arma de verdade. - Ele experimentou a lâmina afiada. - Vai servir muito bem para o que tenho em mente.

Pousando a mão de leve na dela, pediu então:

- Agora segure firme o meu braço.

Havia confiança no olhar masculino, confiança e mais alguma coisa que Kagome não se atrevia a descobrir. Obedecendo tratou de segurar o mais firme que pôde o braço musculoso.

Num golpe preciso, Inuyasha cortou o cabo da seta que se projetava do ferimento e jogou-o de lado. Então, sem demonstrar o menor abalo, levantou-se e foi para junto do cavalo.

Só nesse momento Kagome se deu conta de que Buyo estava deitado no lombo do animal. Uma enorme felicidade a dominou ao ver que, embora ferido, o fiel companheiro ainda vivia. Enquanto isso, murmurando palavras tranqüilizadoras para Buyo e a égua, Inuyasha ajustou os arreios e prendeu o cão no lugar com um cinturão de couro.

Durante todo o tempo, o sangue corria-lhe pelo braço.

- Não acha melhor enfaixar esse ferimento? - Kagome perguntou quando ele voltou para junto dela.

- Não, o sangramento está diminuindo. - Dobrando um dos mantos tirados dos soldados, Inuyasha colocou-o entre o rosto dela e o solo. - Além do mais, agora não tenho tempo para isso. É sua vez, milady. - Estendendo a mão, segurou o cabo de uma das setas. - Não me atrevo a colocá-Ia no cavalo sem antes cortar fora essa sua plumagem.

Enfiando o rosto no tecido áspero do manto, Kagome tentou não pensar na dor que iria sentir.

- Tente não gritar - provocou Inuyasha, sabendo que espicaçar-Ihe o amor-próprio era a melhor maneira de ajudá-Ia a ter forças para enfrentar a dor. - Ou prefere ser amordaçada?

Ferida em seu orgulho, Kagome tomou fôlego para responder tudo que ele merecia ouvir, mas perdeu a fala quando uma dor lancinante lhe percorreu as costas.

Fincando os dentes no manto, sufocou um grito. Como Inuyasha conseguira permanecer impassível na mesma situação?

- Só faltam mais dois. - Foi a última coisa que ela ouviu antes de mergulhar de novo numa abençoada escuridão.

- Graças a Deus! - suspirou Inuyasha, cortando com dois golpes secos os cabos que faltavam. Era um milagre aquela teimosa ter desistido da luta.

Com todo o cuidado, colocou-a então de bruços sobre o dorso ossudo da égua, logo atrás de Buyo.

Refletindo melhor, resolveu amarrá-Ia também. Sem dúvida, Kagome iria xingá-Io e amaldiçoá-Io quando recuperasse a consciência e percebesse o ultraje a que ele a submetera. Mas era preferível enfrentar sua raiva do que lhe arriscar a vida.

Rapidamente Inuyasha murmurou uma prece pelas almas dos bravos soldados que tinham dado a vida para salvar a ama, acrescentando outra pelos vivos, por desencargo de consciência.

Depois de examinar mais uma vez a clareira, calculou a direção a seguir. Kagome dissera que os atacantes tinham seguido para o sul e ele pedia a Deus que estivesse certa.

Com a adaga na mão direita, as rédeas na outra, Inuyasha tomou então o rumo norte.