Um Romance Gótico (by Mistress Alice)
3. Despeça-se Com Adeus.
Será que eu poderia dirigir? Queria sair para tomar café-da-manhã. Nem que for no McDonald's.
Mas só desci até a cozinha, puxei uma cadeira e fiquei procurando uma fruta que eu gostasse. Banana estava boa para abrir o meu apetite.
-Bom dia amor! Fui até o seu quarto achando que ia ficar por lá.
-Oi. Não agüentava mais ficar trancado. – Olhei Gregory de relance e continuei a comer.
Notei ele puxar uma cadeira e sentar ao meu lado.
-Como você está se sentindo? – Talvez ele tenha notado o meu tom seco, porque também ficou.
-Estou melhor. – Senti meu namorado chegar mais.
-Porque você não quis que eu ficasse...? Fiquei um pouco triste. – Ele tocou no meu braço, dando um beijo no meu ombro.
-Faraó e Wimber que falaram que eu não queria ninguém lá dentro. E eu não estava dormindo.
-Sabia. Fiodor, você não respondeu minha mensagem, me dispensou ontem, está assim seco comigo... O que está acontecendo? O que eu estou fazendo que esteja deixando você assim? Por favor... Me fala.
Ambos olhamos para os Espectros que entravam. E distraído, mordi o último pedaço da banana.
-Vamos conversar em outro lugar?
-Claro.
Levantamos, pedi para ele esperar enquanto eu jogava a casca fora e lavava as mãos, então fui para junto dele e saímos da cozinha, indo para o corredor. O encostei na parede, e peguei em suas mãos.
-Fala pra mim, estou ficando tenso. – Ele riu... Tenso.
-Estou chateado.
-Comigo?
-Wimber me tratando desse jeito, o Faraó do lado dele...
-Eu também estou do lado dele, então está chateado comigo também?
-Só um pouco... Não ficou comigo ontem. – Desviei o olhar.
-Se... Eu prometer que vou compensar você fica menos desse pouco chateado comigo? – Ele sorriu tão doce que eu poderia esmagá-lo em um abraço, agora.
-Promete mesmo?
-Óbvio que sim.
Sorri e o beijei suavemente, e de forma tão delicada, pois tinha receio de quebrá-lo entre meus dedos.
~/~
Passava para o meu notebook um texto que Radamanthys havia pedido para eu digitar após o treino.
Estava tranqüilo sentado em uma das mesas na biblioteca. Todo aquele silêncio, poucos cochichos aqui e ali, mas ao menos eu não estava trancado em um quarto sem companhia.
-A gente vai sair para jantar hoje, você vem? – A mão do Wimber surgiu ali do lado do meu computador. Ele perguntou baixo, se misturando com os cochichos dali de dentro.
-Não. – Respondi baixo e grosso.
-Gregory também pode e deve ir.
-Ele não vai e nem eu.
Senti certo silêncio entre nós.
-... Eu quero a sua companhia hoje.
-Coisas que a gente acha que nunca ouviria de alguém.
-Não precisa tirar um sarro.
-E você não precisava ter me tratado mal.
-Só assim você me ouviria.
-Ouvi, mas em compensação fiquei tão desapontado quanto você.
-Na realidade só fiquei preocupado.
-Não adianta consertar.
Eu não o olhei, continuei digitando frase em frase.
-Convite está feito. Faraó vai na frente, hoje às oito na garagem.
-Impressionante, depois do que houve, vocês querem eu e o Gordon no mesmo ambiente.
-Não vai, porque quer saber se ele vai ou não? – Wimber tirou a mão da mesa.
-Então ele não vai?
-Acho que não. Mas agora me lembrei, você está bravo comigo e com o Faraó. – O olhei, então o vi se afastar e ir embora.
Aproveitei para tirar o meu celular do bolso, mandando uma mensagem para o meu namorado, acerca do jantar.
Poucos segundos depois recebi a resposta.
"Amor! Não posso sair hoje, tenho que trabalhar. Minos me deu um trabalho de doze páginas para amanhã".
Suspirei frustrado.
Apoiei meus cotovelos na mesa e passei minhas mãos no rosto.
-Que houve com a minha vida?
Acabei encerrando o que fazia no computador, para depois desligá-lo, e sair da biblioteca direto para o meu quarto.
Pelo visto mais um dia frustrante e mais uma noite sozinho.
Depois que entrei no meu quarto, fiquei pensando se eu deveria ir a esse jantar.
Vontade eu tinha até de sobra. Mas e o clima? Se Gordon acabasse indo, ia ser um desastre e mais ódio do Wimber, Faraó e do Gregory quando soubesse.
Não sabia o que fazer agora, e nem acerca desse convite.
E se eu não fosse e eles me odiassem ainda mais por ser um amigo ausente, rancoroso?
Sabe... Acho que irei.
~/~
Olhei no relógio do meu celular, dez para as oito.
Já estava pronto e bonitinho. Só tinha que pegar a minha carteira e descer para a garagem. Achei melhor não avisar que eu ia, queria ser uma surpresa, para ver como me tratavam.
Fechei meu quarto e desci.
"Gregory, estou indo para o jantar, tá?"
"Está bem. Mas se o Gordon for... Por favor, se cuida. Aproveite por mim, já que estou com essa pilha aqui. Te amo".
Acho que era carência, mas eu queria que ele estivesse comigo.
-Então vai, é? – Levei um susto ao escutar Flégias aparecer do meu lado e falar alto.
-Que susto, lobo! Sim, não tinha nada para fazer, então...
-Wimber falou que não ia.
-Mudei de idéia. Sabe se o Gordon vai? – O olhei, e ele me fitou, rindo.
-Ele viajou.
Mantive o olhar nele, surpreso.
-Faraó disse que ele tem um cliente com uma proposta, e Pandora o mandou. – Aliás, que briga safada foi essa?
-Ninguém mexe com o Gregory.
-Soube pelo Faraó que a briga foi por causa dele... – Por um momento, o vi confuso.
-Ambas as coisas. Gordon quer se vingar por eu ter deixado o egípcio, mas também vive ameaçando o Gregory e à mim.
-O Gembu, por quê?
-Gregory sabe usar das palavras e Gordon é meio burro. – O olhei novamente e ergui as sobrancelhas. Foi um gesto tipo "um inteligente com um ignorante". Ele riu, então entendeu.
-Falando nele, ele não vem?
-Trabalho para amanhã. Minos deixou um relatório de muitas páginas.
-Amanhã? Será que é o mesmo do Miles? Doze páginas, algo sobre Física, para quinta que vem.
Agora eu o olhei confuso.
-Não sei o assunto, mas são essas páginas.
-Bom, talvez ele queira se livrar disso logo, Fiodor, embora possa falar para ele que é só para semana que vem.
Fui dispensado pelo namorado?
Soltei um "huuum" duvidoso e quando me dei conta, já tínhamos chegado à garagem.
Cheguei perto do carro do egípcio, inclusive dele e do Wimber, que me olharem surpresos.
-Gordon não vem.
-Eu sei, Wimber me disse, e Flégias também.
-E o Gregory?
-Huuum. Não pôde.
Wimber ergueu a sobrancelha, mas deu de ombros.
-Somos só nós. Então cabe todo mundo em um carro só. – Nisso, Flégias já me puxava para dentro do carro. E Wimber, foi na frente.
Ouvi os três começarem a conversar quando saímos da garagem, mas fiquei intrigado olhando pela janela.
Gregory não mentiria para mim. Será que era só coisa da minha cabeça?
-... Não é, Fiodor?
-Hã? Desculpe, estava distraído.
-Falei para o Faraó que você nos ama, por isso veio.
-Sim, sim, mas é claro. – Respondi sincero, mas distraído.
-No que está pensando tanto? – Flégias acariciou o meu braço.
-Nada, nada. – E sorri.
~/~
-Como foi o jantar com os meninos ontem? - Caminhei com ele pelo corredor, ainda sonolento.
-Foi tudo muito bem, Wimber, Faraó e eu nos entendemos. Flégias foi conosco.
-Ah, é...? – Senti descaso na voz dele.
-Ciúme, Gregory de Gembu?
-N-não. Confio em você. É que Flégias é tão. Atirado. – Ele respondeu pausado e constrangido de eu ter percebido.
Ri um pouco e depois tive uma idéia. Meu namorado tinha as mãos ocupadas com algumas pastas que ele levava para seu mestre, mas deixei de me importar com isso e com a aula que eu também tinha em menos de vinte minutos.
Peguei Gregory pelo braço e o puxei para dentro da sala mais próxima que passamos. Que por talvez um infortúnio, era de Pandora.
-Fiodor, mas quê...? – E assim que entramos, fechei a porta de forma brusca e barulhenta.
-Você vai ver. – O prensei contra a porta, tomando seus lábios entre os meus. Segundos depois notei que ele deixou cair as pastas no chão enquanto nos beijávamos, e me abraçou, forte.
A cada segundo que vinha, intensifiquei o beijo, demonstrando a necessidade da ausência dele naqueles dias que se passaram, e ao mesmo tempo senti uma grande tranqüilidade por ele corresponder da mesma forma, eu sentia isso.
Internamente eu ria, pelas bobagens que pensei na noite anterior dele.
Afastei a boca e ri baixo, ao sentir tudo aquilo cair.
-Me beija, por favor, Fiodor. – Notei que ele deixou escapar junto com um suspiro.
-Só um minuto. – Me agachei, e arrumei as pilhas e papéis, deixando em cima de uma mesinha perto de nós. Aí voltei para ele.
Fitei a expressão dele e sorri de canto. Seu semblante parecia de luxúria.
-... Não sei se devo beijar você.
-Não me esqueci da minha promessa. – Os dedos dele tocaram meu rosto suavemente, e seus lábios tocaram os meus novamente, de forma apaixonada.
Voltei a apertá-lo contra a porta, deixando o beijo rolar e aproveitei para colocar as mãos por dentro da roupa dele. O arranhei, mas sem machucar, e Gregory me puxou ainda mais contra o corpo dele.
Relutante, cessei novamente o beijo e ajoelhei no chão, voltando com o sorriso malicioso.
-Fiodor? – Ele gemeu quando se deu conta do que eu ia fazer. – É a sala da Pandora...
-Então é melhor aproveitarmos esse... Intervalo de tempo. – Mantive o sorriso e abri a calça dele, deixei-a escorregar por suas pernas e em seguida abaixei sua cueca também.
Gregory tentou falar o meu nome, mas apenas gemeu novamente quando iniciei uma carícia no membro dele usando a minha boca.
-Ahh...
~/~
Pelo resto do dia, eu não vi o meu namorado. E já era seis e meia.
Só pensei no que ocorreu na sala da senhorita Pandora, que por sorte não deu as caras até Greg terminar o que eu comecei nele e termos saído de lá, para as nossas aulas.
Terminei o meu banho e decidi fazer uma surpresa para o Gregory.
Iria convidá-lo para jantar, e ele não iria trabalhar. Inclusive tenho que perguntar sobre o trabalho, à tarde não consegui perguntar.
Pus o meu perfume que ele mais gostava e assim que fiquei satisfeito com o que via no espelho, tratei de pegar meus pertences e sair do quarto para enfim, procurá-lo.
Como queria que fosse uma surpresa, ia procurá-lo sem usar recursos. Sem avisar por celular, ou deixar meu cosmo aparente.
Fui até o quarto dele, nada.
Fui até a cozinha e nada.
Procurei por ele no quarto da amiga, e nada.
Foi então que parei no meio do corredor, preocupado. Poderia brincar de "se eu fosse o Gregory, onde me esconderia?". Mas achei isso meio infantil e com a minha preocupação, eu não estava com muita graça.
Tive a sorte de encontrar Laimi no caminho, e segurei seu braço.
-Desculpa, mas viu o Gregory?
-Ah, oi. Sabe, há alguns minutos atrás eu encontrei com ele. Indo lá para aquela direção. – Ele então apontou para o fundo do corredor.
-Fazer o quê? – O olhei, com uma sobrancelha erguida, então ele riu.
-Eu realmente não sei, Fiodor.
-Ah, está bem, obrigado! – Sorri educado e caminhei na direção que ele me apontou.
E nada.
Comecei a achar que Laimi tirou uma com a minha cara. E que o Gregory sumiu.
Por fim, peguei o celular para ligar para o meu namorado invisível quando escutei algumas vozes naquele corredor silencioso.
Dei mais alguns passos, seguindo o som, e entreabri a porta com cuidado.
Senti o meu mundo cair naquele momento.
Não demorei ali, fechei a porta no mesmo silêncio que abri, encostei-me à parede ao lado com a mão cobrindo a boca em choque.
-Era por isso que ele andava me dispensando?
O incidente com o Gordon já tinha dias, mas a dor no meu estômago voltou a aparecer e apertei a mão na minha barriga.
Fechei os olhos, pensando que foi um sonho a imagem que vi.
Ouvi risadas. Ao menos ele se divertia com alguém ao invés de mim.
Acabei saindo dali e voltando ao meu quarto. Desisti de ir convidá-lo, afinal, estava em melhor companhia do que comigo, não é mesmo?
Entrei batendo a porta, com raiva.
Se ele não era feliz comigo, por que não veio terminar? E eu me recusava a dividi-lo com outra pessoa. Tirei a carteira do meu bolso e joguei longe, irado enquanto eu sentia meus olhos ficarem cheios de lágrimas.
Sentei na minha cama e apoiei meus cotovelos nas minhas coxas e então escondi meu rosto entre as mãos.
-O que estava acontecendo na minha vida? – Repeti perdido e louco de ciúme.
~/~
Notas da Autora:
Subtítulo: "Despeça-se Com Um Adeus". Na realidade é um verso de uma música: 505 do Arctic Monkeys. Originalmente "(...) greet me with goodbye", e tive que modificar um pouco para caber como título, mas não alterou o sentido da frase.
Acredito que uma leitora irá lembrar por que eu coloquei essa música...
