ALGUNS MESES DEPOIS
Os últimos meses havia sido um tanto conturbados e após o enterro de minha mãe, Brian decidiu que a ajuda de um psicólogo me ajudaria. Mas eu teimei que não. Na minha cabeça era desnecessário. Meu padrasto estava com a cabeça a mil como ele mesmo dizia. Passou a tomar conta do negócio da família sozinho e mal tinha tempo para mim. Ele se mantinha forte quando estava ao meu lado mas sabia que quando se encontrava sozinho em seu quarto ele colocava tudo pra fora.
Eu não podia ajudar e choraria junto se tentasse. De um dia para o outro a nossa vida mudou completamente para pior e os dias sem minha mãe estavam apenas no começo. Eu não deixava de pensar se... talvez se eu tivesse controlado a minha pressa de ir embora naquela noite minha mãe estaria aqui. E por que eu tinha sobrevivido e ela não? Me sentia revoltada.
Recusei a proposta de Brian de mudar para a casa dos meus avós em Grand Prairie. Mal os conhecia. E era em Los Angeles que estava minha melhor amiga. Recomeçar a vida em outra cidade não acabaria com a minha dor.
O dia de voltar para a escola havia chegado depois de um tempo em repouso. Se pudesse não voltaria nunca mais para aquele maldito lugar onde a maioria das pessoas eram preconceituosas. Depois de relevar quem eu realmente era, eles tornaram tudo mais difícil para mim. Amigos falsos me viraram às costas e faziam piadas idiotas pensando que estavam arrasando. Estúpidos.
A única pessoa que ficou ao meu lado foi minha amiga Hay. Ela foi a primeira pessoa para quem eu contei que não gostava de garotos. A segunda foi minha mãe, mas ela nunca levou a sério. Ela se foi achando que era só uma fase e isso me fazia chorar.
Vesti uma camisa xadrez por cima de uma camiseta branca e peguei minha mochila. O corte profundo na minha testa estava cicatrizando, não era muito grande e eu disfarçava muito bem com o meu cabelo.
Entrei na cozinha, encontrando Maria terminando de preparar meu café da manhã.
- Bom dia. - Beijei sua bochecha sentando em uma das cadeiras da mesa.
- Bom dia, querida. Como se sente hoje? - Ela perguntou colocando um pouco de suco de laranja no meu copo.
- Bem, sei lá. Brian já foi? - Perguntei antes de tomar um gole do suco.
- Já e deixou um recado. - Maria andou até a geladeira retirando um papel pequeno preso com ímã.
Se você não estiver se sentindo bem pode passar a escola hoje, te amo Sel - Brian
- Maria, será que pode pegar a chave do meu carro enquanto eu termino o café? - Perguntei mordendo um pedaço da torrada.
- Você vai para a escola? - Ela levantou as sobrancelhas. - Se eu te conheço bem, depois desse bilhete ia voltar para a cama agora.
- Wow! - Eu ri baixo. - Eu sou uma ótima aluna, você não sabia?
- Não, não tinha conhecimento desse fato antes. - Brincou. - Ah Selly, eu já estava esquecendo... quero levar flores para sua mãe hoje. Você pode me acompanhar?
- Uh... tudo bem...
Terminei meu café da manhã e me despedi de Maria. Era estranho e triste ir para a escola sem um beijo e um abraço da minha mãe, mas tinha que me acostumar com sua ausência. Entrei no meu carro, checando o corte da minha testa no retrovisor antes de começar a dirigir.
Parei no estacionamento da escola particular e respirei fundo antes de descer do carro. A figura menos sorridente de Hayley veio ao meu encontro me envolvendo em seus braços e despertando uma certa dor em meu corpo com a força do abraço.
- Como você está? - Perguntou se afastando.
- Um pouco melhor que algumas semanas atrás. - Dei de ombros enquanto começávamos a andar em direção à porta do colégio.
- Ainda me sinto uma amiga horrível por não ter ido te visitar no hospital. Eu sinto muito, Sel, mas meus pais não permitiram. - Rolou os olhos.
- Tudo bem. - Falei fraco a abraçando de lado.
- Bom dia, casalzinho. - Ouvi uma voz debochada atrás de mim.
O garoto loiro riu acompanhado dos seus colegas puxa saco.
- Vem, Sel. Vamos pra sala. - Hay falou fuzilando os imbecis com os olhos.
Eu já estava acostumada com as brincadeiras estúpidas do garoto. Por um motivo desconhecido ele me odiava e nunca me deixava em paz. O melhor que eu fazia era ignorá-lo porque sabia que mesmo se eu contasse para a diretora ou aos seus pais sobre isso, nada aconteceria com ele. Seus pais tinham o que pode se chamar de "poder" sobre a escola e não se importavam com os outros. Apenas com o filhinho "perfeito" deles.
Sentei no meu lugar na sala de aula e retirei meu caderno da bolsa. Enquanto a professora falava, falava e falava... eu apenas desenhava.
(...)
Os alunos saíram apressados, empurrando um aos outros quando ouviram o sinal da última aula tocar. Guardei meus livros e meu caderno, notando a Srta. Lopez se aproximar da minha mesa permanecendo em silêncio enquanto eu terminava de fechar o zíper da minha mochila.
- Eu sinto muito pelo o que houve, Selena. Sra. Amanda era uma mulher incrível. Tenho certeza que ela está em um lugar bem melhor agora. - Falou.
- Obrigada… - Engoli em seco.
Foi a única coisa que disse antes de avistar a garota de cabelos castanhos parada na porta à minha espera, acenando para mim. Me despedi logo da professora e saí da sala junto de Hay. Conversamos coisas aleatórias enquanto andávamos para a saída do colégio e combinamos de ir ao cinema no fim de semana. Seria bom tentar me divertir um pouco.
Estranhei a presença da mulher de meia idade que conhecia desde pequena parada no estacionamento ao lado do meu carro. Andei até ela após me despedir de Hay. Maria sorriu ao me ver.
- O que faz aqui? - Perguntei confusa.
- Não terei tempo de ir ao cemitério mais tarde então achei melhor encontrar você aqui depois que comprei as flores. - Ela respondeu mostrando as flores em sua mão.
Eu não queria voltar para aquele lugar tão cedo sabendo que não ia conseguir segurar minhas lágrimas ao olhar para a lápide de minha mãe novamente. Mas não podia negar isso à Maria. Considerava ela uma segunda mãe e era agradecida por ter ela na minha vida. Sempre que precisava de sua ajuda, ela estava lá por mim.
Chegamos no cemitério e eu senti um nó em minha garganta. A vontade de chorar me invadiu e Maria me abraçou, beijando o lado de minha cabeça ao pararmos em frente à lápide. Comecei a chorar e ela se abaixou, pousando as flores ao lado das outras que jaziam ali.
Olhei em minha volta e enxuguei o rosto. A grama verde do enorme lugar parecia não ter fim.
Pisquei os olhos e senti um vento forte em minha pele, balançando meus cabelos. Um pouco perto da onde estávamos, uma moça se levantou da grama passando as mãos pelo cabelo negro. Não cheguei a ver seu rosto certo, mas a reconheceria de qualquer jeito. Ela tinha uma presença marcante.
Caminhei receosa até ela. Seu olhar parecia triste enquanto encarava a lápide em sua frente. Ela não notou minha presença quando parei ao seu lado. Parecia absorta segurando o pingente do colar que usava e seu rosto parecia pálido e molhado por lágrimas. Senti uma vontade estranha de envolver aquela mulher em meus braços e suspirei de leve seguindo o olhar fixo na lápide.
Miley Ray Cyrus, 1984 – 2010
- Dra. Lovato? - Falei com a voz baixa.
- Selena. - Sorriu fraco passando as mãos alvas pelo rosto secando as lágrimas.
- Desculpe interromper, eu só... a vi de longe e não podia deixar de falar com você. - Olhei para o pingente agora livre. Eram apenas duas letras. Olhei para as inicias do nome na lápide.
- Está bem, sem problemas. - Ela cruzou os braços protegidos por um casaco sobre o peito. - Está aqui com quem? - Perguntou.
- Com Maria. - Apontei para a mulher que agora olhava em nossa direção. - Ela trabalha em casa, é como uma segunda mãe pra mim. - Expliquei e ela assentiu.
- Bem… eu preciso ir. - Seus olhos voltaram para a lápide por alguns segundos. - Foi bom te ver novamente, Selena. - Sorriu pra mim.
- Também é bom te ver. - Retribui o sorriso sentindo um frio estranho na barriga. - Dra. Lovato, eu pos..
- Por favor, me chame de Demi. - Ela me interrompeu de forma suave. - Dra. Lovato é apenas no hospital. Fora de lá eu sou apenas a Demi.
- Okay... - Sorri a observando afastar uma mecha do cabelo negro que caiu sobre o olho. - Então Demi, eu posso perguntar algo?
- Claro...
- O que... quem era ela? - Perguntei hesitante olhando para a lápide. - Não precisa responder se achar que estou sendo invasiva.
- Não, está bem... - Ela hesitou suspirando ao segurar novamente o pingente. - Miley era a minha companheira.
- Sinto muito... - Eu disse baixo.
- Estávamos apaixonadas e... - Ela sussurrou com o seu olhar distante, mas pausou pigarreando. - Desculpe, Selena. Eu tenho que ir.
Demi não esperou nenhuma resposta e começou a andar para a saída do cemitério. Vê-la naquele estado me deixou estranhamente muito triste e tudo o que eu queria era abraçá-la forte e reconfortá-la.
Não sabia como era perder uma pessoa que ama do jeito que ela amava aquela mulher afinal eu nunca havia me apaixonado por alguém antes, mas sabia que era tão difícil e doloroso quanto perder a mãe. Esperava que Demi se sentisse melhor. Ela parecia ser uma pessoa tão boa e não merecia aquela dor.
- Vamos pra casa, Sel? - A voz de Maria me despertou.
- Sim, vamos.
