Como ele podia? Meu Deus, ele é igual a você, Sherlock. Não se esqueça. Balancei a cabeça concordando, mas antes que eu pudesse por a chave no trinco, Jim me empurrou, me jogando contra a porta, e colocando uma arma na minha cintura:
- Fuck..fuck...fuck... – repeti, com as mãos levantadas. – Como fui confiar em você?
- Eu não falei que podia. Fui de acordo com a minha palavra. – falou, passando a língua na parte interna de minha orelha e sua mão esquerda massageou o meu órgão, colocando a arma dentro do cós de minhas calças, o que me fez tremer. – É bom, não é? – sussurrou no pé do meu ouvido. Abandonando a arma, andou até uma poltrona, sentou-se e cruzou as pernas, dizendo: - Atenda-o, Sherlock. Vocês não podem ficar brigando. – disse simuladamente, sorrindo com o sorriso maníaco e com a mão no queixo. Peguei a arma, e no mesmo momento que a vi, percebi que era de brinquedo:
- Seu filho de uma...
- Sherlock, Sherlock, tudo bem? – gritava Watson, depois que ouviu a porta tremer para frente, e o silencio se instaurar.
Virei-me para abrir a porta, e encontrei um Watson apreensivo:
- Tudo bem com você, Sherlock? Eu ouvi um barulho...- e ouviu uma risadinha que vinha de dentro da casa, virou o rosto para ver sobre os ombros do amigo, e viu Jim.
Fim dos POV's pessoais, quando eles estiverem juntos, não vai ter POV's pessoais, só uma ou duas vezes.
- O que ele está fazendo aqui? – sussurrou sibiladamente John, não entendendo nada. – Você lembra quando ele quase nos matou?
- Ele está de férias...- disse Sherlock, meio atônito.
- De férias? DE FÉRIAS? – disse John sussurrando o mais alto que um sussurro pode chegar.
Sherlock pediu licença a Jim, e fechou a porta, sentando em um degrau, e olhou para John:
- Sente-se. – falou, batendo a mão no chão.
- Não vou sentar. Você tem que se livrar dele, ele não presta. Vai acabar te matando.
Sherlock olhou para o horizonte pobre das ruas da cidade, e ficou esperando John se acalmar.
Pov's John
Como é isso? Eu saiu alguns meses de circulação e ele começa a se entrosar com o Moriarty? Não da para entender, ele gosta de perigo, eu sei. Mas isso é insano, Moriarty é um maluco, e Sherlock é outro (pensando bem) mas não é um maluco que mata as pessoas, é um doido que as ajuda, mesmo que o objetivo, inicialmente, não fosse esse.
Passei direito por meu consultório, amanhã, amanhã terminá-lo-ia os relatórios, preencher fichas, consultar fornecedores. Meu Deus, que vida estou levando? Eu gosto de um pouco de rotina, é verdade, mas nada era tão espetacular quanto a vida que eu tinha, por mais que Holmes fosse insuportavelmente abusador de todas as minhas faculdades, dormia mal, comia mal, pensava confuso; ele era alucinado, a quinze mil léguas à minha frente, não conseguia, sempre, atingir seus complexos pensamentos, entende-los era fácil, depois que ele os deduzia com tanta despreza, mas funcionar como ele, atingindo a verdade em cheio, com apenas um olhar atento e preciso, não, não, isso era a cara de meu amigo, e o tipo de virtude que só a ele cabia, talvez, só mesmo, a nenhum outro no mundo. Talvez a Moriarty, mas Moriarty é um ser desprezível, que não tem nada a perder, nada, eu acho.
Virei uma rua, e entrei numa cafeteria, a qual, curiosamente, era a preferida de meu amigo. Sentei-me numa cadeira bem em frente ao balcão e um garçom, em pouco tempo, veio me atender:
- Senhor, Dr. Watson. – sorriu o garoto, me estendendo a mão que cumprimentei com a maior polidez possível, ainda que muito perturbado com os acontecimentos recentes. – Como vai? Não o vemos há quanto tempo? Uns 4 meses? – acenei com a cabeça que sim, e dei um riso instantâneo, mas pouco natural, no sentido de sentir, claro, porque eu tentava ser legal com as pessoas, mesmo nesses momentos, algo que Holmes se recusava a fazer, dei um sorriso, olhando para o nada, esse sim, realmente verdadeiro, e sentido dessa forma. – O que vai querer? O de sempre?
- Não, eu gostaria de um café puro. – disse eu, sorrindo por costume.
- Ah, ok. – anotou, o garoto. – Engraçado...- disse ele, se afastando. – Esse era o pedido do seu amigo.
Eu o olhei, um pouco desconfortável, até a ponto de sentir minhas bochechas colorarem. Holmes, Holmes, Holmes, Holmes, por que você não some da minha vida? Disse, em pensamento, em tom de brincadeira, esboçando um sorriso curto nos lábios, mas a sensação foi estranha. Eu me senti ainda mais desejoso de que Holmes nunca saísse dela, e melhor, que se infiltrasse nela de uma forma brusca, letal e permanente, permanentemente duradoura. Será que eu falo muito 'meu deus' eu acho que sim, não é? Apesar de que não sou tão religioso, acho que é mais por sermos pessoas mais passiveis de se espantar com o sobrenatural, ou com o que foge ao nosso controle, como os sentimentos, como Holmes não gosta de senti-los, não como a maioria das pessoas insistem em sentir, hoje em dia, claro, quando gostam de se jogar de pontes com cordas amarradas em seus pés, como o sadomasoquismo, como o amor delirante de Tristão e Isolda, como o romantismo dos que esperam que a morte seja a consolidação da felicidade. Como divagar tanto, em tão pouco tempo? É, Holmes nos deixa cheio de perguntas, questionamentos, ele até explora nossa hipocrisia, mesmo que indiretamente, nos mostrando como somos fracos e propícios a morte por simples bobagens. Nossa, Holmes, Holmes, que nome irritante! Totalmente impróprio, ficar pensando, ficar...A onde eu fui me meter?
Aquela pele branca, lisa, tão macia no meu imaginar; aqueles lábios finos, e longos; aquele homem sisudo, com a voz anasalada e forte; braços, pernas, muitos músculos em tamanho perfeito. Fechei os olhos, enquanto imaginava aquele homem, aquele ser que se impregnava nos meus pensamentos, contaminando-os todos; me deixando sem palavras, com a louca vontade de ficar perto dele, bem perto, daquelas mãos fortes, daquele cheiro silvestre, daquele ar de homem decidido, arrogante, e dominador :
- Dr. Watson, seu café. – acordei de meus pensamentos com um pouco de susto, ainda bem que ele se virou rapidamente antes de perceber-me descontrolado, com as mãos tremendo, com o corpo quente, e o busto suado. Comecei a tomar o café, e senti nele, ele novamente; tudo em que eu me aproximava agora tinha a ver com ele; oh, que desperdício de vida ficar desejando um homem como Sherlock Holmes. Percebendo que eu, não senti tanto problema em desejar alguém do mesmo sexo que eu.
